O Diário Atrás Das Pedras
3 Nossa Derradeira Batalha Ainda Virá
— Você realmente precisar parar de fazer isso!
A visão foi clareando enquanto via um esboço do corpo de Sage. Quando finalmente abriu por completo seus olhos, se viu na enfermaria do quartel.
— De novo?
— De novo... — Suspirou Sage.
— O que foi dessa vez? — Disse, cobrindo os olhos da luz branca da enfermaria. Odiava aquele lugar. Para onde olhava era um clarão de um branco irritante. Não que não gostasse de branco, mas aquele era intenso e exaustivo. Até o chão era branco.
— Te acharam desmaiado no chão da Arena menor.
— Ah.
— E Ultor? — Perguntou, desconfiado.
— Melhorou, não sente mais nada. — O garoto omitiu a parte falante da história.
— Entendi...
— Quanto ao seu truque?
Sage sorriu. Vinha preparando algo grande para o evento.
— O cavalo ainda se assusta, porém a o disfarce está cada vez melhor. Preciso treinar uma vez no Coliseu para ele ter uma noção de espaço real.
A menção ao Coliseu fez Fallcor tremer. Sua ficha ainda não tinha caído. O campeonato seria mesmo no Coliseu. Um dos maiores e mais importantes monumentos de Artor, um de seus símbolos. Era a casa de todo o espirito Artoriano: A força e a inteligência. Saúde física e mental. Tudo que um rei, um representante precisava para governar bem. O ano que estavam era o ano 1400 depois da Libertação. Um fim de século representava renovação. Campeonatos de jovens aconteciam sempre nesses anos. Fallcor tinha uma sorte gigantesca de viver nessa época. Era a oportunidade de mudar o jogo, de ditar sua própria vida. O ganhador pularia a patente de soldado e iria ser bancado pelo Estado até completar 16 anos quando poderia escolher entre virar Guarda Real ou ter uma patente alta no exército. Ainda teria a valiosa opção de ingressar em uma das faculdades espalhadas pelo território. De qualquer maneira resultaria numa independência financeira invejável. Além de tudo, ingressaria para a história. O Coliseu abrigava quase cem mil pessoas e a previsão era de casa cheia. Faltava um mês. Um mês de treinamento intensivo. Mal sabia Fallcor o que o destino o aguardava.
Sentia que o seu elo com Ultor vinha aumentando. Fallcor fazia parte do cavalo e o cavalo parte de Fallcor. Juntos, eram um só. Cavalo e cavaleiro aumentavam seu desempenho. Logo, não havia um erro. Ultor rasgava o vento impecável à uma velocidade estrondosa. Fallcor não precisava sequer indicar a hora dos saltos. Ultor era um cavalo inteligente, saltava e desviava com precisão, sem uma instrução. Fallcor se surpreendia a cada manobra com a perspicácia do animal.
Não teve sequer a chance de perceber da onde vinha. O impacto fez com que caisse imediatamente. A marca que ficara em seu rosto nunca mais sairia. Quando voltou à si, viu que fora atingido por uma luva de metal. Na sua palma, estava escrito :
Não confie em ninguém, Vossa Majestade.
Fallcor viu ao longe uma figura encapuzada fugindo detre as árvores.
— Fique aqui, Ultor!
Ele relinchou.
Fallcor saiu em disparada na direção, tropeçando no mato alto anterior a floresta. Pegou um pique surpreendente, mas seu campo de visão foi ficando menor, até não conseguir mais ver nada. Seguiu correndo, até entrar dentre as árvores.
A verdade ao seu redor lhe veio como uma adaga perfurando sua barriga. Se encontrava diante de um circulo geométrico perfeito, onde não havia nenhuma árvore ou até mesmo uma copa o adentrava. Viu um homem elegante, de terno preto em postura impecável totalmente ereta. Não podia acreditar no que acontecia.
Lentamente, o elegante homem de quase dois metros se aproximava. Quando se ajoelhou, centímetros perto de Fallcor, sacou um objeto de quase meio metro de dentro do refinado terno. A cara de Fallcor era de terror e ceticismo.
Acorde, acorde!
Mesmo ajoelhado, era maior que o menino. Estendeu a mão com um punhal e Fallcor lentamente esticou a sua, pegando -o.
— Guarde — o com a sua vida. Está além da sua compreensão. — Disseram em uníssono.
O coração do menino estava disparado. Ele sabia que precisava guardar aquilo, mas sabia que estava se metendo em uma enrascada. Não queria pensar nisso.
Não podia pensar nisso.
Não ia pensar nisso.
Tudo que seu mente precisava fazer agora era fazer seu braço socar aquela parede. Toda vez que ficava em problemas, tinha raiva ou qualquer coisa negativa desse tipo, precisava fazer alguma coisa. Socar alguma coisa. O impressionante era que ele não tinha controle sobre sua força em determinados momentos. Assim como agora. A cada soco, a raiva aumentava, e sua força aumentava, Quando se deu por si, a parede tinha muito mais rachaduras do que o corpo daquele menino nu de seu sonho. Mais poucos sonhos, e a parede do alojamento viria a baixo. Resultado : Rua.
As coisas tinham ficado bem mais díficeis na semana que se passou. Os treinamentos eram cada vez menos intensos, o povo preenchia avenidas em massa manifestando, pedindo decisões, reclamando explicações. O clima de Artor era frio, cinzento e triste. Estava cada vez mais difícil. Não chamar atenção poderia te dar um mês no máximo. Precisava cada vez mais ganhar aquele maldito campeonato. Não só ele, mas o mundo inteiro estava indo água baixo. Se desse tudo certo, seu futuro estaria garantido. Se não, iria morrer de um jeito ou de outro, na guerra, pela fome ou por tantos outras variantes que ele sabia que iam acontecer em menos de dez anos. Talvez grupos rebeldes se formassem na próxima semana, dependendo dos atos de Williams. Fallcor tinha dó do pobre homem. Cada palavra sua iria interferir no destino de quase um milhões de pessoas. Enquanto tinha esse infeliz pensamento, o que acontecia simultaneamente resultaria em um dos maiores eventos de toda a história.
— Senhores! Senhores! Por favor se calem! — O duque Williams gritava no Salão do Trono.
Logo ao pé de sua gigantesca cadeira de adornos dourados com o cetro e a espada do rei, havia uma mesa luxuosa de prata, onde sentavam os vinte homens mais poderosos do reino. A sala em si era um espetáculo. No chão, estava pintado o mapa de Artor, a ilha capital e suas quatro ilhas que giravam em torno, o grande Rio Capital contornado — as cinco circurlamente, então os distritos, também circulares. Correndo para o Norte e para o Sul, para o Leste e para o Oeste a complicada composição do Reino, com seus outros rios, suas montanhas e planícies, se estendo à florestas inexploradas, guardando com sigo os mistérios da poderosa máquina de conhecimento e de guerra nomeada Artor, governada por seu rei, seus quatorze distritais, e os seis duques, um do Norte, um do Sul, um do Oeste e um do Oeste, terminados por mais dois, de função misteriosa, nunca revelada.
Todos olharam, desconfiados para o homem que teoricamente, os liderava.
— Eu sei, eu sei que passamos por momentos difícies! Talvez os momentos mais difíceis de toda a nossa história — Sua voz imponente preenchia o ambiente como uma onda de força e inspiração. — Todos nós eramos crianças durante o reinado de Marius, O Louco , não eramos? Vocês provavelmente lembram a tensão do momento, como todos nós sofremos, até mesmo vocês, priveligiados por nascenca
— Está dizendo que nós não sentimos nada? Minha família foi assassinada! Meu castelo destruído! Eu vi com meus próprios olhos! — Trovejava com olhos molhados um dos duques.
— Senhores, por favor, é exatamente o contrário. Vamos nos unir! Não vamos deixar com que milhares morram, sejam esquecidos nas ruas, que a bandidagem volte a ficar incontrolável. Para vencer a guerra que vem por aí, precisamos primeiro resolver a nossa guerra interna. Ou melhor, não deixamos que ela se forme! Vamos escutas o povo, tomar seu lado. “ Fortes e unidos, nada nos abalará” — Triunpos
— Você ousa citar Triumpos numa hora dessa, seu canalha? — Chingava o mesmo lorde.
— Senhores, o passado existe para nos espelharmos nos acertos e evitarmos os erros. Nesses tempos, olhemos para trás. Foi o que ele fez, uniu pessoas com objetivos comuns. Fundou uma comunidade, libertou um povo.
— É tão prepotente assim para tentar repetir o feito do Libertador?
— Não, todos nós podemos. Olhem para trás, vejam seu povo. Depois de décadas de prosperidade... os Artorianos são fortes, e resistentes, mas cabe a nós evitar seu sofrimento. Isto é a razão de sermos o que somos. Não por dinheiro, luxos ou pompas. Nosso dever é com o o povo. Qual é a resposta de vocês? Deverei ficar no poder por um ano, como manda o regulamento, mas e então? Tenho a confiança de vocês?
— Conquiste -a. — Disse um deles.
Rosto fino, cabelo aos ombros. Terno. Fallcor nunca o esqueceria. O homem que proferira apenas duas frases, tronou — se de uma hora para outra a pessoa mais crucial da vida de Fallcor. Eram esse momentos de devaneio que o garoto teria que abandonar de uma vez por todas. Mal percebera a gigantesca enrascada em que caiu acidentalmente. Pode parecer enredo de conto de fadas, mas não é. Caminhando, com a mente desligada, fissurada pelo encontro com o homem, quando se deu por si, viu — se em um lugar de névoa forte. Parecia triste e sombrio, um típico cenário das histórias de Srta. Margareth quando o pegava pelas pernas para colocá-lo na cama na época do orfanato.
Seu coração batia mil vezes acelerada. Todos os seus poucos pelos se arrepiavam. Seus olhos percorreram o ambiente, captando qualquer movimento. Seus sentidos ligados na última potência, pronto para a fuga ou combate. Dentre a mata, viu uma figura pintada inteiramente de negro. Reconheceu, com desdém, o pálido e nojento rosto de Atilla.
— Tinha que ser... — cochichou baixinho. Não seria uma enrascada completa se Atilla não tivesse envolvido.
— Presumo que já saiba quem é, seu órfão estupido. — Dizia o rival, com superioridade e desprezo.
— Como assim...
— Engula suas palavras, sua aberração bastarda! Exijo que seja eu quem ponha fim a um erro da natureza como você!
Atilla saca da lateral de sua cintura uma espada banhada em negro, e avança na direção de Fallcor.
— Quem é você a dizer sobre natureza, Corvo?
Fallcor olhou para trás. Um homem de barba branca, vestes cinza, vários anéis nos dedos e um rosto reconfortante. Em sua cabeça repousava um chapéu branco curvado, de ponta. Tinha um porte imponente, e segurava entre os dedos médios o que aparentava ser um graveto. Estava de perfil, e irradiava liderança.Ao seu lado, porém sem perder a sua imponência, estava o homem do punhal, nas mesmas vestes.
— Você! — O olhar do menino corrompido de quinze anos se encontrou com o do velho.
— Lhe darei uma última chance antes de declarar guerra contra seus aliados, jovem. A sua mente foi corrompida. As mentes com ódio e sede de vingança são as mais facilmente dominadas por Draco. Venha para o nosso lado, e esqueça essa obsessão. Uma criança não deveria ter ódio em seu coração.
— Morra tentando!
— Maville. — Disse o velho, convidando o homem de terno.
Maville avançou na direção do menino, passo por passo, segurando uma varinha também entre os dedos médios.
— Heres Corvis, evade et menem.
A figura de Atiila foi se desintegrando, sumindo dali.
— Isto não acabou, Fallcor. A Nossa derradeira batalha ainda virá. — Disse quando finalmente sua cabeça, literalmente, saiu do mapa.
— Você tem idéia do risco que correu?
— Apenas fiz o que sabia que tinha que fazer.
Todas as pessoas ali caminhavam na discreta sala subterranêa. Os Operadores viviam um dos momentos mais tensos. Suas cabeças trabalhavam a milhão, buscando um jeito de consertar o problema.
— Você pôs toda a operação em risco!
— Não haveria operação se eu o deixasse morrer! — Os dois homens gritavam, se apontavam, prestes a explodir.
— Pela milionésima vez, Merlin! NÓS TÍNHAMOS UM PLANO!
— Um plano estúpido que veio a baixo com uma palavra de Draco. Atilla não se arriscou tanto em Artor, para sequestrar seu afilhado, sua anta demente e cega! Ele foi para derramamento de sangue!
— Draco não seria tão estúpido a ponto de mata-lo. Com sua conexão com Fallcor, poderíamos descobrir, depois de anos, o paradeiro daquela besta!
— Atilla foi lá para mata -lo, homem! Entenda isso de uma vez por todas.
— É verdade — Disse Maville — Atilla foi até Artor com o Gladius de Chaos! — Todos os rostos secaram ao ouvir o nome da espada.
— Draco não confiaria o Gladius à uma criança, Maville! — Questionou Diana, uma das mulheres mais fortes e influentes da operação. Cabelos passando do negro para o grisalho, rosto de águia, e uma visão e perspicácia digna de tal.
— Draco o fez a seu espelho. É o filho que nunca pode ter. Todos sabemos a história.
— Não me importa — Trovejava Helius, o mesmo que discutia com Merlin — Agora nós estamos expostos. Justo você, Merlin! O único que evitou a conquista original. Ele está mais poderoso! A cada dia ele fica mais poderoso. Não medirá esforços para te matar de vez. Draco jamais poderia sequer desconfiar que fingimos sua morte! A lendária morte do Mago Rei!
Todos concordaram, temerosos.
— Nós não temos escolha... — Todos pararam, atônitos, sabendo que aquelas palavras iriam mudar a forma com que o mundo era feito. — Temos que iniciar a Operação Regressores.
O Arqueiro sentia em seus ossos a expectativa. Esperava a vida toda por esse momento. O sexto filho vinha aí.
Cara, isso vai ser épico!
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