O Diário Atrás Das Pedras
4 Velhos Conhecidos
Fallcor vestia uma roupa preta, que o fazia parecer parte do cavalo. Não estava nas posições de um cavaleiro. O menino estava apoiado no cavalo, deitado. O cavalo andava e saltava sozinho sem qualquer indicação de Fallcor. Sabia o que tinha que fazer, aquele gêniozinho de quatro patas.
Já estava ficando repetitivo.
Ele caiu de novo, atingido novamente por uma luva de metal.
— Quem quer que for o grande idiota — Disse, gritando para ninguem exatamente. — que estiver me acertando, pare de ser tão patético. Fallcor continuou cavalgando, sem nem ligar para a luva. Cansado e suado depois de horas a galope, completamente dolorido, ele enfim cedeu: Escrito novamente em sangue:
Você sabe exatamente para onde ir.
Fallcor sabia exatamente aonde ir.
Pulando de moita em moita, sombra por sombra, sem ser visto, Fallcor tentava sair do quartel.Como queria ser Sage agora. O que Fallcor estava fazendo de modo demorado e tenso, Sage faria em um piscar de olhos sem o menor temor. E pulando, diga -se de passagem. Já perto do portão, ele avistou algo suspeito. Duas figuras mascaradas, de roupa verde camuflada, conversavam, alterados. Fallcor ouvia de longe, mas destacavam se palavras da discussão : “ Planejado! “ Não volte atrás”.
Por um momento terrível, todos os seus músculos congelaram, e ficou como uma estátua. O homem mascarado que tinha a cabeça virada para Fallcor, pareceu focar seus olhos justo na moita em que Fallcor se espreitava, seus olhos travavam uma batalha silenciosa e discreta, porém logo o mascarado desviou os olhos. Fallcor respirou fundo, retomando o ar que tinha perdido ao ficar estático. Nunca tinha ficado tão gelado antes. Os homens continuaram a aumentar o tom de voz, até um deles — o mesmo que parecia ter visto Fallcor — pedir silêncio. Levou o outro homem que estava desconfiado, para outro lugar. Fallcor percebeu o discreto gesto que o seu observador o lhe direcionou, a mão que vai e vem, como se convidasse — o a ir à algum lugar. Independente de quem fosse, Fallcor sabia que aquilo era a prova de uma aliança. O garoto, que se encantava com a coragem que tinha desenvolvido no últimos dias, não perdeu tempo. Disparou em direção ao ligar que apenas inconscientemente sabia aonde era
.
Era uma casa feia. Feia, muito feia. Feita de uma madeira velha e desgastada, de um amarelo irritante. Seu teto era feito de feno, e se encontrava em volta de um terreno de dois quilômetros deserto. Habitante da capital como era, Fallcor estranhou nunca ter visto aquele local em sua vida de fugas e perseguições, roubos e fugas na época das ruas.
Quando ele entrou na casa, a sua esquerda havia nada. Ah, e a direita também não! Bem na sua frente, dividindo a casa, havia um corredor. De seu fundo, Fallcor via um foco de luz prateado. Curioso e receoso, foi andando passo por passo, na direção da luz. Percebeu que no fundo da casa havia um quartinho. Habitado apenas por um cama e uma estante de duas prateleiras. Vendo seus livro de raspão, viu títulos que lhe pareciam absurdos ontem, mais hoje já lhe representavam perigo real. “ O Manual do Mago” “ A Queda do Mago Rei” “ O proibido descritivo livro do jovem necromante” e muitos títulos como aqueles repousavam na também de madeira estante
. O que realmente chamava atenção no pequeno quartinho, era o que repousava sobre a cama. Havia um escudo em forma de pipa. O preferido de Fallcor. Havia nele uma borda preta com o que pareciam sinais ou qualquer coisa do tipo gravadas em alto relevo. Seu interior era prata reluzente, se fosse prestada muita atenção, veria -se uma frase escrita dentro dele, no centro da parte reluzente. Fallcor exprimiu seus olhos e a viu.
Levanta — me e sua cabeça terá.
Estava perfeito demais para ser verdade, até que ele viu os lobos.
Estava demorando. Logo abaixo da frase, havia a insignia da cabeça de um lobo uivando. Nos pelos que envolviam sua cabeça mais a baixo, repousava uma gota de sangue em vermelho vivo. Quando Fallcor levantou o escudo para encaixar seu braço, viu que debaixo dele havia uma espada, de uns noventa centímetros. Seu cabo também era preto, a haste prateada reluzente. Entre o cabo e a haste, na parte que os liga, duas pequenas esferas se extendiam. No espaço do meio, outra frase em alto relevo.
Apenas sete me empunhalarão, a gélida ruína dos homens.
Quando Fallcor a levantou, entendeu. Estava quase congelada. O lobo com sangue permanecia.
Havia ao lado, uma sela:
Por minhas, suas asas se libertarão.
Com seus novos pertences, tentando não ser visto, voltou correndo para o quartel, no dia em que sua vida mudaria para sempre no colossal Coliseu.
Radiante com aqueles novos equipamentos, vestiu Ultor a cela ganha. Aquele animal era realmente lindo.
Se viu bem adiantado, considerando que o Campeonato começava apenas as quatro em ponto. Em plenas nove horas da manhã, a ansiedade de Fallcor fazia sua percepção de tempo parecer muito mais lenta. Louco de nervoso, ele não podia fazer nada para esperar.
Cansou de esperar após bater o recorde absoluto de cinco minutos parado. Partiu para o Coliseu. Pelas tranquilas e arborizadas rua da capital Artoriana, ele e Ultor iam direto pela estradinha que levava até lá. Aos seus olhos, o gigante circular foi crescendo. Para construí -lo, foi preciso de um espaço do tamanho de um bairro envolta: A Praça Colossal. Dividida por uma passarela luxuosa que dava direto para dentro do Coliseu, a praça também era muito bem arborizada, que abrigava ao todo cento e cinco mil pessoas. Somando -se as cem mil de dentro do Coliseu, o público total de hoje seria entorno de duzentas mil pessoas. Um centésimo da população total estimada em um lugar só, o assistindo, era muita coisa. Dali sairiam ídolos das crianças, espelhos para adolescentes e colírios para elas. Fallcor tinha a oportunidade, Não a deixaria passar de jeito nenhum.
O Coliseu em si era uma gigantesca arena circular com espaços ovais vazios. Haviam dois níveis, o superior, que suportava quase noventa por cento do público, e o inferior, dono de apenas dez por cento. A população mais rica. Havia um grande complexo subterrâneo chamado de “o bastidor”. Os competidores entrariam por ali, haviam vestiários, banheiros,segurança e muitas outras coisas. Um suporte completo.
Quase no término da passarela, havia um grande portão em forma de arco. Aquele arco era de bronze, e cada uma de suas colunas suportava um guerreiro, solene, de espada em mão. Logo no centro, um homem suportando uma balança equilibrada em uma mão, e um cetro em outra. Uma coroa repleta de diamantes fixava -se em seu cabelo. Hector. O famoso Arco Dolet representava o equilíbrio, a força e inteligência, características marcantes da dinastia de um homem só. Fallcor adentrou, não imaginando que cada passo seu mudava drasticamente o destino, também não sabia que cada ato seu era vigiado fortemente. Diante do gigante, Fallcor e Ultor observavam cada detalhe daquele paraíso arquitetônico e histórico, entrando no lugar onde suas vidas mudariam repentinamente.
Do alto do palácio, Williams observava quieto toda a extensão da Ilha Capital até seu encontro com o Rio dos Ciclos. Dali, podia ver tudo. Inclusive o coliseu.
Não entendia o porque do seu medo. Era irracional. De um modo ou de outro, era real, mesmo sabendo que estava fazendo a coisa certa. Este pobre povo já estaria destinado de um modo ou de outro. Williams só queria fazer que não fosse por Draco. Aquela besta. Sua prepotência o cegava e seu império era baseado em uma vingança insana.
Tudo podia acontecer hoje. Quando dizia tudo, era tudo mesmo. Williams nem queria contar as possibilidades.
Previsível. — Pensou com desdém.
— Draco.
— Percecebeu- me nas sombras. Parabéns — Dizia a figura oculta sem rosto, coberta pelas trevas.
— Convenhamos, não é a coisa mais díficil do mundo.
— Williams, Williams! Tentando mudar o passado, assim como ele quis. Viu no que deu. — As palavras da figura encapuzada atingiram no em cheio, que se exaltou :
— Foi você quem o matou, seu canalha!
— Mataria por muito menos, jovem rei. — Com a indiferença habitual
— Artor vai se ver livre de você, eu juro.
Sem se alterar, na mesma voz medonha de antes, Draco disse:
— Você tem cinco dias antes de começar. Jure lealdade ao deus dragão, Bernard. — Williams estremeceu. — Venha fazer parte da nova era. — Ele se desfigurou, deixando apenas morcegos desgovernados por todo canto, que sumiram tão rápido quanto surgiram.
Em poucos dias, Williams tinha se animizado com os nobres, foi origem de fações e protestos, e o alvo de um assassino dragão fatal .As coisas não estavam exatamente boas.
De seu cofre tirou da bainha sua velha espada.
Sabia que hoje veria velhos conhecidos.
— Todos entenderam o que tem que fazer?
Todos na sala clandestina de paredes brancas concordaram.
— Eu comando. Maville e Luke ficam de plantão, vocês três trazem nossos nada discretos reforços. Sei que Bane está dando cobertura... mas isso é outra história. Ultor estará pronto.
— Você tem certeza sobre Ultor ? — perguntou Maville.
— Absoluta. Hector arquitetou muito bem. Não tem como dar errado! Equipe, ao seus postos.
Merlin observou sua varinha e sua branca espada de carvalho.
Hoje veria velhos conhecidos.
A premonição não era exclusividade de seus antigos inimigos : Também prevendo o encontro, selecionou seus cinco mais discretos e frios homens para a tarefa no coração de Artor.
O Coliseu estava maravilhoso. As roupas extravagantes, comuns das pessoas mais ricas da cidade, ocupavam o setor inferior. Mais ao fundo, onde havia mais espaço, o povo mais pobre vinha em maior número, colocando suas melhores roupas, mesmo estas não sendo o que chamariam de elegantes.
Estava tão cheio quantos nos Duelos Generais. Ah, os duelos... quem vencesse assumia o posto de general do exército. Era o mais disputado e mortal.
Vinte jovens, todos com um único objectivo. Fallcor tremeu diante da visão do público.
A figura encoberta sabia que não poderia estar ali, mas seu senso de moral superava a lógica. Um fator agravante era o sol. O sol o expunha de maneira cruel, e o enfraquecia.Carregava em suas costas uma nuvem de culpa incompensável.
Fallcor devaneava de nervoso. E tinha aquele maldito sol. Quando o olhar de Fallcor suportou o de Sage, os dois desviaram. Não conseguiam se encarar
Demorou mais meia hora do que o previsto para que tudo estivesse pronto.
Sage estava quase vomitando e Fallcor, agora quieto, pensava quem poderia ter manchado seu rosto com aquela luva de metal. Quando Sage perguntou, respondeu que caiu treinado. A mentira aumentou sua culpa. Deixaram de mascarar seus sentimentos, dando um longo abraço
Williams, com sua voz que impõe respeito, mas não medo ,começou a falar.
— Senhoras e senhores — Gritou Williams no microfone — estamos aqui para celebrar a virada do século com o ascensão de um novo herói. Vinte jovens hoje duelarão em busca da glória, e da nossa cultuada coroa de louros. Hoje, nos tempos complicados que vivemos, com a morte de um dos meus amigos mais queridos e seu rei mais memorável, não podemos deixar o pesar e a culpa desviarem nosso caminho. Anuncio agora um comunicado dentro do Palácio Capital, daqui a poucos dias. E que venham os heróis! A primeira fase será um duelo montado. Quem derrubar o outro, ganha. Os remanescentes farão aprestações solo, e vocês escolheram três. Amanhã, estes três se enfrentarão até não puderem mais.
O primeiro duelo foi fácil para os dois. Eram dois dos lacaios de Atila. Devem ter passado mais tempo bajulando- o do que treinando. Como seria de se esperar, Atilla que não parava de olhar ameaçadores olhares para Fallcor, tinha passado. Fallcor estremecia com a presença da pessoa que tinha tentado o assassinar.
Quando começou a fase de apresentação, a ficha caiu para Fallcor. Não tinha como sair dali.
Sage foi o primeiro. Consegui uma boa apresentação. Primeiro um salto livre sem barras, depois três saltos com as barras em quase três metros de altura.
Mas, ele não seria conhecido para sempre como O Cavaleiro Invisível por acaso, seu truque memorável entraria para a história.
Sua amizade com um dos organizadores do evento tinha lhe rendido a fama. Vestindo sua usual capa preta do pescoço aos pés.
E então, quando todos já estavam entediados e distraídos, ele se- deixou cair do cavalo, e enquanto todos o procuravam, discretamente escalou a barra que o organizador tinha deixado para ele, e junto ao chão preto como sua capa, fez- se parte dele e desapareceu.
Quando Tris estava na distância certa, Sage pulou do suporte onde estava, despencando Coliseu abaixo, rumo a morte certa.
Vinte metros de queda, tempo para se arrepender. O que diabos eu fiz? Pensava, enquanto caia. Sage entendeu racionalmente que só morreria se não fizesse o que tinha que fazer. Enquanto Tris completava sua volta, Sage ajeitou seus pés para seu movimento dar certo.
O cavalo estava no lugar certo na hora certa, como Sage planejava. Ele evitou sua queda. Apoiou todo o seu peso na cela feita para essa ocasião, com uma perna só.
O público respira aliviado, este que permaneceu sem reação desde o sumiço de Sage até sua queda. Sem dar tempo sequer para alguém ter reação, com a mesma perna apoiada no cavalo enquanto o cavalgava, Sage saltou, desferindo piruetas no ar antes de cair, já montado em Tris. O público gritava seu nome enquanto se consagrava dando uma volta no Coliseu.A sensação de adrenalina era tão fantástica... Todos, inclusive Williams sorriam, maravilhados. Sage terminou sua volta saindo por onde tinha entrado.
Chegara a vez de Fallcor.
Fale com o autor