O Diário

27 Capitulo 27


Notas iniciais
Hey, pessoal. Olha quem veio aqui desejar um feliz ano novo o/ E com um presente: Capitulo Novo! Queria ter publicado antes, mas nao conseguir (aquela correria de final de ano e tals). Então, seguindo o clima do cap anterior, espero que gostem e aproveitem mais esse "pouquinho" de drama =)

27.

Haviam muitas pessoas ao meu redor, mais do que eu gostaria, mais do que achei que seriam necessárias, alguns que eu não tinha ideia de quem eram, estranhos que sentiam algum direito de estar ali. Aqueles que, por algum motivo, queriam vir e prestar solidariedade a minha família perante a perda de minha mãe e minha irmã.

Meu pai ficou a maior parte do tempo organizando os preparativos, ele poderia mandar sua secretaria ou qualquer outro fazer isso, mas desta vez ele realmente se comprometeu do inicio ao fim. As vezes eu imaginava que ele queria apenas ocupar a cabeça para não pensar na dor, mas talvez fosse apenas delírio de minha parte, pois não o vi chorando nenhuma vez e pouco conseguia perceber de sua expressão tão fechada.

Agora, se pôs ao meu lado, desde que saímos de casa ate este momento das ultimas homenagens, talvez tentando compensar toda a fuga anterior, ou para manter as aparecias de família unida que tínhamos, ou mesmo “se fazer presente” como em sua ultima promessa que fez a ela... Eu não sei... Mesmo ele estando ali comigo, ainda parecia estar distante, talvez mais do que nunca... Meu pai era uma incógnita assim como os seus sentimentos.

Neji se manteve ainda mais distante. Meu primo já fora bem humorado e tranquilo, mas, em momentos deste tipo, era como se seu mundo caísse e nada pudesse reerguê-lo, nunca soube lidar com perdas. Pensei ate mesmo que ele não viesse agora, mas eu o vi ao longe, afastado da multidão, lidando com as coisas a sua maneira.

E eu... Continuava aqui, apenas observando. Talvez como o narrador de uma história em terceira pessoa que via os fatos, analisava cada detalhe, mas não podia interferir no final ou no destino de seus personagens.

Encarava a terra caindo lentamente para cobri-la, o padre fazendo uma citação conhecida para que refletíssemos sobre o que era a vida, os apertos de mão, toque nos ombros, abraços e pessoas murmurando consolos, outros vários pequenos gestos que serviam como ponto final para a história de minha mãe... E eu nada podia fazer além de observar...

No fim... Foi apenas mais um funeral silencioso como qualquer outro...

– É hora de ir. – Meu pai chegou a mim sussurrando.

– Ainda não... Vamos ficar mais um pouco... – Pedi.

– Esperarei no carro, então... – Ele me disse. – Leve o tempo que precisar.

Eu não o respondi, nem mesmo o olhei indo, fiquei ali parada observando o nome de minha mãe gravado na lápide, sem perceber que gradativamente as pessoas já se dispersaram e o ambiente em volta se tornava frio e sombrio.

Meu olhar se fixava no lugar onde minha mãe jazia e senti algo menor do que uma garoa começar de repente, um fino lençol de agua que poderia ser facilmente confundido com um leve sereno ou rocio. Sentindo meu rosto se umedecer pela chuva, sabia que deveria voltar, mas percebi que não conseguia partir, não queria deixa-la para trás, não queria entender que ela não voltaria para mim, que não falaria ou veria seu sorriso nunca mais.

Um cansaço deliberado se apossou de mim e cai de joelhos, voltando a chorar tal como se eu estivesse acabado de “descobrir” sua morte e a falta que causaria.

Toquei a pulseira em meu pulso, aquela que ela me deu, aquela que prometeu completar comigo e agora era só uma grande marca de uma lembrança que se mostrava tão distante. Parecia injusto, parecia mentira, parecia falso... Como um sonho que só existia para mim e não fazia mais parte de minha realidade.

Alguém se aproximou, mas só o percebi quando colocou um guarda-chuva no chão ao meu lado, era grande o suficiente para me cobrir e me proteger das gotas d’agua. Por um instante, pensei que pudesse ser o meu pai, vindo ver como eu estava, mas, quando este homem falou, percebi que não o conhecia.

– Pode ficar com esse... Eu tenho dois...

Olhei para lado a tempo de vê-lo abrindo outro para si próprio, do ângulo que eu estava, porem, não conseguia ver o seu rosto, a ponta de uma das hastes do guarda-chuva sobre mim encobria minha visão.

– Está tudo bem cair de vez em quando, sabe, é normal fraquejar... O problema é quando o golpe nos faz desistir de levantar. – Ele falou baixo.

– E já li esse livro, conheço essa passagem... – Respondi simples, baixando o olhar novamente.

– Mesmo?! Foi Himiko que me indicou... Ela sempre dizia que em todo bom livro...

– ... existe, pelo menos, uma frase que muda seu jeito de ver vida... – Eu completei a frase dele, conhecendo-a perfeitamente.

– Sua mãe é – era – uma mulher inteligente...

– Eu me sinto tão fraca agora, sem ela aqui...

– É, eu também... – Ele falou em um sussurro. – Mas amanhã vai doer menos... para todos nós.

– “A dor de perder alguém querido é quase insuportável... Somos todos fracos e despreparados para esse tipo de perda, mas nos torna forte o suficiente para aguentar, conforme o tempo passa e as lembranças param de causar dor para nos fazer sentir saudade”. Foi o que ela disse da ultima vez que estivemos aqui, viemos trazer flores para a vovó... Eu tinha perguntado por que ela estava sorrindo e...

Não conclui a frase, acabei chorando de novo. Nem sabia por que estava falando aquilo, apenas parecia algo que deveria ser falado, algo que estivera engasgado em minha garganta e não pude dividir com mais ninguém, ate agora...

– Parece algo que ela diria... – Ele falou em um tom ameno e eu pude notar um tipo de risada baixa e sem graça em meio a suas palavras. Não provocada por escarnio, mas por um tipo de satisfação que sentiu ao ouvir o que eu disse. – Vou guardar isso para usar algum dia...

Quando me dei conta, ele já estava andando vagarosamente para longe, de costas para mim com seu guarda-chuva cobrindo-o quase que por completo. Me levantei de forma abismada vendo-o partir, alguém desconhecido que, de alguma forma, parecia conhecer tão bem a minha mãe, alguém que, diferente de muitos outros que vieram me cumprimentar hoje, não causou estranheza, ao contrario, me trouxe uma sensação familiar de estima.

– Quem é você?

Aquilo era mais que uma pergunta pertinente, eu sentia a necessidade, uma curiosidade, de saber quem poderia ser aquele sujeito. E ele, ao me ouvir, parou por um segundo, parecendo pensar e refletir sua resposta antes de olhar para trás, permitindo que eu olhasse diretamente em seu rosto, seus olhos.

– Eu sou o amante de sua mãe...

***

Hinata fechou o chuveiro, respirando o vapor da agua quente e ficando ali parada por alguns segundos antes de tomar qualquer iniciativa. Havia colocado suas roupas em um cabide não muito próximo e precisou sair do boxe para pega-las. Enrolada em uma toalha enquanto enxugava seus cabelos com outra, cruzou o banheiro, pouco espaçoso, e mal percebeu quando se viu enfrente ao espelho.

Encarou a própria imagem observando a vermelhidão de seus olhos provocados pelo choro que o banho ocultou e, então, notou a cicatriz em sua nuca ficar visível pelo cabelo, agora, enrolado na toalha.

Um pouco mais “atordoada” do que o normal, alcançou suas roupas e voltou ao boxe para se vestir longe de seu reflexo. Hinata já vinha fugindo de ver as marcas pelo seu corpo desde que as descobriu, era vergonhoso, doloroso e ate mesmo sufocante encara-las, mas agora, mais do que nunca antes, elas lhe pareciam muito mais vividas em sua pele e isso, de repente, a fez se sentir doente, fraca e desanimada.

Apesar de usar um short comum que encontrou em seu guarda-roupa, escolheu uma blusa mais larga e desistiu de secar os cabelos, ou mesmo amarra-los como pretendia antes. Pensava que poderia deitar e, talvez, tentar dormir um pouco e, embora não tivesse muitas esperanças de um sono tranquilo, ainda desejava pelo menos alguns minutos de descanso.

Hinata abriu a porta para voltar ao quarto e foi quando viu aquele homem ali de costas, sentado em sua cama. Em um segundo imaginou inúmeras coisas que deveria dizer a ele, varias formas de como poderia falar e infinitas possibilidade de respostas, mas antes que pudesse decidir qualquer abordagem, percebeu que ele não estava apenas sentado, folhava algo em suas mãos, com um livro, ou fichário, ou... Caderno...

– O que você tá fazendo?! – As palavras saltaram da boca da garota em uma pergunta irônica, um impulso de raiva que lhe dominou assim que se deu conta do que estava acontecendo.

Hiashi se levantou, disfarçando o pequeno susto que levou ao ser flagrado pela filha. De forma calma e simples, sem nenhuma expressão clara em seu rosto, ergueu o caderno em suas mãos e leu:

“Este homem que veio me ver disse que era o meu pai, mas sinto que há algo errado nele. Me sinto estranha quando está por perto, como se eu estivesse lhe devendo alguma coisa ou, talvez como se não fosse boa o bastante para ser sua filha. Seu olhar é severo e me incomoda, me julga de uma forma ruim... Ele não parece gostar de mim ou de quem eu sou agora”.

– Foi o que pensou de mim quando nos vimos no Hospital?! Quando acordou?

– Por que está lendo isso?

– Se não era para ler, porque escreveu?

– Tsunade-sama me mandou escrever coisas para fixar minhas lembranças e... – Hinata bufou, pensando que não deveria se justificar, não para ele. – Não importa, não quero mais fixar nada e faz tempo que não escrevo ai... Não serve mais.

– Então não tem problema que eu leia, ou não...

– Tem, porque ainda é meu! Não pode entrar no meu quarto e mexer nas minhas coisas desse jeito!

– Eu vim conversar e isso estava jogado no chão como “todo o resto”. – Hiashi fez um gesto com o braço, olhando em volta, apontando para a bagunça em que o quarto se encontrava.

Hinata também varreu o local com os olhos e constatou os livros das prateleiras empilhados abruptamente sobre a mesa, dividindo espaço com o monitor do computador, outros objetos das estantes, como porta-retratos, espalhados pela cama, roupas que antes estavam guardadas nos armários, agora se amontoavam no chão, assim como os bichinhos de pelúcia, caixas de sapato e muitas outras coisas. Seu quarto estava totalmente revirado.

– Você fez isso?! – Hiashi perguntou, mas a certeza que usava no tom de sua voz tirava o sentido de pergunta de suas palavras.

– Estava procurando uma coisa... – Ela disse esquivando do olhar que o pai lhe dera.

– E encontrou, pelo menos.

– Não.

– E o que é? Talvez eu possa...

– Não precisa se incomodar. – A garota se adiantou, interrompendo-o, porem falava em um tom irônico que contradizia sua atual frieza. – Não é nada tão importante assim.

– Não é “nada”?! Destruiu seu quarto por “nada”? – Hiashi foi irônico também.

– Eu não destr...

Hinata deu menção de perder o controle de seu tom, precisou parar de falar e respirar fundo para se recompor e manter a frieza, não queria a raiva e decepção que sentia de seu pai ficasse tão evidente.

– O que quer aqui?

– Kurenai disse que deveríamos conversar mais frequentemente, tentar encontrar um “denominador comum”, ou algo assim. Por isso vim mais cedo para casa, para passarmos algum tempo juntos e...

– É mentira... – Hinata o interrompeu rispidamente.

Pai e filha acabaram por ficar se encarando, ela de forma penetrante, quase intimidadora, algo que, de uns tempos para cá, Hiashi dificilmente via em seu olhar, a imagem de uma verdadeira Hyuuga.

– Naruto foi falar comigo hoje. Achei que deveria vir aqui esclarecer como tudo...

– Para que se dar ao trabalho?! Não importa. – Hinata o interrompeu, falando secamente.

– Não quer saber?!

– Claro que eu quero saber. O que eu mais quero nesse momento é recuperar a memoria... Eu quero descobrir a verdade, mas, depois de tantas mentiras, nada que venha de você deve valer a pena!

– Não está sendo sensata, Hinata. – Hiashi a encaro mais seriamente. – Tudo bem, se quer assim... Eu só quero que saiba que Naruto pediu demissão...

Por um segundo inteiro tudo que se expressou no rosto de Hinata foi a surpresa, mas conforme o tempo passou a frieza se apoderou novamente.

– Demissão?! De qual dos empregos?

– Abra os olhos, menina! – Hiashi retrucou a ironia. – Naruto não trabalha para mim assim a meses. Isso acabou quando você quase morreu no acidente.

– Mas ele ainda estava lá, “estagiando” ao seu lado, não é?!

– Se o rapaz trabalha na empresa é por que conquistou seu lugar por mérito próprio, sempre foi ambicioso, quando quer as coisas luta para consegui-las... Mas, hoje, abriu mão de tudo pelo que sente por você.

– E o que você quer de mim? Que eu sinta pena dele?! Compaixão?! – Ela foi irônica de novo. – Eu confiei nele mais do que em qualquer outra pessoa e ele me enganou. Eu poderia esperar isso de você, mas dele nunca!

– Você não entende o inferno que passamos enquanto esteve em coma. A culpa me consumindo, provavelmente, consumindo a ele também...

– Não acredito que você veio ate aqui para defender o Naruto-kun! Acha mesmo que o que vocês fizeram é certo?!

– Era certo na época!

– Então me diz por quê?! O que eu fiz para merecer sua falta de confiança ao ponto de colocar um “espião” para me vigiar. Como a filha que você ignorou por anos, de repente, se tornou tão importante a esse ponto?!

– Tudo bem, quer falar de segredos?! Então falaremos...

Hiashi a encarou perdendo sua compostura a forma com que sua filha falava, as palavras ríspidas e frias, e o olhava, tão feroz e cheia de escarnio, o Hyuuga quase podia sentir o desprezo ali presente.

– Que tal começarmos com os seus segredos?

– Não... – Hinata se empalideceu ao perceber o tom de ameaça do pai, entendendo o assunto ele pretendia abordar.

– Falemos de seus pesadelos! – O Hyuuga falou vendo a garota, intimidada, se afastar alguns passos, virando-se de costas para ele que continuou falando. – Ou das cicatrizes que Tsunade disse que você fica escondendo...

– Eu não... – Agora foi um mero sussurro.

– Então, por que não falamos dos reais motivos para você ir a uma psiquiatra?!

– Não quero falar sobre isso com você!

Foi um grito desta vez, em uma ultima e desesperada tentativa de conter as palavras de seu Hiashi e seus próprios sentimentos. Ser abordada dessa maneira de forma tão vingativa era o que Hinata menos queria, ou precisava.

– Se você confiasse em mim, se me contasse o que estava havendo... Eu não permitiria que nada, nem ninguém te fizesse mal algum! – Hiashi falava ainda feroz. – Mas como eu saberia?! Você não fala, nunca! Me excluiu da sua vida e eu tenho que ficar tentando adivinhar?!

– Chega...

– Agora me diz o que EU fiz para receber tanto ódio, tanta desconfiança?! Eu estou tentando ser um bom pai, então, pelo menos, tente ser uma boa filha!

– Isso é tudo que eu tenho tentado fazer a minha vida inteira... – Hinata gritou, conseguindo finalmente responder a altura, deixando transpor toda sua raiva. – Foi pelo que eu mais lutei nos últimos... O que?! Três ou quatro anos... Cansei de tentar “ser boa o bastante”, porque não parece valer a pena...

– Essa não é a questão aqui.

– Tem ideia de que a primeira lembrança que tive da minha mãe é dela indo embora por sua causa... Ou a memoria que tenho de Hanabi é sobre as vezes que precisei consola-la para amenizar o impacto das brigas de vocês... No dia do enterro delas, eu acabei desabafando com um completo estranho porque você estava me evitando...

– Eu não queria que fosse assim!

– Mas foi! E se não quer uma filha como eu, então ótimo! Vou embora e você não precisará saber de mim nunca mais...

– Como se eu fosse permitir que...

– Eu sou emancipada! – Ela o interrompeu bruscamente. – Você não pode me obrigar a nad...

– Com licença. – Ouviram alguém chamar da porta e ambos se calaram de imediato.

Natsu estava parada do lado de fora do quarto. Se fosse qualquer outra empregada, assim que percebesse a gritaria, se afastaria e voltaria outra hora, ou mesmo ficaria escondida apenas “ouvindo”, mas ela, como governanta e velha conhecida desta família, não poderia deixar que aquela briga continuasse e por isso decidiu chama-los. Claro não seria a primeira vez que ela fazia algo do tipo para interromper uma discussão infundada de Hinata e Hiashi.

– Perdoe a intromissão, mas... Eu trouxe a bolsa de gelo que a Hinata-sama pediu, então...

– Sim, é mesmo... – A garota bufou e andou ate a governanta pegando o embrulho que tinha nas mãos. – Obrigada.

– Deseja mais alguma coisa, senhorita? – Perguntou vendo Hinata negar com a cabeça e então se voltou para Hiashi. – E o senhor?

– Não, pode ir... – Ele lhe respondeu simples.

Assim que a governanta saiu, Hiashi e Hinata se encontraram em um completo silencio. As palavras de antes, ditas por raiva ou desprezo, agora assombravam suas mentes, não por arrependimento, mas pelo desejo de que não fossem as verdades que eram.

– Talvez você devesse sair também... Já falamos o bastante... – A garota se pronunciou primeiro.

– O Gelo... Kakashi disse que se você não melhorasse deveríamos ir ao hospital e... – Ele se interrompeu, notando como suas palavras eram inúteis. Concluiu em uma pergunta desanimada. – Você ainda está com dor?!

– Não importa... Pelo menos, esse é o tipo de dor que eu aprendi a lidar sozinha... E ate que não incomoda tanto quanto parece, não comparado a outras coisas...

Hiashi baixou a cabeça por um segundo, pensativo, engoliu as palavras a seco e olhou para a filha mais uma vez antes cama de se encaminhar para a saída. Chegando a porta, sem olhar para trás, ainda disse:

– Quer saber por que eu quis vir defender aquele rapaz?! – Hinata não demonstrou interesse, mas ele prosseguiu. – Eu quase desisti de você! As chances de você acordar eram mínimas, as chances de você continuar bem, NORMAL, eram mínimas! Eu quase fiz uma loucura, mas Naruto não deixou que eu desistisse.

– Então, se dependesse de você... Eu já estaria morta... – Hinata disse friamente. – Sai daqui, por favor...

– Eu realmente estive tentando fazer diferente... – Ele sussurrou, fechando a porta atrás de si.

***

Jiraya chegou em casa tentando equilibrar todas as sacolas das compras semanais apenas em seus dois braços. Era o resultado da preguiça de ter que fazer varias viagens subindo e descendo as escadas de volta ao carro e pega-las pouco a pouco.

O que pareceu uma jogada inteligente logo se tornou um grande problema quando, após subir as escadas, se deparar com a porta trancada. Xingando sua falta de atenção teve que se tornar um verdadeiro ninja para conseguir pegar a chave no bolso, alcançar a fechadura e ainda dar as duas voltas na tranca necessárias para abrir a porta, tudo isso sem que a mínima ideia de deixar uma das sacolas no chão para facilitar o trabalho passasse por sua cabeça.

Assim que o desafio foi vencido, ele entrou indo direto para a cozinha pondo sua carga em cima do balcão, se perguntando se era certo guardar tudo ou deveria esperar Naruto chegar e manda-lo guardar, já que o rapaz ainda estava de castigo, não poderia aliviar seus serviços.

Foi então que olhou em direção ao quarto do afilhado e percebeu a luz acesa.

– Ei, se estava em casa, devia ter me ajudado com a porta! – Jiraya riu, empurrando a porta semiaberta assim que notou Naruto lá.

– Oi, não ouvi você chegando...

– O que está fazendo em casa a essa hora? O carrasco-Hyuuga te liberou mais cedo?!

O rapaz o encarou feroz por um segundo antes de deixar seu olhar cair de volta a tela do computador e responder, permitindo seu tom transparecer todo desanimo que tentou ocultar:

– Eu pedi demissão...

– Que? – Jiraya foi pego de surpresa, depois de tanta “cumplicidade” com Hiashi, ele nunca imaginou o rapaz trabalhando em qualquer outro lugar. – Por quê?

– Hinata se lembrou da noite do acidente...

– Ah, se lembrou... – Jiraya usou um tom sugestivo entendendo a situação. – Lembrou de tudo?

– É... Foi o que pareceu...

– E o que aconteceu? – Jiraya abriu um sorriso.

– Está rindo de mim?

– Estou sim. – Respondeu, cruzando os braços e se encostando ao batente da porta. – Eu disse o que ia acontecer e você não acreditou, quis ir enfrente... Tenho o direito de rir, não é?!

– Não...

Naruto respondeu simples e se levantou, indo para a cozinha como pretexto para se distanciar do próximo “sermão” que sabia que ouviria de seu padrinho. Pegou uma garrafa de agua e, apos beber um gole robusto, se sentou em frente ao balcão, ainda fugindo do olhar divertido que o velho lhe direcionava.

– Tudo bem, ela lembrou, você disse o que tinha de dizer e então... o que? – Jiraya perguntou pegando uma lata de cerveja da geladeira e sentando-se ao lado de Naruto, porem o loiro continuou ignorando-o, emburrado. – Ora, vamos... Eu acompanhei essa sua novela por meses e aguentei seus lamentos esse tempo todo... Quero saber como foi ultima briga, o que ela gritou, se te xingou ou jogou alguma coisa em você... Ela te bateu? Você merecia uns tapas...

– Não, não foi uma “briga” de verdade. Hinata não fez nada disso...

– Então o que ela fez?

– Hinata parecia estar mais decepcionada do que com raiva, ficou quieta me ouvindo mesmo já tendo se lembrado de todas as coisas que eu fiz... Respeitou minha necessidade de falar e me explicar.

– E depois? – Bebeu sua cerveja em meio a pergunta.

– Quando eu acabei, ela disse que me entendia, mas não podia me perdoar... Então foi embora sem olhar para trás...

– “Foi embora”? Só isso?! – Tomou outro gole enquanto falava, o tom de Jiraya foi quase incrédulo. – Que sem graça...

O velho dizia com a intenção de fazer o loiro rir um pouco e diluir a tensão, mas percebeu que o autoconhecimento de como feriu a mulher que amava parecia atormentar Naruto ainda mais do que naquela vez que falaram após o acidente. Era quase como se tivesse acontecido de novo e o rapaz voltasse a se culpar por seus atos que direta e indiretamente levaram a garota ao hospital.

– Você acha que, algum dia, ela pode esquecer o que houve? Sabe, deixar para lá e seguir em frente?!

– Naruto... – Jiraya o encarou seriamente pela primeira vez. – Hinata é mulher, não vai esquecer disso nunca... Posso ate ver, daqui a uns 30 anos, você vai esquecer a toalha molhada em cima da cama e ela vai dizer “se fosse o meu pai que tivesse mandado, você teria colocado no cesto para lavar”.

– Do jeito que tá falando ate parece que quer que Hinata e eu fiquemos juntos... – Naruto riu baixo e desanimadamente.

– Não me leve a mal. É verdade que eu nunca fui a favor do “relacionamento” de vocês, mas também não era contra... Apenas não gostava dessa situação bizarra: mentiras, segredos, manipulação?! Aquilo não era você...

– Você não sabe nem da metade... – Naruto falou apoiando os braços sobre o balcão e descansando a cabeça sobre eles. – Tudo é muito mais complicado... De um jeito que eu não posso explicar...

– Como assim?

Jiraya o encarou esperando algum tipo de resposta mais esclarecedora, pois logo, com o tom do loiro, suspeitou que esse “tudo” de que falou não se restringia apenas ao que ele já sabia sobre o caso, havia algo mais que ele desconhecia. Porem o silêncio de seu afilhado o fez perceber que não haveria mais o que falar, ele não lhe contaria como isso poderia ser ainda mais complicado.

– Um dia você me disse que a “amava”. Isso mudou? – Ele chutou a pergunta com um tom ameno. – Seus sentimentos por ela mudaram?

– Não. – Naruto não o encarou ao responder, mas sua voz saiu firme.

– Acha que os dela mudaram em relação a você?!

– Eu nunca tive tanta certeza sobre os sentimentos dela como tenho agora... – O rapaz deixou um sorriso simples e contido aparecer em seus lábios. – Esse tempo todo em que pensei que estava lutando por ela, na verdade, era Hinata que lutava por mim... Apesar de tudo que estava acontecendo, ela ainda permitiu que eu ficasse por perto... Estava vivendo um inferno, mas continuava sorrindo para mim... Hinata já demonstrou que me ama de inúmeras maneiras, fui eu que nunca consegui perceber...

O silencio voltou a ronda-los e o velho analisou a expressão de rapaz. Naruto carregava consigo uma imagem genuína das misturas dos sentimentos que mostravam como ele se sentia bem por ter a certeza de “ser amado” pela garota, mas, ao mesmo tempo, ruim por saber que seus erros foram os responsáveis por afasta-la.

Alegria e tristeza, paixão e desprezo, alívio e desolação... Tudo ali em seus olhos e Jiraya não sabia como faze-lo se sentir melhor.

– Só espere algum tempo e as coisas devem entrar nos eixos por si só.

– Ela e eu já perdemos tempo demais... Mesmo assim, a essa altura, exigir o perdão dela não é justo. Hinata já tem os próprios problemas, não quero me tornar mais uma coisa para ela se preocupar...

– Eu sei... Você quer ser parte da solução. – Jiraya afirmou bebendo de novo, então, com um grande sorriso, colocou uma das mãos nos ombros de Naruto para reafirmar suas próximas palavras. – Eu vou te dar um conselho, um dos bons: Deixe do jeito que está... Agora aquela menina está confusa e com raiva, mas, uma hora dessas, ela vai pensar direito sobre as coisas, sentirá sua falta e virá aqui conversar. Será a sua chance de ganhar a confiança dela de novo, seja sincero com seus sentimentos e ela acabará sendo com os dela também.

– Eu não sei, Neji me disse uma vez que, por causa da amnesia e do acidente, ela não deveria se sentir bem para namoro e essas outras coisas de relacionamento. – Naruto falava baixo. – Agora, com as coisas que eu fiz e como tudo acabou, penso que talvez ela nunca mais se sinta bem assim comigo... Talvez eu tenha a machucado demais...

– Não seja tão pessimista... Com o cara certo, qualquer garota se sente bem para “namoro e outras coisas”. Não é apenas uma questão de momento, mas das pessoas envolvidas e da química entre elas, os sentimentos que afloram juntas e outras besteiras complicadas...

Jiraya deu os ombros falando com simplicidade e Naruto não sabia se parte das palavras de seu padrinho foram, ou não, tiradas de alguns se seus livros, mas o rapaz conhecia bem essa expressão “besteiras complicadas”, pois sempre era usada para substituir outra palavra, mais intensa e invasiva que o velho escritor se recusava a por em suas historias: “Amor”.

O rapaz sorriu, percebendo o sutil apoio que estava recebendo de seu padrinho, algo reconfortante depois de tantas criticas vinda dele ao longo do tempo.

– Você acha?

– Bem, você nunca se importou em me ouvir, mas, se quer saber... – Jiraya sorriu igualmente. – Eu acredito, Naruto, que todos os seus erros te ajudaram a se tornar esse “cara certo” para a Hinata...

***

Neji bateu na porta três vezes para anunciar sua presença antes de tomar a iniciativa de abri-la, encontrando Hinata sentada no chão enquanto dobrava as roupas que estavam espalhadas em volta. A primeira vista, percebeu que uma de suas pernas estava esticada e com o saco de gelo a cobrindo, depois se deu conta de que já haviam algumas pilhas de roupa organizadas em um canto, mas a maior parte do quarto permanecia no mesmo estado que Hiashi lhe descrevera mais cedo.

– Que bagunça! – Ele constatou.

– Não foi de proposito... – Hinata se explicou ao vê-lo observando.

– Quer ajuda?

– Isso é sobre aquela coisa de “denominador comum” que Kurenai disse?!

– Não, não é. – Neji riu minimamente.

– Eu estava procurando minha pulseira, mas não está aqui...

Neji andou ate a garota, desviando das coisas que tinha pelo caminho, e pegou um dos porta-retratos que estava jogado na cama. Nele tinha a foto de Hinata com a mãe e era possível ver a pulseira adornada de pingentes que a mais velha usava.

– Eu me lembro, era uma igual ao da tia Himiko, certo?!

– Não era “uma igual”, minha mãe me deu a dela antes de morrer... – Hinata disse. – Ela me disse que guardava suas lembranças nela... Coisas importantes...

– Ah, entendo...

– Eu achei que talvez... Talvez, se eu a encontrasse, quem sabe, eu não poderia me lembrar de alguma coisa, mas...

– Mas as coisas nunca são tão fáceis. – O rapaz começou a juntar os objetos da cama para ter onde se sentar.

– É, nunca... – Hinata suspirou, encostando a cabeça para trás de olhos fechados esfregando as têmporas com os dedos.

– Você está bem?

– Sim, só com dor de cabeça... – Respondeu. – Eu queria ficar um pouco sozinha agora, a gente pode conversar outra hora?!

– Bem, eu cheguei agora a pouco e Hiashi-sama me abordou dizendo que vocês brigaram. Ele me mandou vir aqui porque ficou preocupado... Com medo, na verdade... De você tentar sumir de novo.

– Não, já aprendi minha lição... Vou fazer as coisas direito dessa vez. – Hinata suspirou novamente, se lembrando do grande problema que arrumou quando fugiu. – Eu ainda não tenho para onde ir, de qualquer forma...

– Naquele dia você foi atrás do Naruto, certo...? – Neji perguntou cauteloso.

Eles se encararam agora, Hinata analisou o primo que carregava um olhar sereno e não sabia o que pensar dessa sua maneira sutil de puxar assunto.

– Você já sabia? Sobre o Naruto-kun e meu pai?!

– Não, eu não sabia de nada, mas fui ver o Naruto e ele me contou tudo...

– Duvido muito que ele tenha te contando “tudo”.

– Provavelmente, não. Ele me poupou alguns detalhes, mas eu posso imaginar como isso foi impactante para você. – Neji disse em um tom calmo. – Só quero deixar claro que não concordo nem um pouco com o que o Naruto fez, ok?!

– Mas ainda está do lado dele, não é?! – Foi uma pergunta irônica, mas o silencio que se prosseguiu confirmou a suspeita de Hinata. – Por que mais viria aqui falar disso se não fosse pra defender o Naruto igual ao meu pai fez?!!

– Não, eu não estou do lado dele, nem do lado de Hiashi-sama... Olha, se você não quiser mais ver o Naruto, eu vou cuidar pra ele nunca mais chegar perto de você. Se quiser sair dessa casa e ter uma vida independente então eu vou te ajudar como puder. Você tem todo o direito de se sentir traída e eu ficarei de acordo com que decidir, mas...

– Mas...?!

Um novo silencio se estabeleceu, Neji entendia perfeitamente a raiva de Hinata, ele próprio também sentia já que, de certa forma, também fora enganado pelo tio e melhor amigo, mas para a garota as coisas eram mais intensas, invasivas e muito mais confusas, ao ponto de causar seu nervosismo e paranoia.

– Mas... Depois que falei com Naruto, enquanto vinha para casa, pensei um pouco no que aconteceu e percebi que algumas coisas não faziam sentido... – Neji explicou mesmo percebendo a total falta de interesse da prima. – Hiashi-sama não sabe sobre mim! Não sabe sobre a Akatsuki e sobre toda essa sujeira em que nos metemos no ano passado. Naruto estava lá com a gente, ele te ajudou a me “salvar” e não contou nada.

– Eu pedi que não contasse... – Hinata desviou o olhar ao ouvir o que Neji lhe dizia.

– Exatamente. Ele abriu mão de mostrar serviço para o “chefe” dele, só porque você pediu...

– Ele me traiu duas vezes, antes por trabalhar para o meu pai e agora por esconder a verdade. Sobre isso... Sobre nós dois... Eu não quero vê-lo mais...

– Olha, eu não quero defender ninguém, mas escolhas levada pela “raiva” ou “ódio” não prestam, Hinata-sama. Já senti isso na pele, sei do que estou falando. A raiva cega impede bons julgamentos, então eu só quero saber se suas decisões serão guiadas pelos motivos certos.

Hinata não queria decidir nada, nem estava com cabeça para pensar sobre os motivos, ou seus, os de Naruto ou de seu pai. Estava enlouquecendo com toda essa pressão que sentia, descobrir verdades e ter que reagir a elas, vendo sentimentos tão certos se quebrarem enfrente aos seus olhos, enquanto as duvidas fixavam em sua mente como se fossem certezas... Estava tão cansada, mas continuava pensando e pensando... Seguindo em frente... Em uma caminhada eterna onde não se poderia parar, porque a vida não para...

– Talvez eu precise fazer algo que você verá como uma “péssima decisão”... – Hinata disse finalmente.

– Como assim?

– Eu preciso falar com o Sasuke.

Notas finais
Terminando com o suspense que vocês já estão acostumados hehe Sei que não aconteceu muita coisa, mas tentei tornar tudo bem interessante.nesse cap de "apenas diálogos" Achei que vocês precisavam respirar depois do que aconteceu no capitulo 26 e eu precisava mostrar certas coisas que não tive oportunidade antes. Todo mundo ficou meio "maluco" depois da grande revelação de Naruto, então não posso deixar nada mal explicado (não sem um proposito hehe) No inicio temos uma lembrança "reveladora", ou quase... Depois uma boa briga entre Hinata e Hiashi, com verdade na cara e tudo mais (com um pisando no calo do outro e vice versa) Uma conversa de consolo entre Naruto e Jiraya e outra entre Hinata e Neji... E a cereja do bolo: os futuros possíveis planos de Hinata... O que ela quer com Sasuke?! Alguém arrisca um palpite para os próximos caps? Olha a boa noticia: arrumei meu pc! E fiquei tão feliz que quis dar o meu melhor nesse capitulo e ele ficou ate maior do que eu pensei que ficaria. (nao tão grande quanto o 24, claro) mas eu não esperava nem 2 mil palavras e olha só... oO me empolguei... Então espero que vocês tenham gostado. Não sei quando a continuação vai sair, porque preciso de tempo para juntar energia e criatividade para o que esta por vir hehe Mas aguardem novidades e grande emoções ;) Ate o proximo