O Diário
28 Capitulo 28
Notas iniciais
28.
Me sinto como no inferno... Na verdade, talvez os penitentes do inferno estejam se sentindo melhor do que eu estou agora... Bem, nunca morri antes para comparar, então... Eu não sei...
Apenas não gosto desse ambiente e dessa “atmosfera” criada aqui, é bizarro de mais ate mesmo para um cara como eu...
Desde a música estritamente refinada que embalava o salão, os ternos caros e vestidos de gala longos das pessoas a minha volta, ate o canapê e caviar servidos pelos garçons que são tão mirrados que devem ser apenas para distrair alguém em meio a um dialogo mais entediante...
Tudo gritava para mim que esse não era o meu lugar e, de fato, eu não queria estar aqui...
Nada contra museus ou exposições de arte, eu ate gosto desses tipos de distração... Mas aqui?! Com essas pessoas?! Dessa maneira forçada?! Não! Definitivamente, não...
Então, por que vim? Por que continuo aqui?! Simples... Porque é a exposição de quadros de meu melhor, mais persistente, idiota e atualmente desaparecido amigo, Obito.
“Venha para a festa, Kakashi”. – Foi o que ele me disse mais cedo. – “Jogue fora esse livro estupido e aproveite sua noite de folga prestigiando minhas pinturas”.
Por insistência aceitei o convite. E como recusar?! Eu tento ser um bom amigo e como seus familiares são contra essa sua jornada artística, imaginei que Obito iria gostar de ter mais alguém aqui, além da Rin, que realmente se importe com a sua conquista e não com a opinião de sua rica família de renome.
Mas, é obvio, não me livrei de meu livro. Ele me mataria se soubesse, mas, por precaução, o trouxe escondido no bolso da minha jaqueta, caso eu me entediasse. Jaqueta esta que, infelizmente para mim, foi guardada em algum lugar por um recepcionista quando chegamos... Se eu soubesse que precisaria dele...
— “Espere aqui, vou te apresentar a alguns amigos. Seja simpático e você não vai ficar sozinho”.
Isso foi quando sumiu e me deixou plantado esperando, “sozinho” no meio desses desconhecidos que eu não tinha qualquer assunto ou interesses em comum... faz quase 40 minutos... E tudo que me restou foi sorrir, balançar a cabeça concordando com o que quer que tenham dito e observar, aproveitando do mais caro champanhe que tinha em abundancia. É claro, ricos bêbados ficam mais alegres e gastam mais...
Seria exagero meu esperar o momento de ver alguém queimando uma nota de 100 apenas para acender um cigarro?! Sim seria, Kakashi, não é como as histórias que acompanha e isto não é a máfia organizada... Ah, eu só quero meu livro, daria tudo para ler o próximo capitulo...
De novo me pergunto: O que eu ainda estou fazendo aqui?!
Então finalmente vi um rosto conhecido em meio a tantos e fui em sua direção, andando uma com ansiedade que não combinava comigo, enquanto deixava um daqueles chatos falando sobre qualquer coisa que não me interessava na bolsa de valores.
Observando-a enquanto me aproximava, notei que parecia examinar minuciosamente uma das pinturas presas a parede, estava elegante com seu vestido longo, em uma postura refinada e um belo sorriso... Era como se eu tivesse respirado pela primeira vez desde que cheguei, aliviado e, de certa forma, feliz por ter a encontrado.
Porém, tive que parar ao perceber que ela não estava sozinha ali. Um homem bem arrumado de smoking apareceu lhe trazendo uma taça de champanhe, Himiko, porem, não pareceu gostar de vê-lo, além de não aceitar a bebida com uma expressão mal humorada, ainda o ignorou, voltando a pintura que via antes.
O cabelo cumprido dele se destacava, me trazendo um tom de familiaridade estranha e fiquei parado observando-os sem motivo, enquanto ficavam lado a lado conversando. Eu ainda estava longe para ouvi-los e não queria me aproximar agora, apenas queria tentar descobrir de onde estava vindo essa sensação incomoda que parecia crescer na boca do meu estomago.
Com um segundo a mais dessa minha analise, consegui ver nas entrelinhas que aquilo não era uma simples conversa... Estava lá, entre a troca de sussurros, sorrisos forçados e olhares nada amigáveis, uma faixada para disfarçar o atrito para outras pessoas em volta... Mesmo que de uma forma mais contida, pude ver perfeitamente, aquilo era uma briga e, para mim, se tornou notável o quanto Himiko estava desconfortável com aquilo.
A situação passou do limite quando vi aquele homem segura-la pelo braço de forma possessiva. Ele agiu sutilmente, admito, ninguém mais pareceu reparar, mesmo assim, vê-lo com essa intimidade para com ela me incomodou... Senti meu sangue ferver de raiva e acabei fazendo algo que não fazia a anos: agi impulsivamente.
Sem pensar direito sobre as coisas, comecei a andar na direção deles, sem qualquer tipo de plano, apenas querendo acabar com aquilo e afasta-lo permanentemente dela.
Por sorte, o engravatado se foi antes que eu tivesse a chance de fazer alguma cena ridícula. Himiko disse algo que o fez larga-la e se afastar e, vendo isso, me contive desacelerando meus passos e acompanhando o homem com o olhar enquanto ele abria passagem em meio aos outros do salão. Quando voltei a buscar a mulher, me dei conta de que ela fazia o mesmo, o vigiava sumindo entre as pessoas, seu olhar era um tipo de misto de raiva e contemplação.
— Eu acho que o conheço. – Disse anunciando minha presença, já estava próximo o bastante para que me ouvisse mesmo falando baixo.
— Kakashi?! – Himiko me olhou surpresa por um segundo e depois sua expressão se amenizou. – Não esperava te ver aqui.
— Também estou surpreso por te encontrar. Está sozinha? – Eu tentei parecer simpático, mas a pergunta fugiu da minha garganta de forma seca.
— Na verdade, não, tenho uns três assistentes espalhados por ai. Eu sou a responsável pelo marketing dessa exposição e alguns dos artistas têm contrato com minha empresa, então estou garantindo que tudo saia bem hoje...
— Assistentes? – Perguntei enquanto calculava silenciosamente se aquele homem poderia ser um de seus empregados, julgando pelo nível intimidade que vi neles, a resposta era, claramente, “não”.
— Bem, eu não vim pelos quadros e muito menos pela bebida...
— Entendo. E aquele... – Busquei o homem no salão, mas ele já parecia ter saído. – Aquele senhor que você estava conversando... Vai parecer estranho, mas tenho certeza que já o vi antes.
— Ah, sim... – Ela riu baixo e sem muita vontade. – Sim, provavelmente você o viu, de alguma maneira, mas não se preocupe ele ficara mais “famoso” em breve e você vai se lembrar.
— Quem é?
— Ele é um sócio da empresa, por assim dizer, e um amigo do meu marido.
— Ele não me pareceu muito “amigo”.
Voltei meus olhos para seu braço e ela sutilmente o escondeu com uma das mãos em um gesto corriqueiro. Sua pele era bem clara, logo ficava marcada com mais facilidade e ela sabia que, como médico, eu tinha um olho clinico para detalhes desse tipo.
Querendo ganhar algum tempo para me acalmar e pensar em como iniciar essa conversa, peguei uma taça da bandeja de um garçom que passava por perto, com um gesto simples, ofereci a ela também, que aceitou com um meio sorriso para disfarçar o nervosismo.
— Himiko, eu posso fazer uma pergunta ou uma suposição... Qual você prefere?!
— A pergunta... – Respondeu disfarçando seu nervosismo. – Não quero nem imaginar que tipo de história fantasiosa sua mente está criando desse pequeno contratempo.
— A pergunta, então... – Tentei parecer indiferente, mas depois a encarei seriamente. – Quer conversar sobre isso?
— Sério?! – Ela riu de verdade agora. – Kakashi, por um segundo, temi por uma pergunta mais “invasiva” de sua parte.
— Eu sou um homem sútil... – Dei os ombros.
— Sim, eu vejo...
Ela sorriu de breve e tomou um gole miúdo de sua bebida, se voltando novamente para o quadro preso a parede, uma maneira de fugir no meu olhar analítico. Fiz o mesmo que ela começando a observar a pintura, uma representação de foto em negativo retratando a paisagem de um campo, com montanhas e florestas e nuvens, aparentemente, formadas por chamas negras.
Então ela prosseguiu falando mais baixo:
— Eu gostaria de ouvir sua suposição, fiquei curiosa.
— Minha suposição... Deixe-me pensar um segundo... – Fingi uma expressão pensativa. – Você é linda, culta, rica e vai a eventos importantes completamente desacompanhada...
— Não estou desacompanhada. – Ela me interrompeu em um tom divertido.
— Aos olhos de um homem, se você é uma mulher bonita sem ninguém por perto para segurar sua mão ou lhe oferecer uma bebida, então você está desacompanhada. – A respondi em igual tom, bebendo de minha taça. – E, estando só, é fácil ter encontros desagradáveis, por isso acredito que alguém está querendo, como dizem, “furar o olho” do seu marido.
— Seria difícil, Hiashi tem olhos em todos os lugares.
— Obvio, sendo ele um homem rico e você uma mulher conhecida, não demoraria para alguém chegar ate ele e contar sobre sua aventura...
— Aventura? Está falando como se eu estivesse “envolvida”...
— Talvez você não esteja, mas seu pretendente deve estar, para querer correr tal risco. E, claro, pensei em razões para isso também: ou ele é alguém sem status que não tem medo de provocar a ira do “mestre da publicidade”, pois não tem nada a perder; ou ele é extremamente importante e com uma reputação inabalável, confiante de que nem Hiashi possa contra ele.
Ficamos em silêncio por mais um segundo antes dela resolver falar algo, porem, pude notar a diferença de seu tom divertido que desapareceu junto com o sorriso de antes, ambos substituídos por uma expressão de desconforto as minhas palavras, o que me fez pensar que, ao menos em parte, minha teoria estava certa.
— Essa é toda extensão da sua criatividade?! – Ela perguntou ironicamente.
— Claro que não, eu posso pensar em outras teorias mais “mórbidas” se me der a chance.
Dei uma olhada rápida para seu braço conseguindo ver uma leve vermelhidão e ela percebendo, bebeu outro gole da taça para disfarçar a inquietude que minha afirmação trouxe. Então bufei, fingindo indiferença novamente:
— Apenas diga se acertei e te deixo em paz... Como já disse, sou um homem sútil.
— Talvez sim, talvez não...
— Como?! – Perguntei, pensando se ela estava brincando ou, de fato, duvidando da minha “qualidade” de ser indiferente, mas ela me olhava serio de mais e conclui que interpretei algo errado. – Acho que não entendi.
— Talvez exista alguém que está se tornando um incômodo para mim.
Ao usar a palavra “alguém”, percebi que ela não queria que a identidade desse homem fosse conhecida, o que significava que essa pessoa era, sim, importante de algum modo. Estávamos em um salão com varias pessoas ricas e, possivelmente, fofoqueiras onde todos conheciam todos, nem mesmo eu, que não tenho nada com esse assunto, iria querer que se espalhasse irresponsavelmente.
Apesar disso, ela prosseguiu com sua explicação e não pude supor o motivo de não termos ido a um lugar mais afastado para conversar, mas como ela não pediu privacidade, eu também não pediria. Tratamos apenas de falarmos em um tom mais baixo:
— Esse senhor e eu convivemos a bastante tempo e eu o conheço muito bem, mas de uns tempos para cá ele começou a agir diferente comigo... Me aborda pelos corredores com declarações indiscretas, oferece presentes para tentar me impressionar e ainda diz que está apenas “interpretando meus sinais”. Sinceramente, não sei de onde ele tirou isso, nunca dei nenhum tipo de liberdade para ele. Somos apenas sócios, mas ele não parece entender isso...
— E então...
— Como sócios, temos negócios em comum, projetos que obriga a nos encontrarmos, e ele ainda inventa formas de aparecer em eventos que estão sob minha supervisão. Como eu disse, é um incômodo...
— Não, é doentio. Você precisa dá um limite a esse cara.
— É o que eu tenho tentado, mas a abordagem pacifica não está funcionando.
— Quem sabe algo mais direto. Peça uma medida protetiva, com seu dinheiro, você deveria conseguir uma em menos de 24 horas.
— E em dois dias o noticia se espalharia em todos os jornais. Um escândalo certamente o afastaria, mas também me causaria um problema desnecessário.
— Não coloque sua imagem e o seu sobrenome na frente da sua segurança.
— Segurança? Ele é só um idiota insistente. Eu sei me cuidar.
Não, não sabia. E se ela pensava que eu ficaria mais tranquilo com essa afirmação, estava errada... Em meu trabalho, estou cansado de socorrer mulheres que “sabem se cuidar”, já perdi a conta de quantas chamadas de uma vizinha, amiga, ou familiar que presenciavam violência domestica e a vitima continuava a se negar a acionar a policia, dizendo que saberia lidar com a situação. Isso é típico e, aparentemente, mesmo entre essas pessoas de renome, enfim, essas não eram palavras que eu acreditaria tão facilmente.
— E se você ameaçar cancelar os projetos, ele vai entender que está indisponível.
— Romper contratos não é tão fácil, Kakashi, nem barato. Nossa empresa está amarrada aquele homem pelos próximos seis meses, no mínimo. Rescindir poderia nos custar muito caro, um prejuízo que talvez não pudéssemos nos recuperar... E ele sabe bem disso.
— Então conte para o seu marido, é dever dele se fazer presente para afastar esse tipo de pessoa.
— Falar com Hiashi?! Eu não sei, é a ultima coisa que pensaria em fazer.
— Deveria ser a primeira...
— A verdade é que eu não estou em um bom momento em meu casamento, não sei como Hiashi reagiria ao saber que há outro interessado em mim. Ele não parece, mas é extremamente inseguro, ciumento e, convenhamos, as vezes estúpido também.
— Estúpido a que ponto? Ele te culparia ou algo assim?
— Não tenho certeza, mas, no mínimo, ele iria querer romper com a sociedade, o que eu já disse, é prejudicial para nós. Por isso não quero que ele saiba, pelo menos ate eu ter tudo sob controle.
— E qual é o seu plano?! Aturar o assédio de um maluco por mais 6 meses?!
— Não, ate minha paciência tem limite. Mas eu estou avaliando minhas opções e sei que vou pensar em uma solução melhor.
Eu não conseguia pensar no que poderia ser uma solução melhor do que as que eu mencionei, mas, é claro, como ela tem dinheiro, não custaria nada contratar um ou dois seguranças de dois metros de altura para afastar esses ricos tarados que não sabem ouvir um não.
Não quis lhe contar dessa nova ideia, porque, além de evidenciar o quanto eu estava preocupado e temeroso pela segurança dela, também seria uma ideia bem ridícula, tendo em vista que ela queria discrição e não poderia andar com dois armários a seguindo... Eu estava apenas “desesperado”...
— Se você precisar da minha ajuda de alguma maneira... Estarei aqui.
— Sim, talvez eu precise de um favor... – Ela fez uma pausa e acabei ficando apreensivo com o olhar que nos direcionou. – Você poderia não contar sobre isso para o Obito?
— Para o Obito? – Fiquei confuso agora. – Não só o seu marido, quer guardar segredo do Obito também?!
— Matemática simples, Kakashi. Você não conhece meu marido, você conhece o Obito... O Uchiha que não consegue ficar de “boca fechada” e que vê o Hiashi todo dia...
— É, faz sentido...
— Eu estou apenas tentando evitar problemas e nosso querido amigo Obito é o rei da confusão...
— Eu poderia discordar para defende-lo, mas a verdade é que ainda estou com raiva. – Eu disse e ela me olhou interrogativa, então expliquei. – Ele me forçou a vir aqui e depois me abandonou com estranhos.
— Ah, então é por isso... Fiquei imaginando o que te trouxe aqui, já que eventos como esse não fazem bem o seu estilo.
— Obito veio com aquela história de “prestigiar minha conquista” e “minha família não me dá valor”...
— Essa é clássica, ele faz isso desde os oito anos, todo mundo cai.
— Eu não caio mais, pode apostar. Quando eu encontra-lo...
— Se ele ainda estiver aqui, eu o vi com a Rin indo para “algum lugar”, entende?!
— Oh, ótimo. Agora me sinto traído, obrigado.
— Dê um crédito a eles, são recém-casados.
— Me avisar não custaria nada, acabei perdido aqui como um bobo... – Disse simplesmente. – Pelo menos ate encontrar você.
— Hum, você também se mostrou uma ótima companhia.
— Você vai mesmo tomar cuidado com esse seu “problema”?!
— Claro que sim, eu sempre me cuidei por conta própria e não sou do tipo que se intimida facilmente. Vou encontrar uma solução.
— Então ficarei de fora, vigiando. Não contarei nada para ninguém, mas se eu perceber algo errado tomarei minhas próprias providencias. De acordo?!
— Sim, eu agradeço por sua discrição, Kakashi.
Um silêncio estranho nos rondou e uma sensação incomoda me forçou a desviar o olhar, era um tipo de euforia a qual não era familiarizado, quer dizer, haviam inúmeros sentimentos vividos por mim em minha vida que poderiam ser comparados, mas a verdade é que isso era tão diferente e consumia tanto de minha atenção que eu simplesmente não consegui a espaço para julgar o resultado. Esse tipo de “sensação” que sentia parecia única.
— Sabe, pensei em redecorar o interior da minha casa e tem um corredor sem graça que eu queria preencher de quadros. – Ela disse, claramente tentando puxar algum assunto. – Esse quadro é o único da galeria que me chamou a atenção, mas acho que não combina com a parede. O que acha?
— Bem... Eu não entendo de arte, nem de paredes, então eu não sei... – Eu não sabia o que responder e acabei falando de mal jeito, me recriminei mentalmente por não ter pensado em uma resposta melhor. – Acho que Obito teria uma opinião mais bem formada do que eu.
— Ele diria que é um quadro incrível e me mandaria comprar... Mas nem seria uma opinião honesta.
— Por que? – Perguntei e ela apenas sorriu enquanto revirava os olhos, então olhei para a pintura de novo e percebi a assinatura que carregava. – Oh, ele certamente ficará feliz se você gastar seu dinheiro com ele.
— E o que você acha? – Ela me perguntou curiosa e eu analisei a pintura de novo.
— É um dos melhores que ele já fez. – Respondi sinceramente. – Pelo menos, é melhor do que aqueles samurais e monstros retratando o inferno que ele costuma fazer. Aquilo é perturbador, mesmo para mim.
— Obito tem um olhar artístico raro. Não importa o que ele faça, sempre consegue transmitir seus sentimentos facilmente. Ao contrario da grande maioria das pessoas.
— Ao contrario de mim... Sou péssimo nessas coisas de sentimento.
— Algum motivo em particular? Amor não correspondido, talvez?!
— Não, nada assim, ainda. – Eu ri sem graça e desviei olhar novamente, estava se tornando cada vez mais difícil olha-la nos olhos. – Mas, você sabe, com um pai suicida e uma mãe alcoólatra... Eu sempre fui um cara propenso a problemas, eu acho.
— Parece algo difícil de superar, mas é como dizem: “o crescimento vem da dificuldade dos problemas, se não perecemos com eles, nos tornamos algo mais, algo melhor”.
— Gostei, algum dia vou usar essa frase.
— Eu retirei de um livro...
— Então vou pedir uma indicação literária...
— Posso pensar em alguns títulos que talvez você goste, mas... – Ela sorriu e bebeu o resto de seu champanhe, sem qualquer pressa – Tenho que voltar ao trabalho agora.
— Entendo, eu também devo ir. Já “prestigiei” de mais esse evento de ricos.
— Eu sei que esse não é um ambiente cômodo para você, mas tente aparecer mais vezes, é bom ter um amigo para conversar.
— Eu virei, para ficar de olho nas coisas.
Himiko apenas acenou com a cabeça e se foi, se juntando a uma jovem que reparei ter um tablet em mãos, talvez fosse uma das assistentes que estivesse esperando pacientemente a patroa terminar a conversa para vir lhe incomodar. E eu estava tão entretido que nem sequer a havia notado.
Elas foram passando por entre as pessoas, desaparecendo da minha vista e eu tive que tomar meu caminho também, mas, de alguma forma, eu tinha certeza que, mesmo sem as artimanhas do Obito, acabaríamos nos encontraríamos em breve.
***
Kakashi bufou um longo e pesado suspiro antes de sair do carro, estivera parado ali por um bom tempo, tomando coragem para ir enfrentar a verdade que buscava tão fervorosamente. Perdido em pensamentos e lembranças que a muito queria esquecer, assim como os sentimentos que ele nunca soube como lidar.
Entrou no prédio e subiu as escadas, mesmo tendo um elevador ao lado, ele não compreendia completamente por que estava enrolado para chegar a casa deles, só queria algum tempo a mais para continuar “fingindo sua indiferença” a tudo que aconteceu.
Chegou e bateu na porta a sua frente, três toques sem qualquer animação e esperou encostado na parede ao lado enquanto ouvia passos e depois o trinco da porta ser virado.
— Finalmente! – Asuma disse assim que abriu a porta. – Nós te chamamos a 2 horas. Onde esteve?
— Por ai, tinha coisas para fazer...
— Eu também tinha, cancelei um compromisso importante por sua causa.
— Posso entrar?
O policial deu passagem e Kakashi entrou dando uma boa olhada no apartamento que, apesar de pequeno, era muito bem arrumado, encontrou ainda Kurenai lendo um livro no sofá.
— Eu achei que não vinha mais.
— Kurenai, não começa. Só tive apenas um pequeno contratempo. – Kakashi suspirou pesado.
— Bebe alguma coisa? – Ela ofereceu.
— Não. Podemos começar logo com isso?!
— Sim, é melhor. – Asuma falou simples. – Os registros que me pediu estão no meu notebook. Vou buscar.
Asuma saiu por um corredor e Kakashi se sentou em uma poltrona mais afastada, observado que Kurenai voltara a ler sem lhe dar muito importância.
— Então... Tem noticias do Naruto?
— Eu não o vi desde aquele dia, mas ele me ligou uma vez querendo saber mais sobre a condição da Hinata. – Kurenai respondeu. – Parece que eles precisam conversar e Naruto não tinha certeza de como lidar com ela, então eu recomendei alguns livros de autoajuda que dariam alguma base para ele.
— Hum, ao menos, ele está se mostrando mais interessado pelo assunto do que Hiashi que simplesmente entrou em estado de negação.
— Não julgue assim. É impossível saber o que há no coração de uma pessoa que conhece tão pouco.
— Eu o conheço o suficiente... – Kakashi respondeu em tom irônico. – E já que ele não é “oficialmente” seu paciente, então não será um problema me contar um pouco sobre como ele está reagindo, não é?!
— Sim, seria um grande problema. – Kurenai riu.
— Ah, você e suas regras de ética...
— Aqui! – Asuma chegou com seu notebook em mãos, colocando-o na mesa de centro da sala. – A ficha e os registros referentes a prisão de Hizashi Hyuuga.
O socorrista se pôs de pé enquanto o outro se sentava ao lado da esposa no sofá, ligava e buscava os arquivos de que falara, Kurenai fechou seu livro para dar atenção aquilo também, mas Kakashi continuou parado no meio da sala sem demonstrar qualquer intensão de se aproximar.
— Já conferiram? – Perguntou.
— Não, você não nos disse o que deveríamos procurar, mas eu estou curioso pra saber qual foi a ligação que a sua mente cheia de conspirações viu entre o nosso caso e um caso fechado a 10 anos atrás. – Asuma respondeu.
— Não sei se foi uma ligação, na verdade... Só fiquei intrigado com algo que vi na residência dos Hyuuga. Abra os arquivos, vamos dar uma olhada.
Kakashi apenas observou enquanto Asuma clicava e zapeava de um arquivo para outro enquanto murmurava o que lia: “laudo médico”, “teste psicológico”, “apelo por bom comportamento”; coisas típicas presente em qualquer ficha de prisão.
Porem, em certo momento, o policial simplesmente parou, com uma expressão surpresa e ergueu os olhos para o socorrista a sua frente.
— O obituário também está ai?! – Kakashi perguntou.
— Você já sabia?!
— Como assim obituário? – Kurenai se aproximou olhando para a tela.
— Hizashi Hyuuga, o irmão de Hiashi, cometeu suicídio na prisão a mais ou menos 5 anos atrás. – Kakashi respondeu falando de forma simples e calma. – Como isso não virou noticia, então é meio obvio que Hiashi acobertou o caso, afinal, a família Hyuuga gosta de discrição...
— Mas você descobriu, por isso queria esses arquivos.
— Como soube, Kakashi? – Asuma perguntou serio.
— Kisame... – Respondeu simples, dando os ombros, e concluiu. – Ele é um membro da Akatsuki que conheci... Tivemos a chance de conversar em um momento e ele me contou do que sabia sobre Neji e Hinata.
— E por que esse cara saberia de algo assim?! Hiashi, com certeza, se esforçou para abafar o assunto.
— Ao que todos sabem, Hizashi tentou dar um golpe no irmão, acabou preso e Neji foi morar com os tios... Mas o garotinho de 8 anos cresceu, virou um adolescente e, como todos na idade dele, sentiu a necessidade de reencontrar seu pai.
— Entendo... – Kurenai falou pensativa.
— Eu não... – Asuma estava confuso agora. – Desculpem mais eu sou mais objetivo que vocês. Falem claramente, por favor.
— Descobrir sobre o suicídio do pai foi o que fez Neji se envolver com as drogas e, consequentemente, com a Akatsuki. – Kurenai respondeu.
— E eu não o culpo. – Kakashi afirmou se sentando agora. – Sei bem como é estar em uma situação dessas, é fácil perder a cabeça...
— Certo, mas o que isso muda pra gente?! Pensei que vocês tivessem descartado o Neji como suspeito no caso da Hinata, além disso, não sei como isso pode estar envolvido com o acidente da Rin e do Obito...
Kurenai também pensava sobre o tipo de teoria Kakashi estava desenvolvendo, o olhar dele deixava claro que ainda haviam outras ideias a serem acrescentadas. Pela primeira vez em muito tempo, o socorrista parecia ter certeza sobre tudo que o atormentou pelos ultimo 3 anos.
— Asuma, você nunca foi a mansão Hyuuga... – Kakashi falou seriamente. – A sala de estar é quase um santuário ou altar, repleto de retratos de seus entes queridos que faleceram, mas justamente de Hizashi não tinha nenhuma.
— Não é meio obvio? Os irmãos estavam brigados. Hizashi morreu, mas Hiashi queria esconder isso do sobrinho.
— Será que é tão simples?! Ele estava brigado com Himiko quando ela morreu e a trata como uma santa, mesmo sabendo que não era... Por que com o irmão seria diferente?! A morte não foi impactante o suficiente para fazê-lo perdoar?! Foi isso que realmente chamou minha atenção: qual seria a extensão do ódio entre os Hyuuga?!
— Como assim? – Foi Kurenai a perguntar agora.
— Eu acho que foi apenas “bom” de mais... Hiashi acabou ficando com a empresa, com a casa, todo o resto da herança e, ate mesmo, com o filho que nunca pode ter... Tudo isso as custas da prisão e morte do irmão.
— Talvez Hizashi não tenha sido desmascarado, mas incriminado... – Asuma pensou alto. – Talvez Hiashi é que tenha dado um golpe, afinal de contas.
— Nada me tira da cabeça que Himiko descobriu sobre isso e quis se afastar do marido... Mas, claro, rescindir contratos é realmente difícil e caro, isso também conta para casamentos, não é?! Divisão total, meio a meio... E, então, um “acidente”...
— Kakashi, isso é muito serio. A filha deles também estava naquele carro. – Kurenai não sabia como se expressar ao imaginar o que estava sendo proposto.
— Meus amigos também... Eles foram baixas de uma guerra que Himiko sabia que não poderia ganhar.
— E como Obito e Rin se meteram nisso mesmo? – Asuma perguntou de forma pertinente.
— Eu... – Kakashi baixou a cabeça agora, pensativo, respondeu falando baixo. – Não vou negar minha parcela de culpa...
O policial se arrependeu do que havia dito ao ver a expressão do socorrista, mas coube a Kurenai usar palavras de consolo para tentar concertar o “erro” de tom do marido:
— Kakashi, você não tem culpa por querer ajuda-la. – Tentou conforta-lo.
— Não... Tenho por não perceber que estava sendo iludido... – Kakashi bufou e tateou o bolso interno de sua jaqueta, retirando um conhecido caderno de capa preta. – São só suposições minhas e eu não teria como provar nada... Na verdade, eu já teria desistido dessa história se não tivesse encontrado isso quando Hinata foi atropelada.
— Esse caderno... – Ela o viu colocar na mesa perto do notebook. – O caderno que descreve todo o esquema de desvio de dinheiro que estavam fazendo na empresa Hyuuga...
— Primeiro, achei que, de alguma maneira, Hinata tinha descoberto toda essa “faixada” e estava reunindo provas, escrevendo isso para organizar suas pesquisas, mas comparei a caligrafia e vi que não era ela... Então pensei se poderia ter sido a Himiko e Hinata tenha descoberto mais tarde, mas eu conheço a letra dela e sei que não é assim... Então, minha ultima teoria é que Hizashi escreveu isso da cadeia, entregou para Himiko concluir sua investigação contra Hiashi e, depois que a mão foi morta, Hinata encontrou e descobriu tudo.
— O que a fez odiar o pai e se meter em coisas perigosas para desmascara-lo e que, como sabemos, a levou ao seu agressor também... – Asuma pensou alto, novamente.
— Faz sentido para mim... – Kakashi disse.
— Não, não faz... – Kurenai o contrariou. – Se Hizashi queria se vingar do irmão, não iria se matar, não é assim que a mente de um suicida funciona...
— Não seria a primeira vez que forjam um suicídio para encobrir um assassinato, seria?!
— Oh, isso já é exagero... – Asuma falou com certa surpresa àquela insinuação.
— É?! Se eu não tivesse visto o quão bêbado o motorista que atropelou a Hinata estava, acreditaria que ate isso era um tipo de atentado.
— Ok, você está parecendo paranoico demais agora. – Kurenai o analisou.
— Eu estou apenas ligando os pontos e fazendo suposições, não é como se eu estivesse 100% certo em tudo... – Kakashi deu os ombros.
— Mas há uma forma de saber se está “meio” certo... – Asuma sorriu, teclando em seu notebook. – Nesses arquivos também devem ter os registros de visita que Hizashi recebeu, se foi ele mesmo que escreveu esse caderno então ele passou para alguém nessa hora, há uma câmera de segurança na sala de visita então, se não estou enganado... Estão aqui!
— Gravações das visitas de Hizashi?! Isso é conveniente...
— Viu como é bom ter alguns amigos importantes, Kakashi... Claro que os vídeos não têm áudio, mas se ele passou alguma coisa para alguém, poderemos ver.
— Já vi que viraremos a noite vendo “cinema mudo” da penitenciaria. – Kurenai suspirou já se sentindo cansada.
— Farei isso, chamo vocês quando encontrar o que queremos. – Kakashi se prontificou.
— Nem vai ser tanto trabalho, ele só recebeu seis visitas, nesse tempo todo... – Asuma observou.
— Alguma de Himiko?!
— Sim, uma dela, mas foi bem no inicio...
— Vamos ver.
Kakashi se sentou ao lado de Asuma que deu o play no vídeo, observando que aquela visita em especial durara menos de dez minutos, ao contrario das outras que, aparentemente, continham mais de meia hora.
A imagem começou com Hizashi sendo trazido pelo carcereiro e guiado ate uma mesa que se encontrava no meio da sala. O detento ficou sentado, esperando por um minuto a mais e, então, perceberam o homem subitamente se levantar surpreso e depois se ajoelhar no chão para receber o abraço de uma criança que chegou correndo a seus braços.
Himiko apareceu logo depois e ficou claro, tanto para Asuma como para Kakashi, que a mulher havia levado Neji para ver o pai.
No resto da visita, pouco se falaram diretamente, não trocaram nenhum gesto de afeto, nem mesmo se aproximaram, Himiko ficara completamente alheia ao lado, enquanto Hizashi devotava total atenção ao filho. E logo o tempo passou, ela se foi junto com o menino, deixando o Hyuuga ser levado pelo carcereiro de volta a cela e o vídeo chega ao fim.
— Só isso?! Não há nenhuma outra visita dela?
— Não, eu já procurei... – O policial buscou nos arquivos de novo. – Espera, tem um erro no registo da ultima visita, um tal de Tobi foi lá, mas parece que esqueceram de exigir a assinatura e as digitais...
— Como assim “esqueceram”?! – Kurenai foi irônica em seu comentário. – Sem isso não podem verificar a legitimidade da pessoa.
— “Esqueceram”— Kakashi frisou a palavra. – Vamos ver quem é esse “cara”.
O vídeo começou quase como o anterior, Hizashi chegando acompanhado de um carcereiro e se sentando para esperar sua visita, porem agora era nítido que ele carregava algo em suas mãos, poderia ser um livro, mas Kakashi teve certeza de ser um caderno...
O carcereiro também saíra da sala, o que era algo proibido, mas tendo em vista que “alguém” os estava pagando, não achou tão estranho essa iniciativa.
A chegada desta visita demorou bem mais que antes, quase cinco minutos inteiros ate alguém aparecer e mesmo antes de entrar no ângulo da câmera, o Hyuuga já ficara de pé, demostrando certo respeito.
Então veio a maior surpresa para Kakashi. O homem que chegou, cumprimentou Hizashi e se sentou para conversar com ele, pegando para si, antes que qualquer coisa, o caderno que tinha em mãos, era ninguém menos que seu melhor amigo, Obito...
E nada lhe restou além de permanecer em silencio e continuar observando daquela gravação, com o vídeo chegando ao fim com Obito partindo em posse do caderno e Hizashi debruçado sobre a mesa, com as mãos cobrindo o rosto, demonstrando um estado de tensão e desespero.
Assim que a tela do notebook escureceu, aparecendo os dizeres “executar novamente” no programa de mídia, Asuma e Kurenai olharam para Kakashi que estava ao lado ainda com o olhar fixo e sem demonstrar qualquer reação.
A psiquiatra podia ate mesmo imaginar as “engrenagens” da cabeça do socorrista trabalhando para encaixar essa nova descoberta em sua teoria paranoica. Pois ao que sabiam, Obito e Rin só se envolveram nos problemas de Himiko quando ele decidiu contar o que estava acontecendo, desobedecendo ao pedido da Hyuuga. Mas agora... parecia que seu amigo já sabia de bem mais coisas do que Kakashi poderia contar na época.
— Então... é assim... – Ele finalmente conseguiu esboçar uma reação, bufando pesado e se levantando, indo em direção a porta.
— Onde está indo?! – Asuma perguntou.
— Eu preciso pensar... – Kakashi respondeu e reforçou. – Sozinho...
— Mas agora? Vamos debater sobre iss...
— Deixe-o. – Kurenai interrompeu o marido, tentando analisar a situação profissionalmente. – Se ele disse que precisa, então um tempo não lhe fará mal...
— Eu agradeço pela ajuda de vocês ate agora. – Disse aos dois amigos antes de sair.
Kakashi continuou seu caminho para carro, com a cabeça fervilhando de ideias, teorias e muitos pesares pelas conclusões mais mórbidas que poderia ter. Não era um bom momento para debates e julgamentos, ele precisaria estar calmo para pensar direito sobre tudo o que acreditou ate agora e ver o que era, ou não, verdade.
Mas a única certeza que carregava agora era de que estava errado... Algo foi mal interpretado ou alguma coisa ainda deveria estar faltando para completar a história. Pequenos e grandes detalhes que naturalmente faziam a diferença...
E a maior das duvidas ainda o atormentava:
— Obito... O que você fez?!
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