O Diário Póstumo de Afrodite
4 Capítulo 3 - O dia que entramos num acordo
Notas iniciais
Acordei sentindo um vazio.
Olhei pro lado na cama e você não estava. Suspirei cansado pensando que não podia deixar acabar assim, não depois que mergulhei de corpo e alma nesse relacionamento, não naquele momento. Eu não tinha condições de ficar sozinho diante do que acontecia.
Levantei e segui para a cozinha preparar um café pra ver se eu me animava um pouco — mesmo sabendo que era impossível – e fiquei ainda mais angustiado quando enxerguei um cobertor e travesseiro no sofá.
Percebi que já havia saído pro trabalho e doeu saber que não me dera o costumeiro beijo de despedida.
Desisti do café.
Tomei um banho com essências e pétalas de rosas, pois gostava do efeito que elas causavam em mim. Naquele momento, porém, buscava nelas um conforto, um acalanto, um sinal dos deuses ou simplesmente dos meus falecidos pais que pudesse me ajudar.
Foi quando tive uma luz: iria propor algo a ti, algo que fosse proveitoso a nós dois.
...
Horas mais tarde.
Ouvi a porta sendo destrancada e você entrou aparentando cansaço. Andou calmamente, desatando o nó da gravata e desabotoando alguns botões da camisa. Algo que sempre fazia e que sempre achei sexy, mas que naquele momento só me angustiou ainda mais.
Eu tremi levemente. Nunca fui inseguro – você sabe disso -, porém o medo de ser abandonado e trocado por outro alguém estava me dominando.
Olhou em minha direção. A indiferença que tinha visto em seus olhos na noite anterior já não estava mais lá, mas o amor que perdurou por anos eu também não encontrei no teu olhar.
— Sente-se, por favor. – apontei para um amontoado de almofadas postas no chão da sala, próximas à mesinha de centro.
Sobre a mesa havia pratos, velas, taças e uma garrafa de vinho que eu tinha colocado ali para o jantar que tinha preparado. Um jantar romântico para ser mais exato.
Você me olhou atônito, meio desconfiado, mas acatou o que eu disse e se acomodou nas almofadas.
— Olha Dite, você não está entendendo... O que havia entre nós acabou. – ergueu os olhos pra mim e neles pude notar a pena que estava sentindo. Não gosto que sintam pena de mim. — Só estou aguardando você arranjar um local pra ficar e sair de casa, não percebeu isso?
Ignorei o que disse, fingindo não ter entendido o que tinha acabado de falar, e dei seguimento ao que tinha planejado.
— Tenho uma proposta para você, para nós. – suspirei, tentando conseguir forças para continuar com aquilo. —Me dê mais um tempo... Mais um mês no máximo para tentarmos novamente... – você fez um gesto indicando que iria falar, mas eu fiz um sinal com a mão pedindo que esperasse —... e se não der certo, saio de casa sem causar nenhum problema para ti meu amor.
A minha expressão facial deve ter causado mais pena ainda em você – ou talvez, quem sabe, despertado algum sentimento maior dentro de ti -, pois ficou um tempo quieto, parecendo assimilar o que eu tinha dito, e depois resolveu que aceitaria aquela proposta.
Eu fiquei tão feliz, mas tão feliz, que me esqueci de ser sensato, arrastei-me pelo chão até onde você estava e te abracei apertado. Você ficou sem graça, mas retribuiu o gesto.
Servi o jantar – que havia pedido num restaurante que você gostava -, tentei ser simpático (aparentar que estava bem), coloquei uma música lenta pra tocar no aparelho de som, dançamos e, após tudo isso, nós fomos para a cama.
No início você parecia tenso, meio receoso do que poderia acontecer. Eu te seduzi, você não resistiu (novamente), e me possuiu loucamente.
O ranger da madeira, as batidas da cabeceira da cama contra a parede, o cheiro do nosso suor, os toques, os beijos, tudo isso estava me angustiando. Sentia que se não desse certo aquela nova tentativa, em mais ou menos um mês, não teria mais nada daquilo.
Meus olhos se encheram de água, porém eu me segurei para não chorar, para não derramar aquelas lágrimas de sofrimento e humilhação diante de ti mais uma vez.
Abracei-te pelo pescoço, fiz força com o quadril, impulsionei minhas pernas, e logo virava na cama, ficando sobre ti.
Era desse jeito que você gostava. Foi desse jeito que te prendi nos meus braços anos atrás. Você gostava de um sexo romântico, leve, mas também gostava quando era sensual, forte, beirando ao selvagem.
Era desse jeito que eu me sentia superior, que conseguia esconder a fraqueza que me assolava naquele instante. Era desse jeito que iria te enlouquecer de desejo aquela noite.
Posicionei-me sobre teu pênis rijo e em pouco tempo cavalgava sobre teu corpo num sexo avassalador.
Não sei dizer se o meu ou o seu gozo veio primeiro ou depois. A impressão que tive é que chegamos ao ápice juntos, sincronizados.
Caímos exauridos na cama. Deitei sobre o teu peito suado, afastei alguns fios de cabelo que estavam grudados sobre o teu rosto, e beijei tua face e boca.
Você fez um carinho breve nos meus cabelos.
Acho que devido a estar esgotado pelo trabalho e – agora – pelo sexo, você pegou no sono rapidamente. Eu fiquei um tempo te observando dormir, ressonar calmamente, que fiquei me indagando se aquele infortúnio estava mesmo acontecendo ou se era só coisa da minha cabeça debilitada.
Infelizmente não era. E eu sentia – na verdade sabia — que ainda viriam dias piores.
[...]
Saga fechou momentaneamente o diário, depositando-o sobre a mesinha de cabeceira ao lado da cama. Fazia alguns dias que tinha iniciado a leitura daquele diário, mas não conseguia fazê-la sem pausas; elas eram necessárias.
Como não percebeu que poderia perder o amor da sua vida daquele jeito?
Se soubesse que agindo daquela maneira ilógica, insensata, desumana contribuiria — de certa forma – para o fim do seu amor, não teria feito nada daquilo.
Ou talvez se pudesse voltar no tempo e consertar o que havia feito de errado, não se sentiria tão escroto como se sentia naquele momento.
Entretanto, a ciência não tinha evoluído tanto a ponto de construir (com êxito) uma máquina do tempo. Se tivessem construído algo assim, ele – Saga Vaskália – se prontificaria para ser a primeira cobaia a experimentar o equipamento.
Levantou-se da cama e rumou para o banheiro. Molhou o rosto com a água fria da torneira e esfregou-o inúmeras vezes, como se assim pudesse afastar os pensamentos e sentimentos caóticos que estavam perambulando em sua mente e coração.
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