O Diário

9 Capitulo 9


Notas iniciais
Ola, gente, como estão?! Trago aqui o cap 9 deixando um pouco de lado o suspense e focando nos sentimentos dos personagens, principalmente do Naruto. Tem algumas lembranças de momentos NaruHina que serão importantes para o futuro da historia. Enfim, espero que gostem =)

9.

O ônibus finalmente parou em frente a porta da clinica e os alunos começaram a descer. Sabiamente, continuei sentada em meu lugar, decidida a esperar ate que o tumulto dos alunos mais apressados acabasse.

Uma excursão ate o banco de sangue da cidade é tudo que os alunos mais bagunceiros querem para criar uma algazarra. Acho que o professor vai precisar de mais três assistentes para impedir que alguns alunos transformem uma das salas em uma replica de cena de um crime ou cenário de um filme de terror.

Soube de alguns planos do tipo, mas espero que não façam nada nojento...

O veiculo estava quase vazio agora, era o momento certo para sair, mas, ao me levantar, percebi a presença dele... Estava sentado a duas fileiras de distancia, olhando para fora, desanimadamente.

Era estranho ver o Naruto-kun tão quieto, quase me esqueci que ele estava no ônibus. Não o vi brincando ou conversando com ninguém, logo ele que seria um dos cabeças a armar coisas contra o professor. Algo não estava certo.

Me aproximei devagar e fiquei parada um tempo a sua frente, mas ele estava tão perdido estavam seus pensamento que nem me notou.

– Oi?! – O chamei tímida.

Ele se virou para mim e deu um meio sorriso, totalmente sem graça, ai eu soube que era serio. Ele não estava só desanimado, estava triste de verdade.

– Ora, pensei que você só falava comigo na aula de teatro. – Ele disse simples.

– Não é isso...

– Relaxa! Estou só de brincadeira. – Ele então se ajeitou no acento, pondo as pernas apoiadas no encosto a frente.

– Eu sei que a gente não conversa muito fora do “universo” da peça do Ebisu-sensei, minha timidez atrapalha um pouco... Mas eu fiquei preocupada com você.

– Preocupada comigo?! Por que?

– Não sei, você parece triste. Aconteceu alguma coisa?

– Não, Hinata, não aconteceu nada. – Ele me respondeu simples, voltando a olhar pela janela. – Eu só não gostei dessa ideia da turma vir ate essa clinica idiota.

– E por que não? – Perguntei e me sentei no lugar vazio ao lado dele.

– Ah, não é nada, só não gosto de hospitais, não quero falar disso.

– Então você vai ficar aqui no ônibus sozinho?

– Eu não queria nem ter vindo, mas meu padrinho meio que me obrigou. “você tem que enfrentar os seus medos” e bla, bla, bla...

– Você tem medo de Hospitais?!

– Não é medo! – Naruto respondeu imediatamente me encarando, pelo tom da sua voz, fiquei com medo de te-lo ofendido. – Eu apenas odeio lugares assim. Odeio Hospitais!

– Por que? – Perguntei por impulso, mas depois me lembrei que ele já dissera que não queria falar sobre aquilo, tentei me retificar. – Desculpe, estou sendo intrometida.

Ele ficou quieto um segundo, parecendo pensar, então disse:

– Minha mãe morreu quando eu era muito pequeno, eu não me lembro nada dela, só lembro do meu pai. – Estava parecendo ainda mais triste que antes. – Só que depois que ela morreu ele ficou meio doente também, doente da cabeça, entende?! Ele fazia coisas idiotas e vinha parar no hospital frequentemente.– Então ele suspirou e voltou a olhar pela janela. –Eu era um moleque de pouco mais de 5 anos e não entendia as coisas direito, só sabia que ele nunca ficava comigo porque estava do hospital e quando meu padrinho me trazia para visita-lo ou ele tava dormindo ou ele não queria me ver... Era uma droga!

– Eu sinto muito, Naruto-kun.

– Não sinta, já aconteceu a muito tempo, mas eu ainda odeio hospitais e quero fazer de tudo para nunca precisar entrar em um.

– Eu entendo você, também não tenho boas lembranças com os hospitais...

– Ah é? – Ele falou com um tom de descrença, parecia que não queria ouvir outra historia triste, mas mesmo assim, talvez por educação, perguntou. – Alguém da sua família ficou doente?

– Não, eu perdi minha mãe e minha irmã em um acidente de carro. – Eu disse e minhas palavras capturaram sua atenção imediata. Apesar de não saber se era o certo a se fazer, seu olhar interrogativo me fez decidi prosseguir. – A minha mãe, morreu ainda na ambulância, mas Hanabi ficou internada por mais três dias. E ficar na sala de espera, hora após hora, sem noticias foi indescritivelmente ruim. Quer dizer, o hospital era tão... Tão...

– Frio... – Ele disse encontrando a palavra que eu não sabia encaixar, então completei:

– Mórbido...

– Sufocante...

– Sombrio...

– Acho que conhecemos a mesma dor, Hinata.

– É, acho que sim...

Após colocarmos aqueles sentimentos em palavras, ficamos quietos, cada um olhando para o lado, Naruto as vezes bufava, talvez de tedio ou impaciência. Ate que finalmente disse algo:

– Essa dor... Como você superou?

– Eu não superei, na verdade. Não acho que é algo que dá para superar. Sabe, quando se perde alguém querido, essa dor se instala para sempre, como se faltasse um pedaço da gente... – Respondi sinceramente. – O que acontece é que aos pouquinhos o tempo nos torna mais forte para podermos resistir a ela. E quanto mais tempo, mais resistimos e mais fortes ficamos e a dor deixa de ser tão incomoda...

– Pode ser... Mas comigo ainda incomoda.

– Comigo também. – Eu senti a necessidade de dizer algo mais, não sei se o faria se sentir melhor ou pior, mas eu precisava dizer. – Sabe, nunca conversei com ninguém sobre isso. É meio estranho conseguir falar tão abertamente com você.

– Então estamos empatados, porque eu também nunca contei essa historia dos meus pais e, na verdade, me sinto bem melhor agora. Obrigado, Hinata.

Ele então segurou firme a minha mão e se levantou sorrindo para mim, percebi que era o seu verdadeiro sorriso.

– Vamos!

– Eu pensei que você não queria ir.

– Acho que sou forte o bastante para aguentar ficar duas horinhas nessa clinica. – Ele disse já me fazendo levantar também. – Além disso, soube de um trote legal que o pessoal ia fazer, disseram que o professor ia parecer uma vitima dos Jogos Mortais.

– Isso é tão nojento...

***

Hinata olhava desanimadamente para o espelho do banheiro de seu pequeno quarto. Constatando que, sim, ela não gostava nada do ambiente, como disse ao Naruto naquele dia no onibus, tinha receio com Hospitais e ainda era incomodo estar ali. Porem era tudo o que conhecia no momento e não sabia o que esperar lá fora. Ou melhor, tinha uma ideia do que esperar e era horrível.

Ela suspirou, afastando o cabelo da nuca e fitando novamente sua cicatriz.

– Por que eu não contei para ninguém?! Talvez eu não tivesse ninguém para confiar?!

Hinata ajeitou os longos cabelos e lavou o rosto.

Depois voltou seus olhos ao espelho, examinando as roupas que seu pai trouxera para sua saída, não eram justas, nem muito largas, mas fazia se sentir confortável. Tivera certos problemas para por a calça jeans por causa do seu joelho que, de vez em quando, doía ou não queria responder a seus comandos. A blusa lilás de alça combinava perfeitamente com ela e um casaco era bem vindo naquela manhã fria.

No geral era bom tirar aquela roupa de hospital e parecer uma garota comum.

Sorriu sem graça por seus pensamentos: O que a vida dela tinha de comum?!

Inspecionou bem para o banheiro, agradecendo por ter se sentido bem disposta para limpa-lo antes de alguma enfermeira perceber que ela passara mal na noite anterior. Se sentir tão enojada com suas lembranças a ponto de vomitar... O quanto patético isso era? Hinata estava decidida a não deixar aquilo, seja o que fosse, acontecer de novo.

– Hinata-sama?! – Ouviu alguém entrar no quarto e pela voz sabia que era Neji, suspirou cansada, dando uma ultima olhada em seu reflexo e foi recebe-lo.

– Pensei que não viria.

– Onde Hiashi-sama esta?

– Foi assinar alguns papeis. Ele disse que você estaria trabalhando.

– Ele tentou me prender na empresa hoje, mas você é mais importante.

– Obrigada, Neji.

– “Oniisan”. Era assim que você me chamava antes. – Ele disse simples e explicou. – Eu sempre nos vi como irmãos, Hinata-sama, e gostaria de poder recuperar essa nossa relação.

– E por que você me chama de “Hinata-sama”? – Ela ficou curiosa de repente.

– É meio constrangedor. – Neji desviou o olhar cruzando os braços. – Nós nos conhecemos na primeira vez que meu pai me levou para a casa de Hiashi-sama, tínhamos uns três ou quatro anos, e eu achei que você era uma princesa. Meu pai fez piada disso e ficamos brincando que você era a princesa, meu pai era o mago malvado e eu o cavaleiro que te defendia. Fiquei te chamando de “Hinata-sama” o dia inteiro e ai nunca mais consegui te chamar de outro jeito.

– Não é constrangedor, é fofo... – Hinata sorriu tímida com a historia, pensou um pouco e perguntou. – Então, seria como “Neji-niisan”?

– Perfeitamente. – O Hyuuga sorriu.

Neji e Hinata foram se encontrar com Hiashi na recepção e tão logo todos os documentos estavam acertados, já estavam de saída. No elevador , descendo para o estacionamento subterrâneo do hospital.

– Onde Kou disse que estaria? – Neji perguntou.

– Ele disse que estacionaria mais longe para não atrapalhar o trafego interno das ambulâncias, mas eu já o avisei que saímos então ele deve estar esperando por perto. – Hiashi disse simples.

– Temos mesmo um motorista?! – Hinata perguntou, essa duvida a estava corroendo desde que saíram do hospital. Ouvir que o motorista os esperava a fez finalmente pensar no que era ser “herdeira de uma empresa”.

– Se é difícil de acreditar, pense em Kou como um amigo que vai nos dar carona para nossa casinha do subúrbio. – Neji disse em tom reconfortante, percebendo a forma pensativa que Hinata se encontrava.

– Sim, eu trabalhei anos em minha empresa para pegar carona e morar numa casinha suburbana mesmo. – Hiashi disse irônico.

Quando saíram do elevador, Kou já os esperava, disfarçou sua expressão de surpresa ao ver Neji lá, já que ele não viera com eles e deveria estar supostamente trabalhando na empresa. Fez uma leve reverencia a Hinata e depois guiou todos ate o carro.

– Eu estava pensando em chamar alguns amigos para jantar. – Neji disse, agora já dentro do carro. – Seria bom para a Hinata-sama revê-los.

– Que amigos? – Ela perguntou.

– Você tem muitos amigos.

– Não, nada de festas! – Hiashi disse ríspido. – Ainda estou me recuperando daquela ultima que vocês deram sem minha permissão.

– Não será uma festa, Hiashi-sama. Eu só estava pensando em chamar a Sakura e as outras amigas da Hinata.

– Sim, e as amigas chamam os namorados, os namorados chamam outros amigos, e os amigos chamam, mais namoradas, e no fim uma banda aparece, os jovens invadem os quartos de hospede e alguém tem a brilhante ideia de saquear minha coleção de vinhos. E eu acabo preso por dar bebida a menores ou por compactuar com essa micareta...

– O senhor foi preso na ultima festa? – Hinata perguntou.

– Não, eu não fui.

– Melhor deixar que Sakura e Ino contem. Elas deixam tudo menos desastroso e bem mais engraçado. – Neji disse.

– Abordagem policial, processos de agressão e uma eficiente cobertura da mídia não são coisas que devem parecer engraçadas, Neji. – Hiashi falou calmo, mas com frieza.

– Eu me responsabilizo. Não será uma festa, só um jantar com os amigos de sempre. – Neji disse. – Os seguranças podem vigiar a entrada e impedir qualquer desconhecido de entrar.

– Não! Nada de festas!

Hinata pensava que seria bom rever amigos, mesmo não lembrando deles, tinha certeza que, pelo menos, se distrairia para não pensar mais na amnesia, pesadelos e crises.

Percebeu também que essa seria uma ótima oportunidade de se desculpar com Naruto, dizer o quanto estava confusa naquela hora e que não queria ter dito aquelas coisas. Afinal agora já se lembrara um pouco de que, desde o começo, eles eram amigos bem próximos.

Infelizmente, precisaria esperar mais um pouco, já que Hiashi estava inflexível em sua decisão.

– Não se preocupe. – Neji sussurrou para ela, de forma que o tio não ouvisse. – Ate a noite a gente convence ele!

***

Naruto estava jogado no sofá de casa, já chegara a algum tempo e não tinha nada para fazer. Nesse sábado não tinha estagio e o curso de administração de mais tarde foi cancelado por que o professor ficou doente e isso se refletia em um dia inteiro livre e tedioso.

Em momentos assim ele já estaria no hospital, driblando os seguranças, levando sermões do Kakashi-sensei e... Fazendo companhia a Hinata...

Bufou de impaciência com os próprios pensamentos que insistiam em lembrar dela.

Não iria voltar lá, disse que não iria visita-la e não voltaria atrás! Não queria voltar aquele hospital de jeito nenhum.

Imagens da sua ultima discussão teimavam a passar na sua cabeça e fazia ele sentir ainda mais raiva, mas não sabia se era dela ou de si mesmo.

Hinata so disse a verdade... Estava escondendo a verdade dela, a enganando fingindo ser amigo dela. Não eram só amigos, pelo menos, ele nunca se viu como só um amigo. Mas estava lá tentando agir como se todos os seus erros não existissem...

Estava decido a recomeçar, a aproveitar essa nova chance que a vida ofereceu, mas... Recomeçar com mentiras faria tudo acabar do mesmo jeito que antes, com Hinata se afastando, dizendo que o odiava.

Sabia que ela odiaria se contasse tudo sobre aquela noite, mas agora, sem se lembrar, ela já parecia se sentir assim... Foi tão indiferente naquela hora...

– Você me odeia, Hinata?! – Ele suspirou cobrindo a cabeça com uma das almofadas.

Incomodava olhar para ela e não conseguir ver a garota que sempre esteve ao seu lado, parecia que tudo que ele gostava nela desapareceu e só sobrou aquele ar frio dos Hyuugas.

O que tinha acontecido com aquilo que passaram juntos? Ela realmente passou uma borracha por cima de tudo? Não, de tudo não, do pior dos momentos ela ainda se lembra...

Nunca havia se incomodado tanto por vê-la fria daquela forma que ficou no hospital.

Talvez, só houve uma vez que a Hyuuga usou aquele tom que realmente o deixou com raiva.

Naquela ocasião, ficou louco por não ter conseguido falar com Hinata aquela semana, e o nervosismo chegou ao ponto de que quando se deu conta, já tinha chegado aos portões de grade da residência dos Hyuuga e encarava a mansão no meio do jardim.

Naruto sorria ao lembrar das horas que ficou rodeando os muros altos da propriedade, andava pela calçada a passos lentos, pensativo, talvez esperando que ela saísse por algum motivo. Havia um interfone, mas ele não se sentia confortável a chamar, na verdade, nem sabia direito por que viera ali. Queria apenas vê-la, só isso.

Então ouviu a voz dela:

– Não... Assim não funcionaria!

Vinha do outro lado do muro e ele começou a prestar atenção para ver se conseguiria ouvir qualquer outra coisa, pensando que ela pudesse estar conversando com alguém, mas nada foi dito.

Olhou em volta e viu uma arvore na calçada quase colada ao muro. Sabia que era loucura o que estava prestes a fazer, mas ela estava tão perto que ele simplesmente agiu sem pensar de novo.

Não teve dificuldade de escalar e tentou ser o mais silencioso possível, principalmente quando percebeu que ela estava muito mais próxima do muro do que imaginara. Hinata estava sentada no gramado de seu jardim, escrevendo algo em seu caderno e cheio de livros espalhados em volta, Naruto reconheceu a capa de um deles, era de um curso de publicidade.

Ele ficou um tempo apenas observando, aproveitando que ela estava de costas. Era impressionante como cada mínimo gesto dela o mantinha ainda mais vidrado.

– Não desse jeito! – Ela rasgou a folha do caderno, amassou-a em uma bola e jogou-a longe.

Naruto sorriu com isso, mas então, subitamente, a garota se virou olhando diretamente para ele. O susto de ser visto e a vontade de querer se esconder o fez estupidamente escorregar e cair dentro da propriedade.

– Naruto-kun! – Hinata se levantou apressada e foi de encontro ao rapaz caído.

– Relaxa... – Ele respondeu se sentando, meio tonto, mas sorrindo. – Isso foi só o seu Naruto desastrado de sempre!

– O que estava fazendo lá em cima?

– Eu... – Naruto se levantou esfregando o ombro dolorido. – Só vim fazer uma visita.

– As visitas usam a campainha e entram pela porta. – Ela riu.

– Pra ser recebido pelo guarda-costas?! Melhor não...

– Kou é meu motorista, não guarda-costas.

– Mas ele parece um guarda-costas, pelo menos, sempre que estou por perto. – Ele disse casualmente pegando seu celular e discando.

– Você esta exagerando.

O toque musical inundou seus ouvidos, e Hinata olhou para sua mochila que estava junto dos livros.

– Então não é o meu celular que tá com problemas dessa vez, você que não quis me atender.

– Não, não é isso. Eu estive ocupada o dia todo. – Ela sinalizou os livros.

– E você esteve me evitando a semana inteira.

– Não é verdade, você sabe como as coisas estão loucas com a empresa, os cursos e tudo mais.

– Então não tem nada haver com o que eu te disse aquele dia?! – Ele perguntou a olhando desconfiado.

– Nós combinamos que nada iria mudar.

– É, combinamos e depois disso você sumiu. Quanto tempo faz que não saímos juntos para fazer qualquer coisa?!

– Ficar sem tempo essa semana foi uma coincidência infeliz. Além disso, eu sou comprometida agora, não podemos sair todo dia como fazíamos. – Ela se afastou, voltando aos livros.

– Entendi. – Disse simples. Ela sempre tinha que dar um jeito de colocar o idiota na conversa. Ele bufou parecendo impaciente. – Você esta certa.

Então se sentou ao lado dela no gramado e ficou-a observando mais um tempo antes de prosseguir com a conversa.

– O que esta fazendo?

– É um trabalho do curso. Eu tenho que inventar uma frase de efeito para um produto.

– E como você esta indo?!

– As folhas do meu caderno estão acabando... – Ela apontou para a pilha de bolinhas de papel que fizera com suas frases descartadas.

– Deixa eu dar uma olhada. – Ele pegou uma das bolinha e desamassou lendo atentamente.

Cada segundo que passava Hinata se sentia ainda mais nervosa e envergonhada sobre o que ele acharia. Logo, com o rosto escondido pela folha ela o ouviu rir.

– O que foi?! – Perguntou receosa.

– Isso tá horrível! – Ele a encarou falando em um tom divertido.

– Eu sei! – Hinata disse ríspida arrancando a folha das mãos dele e amassando-a novamente. – Por isso joguei fora.

Naruto pegou outra bola de papel e leu ainda rindo de cada frase. Hinata não gostava daquilo, parecia que ele estava debochando dela.

– Essa é boa! – Ele a olhou.

– Mesmo?! – Ela perguntou surpresa, olhou para o papel. – Qual delas?

– Essa, é engraçada e chama a atenção. Mas é muito longa, precisaria de uma revisão. – Naruto disse. – Se quiser posso ajudar.

– Não. Eu preciso aprender a fazer sozinha, se não eu nunca vou aprender de verdade... – Ela disse de imediato.

– Não sei se fico chateado com seu orgulho e admirado com sua força de vontade.

– Só preciso de um pouco mais de esforço para compensar minha falta de talento.

– Ok, agora estou admirado, definitivamente.

Naruto passou a mão em seu rosto pondo uma mecha de cabeço atrás da orelha, Hinata apreciou o toque por um segundo e então afastou-o gentilmente, ele não desistiu mantendo suas mãos unidas.

– A gente já conversou sobre isso e...

– Tá, sei. Não precisa repetir seu discurso de “você está confuso”. – Ele disse soltando sua mão. – Sabe, estou pensando em me afastar um tempo para poder desenrolar minha cabeça. Talvez passar um fim de semana na casa dos meus tios. Minha prima tem insistido nisso a meses...

– A Karin?!

– E eu tenho outra?! – Naruto sorriu irônico, percebendo o mau-humor da garota se manifestar.

Por causa da morte de seus pais, Naruto havia passado boa parte de sua infância com os tios e a prima, em um pequeno sitio do interior. Depois, aos 14 anos, foi morar com o padrinho, Jiraya, na cidade onde teria mais oportunidades.

Karin era sempre muito carinhosa com o primo, companheira de traquinagens quando crianças e de farras quando adolescentes. Mas a verdade era que sempre tivera uma paixonite por ele e nunca gostou de vê-lo com outras meninas.

E tudo isso refletia a seguinte situação:

Desde que se conheceram ano passado, quando veio a cidade especialmente para ver a estreia da peça deles, Karin e Hinata nunca se deram bem.

Naruto sabia do temperamento impulsivo da prima, digno de qualquer Uzumaki, e esperava que as provocações começassem com a primeira pessoa que a irritasse, mas nunca imaginou que seria com sua parceira de elenco.

No bom estilo “Hyuuga”, a morena foi indiferente. Não revidou, mas também não tentou desfazer o mal entendido e era essa “frieza” que deixava Karin ainda mais fula!

Aquela fora uma semana tensa.

Naruto não entendia direito na época, mas agora sabia que Hinata tinha ficado com ciúmes. Por isso gostava de citar a prima de vez em quando, apenas para ver a reação dela e confirmar suas suspeitas, afinal, se ficara com ciúmes era porque gostava dele, de alguma forma além do que sempre admitira.

Era a única explicação para a mudança drástica de expressão ao ouvir suas palavras, encarava-o de forma tão fria quanto daquela ocasião.

– Deve ser melhor assim. – Hinata finalmente disse. – Você deve estar precisando ficar um tempo longe da correria da cidade.

– É, as pessoas do interior são bem hospitaleiras. – Naruto sorriu debochado. – Sabe, por que você não vem comigo?

– Com a sua prima lá?! Desculpa, três é de mais...

– Então você leva o seu namorado, ai viraria um encontro de duplas.

– É uma piada, não é?!

– Não, seria uma boa oportunidade de me apresentar, quero conhece-lo já que sou seu melhor amigo.

Hinata o analisou, desacreditando de suas palavras, pensou por um bom tempo tentando ver se ele estava brincando, não parecia.

– Ele não poderia, esta sempre ocupado de mais para qualquer coisa que não seja o trabalho.

– Isso parece uma desculpa sua para não chama-lo. Ou... Talvez não haja quem chamar...

– Como assim?

– Quem é ele, Hinata?! Nunca te vi com ninguém, nem na escola ou na empresa. – Naruto deu um sorriso irônico e se aproximou, encarando-a bem de perto.

– Eu sou uma garota discreta, você sabe.

– Pra mim não existe namorado nenhum, foi uma desculpa que você inventou.

– Não seja ridículo, para que eu inventaria?!

– Não é para fugir?

– Fugir de que? – Ela riu sem jeito.

– De ficar sozinha comigo, talvez. – Ele sorriu e se aproximou ainda mais. – Por que você só falou desse namorado depois que me declarei?!

– Eu... Eu queria ser sincera com você. – Ela estava nervosa com aquela proximidade e Naruto percebia isso com gosto.

– Acho que tem medo de ficar perto de mim.

– De ficar perto?

– Sim, de ficar perto e não resistir...

Naruto inclinou-se em sua direção, mirando sua boca e antes de fechar os olhos, ele já pode ver os dela fechados só o esperando. Estar próximos o fazia sentir seu coração batendo forte e jurava que podia ouvir o dela também, tão sincronizados que parecia uma só batida.

Porem, ao se aproximar, no ultimo instante, Hinata se virou e o pretensioso beijo apenas tocou-lhe o rosto.

O silencio se estabeleceu e Naruto, apesar de decepcionado, sorriu. Sabia que o motivo dela não retribuir não foi a falta de vontade, mas, sim, pelo autocontrole absurdo e ele já sabia que Hinata tinha.

Já pensava em outra investida quando a garota quebrou o silencio:

– Tudo bem... – Ela disse.

– Tudo bem o que?

– Eu aceito ir passar o final de semana com seus tios e vou levar meu namorado comigo.

– O que?! – O sorriso de Naruto sumiu e ele a encarou com um olhar feroz.

– Foi você que convidou, disse que queria conhece-lo.

– Eu sei, mas... Eu não... Eu pensei... – Naruto bufou, sem saber o que dizer. – Não é legal a gente ficar se provocando e brincando com os sentimentos um do outro, Hinata.

– Eu não estou fazendo isso para te provocar, nem estou brincando com seus sentimentos.

Naruto sentiu raiva, lá estava a indiferença e a frieza que os Hyuugas eram tão bons em demonstrar e que não combinava nada com a Hinata. Odiava quando ela fazia isso, principalmente com ele.

– Não, é pior, acho que você esta brincando com seus próprios sentimentos. – Ele levantou, se encaminhando para o portão principal, mal humorado. – Eu te ligo pra gente combinar o dia da viagem!

Naruto se lembrara de que essa tal viagem que fizera com Hinata, onde finalmente descobriu quem era o homem que ela escolheu, foi a pior, em todos os sentidos. Não só pela confirmação do namoro dela, mas por tudo que aconteceu e de como seu ciúme o fez ser um idiota com ela.

Talvez aquele tenha sido o começo para tudo de ruim que aconteceu depois...

Por não acreditar quando ela disse que não conseguia se ver com ele da forma que tanto desejava; Por não ser forte o bastante para se afastar quando percebeu que ser amigo não era mais o bastante para ele; Ou por simplesmente não ser capaz de ser honesto nas muitas chances de tiveram para conversar;

Tudo isso os encaminhou para aquelas palavras:

“Eu te odeio”.

Percebeu que nas vezes que ela usara o tom frio foi sempre por que ele provocava isso. Quando insistia de mais em um assunto que a incomodava ou quando a irritava de alguma maneira. Hinata só agia assim quando ele de fato merecia.

Ele mereceu no hospital também?!

Então seu telefone tocou e, por um momento, ele não quis atender, mas quando viu que era Sakura decidiu não ignorar.

– Alo?!

– Oi, você foi no hospital hoje? – A garota perguntou.

– Não, já disse que não vou mais. – Ele respondeu irritado com a pergunta dela.

– Então você ainda não sabe. – Sakura disse rindo. – Se você tivesse ido seria atoa, Hinata já recebeu alta e esta em casa.

– Na casa dela?! Mas ela nem ta boa da cabeça ainda...

– Eu sei, mas parece que ela deve se recuperar mais rápido ficando na casa dela. E Neji quer dar uma festa lá, para comemorar, sabe.

– Festa? Depois do que aconteceu da ultima vez? O “Hyuuga-sama” deixou?

– Neji consegue tudo que quer, você sabe. – Sakura disse. – Então, que horas você vai aparecer?

Pensou bem sobre ir a mansão dos Hyuuga outra vez. E o sorriso que Naruto, inconscientemente, formara desapareceu. Como podia aparecer para ela depois do que aconteceu?

As palavras dela não saiam de sua cabeça:

Por que não me contou sobre a briga?

É por causa dela que você se sente tão culpado?

Porque foi isso que me fez ficar a beira na morte e esquecer quem eu sou!

Não, não poderia. Ela não queria vê-lo, isso ficou bem claro.

E se quisesse, seria para lhe questionar sobre a briga novamente. Ela queria respostas e ele não estava pronto para isso. Não podia contar a verdade...

De fato, não queria se encontrar com aquela Hinata tão diferente e fria, aquela que o odiava.

– Eu não vou, Sakura-chan.

– O que? Por que não?

– Por que não. Não quero ir!

– Naruto, se é pela briga ainda...

– Não, eu só...

– Quais motivos você tem para abandonar a Hinata quando ela mais precisa?!

– Eu não to abando...

– Então diz logo o porque!

– Eu não gosto dela! – Ele disse enfim, já irritado com a insistência da garota.

– Como assim?

– Essa Hinata que acordou do coma, tão insegura e depressiva, sentindo pena de si mesma. Essa não é a Hinata de verdade e eu não gosto dela... – Naruto disse rápido de mais, quando terminou estava sem folego, então respirou fundo e concluiu. – Se fosse para acordar assim, eu preferiria ela...

– Não fale besteira ou então cale a boca! – Sakura gritou no telefone, furiosa. – Você não pode...

Sakura não sabia nada sobre os dois e não tinha capacidade de entender como ouvir Hinata falar de forma tão fria era difícil ou como aquelas acusações machucavam. Naruto não queria perder tempo explicando seus sentimentos a ela, nem queria mais ouvir sermões.

Apenas desligou o celular, irritado.

– Foda-se...

Se soubesse que seria assim, preferiria que ela não tivesse acordado...

O toque insistente do celular o acordou de seus pensamentos. Percebeu que Sakura não o deixaria em paz, não ate terminar o seu sermão pelo menos. Então atendeu.

– Você é um egoísta, sabia!!! – Ouviu o grito da garota, tão estridente que já lhe deu dor de cabeça. – Eu quero minha melhor amiga de volta tanto quando você! Hinata não tem culpa do que esta acontecendo, tenta se por no lugar dela. Se fosse o contrario, se você fosse o desmemoriado e tivesse brigado com ela por algum motivo. O que Hinata estaria fazendo?!

Certo, a menos culpada de tudo era a Hinata.

E se ele fosse o maluco sem memoria, ela não se daria por vencida tão facilmente, lutaria para reconquistar sua amizade. Mesmo que Naruto a maltratasse e a expulsasse da vida dele, ela daria um jeito de continuar o ajudando, mesmo a distancia... A distancia...

Naruto não respondeu nada, deixou Sakura falando e esbravejando a vontade. Já tinha tomado sua decisão e nada que ela dissesse mudaria isso.

– Está pelo menos me ouvindo?!! Naruto!!

– Você já acabou? – Ele perguntou simples. – Então, ate mais.

Ele desligou o celular desta vez e se jogou no sofá de novo.

Essa não era a Hinata Hyuuga que ele amava. De alguma forma sabia que ela inda estava lá, mas simplesmente não se sentia capaz de alcança-la de novo.

Não queria vê-la, essa era a verdade...

Ajuda-la a distancia... Sim, seria bom para ele também...

Notas finais
Então gente... O que acharam dos momentos NaruHina?! Sei que não foi do jeito que esperavam, mas não se preocupem logo logo algo vai acontecer e não será só em lembranças... hehe Espero que gostem do que estou planejando aqui... E agora temos o impasse: Hinata quer se desculpar e Naruto não quer vê-la... O que acontecera a seguir?! Nesse cap, me foquei nos sentimentos do Naruto porque queria que as pessoas entendesse o que ele esta passando e o quanto ele esta confuso... Eu reescrevi milhares de vezes. É dificil falar sobre sentimentos e não sei se consegui deixar claro tudo que eu queria... Esse cap ficou bem maior do que eu costumo postar, entendo se alguns acharem chato ou cansativo de mais. Se quiserem posso trabalhar com cap menores ^^ Obrigada por lerem =) Ate o proximo ^.^