O Diário De Emily
3 Capítulo 3 - Aceitando os fatos
Notas iniciais
A chave dourada estava no chão e eu não conseguia pegá-la. Quanto mais eu me esforçava, mais ela parecia estar longe.
Acordei pensativa, por que não conseguia pegar a chave no sonho? Levantei rapidamente e fui até a minha estante de livros. Abri o livro Vinte Mil Léguas Submarinas, onde havia guardado a pequena chave, e ela estava lá, enrolada na fita de cetim azul-turquesa. Já eram seis e meia, o sonho havia me despertado quase na hora certa.
Aproveitei para tomar um banho bem demorado, sobraria bastante tempo mesmo.
Fui até o Guarda-roupa, hoje não estava tão calor quantos nos outros dias, uma brisa fria atacava as árvores, fazendo-as se estremecerem. Coloquei uma calça jeans escura, uma regata verde-oliva e por cima, um casaco preto de lã sintética que era leve, mas esquentava. Penteei meus cabelos molhados, coloquei meu All Star verde-escuro que fazia um tempo que eu não usava, e quando estava quase saindo de casa, não achei a minha mochila. Procurei por toda a casa e nada de encontrá-la... Foi quando pensei na possibilidade de ter deixado minha mochila na casa de Thiago. Droga, como é que eu ia pra escola agora!
Não queria faltar às aulas, não queria ficar longe das minhas amigas e não queria ir à casa de Thiago mais tarde para pegar a minha mochila. Sem escolha saí de casa sem mochila, caderno ou qualquer outra coisa que lembre escola.
Quando cheguei à frente da escola, Andressa já estava lá.
– Bom dia Andressa. – falei lhe dando um beijo na bochecha.
– Bom dia Alê, já ta sabendo né? – perguntou ela, com um olhar de poucas palavras. Logo deduzi que se tratava de Camila.
– É já sei sim, como é que ela está? – perguntei, pois Camila e Andressa eram vizinhas.
– Ta bem, quem está para morrer são os pais dela. – falou Andressa, mexendo no celular.
– E a Camila já contou para o Benhur? – perguntei, olhando ao redor para ver se encontrava Thiago e minha mochila.
– Acho que sim, não tenho falado com ela depois que soube ela mal tem saído de casa, acho que até vai parar de estudar. – falou Andressa, desviando o olhar para as minhas costas. — Cadê a sua mochila?
– Daqui a pouco ela aparece. – falei, enxergando Thiago vindo da esquina. Depois de alguns segundos, Thiago surgiu bem a minha frente.
– Esqueceu isso lá em casa. – falou ele, sorrindo com malícia e me estendendo a minha mochila. Depois de me devolver, foi para dentro da escola, caminhando lentamente. Evitei olhar para o lado e levar um choque com o olhar de Andressa, mas foi inevitável ficar livre de seus comentários.
– Alê de peguete novo e nem conta né, e ainda fica brava quando eu falei da conversa no ouvidinho ontem. – falou Andressa, rindo enquanto me dava um soco de leve nas costas. – É gato, grandão, deve ter uma pegada... – falou ela, esperando que eu falasse sobre isso.
– Eu não fiquei com ele, e nem vou ficar. Ontem eu fui a casa dele para combinar sobre um trabalho e acabei esquecendo a mochila lá. – falei tranquila.
– Alê, que mania de ficar escondendo as coisas das amigas! Ta, quando ficar bem apaixonada, não quero ouvir conversinha de “eu amo ele” no meu ouvido.
– Não to escondendo nada de você, não existe absolutamente nada entre eu e o Thiago, talvez uma amizade.
– Ta, não se fala mais nisso então. – falou Andressa, me empurrando para dentro do pavilhão. Logo bateu e cada uma foi para a sua sala.
Entrei na minha, sentei imediatamente na minha classe, calada como sempre. Thiago já estava na sala, e quando me viu, foi sentar na classe ao meu lado.
– Posso? – perguntou ele, já colocando as suas coisas sobre a classe.
– Já ta sentando mesmo. – falei, abrindo o caderno. – Podia ter me entregado a mochila na minha casa ontem né? – falei, lhe dando um soco de leve em seu braço.
– Por quê? Ficou com vergonha na frente da sua amiga? – perguntou ele, me observando.
– Não, é que ela fica achando que existe alguma coisa a mais entre mim e você, a Andressa é muito chata quando insiste em alguma coisa. – falei indiferente.
– Então ela vai te incomodar muito, porque eu não vou te deixar em paz. – falou ele colocando minha franja atrás da orelha.
– Vou ter que aguentar né. – falei sorrindo para ele.
– Aguentar é o que você mais vai fazer daqui por diante. Tem muita coisa pra descobrir, pra suportar. Ontem sonhei com a mulher do vestido branco, ela estava com uma fita azul-turquesa amarrada na cintura e na ponta dela, estava amarrada a chave que eu te dei. Ela andava por uma ponte estreita com a maior segurança e a chave arrastava. – falou ele, olhando para o nada.
– Eu também sonhei com a chave. Mas sonhei que eu não conseguia alcançá-la. Por mais que eu tentasse, ela parecia estar cada vez mais longe. – falei, virando para ele.
– Acho que sei, os dois sonhos tem uma conexão. – falou ele, olhando em volta. – é melhor conversarmos sobre isso depois, as pessoas podem ouvir.
– É, tem razão. – falei, virando para frente e copiando do quadro os textos de geografia.
– Pode ir lá pra minha casa hoje? – perguntou ele, usando o livro como escudo para falar sem ser notado.
– Podemos ir para minha casa se você quiser aí você almoça comigo. – convidei, tentando não chamar a atenção da turma que permanecia estranhamente calada.
– Tudo bem, mas você vai cozinhar pra mim, nada de comida pronta, eu não aguento mais comer “fast food”. – ordenou ele, franzindo a testa.
– Ta beleza, mas se você for internado no hospital com intoxicação alimentar, eu não me responsabilizo. – falei, sorrindo ironicamente.
– Eu confio nos seus dotes. – falou ele, me observando.
Em um piscar de olhos, os dois períodos de geografia se foram. O terceiro foi de física e os cálculos cansativos e chatos já estavam no quadro, prontos para ferrar as pessoas na prova. Fiz esperando que estivessem certos e na hora da correção a mesma sensação horrível de frustração do ano passado.
– Você tem problemas com essa matéria né? – perguntou ele observando meus cálculos.
– Tenho sim, ta tão evidente assim na minha cara? – perguntei, fechando meu caderno.
– Notei pelos cálculos, os seus erros são primários, você não corrigiu erros de quando começou a aprender física e agora eles te atrapalham. – falou ele, reabrindo o meu caderno.
– Nossa, desculpa Albert, não tenho culpa de não ser como você. – falei, puxando meu caderno para perto de mim.
– Não sou nenhum gênio, é que você falha na hora de usar coisas simples como transformar hora em minuto ou quilômetros por hora em metros por segundo. – falou ele, me mostrando os erros.
– Eu sempre me esqueço desses detalhes idiotas. Mas to acostumada em me recuperar lá nos “45 do segundo tempo”. – falei, corrigindo meus erros. Thiago riu da minha expressão.
Fiquei tentando aprender enquanto Thiago me ensinava, posso admitir que eu consiga entender melhor com ele do que com o professor. Logo bateu para o intervalo e como sempre, a sala ficou vazia em segundos. Eu e Andressa combinamos de irmos visitar Camila no dia seguinte, ela devia estar precisando realmente do apoio das melhores amigas.
– Podemos ir hoje, fica até melhor. – falou Andressa, me olhando.
– Hoje fica um pouco ruim pra mim, amanhã é melhor. – falei lembrando-me do almoço com Thiago.
– Tudo bem, amanhã então. – falou Andressa se sentindo incomodada.
Ficamos escutando música no celular de Andressa durante todo o intervalo. Os dois últimos períodos seriam de Educação Física, que eu na gostava. Na verdade eu praticava esportes, adorava jogar vôlei, mas me sentia intimidada pelas colegas “gênias” e quando eu errava algum lance ninguém tinha paciência comigo. Fiquei sentada no banco da quadra de futsal olhando os meninos jogar futebol, pois eu tinha vindo de calça jeans. Thiago parecia animado, enquanto corria e se entrosava com os colegas da turma. Eu observava seus cabelos balançando conforme o vento o conduzia, o corpo forte, as bochechas vermelhas se arrumando em um sorriso perfeito. Ele parecia estar feliz. Depois do jogo ele correu para a torneira do corredor e colocou a cabeça embaixo, deixando a água escorrer pelas suas costas. Depois de se secar ele se sentou ao meu lado.
– Joguei bem?- perguntou, tomando água.
– Parecia bem animado correndo. – falei, era estranho o ver daquele jeito, todo feliz.
– Fazia tempo que eu não jogava futebol. – falou ele, se esticando no banco.
– Valeu pra um recomeço. – falei, sorrindo.
– Quero ver você jogando na próxima aula. – falou ele, me cutucando.
– Sem chance, eu não jogo mesmo. – falei, com indiferença.
– É, mas tudo tem sua primeira vez. – falou Thiago, sorrindo com malícia.
– Mas para tudo existem suas exceções. – falei, levantando do banco ao bater o sinal. Fomos para a sala e arrumamos nossas coisas.
Tentei correr para me livrar de Andressa, mas foi em vão.
– Calma aí Alê, espera! – gritou ela, praticamente correndo. Thiago vinha em minha direção.
– Desculpa Andressa, mas tenho que fazer algumas coisas no centro, é melhor você ir para casa porque vai demorar. – falei me afastando de Thiago. Em seguida ele passou a mão pela minha cintura, me surpreendendo.
– Amor, não é certo a gente ficar escondendo nosso relacionamento das suas amigas. Ela tem vergonha de dizer que vai almoçar com o namorado aqui. – falou Thiago, me dando um beijo na bochecha. Nunca fiquei tão constrangida como naquele instante. Pensei que as minhas bochechas iam explodir por causa do excesso de sangue que circulava nelas.
– Que bom que você arrumou um namorado educado que não mente pros outros, divirtam-se pombinhos. – falou ela, acariciando meu braço enquanto ia embora.
– Por que você falou aquilo? Não precisava ter feito isso. – falei me livrando de seu braço.
– Alexia, a partir de agora teremos que passar muito tempo perto um do outro, e essa é a maneira que eu encontrei para justificar. – falou ele, olhando em meus olhos.
– Ta, mas poderíamos ser amigos, tipo, melhores amigos. – falei, tirando a franja dos olhos.
– É muito mais estranho a gente se tornar melhores amigos sendo que ninguém me conhece, sendo que você me conhece há quatro dias. Namorados ou ficantes é algo mais convincente você não acha? – perguntou ele, me empurrando para fora do portão.
– É... Você tem razão. – falei com relutância, de cara torta. A última vez que tive um namorado foi há um ano e não acabou de maneira pacífica, por isso a palavra namorado não me trazia boas lembranças.
Fomos andando no meio das pessoas enquanto Thiago segurava a minha mão. Estávamos andando em silêncio pela rua.
– Acho que a gente já passou da escola. – falei, sem olhar para ele.
– Sim, e daí?- falou ele também sem olhar.
– Aí que acho que você já pode largar a minha mão. – falei, soltando de leve a mão.
– Ah, foi mal, desculpa, eu nem notei. – falou ele ficando vermelho enquanto se formava um sorriso em seu rosto.
Fomos andando em silêncio até chegar a minha casa.
– Bem vindo á minha humilde residência. – falei, abrindo a porta. – Senta e deixa a mochila aí no sofá mesmo. – falei, abrindo as janelas.
– Sua mãe não está em casa? – perguntou ele, tirando a mochila e olhando em volta.
– Ela está no trabalho, não almoça em casa. – falei parada na frente de Thiago. – Bem, vou fazer frango com arroz, pode ser?
– Claro, faça o que quiser. – falou ele ficando de pé. – Posso ajudar, eu não sei cozinhar direito, mas sei lá, se você me disser o que fazer...
– Ta, se você se oferece. – falei prendendo o cabelo. Fomos para a cozinha, Thiago começou a cortar cebola enquanto eu temperava o frango.
– O seu pai também não almoça em casa? – perguntou Thiago de costas para mim.
– Meu pai morreu pouco depois de eu nascer. – falei, sem olhar.
– Foi mal, eu não sabia. – falou ele virando-se para mim.
– Que nada, na verdade eu nem o conheci então sei lá, não faz diferença. – falei, colocando o frango na panela. A comida ficou pronta num instante. Almoçamos na mesa da cozinha.
– Você cozinha bem! – falou ele, comendo como um desesperado.
– Talvez você esteja falando isso porque faz tempo que não come comida caseira. – falei, bebendo um pouco de suco.
– Bem, eu esperava que você dissesse: “muito obrigada”, mas se você prefere se menosprezar a escolha é toda sua. – falou ele, parando de comer. – Mas que está bom, está.
Terminamos de almoçar e fomos para o meu quarto e começamos a conversar sobre os nossos sonhos.
– O que eu queria te falar na sala de aula é que eu acho que tem algo impedindo que nós possamos descobrir a verdade, como no seu sonho. Já o meu diz que aquela chave pode nos levar á tal mulher dos sonhos. – falou Thiago sentado em minha cama.
– Eu também andei pensando exatamente isso, mas tipo, quem ou o quê está nos impedindo? – perguntei, tomando um pouco de água.
– É essa é a questão. – falou ele, esbarrando sem querer no meu braço. O copo que estava em minha mão caiu em cima de sua camiseta molhando-a.
– Ai, que droga. – falei, levantando da cama.
– A culpa foi minha. – falou ele, numa tentativa fracassada de torcer a camisa em seu corpo. – Posso tirar? É que ficar de roupa molhada me agonia.
– Claro, pode tirar. – falei, observando cada músculo se mover e se contrair enquanto ele tirava a camisa molhada. Seu corpo era malhado de uma forma natural, não como aqueles homens abomináveis que se “bombam” nas academias, seus ombros largos e seus braços eram fortes. Tentei disfarçar o meu olhar de abobada.
– Vou levar esse copo para a cozinha. – falei, deixando-o no meu quarto. Enquanto passava pelo corredor ouvi um barulho vindo da sala.
– Oi filha, hoje recebi à tarde de folga. – falou ela, largando suas coisas em cima do sofá. – eu nem almocei, estou faminta. — falou a minha mãe, sorrindo.
– Fiz frango. –falei me afastando discretamente tentando fechar a porta do meu quarto. De repente Thiago surgiu na cozinha.
– Alexia, onde fica banheiro? – perguntou ele sem notar a presença da minha mãe. Logo em seguida ele a viu e ficou sem jeito por estar sem camisa. – Oi.
– Mãe, esse é o meu amigo, Thiago. – falei, tentando evitar os seus olhos que deviam estar arregalados.
– Ah sim, estou vendo. – falou minha mãe. – E ele não usa camisa? – perguntou minha mãe, irritada.
– É a sua filha, é bastante desastrada, ela derrubou água na minha camiseta, por isso estou sem. – falou ele, rindo para descontrair. O ambiente estava tão tenso que eu nem tive o que falar. Os olhos da minha mãe continuavam como dois lasers sondando Thiago.
– Acho que eu já vou indo, amanhã a gente se vê na escola. – falou Thiago, pegando sua mochila e sua camisa molhada. – Foi um prazer lhe conhecer dona...
– Tchau. – falou a minha mãe, seca.
– Eu te levo até o portão. – falei, olhando para a minha mãe, que permanecia imóvel. Que tenso, eu ia saber que a minha mãe ia vir mais cedo hoje!
– Foi mal pela reação da minha mãe. – falei, abrindo o portão. Podia sentir as minhas bochechas quentes.
– Normal qualquer mãe ficaria assustada se visse um cara sem camisa saindo do quarto de sua filha de 16 anos. – falou ele, sorrindo.
– Tenho 17. Até amanhã. – falei enquanto ele se afastava, olhando para trás. Agora era hora de entrar em casa de ter uma conversinha com a dona Sarah. Abri a porta devagar e ela estava na cozinha.
– Não sabia que você trazia homens para a nossa casa sem me consultar. – falou ela, de braços cruzados.
– Mãe, não é nada do que você está pensando. Thiago é um amigo que veio aqui em casa para conversar sobre um trabalho. – falei, tentando manter a calma.
– Amigo? E você traz para o seu quarto um amigo que eu nem conheço? Não sabe o perigo que correu?- falou ela, exagerada.
– Ai mãe, meu Deus! Eu não fui estuprada ali naquele quarto, ele não é um Serial Killer! Ele só estava sem camisa por que eu derrubei água nela! – falei, indo para o meu quarto. Eu odiava esse desespero ridículo que as mães tinham quando não conheciam todos os amigos de seus filhos. Logo em seguida a minha mãe bateu na porta.
– Filha, você se acha adulta, mas não tem maturidade suficiente para se proteger! Prometa que nunca mais vai trazer alguém que eu não conheça para esta casa!
– Eu não vou prometer nada, mãe isso é ridículo! Por favor, quando você estiver normal, a gente conversa. – falei sem abrir a porta, eu não queria discutir com ela, odiava brigar com a minha mãe, e nem se eu quisesse poderia brigar com ela. Teríamos que sair juntas no final de semana e estarmos pacíficas para conversar sobre a minha família. O silêncio foi o que permaneceu, depois ouvi os passos da minha mãe se distanciando da porta. Deitei na cama e fiquei pensando como explicar para a minha mãe, em breve, que ele era meu “namorado”. Óbvio que essa revelação tornaria todos os argumentos que eu defendi hoje falsos, óbvio que ela pensaria que eu menti para ela e que na verdade, estávamos fazendo sexo no meu quarto quando ela chegou. Ia dar muito problema essa história, então ao contrário das outras pessoas, minha mãe demoraria um pouco mais para saber que Thiago tinha, supostamente, virado meu namorado.
Meu celular tocou e eu fui atender. Era Andressa.
– Alexia, eu to ligando para avisar que não posso visitar Camila amanhã, eu tenho que ir pro centro com a minha mãe comprar o presente de 15 anos da minha prima. – falou ela, desapontada.
– Tudo bem então, a gente vai sábado. – falei pensando. Poderíamos ir hoje, já que à tarde com o Thiago tinha ido para o espaço. – Andressa, você pode ir agora? Fica melhor até do que ir fim de semana.
– Posso sim, você passa aqui que horas? – perguntou minha amiga, animada.
– Daqui a pouco eu to aí. Até, beijo. – falei desligando o celular.
Fui me arrumar, ao contrário da manhã, a tarde estava muito quente. Tomei um banho, coloquei um short escuro, uma camiseta vermelha com preto, que eu tinha ganhado de Camila nos meus quinze anos e o meu All Star vermelho. Penteei meu cabelo e coloquei uma tiara com uma flor preta com bolinhas brancas.
Fui caminhando até a porta calmamente, tentando evitar o olhar de minha mãe.
– Aonde você vai Alexia? – perguntou minha mãe que estava sentada na sala.
– Vou à casa da Andressa para irmos ver como está a Camila. – falei abrindo a porta.
– Manda um abraço pra Camila e não volta tarde ok? – falou a mamãe esperando que eu olhasse para ela. Não respondi. Demorava mais ou menos uns 20 minutos para chegar até a casa de Andressa. Bati na porta da casa.
– Entra Alê, eu to terminando de me arrumar. – falou Andressa penteando os cabelos castanhos, ondulados e compridos.
Atravessamos a rua para ir à casa de Camila. Tocamos a campainha no portão. Depois de alguns toques, Camila apareceu na porta da casa com um olhar de alívio misturado com tristeza.
– Eu sabia que vocês viriam. – falou ela, vindo em direção ao portão e nos abraçando.
– A gente nunca vai te deixar. – falou Andressa acariciando os finos cabelos loiros de Camila.
– Entrem, vamos ali para o quarto. – falou Camila abrindo a porta da casa. Fomos para o seu quarto e sentamos juntas na cama.
– E aí, o que ficou decidido? – perguntei, segurando em sua mão. Ela olhou para baixo e depois ergueu o rosto, olhando para o lado.
– Falei com o Benhur, ele ficou assustado com a notícia, ficou dias sem aparecer, não atendia meus telefonemas, mas ontem ele veio aqui em casa sem avisar. Conversou com os meus pais e eles decidiram que eu e o Benhur vamos nos casar. – falou ela olhando para nós.
– Casar? Você vai casar certinho, na igreja com vestido de noiva e tudo? – perguntou Andressa, olhando espantada.
– É, vou. Minha mãe quer marcar o casamento o mais rápido possível, antes que a barriga comece a aparecer. – falou Camila, tocando em sua barriga.
– Mas Camila, é isso que você realmente quer? É isso que você e o Benhur querem?- perguntei olhando para a Andressa.
– Na verdade, nenhum de nós queria isso, eu percebo que o Benhur se sente forçado a casar, estamos sendo praticamente obrigados. Meus pais são daqueles antigos, que jamais admitiriam uma filha solteira com um filho para criar. – falou Mila, com um olhar choroso. – Realmente, eu não queria que fosse assim, eu não estou nem um pouco satisfeita com essa idéia.
– Mas se vocês conversassem com os seus pais e dissessem que não querem casar, que acham que casamento não é a única saída afinal, vocês ainda são muito jovens. – falei tentando inspirar tranquilidade.
– A gente já tentou falar sobre isso, mas é tudo em vão, por mais que a gente não queira, ficaríamos totalmente sozinhos, sem apoio se não quiséssemos casar. – ela soltou uma lágrima com a cabeça baixa.
– Mila, você jamais ficaria sozinha. Tem a gente para te apoiar, pra cuidar de você. Sabe que a nossa casa esta sempre aberta para você, né Alexia? – Andressa me olhou esperando que eu confirmasse.
– Claro que está Camila, você sabe disso. – falei tocando em seu braço.
– Eu quero fazer um pedido para vocês. Quero que as duas sejam minhas madrinhas de casamento. – falou ela com os olhos brilhando.
– Ô Mila, claro que aceitamos! – falou Andressa sorrindo.
– Ta, mas madrinha tem que ter o padrinho né. – falei olhando para Andressa. Só o que falta ter que ser madrinha com o Thiago!
– Têm sim, ah, convidem alguém, um amigo, não precisa ser namorado já que vocês não têm.
– Só eu que não tenho porque a Alexia já arrumou um grandão lá da escola pra ela. – Andressa sorrindo, falou o que eu temia.
– Aé Alê! Nem contou nada né! – exclamou Camila de boca aberta.
– Ah, é que eu estou com ele pouco tempo, nem é um namoro sério, a gente ta ficando. — falei, sem jeito. Que saco ter que ficar mentindo!
– Mas não importa. O que realmente importa é que vocês vão ser minhas madrinhas. – falou Camila, cessando a discussão. Então, nós três nos abraçamos e ficamos em silêncio por alguns segundos, apenas abraçadas.
Depois fomos as três para a cozinha preparar algo para comer.
– Já da para ver o sexo da criança? – perguntei, abrindo a geladeira para pegar manteiga e fazer o brigadeiro.
– Ainda não, é muito cedo. – falou Camila, procurando uma panela.
– Mas você já pensou em alguns nomes?- perguntou Andressa, pegando o chocolate.
– Eu e Benhur decidimos que se for menino, ele que escolhe o nome, mas se for menina eu escolho. Eu pensei em Daiana ou Maria Alice, mas ainda não sei.
– Camila, eu acho que você tem que continuar indo á escola. Não tem nada a ver isso, não ir só porque está grávida. – falou Andressa me olhando de canto.
– Eu concordo Camila. Não tem porque ter vergonha é algo natural.
– Eu sei, vou continuar indo á aula, eu andei pensando sobre isso. Ganho o bebê só em Novembro. – falou Camila, pensativa.
Sentamos as três no sofá e devoramos o brigadeiro em poucos minutos. Era uma tradição nossa comer brigadeiro quando estávamos juntas. Conversamos, rimos e relembramos tempos antigos. Olhei para o relógio e já eram seis e quinze.
– Camila, eu acho que eu vou pra casa, já é tarde. – falei, levantando do sofá.
– Ta, eu te levo ali no portão. – falou Camila. As duas me levaram até o portão.
– Até amanhã meninas. – falei abraçando-as.
Chegando cansada, fui tomar um banho e deitei na minha cama. Estava quase pegando no sono quando minha mãe entrou no quarto.
– Filha, você não vai? – perguntou, sentando-se na beirada da minha cama.
– Vou aonde?- falei, levantando.
– No aniversário de sua dinda, é hoje, eu já estou arrumada. – falou mamãe, olhando no relógio.
– Ah... Não vou não. Eu estou com dor de cabeça, manda lembranças para ela. – falei, virando-me para o lado. Aniversário daquela mulher falsa? Prefiro passar a noite cuidando de idosos num asilo do que ter que ir nesse aniversário. Depois que a dona Sarah saiu de casa eu achei que poderia dormir um pouco, mas o sono se foi. Levantei levemente e fui para a sala ver algo de bom na TV, mas nada me agradou. Fiquei um pouco na internet, mas logo o tédio impediu que eu ficasse sentada naquela cadeira.
Eu estava estranhamente inquieta, sentia uma ansiedade sem motivo. Resolvi ler um livro na minha cama, respirar fundo e esperar quando o sono resolvesse voltar.
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