O Diário De Emily
2 Capítulo 2 - Encarando a Situação
Notas iniciais
Havia um barulho insuportável, cortante e agudo que eu não sabia distinguir. Vi-me descendo escadas com uma expressão estranha, algo desconhecido em meu rosto, depois me vi percorrendo um corredor com muitos quadros e o barulho que ouvia ficava cada vez mais alto o que perturbava o eu que eu desconhecia que percorria o imenso corredor, e ao mesmo tempo me perturbava também, o eu que presenciava a cena. O barulho se tornou tão alto que comecei a me sentir tonta e mal conseguia enxergar a outra Alexia vestida com um longo vestido branco que tentava achar o fim do corredor. Sentia que precisava ajudá-la, mas eu não podia fazer nada além de assistir toda aquela agonia.
Então ela chegou ao fim do corredor, mas nele havia um penhasco muito profundo e do outro lado do precipício estava um homem de preto, com a mão estendida, tentando alcançar a mão dela, mas por mais que ambos se esforçassem não conseguiam. Comecei a observar o homem e o reconheci! Ele olhou para mim com os olhos profundamente azuis e então eu descobri...
- Thiago! – gritei acordando do sonho e me sentando na cama aos prantos – Thiago! Esse era o nome do garoto que me perseguiu e falou àquelas coisas que não tinham sentido, mas que agora pareciam ser reais. Fiquei atordoada sem saber o que fazer.
Agora as coisas que ele me disse já não eram mais insanas, parecia que aquele sonho tinha abrido os meus olhos. Parei para refletir o que eu tinha sonhado e qual seria o exato significado dele.
Bom, aquela outra Alexia de vestido com certeza não era eu. Aquele menino era o mesmo que me persegue, Thiago. Só preciso saber por que ela estava fugindo, e por que diabos eu sabia o nome daquele cara e só me lembrei nesse sonho? Por que ele tem que ajudá-la a atravessar o penhasco e o que os impede? Tudo estava muito confuso em minha mente e só uma pessoa podia me explicar o que estava acontecendo: esse Thiago que eu pareço conhecer de algum modo, mas não sei quem exatamente ele é.
Tentei dormir até quando chegasse à hora de ir para a escola, mas era óbvio que eu não conseguiria, então fui pesquisar algo sobre sonhos na internet, mas não achei nada parecido com a situação, nada além do que eu já sabia. Tentei ler, ouvir música, mas nada me acalmava! Precisava vê-lo o mais rápido possível!
As horas permaneciam insuportavelmente lentas e o sol começou a nascer e eu só pensava em poder ir para a escola. Quando o relógio marcou seis e meia saltei da cama e fui me arrumar, coloquei uma calça jeans preta, meu All Star e uma camiseta azul que eu adorava. Mal penteei meus cabelos e coloquei minha mochila e sai do quarto. Passei pela cozinha e não vi a minha mãe, eu estava adiantada e provavelmente ela ainda estaria em seu quarto se arrumando.
Quando cheguei à frente da escola não entrei, resolvi esperar para ver se encontrava
Thiago, já que tinham poucos alunos no pátio, ainda era muito cedo. Quando eram sete e meia avistei as minhas amigas vindo ao longe, droga, se elas me vissem não iam sair de perto de mim, então dei a volta na quadra, bem rápido, e fiquei esperando na outra esquina. Quando faltavam cinco minutos para bater resolvi entrar na escola já que pelas redondezas não havia nenhum sinal dele. Fui direto para a sala, que já estava aberta e sentei no lugar de ontem, esperando ansiosamente que ele chegasse, mas bateu e nenhum sinal dele. Será que talvez ele tenha se decepcionado e ido embora? Ou será que se convenceu de que talvez eu não fosse a pessoa certa?
No intervalo eu me sentei na cantina e fiquei pensando e refletindo sobre o que fazer caso ele tenha ido embora. Por mais que isso não interferisse em minha vida (eu acredito pelo menos por enquanto) eu sentia que precisava saber, eu não ia sonhar isso se não fosse verdade. Do nada senti uma mão no meu ombro e uma esperança se acendeu em minha mente
-Thiago? – falei virando-me para trás. Mas não era ele.
- Quem é Thiago Alê? – perguntou Camila com um olhar malicioso.
- Ah... Ninguém, é que eu estou quase dormindo aqui e comecei a delirar – menti, eu podia estar com tudo, menos com sono.
- A ta, sei... Tudo bem Alê, quando ficar mais sério você conta pra gente. – falou Camila sentando com a Andressa na minha mesa.
- Amei seu cabelo, ficou lindo! – falaram as duas mexendo nos meus fios.
- Alexia, a gente não te viu hoje na entrada, chegou atrasada? – perguntou Andressa comendo Doritos.
- Obrigada pelo elogio, mas não cheguei atrasada, eu só fiquei na biblioteca um pouco e quando sai de lá fui para a minha sala. – falei com tédio
- Hoje eu fui passar na casa da Camila e nada de ela descer, fiquei plantada na sala esperando, deu até sono... – as palavras de Andressa foram ficando obscuras demais para eu ouvir, minha mente estava longe e eu só olhava para o portão. Talvez eu estivesse preocupada demais com isso, mas algo dentro de mim me fazia continuar a me torturar.
- Alexia? Ta ouvindo? – perguntou Camila, despertando-me do transe que eu me encontrava.
-Oi, que foi? – perguntei, despreocupada
- A gente ta falando e você fica aí boiando! – falaram as minhas duas amigas rindo da minha cara. Finalmente o sinal bateu e eu levantei do banco saindo na frente das meninas e ignorando os “espera aí” que elas soltavam histéricas.
- Desculpa, mas eu preciso ir, até amanhã – falei, grossamente, espero que elas não tenham ficado chateadas, mas eu não estava com paciência, aliás, eu só tinha paciência para esperar, esperar e esperar.
Os dois últimos períodos estavam cansativos demais. A professora de história começou a dar o seu famoso “sermão de boas-vindas”. Lá fora o tempo estava quente, mas um fino vento começou a se lançar na copa das árvores, deixando o clima mais agradável.
Depois da leitura do livro, a professora deixou-nos sair 10 minutos mais cedo. Peguei minhas coisas sem pressa alguma, já que em casa minha agonia ia ficar mais intensa. Mas minha lentidão acabou no instante em que cruzei o pátio e avistei Thiago encostado na grade do lado de fora da escola.
Comecei a andar o mais rápido que pude. Quando olhei em seus olhos percebi a mesma ansiedade que eu sentia. Um só olhar foi o bastante para ele entender o que eu queria.
- Não sei o que dizer. Sonhei com você, como se eu te conhecesse, e acordei gritando o seu nome, Thiago. – falei ofegante
- Sim, é Thiago, tava mais do que na hora de você se lembrar. – falou ele, cético.
- Eu tenho tanto pra falar, e mais ainda pra perguntar, não sei por onde começar. Estou tão confusa. – falei, fracassando na minha linha de raciocínio.
- Eu vou falar tudo que você precisa saber depois a gente vê o que vai fazer, certo?- falou ele olhando diretamente nos meus olhos, o que me deixou mais tranquila, embora eu tivesse o pressentimento de que nunca mais ficaria tranquila por completo depois da conversa que teríamos.
Fomos até a mata onde eu o deixei. Sentamos em cima de um tronco caído. Ele respirou fundo.
- Tudo começou no fim de 2010. Uma noite qualquer eu estava dormindo e tive meu primeiro sonho com você, onde você chamava meu nome. Sonhei esse sonho por uma semana inteira e depois eles foram evoluindo. Você vinha e me pedia ajuda, mas eu me negava a acreditar que fosse algo real. Depois você começou a mostrar o meu futuro, para que eu acreditasse que não era fantasia, e funcionou, tudo que você me mostrou aconteceu. Quando, então, você me convenceu a lhe ajudar e começou a fazer aparições no meu quarto, me convenceu a ir até você, me mudar para a sua cidade. Eu vim, como você queria, mas quando fiz o meu primeiro contato, você começou a dizer que não sabia nada sobre o que eu estava falando, fugiu de mim! – exclamou ele, baixando a cabeça. Era muita informação de uma vez só, eu nem sabia interpretar tudo isso.
- Você esta me dizendo que foi como em meu sonho. Meu outro eu foi quem precisava da sua ajuda, mas eu não sei como eu, a Alexia real, pode te ajudar. Nunca tive contato com esse outro eu até você aparecer. Realmente, não sei o que fazer. – falei, sem ação.
- Ontem eu sonhei, mas foi diferente. Sonhei com duas de você, a que fala comigo nos sonhos e a “real” que é você. Primeiro eu vi a Alexia de vestido, a mesma que aparece em meus sonhos, a mesma que estava no seu sonho. Depois, você surgiu saindo dentro dela, exatamente como está agora, com esse cabelo cortado e com essas roupas e em suas mãos, que estavam unidas e abertas na altura do seu abdômen, tinha uma luz muito forte, mas você parecia desorientada, não sabia o que fazer com ela. – falou ele pensativo. Suas palavras me deixaram tão intrigada quanto ele, ficamos alguns minutos em silêncio e quando nos olhamos novamente, entendi o que o meu sonho e o dele queria dizer.
- Thiago, eu já sei. – falei, em tom de contentamento.
- Eu também já sei, sei que você é diferente dela, mas ela me mandou aqui porque você pode nos ajudar, mas o meu sonho me mostrou que você não sabe como, você pode, mas não sabe como agir. E agora que você finalmente entendeu é nosso dever descobrir o que você tem que fazer. – falou ele, tocando de leve em meu braço, o que me deixou mais irritada do que eu já estava.
- Como assim “é nosso dever”? Se você acha que eu vou me meter nessa está muito enganado garoto! – falei, ficando de pé e me livrando de seu toque.
- Você não está entendendo de novo! A questão não é você não querer. Você precisa fazer isso, é o seu destino! – falou ele ficando de pé bem a minha frente, com um olhar de impaciência. Quem ele pensava que era? Eu não tenho que ajudar ninguém, nem sei por que eu estou nessa!
- Para de ignorar os fatos sua burra! É óbvio que isso envolve você, pode até botar a sua vida em risco, ou até a vida de quem você ama como fez comigo quando eu não quis acreditar!- continuou ele, agora me ofendendo! Não, eu não estava ali para ser humilhada por causa de um sonho idiota!
- Olhe só, eu cuido da minha vida e você cuida da sua ta bem?! – falei, virando as costas e seguindo rumo para fora da mata enquanto ele me seguia
- Você vai se arrepender! É melhor aceitar agora antes que o pior aconteça! – gritou ele parando no meio do caminho, por mim podia ficar parado mesmo, porque eu não ia dar ouvido para sua insanidade. “Vai se ferrar” eu pensei. Burro é ele!
Fui para casa e já era uma e quinze da tarde, eu estava irritada e com fome, pois nem tinha almoçado e então fiz um hambúrguer para mim, com bastante queijo, um bife, ovo e salada. Fui para a sala totalmente influenciada pela vontade de gritar. Eu não pedi para que nada disso acontecesse e não ia mudar o curso de minha vida por causa de um sonho estranho e, a pedido de um cara estranho e estúpido. Isso tudo parecia tão ridículo que dava vontade de rir, gargalhar. Depois de comer, começou a bater um sono repentino e muito forte, só podia ser por causa daquele maldito sonho que me deixou acordada desde as três da manhã.
Fui para o quarto e me surpreendi: como ter sono podia me deixar tonta como se eu fosse desabar a qualquer segundo, essa necessidade fisiológica nunca pareceu tão forte como agora. No instante em que deitei na cama, adormeci.
Levantei-me da cama vagarosamente, estranho, parecia que eu nem havia dormido. Fui para a sala para ver se minha mãe já havia chegado e como ela não estava lá, deduzi que estivesse em seu quarto e fui para lá.
- Aaaaaaaaaaaaaaaaah! – gritei quando olhei a sua cama cheia de sangue e seu corpo aterrorizadamente branco estendido nela como uma roupa suja. Fiquei em pânico e um nó se formou em minha garganta sem que eu pudesse evitar os soluços de um choro desesperado. O terror era tanto que eu não consegui tocar em seu corpo desfigurado.
Saí do quarto a procura de um telefone, quando o achei notei que as minhas mãos estavam sujas de sangue. Corri para o banheiro, aterrorizada e gritando sem parar, foi quando vi no espelho algo escrito, que eu não pude ler de imediato por causa das vistas completamente embaçadas pelas lágrimas que jorravam involuntariamente. Nele estava escrito “é seu dever”. Quando li aquilo, fiquei mais perturbada do que já estava! Comecei a correr sem destino pela casa até chegar ao meu quarto, onde desabei no chão e comecei a ouvir sussurros que repetiam a frase escrita no espelho: “é seu dever, é seu dever, é seu dever”!
- Nãããããããããããããããoooo! – gritei ao acordar do pesadelo, pingando de suor. Levantei da cama e minha mãe entrou no quarto me deixando aliviada por vê-la viva. Seu olhar era de preocupação.
- O que houve meu amor? Por que está gritando filha?- perguntou ela segurando em meu rosto.
- Mãe, mãe! Você está bem? Diga que está bem! –falei me acalmando aos poucos.
- Estou sim, claro que estou querida. Está tudo bem agora, você deve ter tido só um pesadelo, agora passou. Eu estou aqui com você e não vou deixá-la. – falou a minha mãe me abraçando enquanto sentávamos na cama.
- Mãe... — gemi em meio às lágrimas que escorriam em minha face. Thiago tinha razão. O pior podia acontecer se eu não ajudasse. Agora tudo estava claro de novo, tudo que ele falou estava claro e era tão óbvio. Burra sim, como eu pude ignorar? Não foi só um pesadelo, foi um aviso!
Eu precisava agir rápido, antes que fosse tarde demais, que acontecesse algo com a minha mãe ou com mais alguém que eu amo. Bem que ele havia falado, agora as suas palavras ecoaram em minha cabeça. Thiago estava certo o tempo todo.
Mas talvez, se ele explicasse as coisas direito, talvez nada disso tivesse acontecido, ou talvez eu seja orgulhosa demais para admitir minha negligência.
Entrei no banheiro, tentando não olhar para o espelho, mas acabei olhando e nele nada havia além do meu reflexo pálido. Tomei um banho demorado para relaxar e me preparar para ir à aula, ter que olhar nos olhos de Thiago e pedir desculpas por não ter acreditado nele e, finalmente, respirar fundo para mergulhar de cabeça nessa história louca e bizarra que eu nem sabia do que se tratava.
Fui deitar de cabelo molhado mesmo, não estava com cabeça para secá-lo. Agora eu estava com medo de dormir e de ter outro pesadelo tão real (e assustador) quanto o de hoje. Comecei a ficar inquieta, a escutar as músicas mais calmas que eu tinha. Dormi ouvindo Nothing Else Matt, do Metallica.
Fui acordada pela minha mãe. Fiquei aliviada por não ter sonhado nada, nem mesmo um sonho bom.
- Bom dia Alexia – falou minha mãe, tocando em meus cabelos – Por que cortou seus cabelos? Estavam tão compridos. – retomou com expressão de decepção. – Não quero que você fique fazendo essas loucuras sem me consultar, só não vou discuti com você porque tenho um longo e cansativo dia pela frente, e mau-humor não combina com dias assim.
- Estavam compridos demais, quebradiços. – falei, levantando-me e olhando para o relógio no criado mudo, não estava atrasada nem adiantada. Minha mãe puxou as cortinas da janela e a escancarou, fazendo o sol, que já estava forte, me cegar com seus raios da manhã. Fui ao banheiro, lavar meu rosto que estava com aparência de doença.
Vesti-me com uma bermuda larga no estilo “boyfriend” azul clara e coloquei uma camiseta qualquer, cor de rosa acompanhada de um colete preto. Calcei meu All Star e fui para a cozinha tomar um copo de leite, por fim fui ao banheiro escovar os dentes. Agora teria que encontrá-lo, torci a noite toda para que ele viesse à aula hoje.
Encontrei Andressa no caminho da escola, estranhamente sozinha, sem Camila.
- Camila resolveu ficar em casa hoje? – perguntei, recolocando minha mochila pesada nas costas.
- Ela não está muito bem hoje – falou Andressa olhando para baixo, enquanto um baque se dava em minha cabeça. Será que ela está mal por minha culpa? Será que o pior aconteceu como Thiago havia avisado? Inúmeras coisas começaram a se passar em minha cabeça e uma ponta de remorso começou a queimar em mim.
- Mas, mas ela esta bem?! Ela esta no hospital? Está mal? – perguntei a histeria daquela idéia me assombrando.
-Calma Alexia, não foi nada de mais. Ela está enjoada, deve ser alguma coisa que ela comeu ontem, só isso. – falou Andressa, me olhando com espanto. – Amanhã ela aparece aí, toda feliz como sempre. – falou ela, parecendo calma demais. Ela nem imaginava o que poderia estar acontecendo. Concentrei-me nas palavras dela para poder ficar menos nervosa.
Chegamos à escola e faltavam 5 minutos para bater. A angústia que eu estava sentindo multiplicava a espera, como se fossem horas. Meus olhos correram por todo o pátio, mas Thiago não estava em lugar algum, o que só piorava a minha situação.
- Alexia, o que está havendo? Você esta inquieta desde ontem! – falou Andressa, olhando em meus olhos, bem a minha frente. As palavras dela ecoaram, como se eu estivesse anestesiada. Demorei um pouco para raciocinar.
- Nada Andressa, eu só estou um pouco cansada, é que ando dormindo muito tarde ultimamente. – menti, com repulsa. Queria contar, mas meu medo de envolver mais pessoas nessa história me impedia. Minha amiga me olhou com aquele mesmo olhar da terceira série, quando eu mentia que os chicletes tinham acabado, eu sabia que não a convenci, mas ela esperaria a hora certa, quando eu estivesse pronta para lhe contar. O sinal bateu e eu me despedi de Andressa. Fui para a sala sem coragem de olhar para o outro lado. Quando sentei, foi inevitável não notar a sua presença. Olhei para ele com aquele olhar de preocupação e ele retornou com um olhar de quem já esperava. O professor de literatura entrou na sala sem que eu notasse e ficou parado na frente do quadro, aguardando silencio.
- Eu sei que muitos de vocês estão ainda estão no ritmo de férias, mais a realidade é aqui. Dividam-se em duplas para responder as questões do quadro. – Ordenou ele, virando-se para passar as perguntas de seu caderno no quadro.
Thiago aproximou-se com a cadeira e um caderno para sentar-se ao meu lado.
- Conseguiu “quebrar” a cara ontem? – falou ele, tirando a tampa da caneta e arrumando suas coisas em minha classe.
- Não, mas foi quase, tive um pesadelo horrível. – falei, procurando seus olhos.
- Ó, não me diga, pelo menos você teve um aviso prévio. Gentileza feminina insana. – falou ele, ironicamente irritante. Como ele podia tratar um assunto tão sério com esse tom?
- Você não pode falar assim, não sabe o quanto foi horrível, o quanto me preocupou, o quanto me perturbou. – falei, tentando manter a calma.
- Ai, eu imagino mesmo, o quanto foi difícil sonhar que o coelhinho de estimação estava se afogando na piscina! – falou ele, rindo amargamente, debochando do meu sofrimento. Idiota, estúpido! Ele nem sabe o que aconteceu e se acha no direito de falar, de rir!
- O que você está achando, seu idiota, ignorante! – gritei chamando atenção da turma, que permanecia silenciosa enquanto discutíamos. O professor levantou da cadeira, franzindo a testa.
- Posso saber o que está acontecendo? – perguntou ele, sondando-nos. Fiquei mais irritada ainda, mas apenas olhei para o professor com respeito e fingi estar copiando do quadro.
- Você é totalmente mimada não é garota? Orgulhosa ainda por cima. — falou o Thiago, balançando a cabeça e me deixando vermelha de ódio.
- Será que você pode calar a boca! Você não tem noção do que aconteceu e nem sabe nada da minha vida!- gritei agora não me importando com o escândalo.
- Ao contrario do que você pensa, eu tenho muita noção do que está acontecendo! Você é que não sabe de nada, não sabe o que você me fez passar, você destruiu a minha vida garota! – gritou ele, levantando da classe, muito irritado. O professor levantou de imediato e nos conduziu para fora da sala.
- Só voltem a esta sala quando tiverem a capacidade de se relacionar como pessoas humanas, não como animais! – gritou ele, fechando a porta.
Thiago saiu na frente, exibindo no andar sua fúria. Eu destruí a sua vida? Ao contrário do que ele pensa, eu não sou a louca de branco que assombra os seus sonhos!
- Ei, espera! – gritei, correndo para alcançá-lo. – Para de agir como se você fosse à vítima! Antes de você vim para esse lugar eu tinha paz! Agora, em dois dias você transformou a minha vida num inferno!- gritei, parando no meio do caminho, engolindo o nó que se formava em minha garganta. Ele parou de caminhar e permaneceu de costas pra mim, depois se virou brutamente gritando:
- Inferno?! Inferno foi o que esses malditos pesadelos fizeram comigo! Não tenho mais a minha mãe e o meu pai está impossibilitado, em uma cama, sem se mover, com metade do cérebro paralisado! Você não imagina o quanto doeu para eu ter que deixá-lo depois de tudo que ele sofreu por causa desses malditos sonhos! Pra quê?! Pra vim pra essa merda de cidade, atrás de uma garota que só porque teve um pesadelo acha que tem razão em desistir! – gritou ele com os olhos cheios d’água e a face agora vermelha. Logo após falar isso, ele saiu em direção ao pátio.
Novamente, um baque invadiu meu peito e um sentimento estranho isolou meu coração.
Então o pior podia sim acontecer, e aconteceu com a família de Thiago. Eu jamais podia imaginar que podia ser tão grave. Agora eu me senti mimada por ter achado que o mundo tinha acabado por causa de um pesadelo. Agora eu me sentia mal por todas as coisas que eu falei pra ele. Agora eu tomava consciência de que não era adulta o bastante para lidar com tudo aquilo, mas independente disso, teria que ser.
Pensei em ir atrás dele, pedir desculpas por tudo o que eu falei, mas entendi que ele precisava ficar sozinho.
Fiquei os dois primeiros períodos no pátio, depois assinei ocorrência e voltei no terceiro. Thiago voltou minutos depois. Era muito constrangedor ver a turma toda nos olhando e cochichando as minhas custas. Quando finalmente bateu o sinal para o intervalo e eu estava saindo da sala minhas adoráveis colegas, Bruna e Caroline passaram por mim com aquele ar de “sou foda”.
- Acabou com a vida do gostosinho sinistro então né... Depois ensina o segredinho... — falaram em meio a risadinhas debochativas. Pela primeira vez não senti raiva delas, pelo contrário, tive inveja, quem dera eu poder rir de uma situação como essa igual a elas.
Quando finalmente consegui sair da sala vi Thiago avançando pelo corredor bem a minha frente. Ele olhou para trás e quando cheguei ao seu lado ele passou a mão pelo meu ombro e disse em meu ouvido:
- Você não pode ser egoísta agora, nenhum de nós pode dar ao luxo de sofrer... Vou te esperar na saída. – falou e saiu mais rápido que o vento, sem me dar chance de revogar.
Andressa, vindo de encontro a mim com os olhos arregalados falou:
- Quem é o grandão?
- Ah... Um colega que pediu uma informação – inventei, tentando disfarçar a cara.
- Sussurro no ouvidinho, braço ao redor dos ombros. Conheço que tipo de informação ele queria – falou com aquele jeito malicioso que eu odiava.
- Ai Andressa, por favor! Dá pra parar de ser infantil! – falei, me excedendo um pouco. Eu não estava com cabeça pra brincadeira.
- Nossa não precisa ficar tão brava, só fiz uma brincadeira. – falou ela, com estranheza.
O clima tenso permaneceu no intervalo inteiro e Andressa sempre desconfiada, nunca consegui esconder nada por muito tempo dela. Durante os dois últimos períodos não troquei uma sequer palavra com Thiago e nem com ninguém. Quando finalmente bateu, eu saí o mais rápido que pude, com medo de que Andressa me visse, quando cheguei ao portão avistei Thiago me esperando na esquina.
- Para onde vamos?- perguntei, enquanto amarrava meus tênis.
- Vamos para a minha casa, lá podemos ficar mais a vontade. – falou ele, o vento fazendo seus cabelos negros e lisos balançarem. – pode ser? – perguntou ele com o mesmo sorriso maroto que dera quando me salvou de um atropelamento.
- Sim, beleza. – falei evitando olhar em seus olhos.
Fomos caminhando uns quinze minutos até a casa que ele havia alugado.
- Olhe, eu queria pedir desculpas por ter te falado aquelas coisas na sala, eu realmente estava me comportando como uma criança mimada. – falei, baixando a cabeça e engolindo o orgulho que corria em minhas veias.
- Não, tudo bem, quem errou fui eu te chamando de burra, de fraca e ignorando o fato de que eu agi exatamente como você, fugindo da situação quando isso começou. É natural que você tenha ficado assustada, mas beleza, porque agora teremos mais com o que nos preocupar, — falou ele, usando um meio sorriso para esconder a preocupação revelada pelos seus olhos. Paramos em uma rua sem saída e chegamos a sua casa, que era pequena, mas suficiente para um morador.
- Só não repara a bagunça, eu sou meio preguiçoso. — falou ele, com a mão atrás da cabeça, olhando para a montanha de roupa suja no cesto.
- Que nada, preguiça é o meu nome. – falei para descontrair. Ele, agora, procurava comida no armário, algo para cozinhar.
- Você deve estar com fome né? – perguntou ele abrindo a geladeira.
- Não, nem se preocupa com isso, imagina. – falei, sentando no sofá.
- Ah, ta sim que eu sei. – falou ele, pegando seu celular. – Vou pedir cachorro quente pra gente, pode ser?
- Ah, ta então, já que você insiste... — falei observando a caveira com um capuz preto e uma foice tatuada em seu braço direito. – É a morte? – falei sinalizando para o seu braço.
- É, acho que é. – falou ele olhando para a tatoo. – Vem aqui, quero te mostrar uma coisa. – falou ele, pegando em minha mão, passamos pelo pequeno corredor e entramos na porta do lado esquerdo da parede, que era a de seu quarto. Ele ligou a luz e abriu as janelas, em seguida abriu a gavetinha do criado mudo, ao lado de sua cama, e pegou de lá um objeto enrolado em uma fita azul. Sentou ao meu lado, na beirada da cama.
- Depois de um dos sonhos, um pouco antes de eu vir para cá, essa chave apareceu debaixo do meu travesseiro. – falou ele, desenrolando a fita da chave que era pequena e dourada, em forma de espiral, com pedrinhas verdes e vermelhas na ponta. – Te parece familiar?
- Não, nunca vi nenhuma parecida. – falei, tocando na chavezinha.
- Ela me disse que você saberia o que fazer com ela. – falou ele, enrolando novamente a chave e colocando-a em minhas mãos. – Talvez você encontre uma caixa trancada na sua casa, ou algo para utilizar essa chave. Ele ficou me mostrando alguns de seus livros, sua coleção de Agatha Christie, seus discos e bandas preferidas. Nosso gosto era realmente parecido, eu gostava de tudo que ele gostava.
Uma buzina rompeu o silencio do quarto.
- Deve ser nossos cachorros-quentes – falou ele levantando da cama. Fomos para a sala e enquanto Thiago acertava com o motoboy eu observava a chave em minhas mãos tentando me lembrar de alguma das minhas coisas que precisasse de uma chave como aquela.
- Vamos almoçar? – falou Thiago sentando no sofá ao meu lado. – O seu, esta ali em cima da mesa. – falou enquanto mordia o cachorro.
Depois de almoçarmos, começamos a combinar o que fazer.
- Recapitulando: nós temos que descobrir quem é essa outra Alexia, que não é eu e tentar saber o que é quê nós temos que fazer para ajudá-la. É isso? – falei, suspirando.
- Exatamente isso. Mas para saber quem é a Alexia dos meus sonhos devemos investigar o passado, eu acho. Eu acredito que ela seja uma espécie de antepassado de você. Sua mãe deve saber. – falou ele se acomodando no sofá. A idéia de meter a minha mãe nessa história foi longe demais.
- Não, de jeito nenhum. A minha mãe não vai fazer parte disso, não pode. – falei franzindo a testa.
- Alexia, não começa com birra! É o único jeito, perguntar sobre a história da sua família. – falou ele meio irritado. A idéia de investigar a minha família revirou o meu estômago, mas de nada adiantava eu dizer que não, porque levaria outro susto que iria me fazer concordar com tudo mesmo.
- Ah... Se for o único jeito, o que posso fazer né. Mas se alguma coisa acontecer com a minha mãe...
- Se você não for teimosa e fizer tudo direitinho nada vai acontecer. O mal só aconteceu pra mim porque eu insistia em não acreditar nos sonhos. – falou ele, parecendo lembrar-se de algo, revelando sua angústia pelo olhar amargo.
- Sua mãe faleceu por causa dos sonhos? – perguntei tentando ser cordial. Ele olhou para baixo por algum tempo.
- Eu não quero falar sobre isso agora, se você não se incomoda. – falou ele sem se mover, apenas olhando para baixo, com os braços dobrados e apoiados nas pernas.
- Não, tudo bem, às vezes eu sou um pouco curiosa. Foi mal. – falei, observando sua reação. Ele sorriu em sinal positivo. Olhando para o relógio vi que já eram duas e meia da tarde, hora de ir para casa.
- Acho que eu vou para casa, já ta tarde. – falei levantando do sofá.
- Tudo bem, eu posso te levar em casa? – perguntou Thiago, levantando do sofá e espreguiçando-se.
- Não precisa se incomodar, eu não moro longe. – falei, olhando em seus olhos.
- Não é justo você saber onde eu moro e eu não saber onde você mora. – falou ele, sorrindo com aqueles dentes perfeitamente parelhos e brancos.
- Ta bem, seu chato, você venceu vamos então. – falei, empurrando seu ombro de leve. Fomos conversando o caminho todo até chegarmos a minha casa.
- Bom, chegamos. – falei, parando de costas para o portão. – Só não te convido para entrar porque hoje é dia de faxina então to cheia de coisas pra fazer. Outro dia você almoça aqui. – falei, sorrindo de leve.
- Ta, vou fingir que eu acredito, mas fique sabendo que eu vou cobrar! – falou ele rindo. Em seguida pegou na minha cintura e me deu um beijo no rosto, me deixando tonta. Ele saiu olhando para trás com um meio sorriso. No meio dessa confusão eu nem tinha percebido que ele era tão atraente, ou tinha percebido, mas ignorado. Era melhor ignorar, pelo menos por enquanto.
Entrei em casa, tudo estava uma bagunça. Agora tinha que arrumar tudo antes que a minha mãe chegasse. Fui para o quarto, fiz um rabo-de-cavalo no cabelo, que agora ficava estranhamente curto, e guardei a chave dourada no meio de um dos livros da minha prateleira.
Passei pano em toda a casa, troquei a toalha de mesa e as roupas de cama. Arrumei as estantes que estavam empoeiradas e em algumas horas tudo estava arrumado. Quando eu estava guardando o material de limpeza no banheiro o telefone tocou. Era Camila e parecia estar nervosa.
- O que aconteceu Camila? – perguntei realmente preocupada. Camila estava sempre risonha e feliz então era estranho vê-la aflita.
- Não consigo fazer isso sozinha! Vou para a sua casa e já explico tudo ok? – perguntou ela, com a voz trêmula.
- Vem rápido então. – falei ansiosa, o que será que podia estar acontecendo?
Depois de uns dez minutos Camila estava gritando no portão.
- Entra! – gritei, enquanto destrancava a porta. No instante em que eu abri a porta, Camila me abraçou, a aflição estampada em seu rosto.
- Ai Alê, me ajuda!
- Mas o que é que aconteceu, você está pálida Camila. – falei, examinando seu rosto apático. Camila me olhou com um olhar de temor e depois abriu a mão, me mostrando um teste de gravidez.
- Eu não acredito que você está...
- Não sei ainda, não tenho coragem de fazer, mas estou muito desconfiada que sim. – ela interrompeu, apertando a minha mão.
- O único jeito de descobrir é fazendo. – falei, abrindo a porta do banheiro. – Vai lá.
Camila me olhou com um olhar de dor e foi para o banheiro. Eu fiquei esperando na sala.
Depois de alguns minutos e nada de Camila sair do banheiro, preocupada eu fui até a frente da porta do banheiro.
- Camila, você ta bem? – perguntei com voz suave. Ela não respondeu. – Camila, você tem que sair daí e encarar a realidade com maturidade, afinal, você não é mais uma criança.
Segundos depois de eu ter falado, ela saiu do banheiro.
- E aí? – perguntei, embora a sua expressão já dissesse tudo.
- Estou Grávida, aos 16 anos, sem emprego fixo, sem namorado fixo, sem nada. – falou ela, sentando no braço do sofá, as lágrimas escorrendo pelo seu rosto, olhando para o nada. Eu não sabia o que falar, nem como agir, mas como amiga de verdade não deveria nem apoiar nem ficar contra. Devia transmitir segurança mesmo julgando-a como uma louca.
- O que foi feito não da pra mudar Camila. Agora é olhar para frente. – falei, acariciando o seu braço.
- Olhar pra frente? Como olhar pra frente se tem um muro, ou melhor, uma barriga gigantesca impedindo de seguir em frente. Eu não tenho mais futuro. – falou ela olhando para a barriga.
- Camila, você não pode pensar assim! Essa criança não é um obstáculo, você não pode “pular” ela. O seu futuro agora tem que ser ajustável para um bebê que vai ser dependente de você. – falei, me abaixando na sua frente para olhar em seu rosto que estava para baixo.
- E o que eu vou dizer para os meus pais? – falou ela colocando as mãos sobre a testa.
- E o pai da criança, contou que estava desconfiada da gravidez? – perguntei ainda abaixada.
- Não, é que a gente nem ta namorando sério, estamos ficando a mais de um mês, mas nada de ele vim falar com os meus Pais. – falou ela fungando.
- Mas agora que ele vai ter que ir falar com os seus pais. E você vai ter que contar o quanto antes. – falei, olhando em seus olhos.
- Ai, que vontade de morrer, de sumir do planeta! – falou Camila, agora, tentando impedir com a mão trêmula, que as lágrimas escorressem por sua face.
- Calma, ficar nervosa não faz bem nem pra você nem pro bebe. – falei olhando para seu abdômen, que por enquanto, não tinha nenhum sinal de barriga. – Você não quer dormir aqui hoje? Sei lá, amanhã você vai pra casa e conta tudo, de cabeça fria. – perguntei, sentando ao seu lado.
- Não, melhor não. Eu vou ter que encarar o olhar de sua mãe pensando: “que péssima companhia pra minha filha”. E, além disso, o Benhur precisa saber antes dos meus pais. – falou ela, pensativa.
- Mas Camila, no estado que você ta não da pra falar nada pra ninguém. Se você prefere ir pra casa, tudo bem, mas me prometa que você não vai fazer nada hoje! Vai esperar até amanha ou até o dia que você estiver de cabeça fria.
- Sim, não vou fazer nada hoje, mas obrigada por me ouvir, por me oferecer a sua casa. Esse vai pra lista de todos os galhos que você já quebrou pra mim. – falou ela, ficando de pé e sorrindo para mim.
- Você sabe que eu sempre vou estar com você, pra rir, pra chorar, pra desabafar, até pra quebrar galho. Qualquer coisa me liga ta? – falei enquanto a abraçava.
- Pode deixar, ligo sim, obrigada mesmo. – falou Camila, enquanto eu a conduzia até o portão.
Fiquei no portão olhando ela até sua figura desaparecer no horizonte. Camila, que até ontem estava fazendo quinze anos e agora teria um filho para criar. Era uma situação irreal, muito irreal.
Já eram quase sete horas da noite, daqui a pouco minha mãe estaria em casa. Não sei se iria perguntar pra ela sobre nossa família hoje, dona Sarah com certeza iria voltar para casa cansada e não iria me dar atenção. Acho que era melhor esperar o fim de semana.
Fui para o meu quarto, tomei um banho e fui fazer as minhas unhas, que estavam compridas, mas mal cuidadas. Depois de algum tempo, ouvi o ronco do motor do carro prateado da minha mãe.
- Oi querida, como foi o seu dia? – perguntou minha mãe, jogando a bolsa em cima de sua cama.
- foi ótimo mãe, e o seu? – perguntei, diminuindo a música alta que vinha do meu quarto.
- Cansativo como sempre, mau respiro dentro desses terninhos sufocantes. –falou ela, tirando o casaco que estava úmido de suor. Minha mãe era secretária de uma clinica de saúde particular a mais de 10 anos, então, exigiam que ela usasse esses terninhos quentes e caros.
- Filha, o que acha de irmos almoçar juntas no sábado? Não vou trabalhar nesse fim de semana então podemos almoçar em um restaurante no centro se você quiser, que tal? – falou ela lá de seu quarto, enquanto trocava de roupa. Sairmos juntas era o momento oportuno para perguntar sobre o passado de nossa família.
- É claro mãe, a gente precisa mesmo sair, e conversar. – falei enquanto esperava que ela saísse do quarto. Quando ela saiu, olhou para mim com os olhos brilhantes.
- Querida, se eu soubesse que estava precisando conversar comigo, era só falar, não precisamos sair de casa. – falou ela, acariciando a minha face. Não, ela não podia pensar que eu tinha um assunto importante para falar.
- Não mãe, não é conversar por causa de algo, eu falo em conversar assim, sobre a vida, a gente quase não tem diálogo. – falei, olhando em seus olhos.
- Eu entendo filha. Adolescência, homens, e muito assunto para falar. Fico feliz que você tenha confiança em mim para contar suas coisas. – falou ela, rindo. Ela estava entendendo tudo errado de novo.
- Mãe, não há nada de novo para lhe falar ou confessar, eu só acho legal a gente sair juntas como fazíamos quando eu era criança. – falei já sem paciência.
- Ta bem filha, mas se precisar, não esconda as coisas de sua mãe está bem? – falou ela me dando as costas e indo preparar o jantar.
Fui para o quarto, sem ter o que fazer então eu fiquei um pouco na internet, conversando com amigos. De repente, minha mãe entra no quarto sem bater com uma cara de poucas palavras.
- Tem certeza que você não tem nada a dizer para a sua mãe? – falou ela de braços cruzados.
- Não mãe, que coisa! Se eu tivesse o que falar já teria falado. – falei, virando de volta para frente do computador.
- Então o que significa aquilo no banheiro? – falou ela praticamente gritando. Olhei pra ela sem entender, mas depois de alguns segundos, lembrei que Camila tinha usado o meu banheiro para fazer o teste.
- Mãe, não é meu, a... Camila está... Grávida, ela fez o teste aqui porque estava com medo dos pais. – falei meio desapontada com a situação, não queria ficar contando isso ainda mais pra minha mãe.
- Camila, filha do Vanderlei? Coitado, vai morrer de desgosto. – falou ela com a mão sobre a bochecha. – Mas como isso foi acontecer?
- Ah Mãe, acho que a senhora sabe melhor do que eu... – falei dando uma risadinha
- Não foi nesse sentido Alexia! É que ela parecia tão ajuizada, uma moça de família. – falou ela, suspirando. – Bom, vou cuidar da janta, espero que você leve isso como um exemplo que você nunca deve seguir. – falou dona Sarah, indo para a cozinha.
Jantamos e juntas na sala e depois fui para o meu quarto. Fiquei lendo um livro que eu tinha comprado há anos, mas nunca lido pra valer, agora ele parecia muito infantil. Logo o sono veio, e eu fiquei me perguntando se teria algum sonho, eu esperava que não.
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