O Diário
26 Capitulo 26
Notas iniciais
26.
Eu estava exausta... Mas, ao mesmo tempo, nunca me senti tão bem, tão realizada...
Meu coração estava em um ritmo acelerado estranho desde que tomei minha decisão, não vacilou nem um segundo depois e, nesse momento, parecia que não pararia nunca.
Não sei se estou me sentindo da forma que alguém devesse se sentir, esse ainda era um mundo meio novo para mim e eu não tinha nada para comparar com isso para saber...
Mas ainda tinha uma certeza, não haveria outro capaz de me levar a esse estado tão pleno de felicidade... Apenas ele... Naruto-kun...
Nunca pensei que seria capaz de me sentir assim, já tinha desistido de ter esse tipo de... prazer?! Essa era a palavra certa?! A palavra que representava o bem estar que amar e ser amada proporciona?
Amar... Era isso, não era?! Naruto-kun e eu fizemos Amor...
Tudo aconteceu de uma maneira um pouco mecânica no começo, mas assumo que deve ter sido culpa minha... Eu não sabia bem como agir nesse tipo de situação e confesso que fiquei com medo, lembrando de partes da minha vida que já me causaram tantos horríveis pesadelos.
Eu chamava pelo nome de Naruto de uma maneira inconsciente sempre que o sentia tocar alguma de minhas cicatrizes, mesmo sabendo que não poderia vê-las no escuro, ainda temia que as percebesse e perguntasse sobre elas. As vezes, minha voz saia em um simples sussurro esmagado por uma sensação meio afônica que sempre me calara nas vezes anteriores quando me sentia “coagida” e isso, de certa forma, se manifestou agora também, me fazendo sentir vontade de chorar em alguns momentos...
Pensei que “fazer amor”, me mudaria de alguma forma... Achei que quando acordasse, viria o mundo de outro jeito, ou me sentiria de outra maneira. Talvez sem medos, ou traumas...
Mas não... Eu ainda era só eu... Tudo que vivi e sofri ainda estava lá, gravada em minha alma como uma tatuagem, não, uma cicatriz.
O que aconteceu no passado nunca desapareceria e, sempre que eu me olhasse no espelho, veria as marcas físicas e psicológicas de meus pesadelos...
Esse era um fato que nada, nem ninguém mudaria... Nem mesmo Naruto-kun.
Entretanto...
As declarações dele que eu ouvia em sussurros... Seus beijos que as vezes pareciam dar menção de um ato inocente e sem segundas intenções... A forma simples com que ele me abraçava, acariciava e mimava... Tudo nele me tranquilizava de uma maneira que nunca imaginei me sentir com alguém...
Foi difícil deixar meu passado de lado e me concentrar apenas no presente e nem sei se posso apontar o instante em que isso aconteceu, mas bem, sim, aconteceu...
Todo cuidado e amor que Naruto direcionou a mim me fez esquecer meus medos e, por um momento, o mundo e sua realidade tão caótica foi apagada de minha mente, desfazendo as amarras da minha consciência ate chegar ao ponto de conseguir deixar que tudo ocorresse naturalmente para eu poder me entregar ao homem que amava...
Tudo foi magnifico de um jeito que eu não entendia muito bem, mas me deixava feliz por ter escolhido dividir com ele algo tão único e especial.
Sorri enquanto me movia minimamente na cama puxando o edredom para que cobrisse meus ombros expostos. Estava frio e eu ainda ouvia a chuva do lado de fora, a cama era tão quente e aconchegante que nem se quer pensei em abri os olhos, mesmo já tendo acordado a alguns minutos.
Senti-lo ao meu lado ajudava a minha preguiça, se eu acordasse de verdade, teria que voltar a pensar nos problemas e teria que continuar planejando a minha partida... Mas, com toda certeza, não queria deixa-lo agora, não depois de hoje.
Como poderia, afinal?! Como me afastar e abandona-lo, voltar a minha vida repugnante e deixa-lo sozinho para trás como se nada tivesse acontecido?!
Não, agora não conseguia nem se quer imaginar ficar sem ele em minha vida. Mesmo com tudo mais acontecendo, a única coisa que ocupava minha mente era na felicidade que partilhamos esta noite e em como eu o queria comigo para o que quer que viesse para mim daqui para frente.
Será que era estranho eu ainda estar deitada nesta cama, sentindo-o ao meu lado e fingindo que ainda dormia só para poder sonhar um pouco mais com o que aconteceu entre a gente?!
Esse era um momento nosso que não queria que passasse nunca, mas minha própria consciência me puxava para a realidade e me mostrava que eu TERIA que ir, não haveria outro jeito ou... Haveria?!
Não, não mesmo... Se eu o queria junto comigo, então deveria ser JUNTO comigo como um todo, não apenas em parte... Não poderia continuar o enganando com meu egoísmo...
Mesmo com meu passado sombrio e imutável, meu futuro ainda era só meu e eu poderia fazer o que quisesse dele. E, se eu tinha mesmo que ir embora para resolver tudo, queria que Naruto-kun viesse comigo.
Mas, só daria certo se eu tivesse coragem de revelar meus segredos e contar, não apenas sobre meus reais planos sobre a empresa de meu pai e sobre os Uchiha, mas também sobre mim mesma e tudo mais que já sofri... Caso contrário, traze-lo junto não faria sentido...
Será que seus sentimentos por mim mudarão quando ele descobrir a verdade e saber o quão “suja” e marcada eu sou?! Ou quando ele entendesse como foi importante me entregar a ele esta noite? Ou ainda, como foi difícil tomar essa decisão maluca de querê-lo comigo para sempre?!
Posso mesmo ser egoísta o bastante para pedir que deixasse tudo por mim? Largar os estudos e o emprego e sumir comigo pelo mundo ate tudo ser, de fato, resolvido? Ele aceitaria se eu pedisse por algo assim?!
Bem, ele já disse que queria estar comigo sempre e agora estamos dividindo a cama, então eu não deveria ter tantas duvidas... Deveria?!
Seria apenas uma pergunta comum com uma resposta comum, afinal mesmo uma orgulhosa – como ele me chama – não veria dificuldade em dizer uma simples frase:
“Venha comigo”
Abri meus olhos encontrando a escuridão do ambiente, conseguia ver uma ou outra luz piscando do computador e da TV, percebia levemente o contorno dos moveis distribuídos no quarto. Tudo era meio iluminado pela luz dos relâmpagos que passava pelas frestas das cortinas que cobriam a janela. Conseguia vê-lo encolhido por baixo do edredom, se movendo levemente, e me perguntava se ele estava acordado.
Eu estava tão certa agora sobre o que deveria fazer e me sentia tão feliz que não queria perder tempo para avisa-los do que pretendia para nosso possível futuro junto... mesmo assim também não queria ser inconveniente e acorda-lo.
Então uma luz diferente surgiu em cima do criado-mudo e pude ouvir um toque de guitarra de uma banda de rock que eu não lembrava o nome, mas sabia que era a favorita dele. Antes que eu pudesse pensar em atender o celular, vi o braço do loiro se esticar além das cobertas para pegar o aparelho, virando a tela para si e iluminando seu rosto. Pela falta de claridade do ambiente, minha visão foi automaticamente atraída para lá e o angulo que estava era quase perfeito para conseguir ler o nome marcado no identificador de chamada: Hiashi Hyuuga;
Por um segundo de choque e confusão, continuei parada e ele se desfez do edredom para atender, sentando-se de costas para mim.
– Alo...
Sua voz saiu meio desanimada, o que era estranho para seu jeito tão enérgico de ser, bem, ele pode estar apenas cansado, já que acabara de acordar.
– Eu sei, não queria ficar tanto tempo sem dar noticia, mas... Eu me distrai... – Ele ficou em silencio, provavelmente ouvindo o que lhe falava. – Eu sei, Hyuuga-sama, não precisa repetir.
Raramente o via tratando meu pai tão formalmente, na maioria das vezes era apenas para causar boa impressão na frente de algum sócio ou cliente importante. Mas por que estavam se falando assim agora?! Ou melhor, por que meu pai estaria ligando para Naruto a essa hora?!
Talvez já tivesse percebido que eu fugi e está atrás de noticias com meus amigos?! Não, não seria isso. Aquele Hyuuga orgulhoso nunca ligaria me procurando, poderia mandar alguém fazer isso, mas ele próprio não faria.
Decidi permanecer em silencio e prestar mais atenção no que dizia.
– Confia em mim, não é um bom momento pra falar disso. – Naruto-kun disse se levantando agora, enquanto ouvia a resposta do outro lado da linha, tentava vestir sua calça daquele jeito desajeitado dele, por estar usando uma mão só, quase caiu uma vez. – Tá bom, entendi...
Ele foi andando para fora do quarto e, assim que fechou a porta atrás de si, me levantei, colocando novamente a blusa que ele me emprestara antes. Andei silenciosa para abrir uma brecha da porta sem que percebesse, só para encontra-lo ainda falando ao celular, enquanto colocava um casaco e andava de um lado para o outro na sala.
– Pode deixar, Hyuuga-sama, eu já pensei em tudo. A Hinata não vai sumir, eu não vou deixar. – Ele se calou para ouvi-lo de novo. – Olha, ela tá fula com o senhor, sério, falar agora não adianta. Então eu vou convencê-la de ir para a casa de alguma amiga, ficar lá ate esfriar a cabeça, sabe... Depois vocês conversam e se resolvem, não acho que seja difícil.
Meu pai que estava pedindo ajuda dele para poder falar comigo?! O velho Hiashi Hyuuga nunca pediria ajuda em nada na vida, não faz sentido começar agora, muito menos por minha causa...
Talvez fosse o Naruto-kun que estava tentando fazer eu me reconciliar com ele? Mas por que?
Já contei sobre meus planos de ir embora, ele sabe que não tem volta, não tem lógica nenhuma dele fazer algo assim, ou talvez ele não queria que eu vá...?
Então o loiro parou de andar, bufando em resposta a seja lá o que meu pai havia dito e respondeu seriamente:
– É claro que eu posso fazer isso, é o meu trabalho! Eu sei manipular a Hinata melhor do que ninguém! – Parou ouvindo e riu de maneira sarcástica. – Faço isso melhor do que o senhor, não é?! Afinal, se não fosse assim não precisaria me pagar, certo?!
O que...?
Me paralisei com aquelas palavras, ouvi-las naquele contexto não parecia fazer sentido. Manipular?! Trabalho?! Pago?! O que era tudo isso?!
Não, eu não tinha entendido direito. Deveria ser algum tipo de engano, certo...?!
– É claro que não foi fácil, mas agora tudo vai ficar bem. Ela confia em mim, plenamente.
Meu coração disparou de forma torta agora enquanto minhas lagrimas escapavam sem nenhuma restrição, tudo parecia girar em frente aos meus olhos.
Presenciar aquela cena mexeu comigo de uma maneira confusa e não me deixava respirar direito. Era como se eu tivesse perdido todas as minhas força, como se não houvesse chão por baixo dos meus pés, ou como se o mundo tivesse acabado ali e eu fui enviada direto para o inferno sem que percebesse...
– Não importa onde ela escondeu esse pen-drive, aqueles arquivos logo estarão com o senhor. Só estou esperando a oportunidade certa para procurar. – Naruto disse.
Eu fiquei um pouco inerte a principio, mas ouvi-lo falando dos arquivos me fez despertar e recobrar o controle. Tentei manter a calma enquanto secava minha lagrimas, pensando e ligando os pontos lentamente na minha cabeça, a explicação mais plausível, provavelmente correta, sendo computada e entendida.
Esperei pacientemente ate que terminassem de conversar, que durou mais meio minuto, e assim que ele desligou o celular, em um movimento automático, terminei de abri a porta, encarando-o enquanto se virava para voltar ao quarto.
Quando Naruto-kun me viu, parou todos seus movimentos de uma única vez, surpreso de mais para reagir ou pensar em algo. Naqueles poucos segundos de surpresa, o vi lutando para encontrar algo para dizer, mas o que saiu da sua boca foi uma simples palavra:
– Oi...
– Oi. – Respondi simples, sem deixar minha voz vacilar.
– Eu... Eu pensei que você ainda estava dormindo... – Ele disse sem jeito e então deu um sorriu. – Por que não disse que já tinha acordado?! Eu podia ter feito alguma coisa pra gente comer...
Eu não conseguia compreender toda a extensão dos meus sentimentos nessa hora, havia raiva, tristeza, pesar e um monte de outras coisas malucas que eu não tinha cabeça para nomear corretamente. Porem, algo mais forte do que tudo crescia em meu interior conforme fui percebendo que ele queria mesmo fingir que nada aconteceu e continuar agindo daquela forma falsa.
Mas ainda assim, depois de tudo que passamos, depois do tanto que eu já sofri mantendo-o longe e do quanto que ele insistiu para ficar comigo... Eu queria lhe dar uma chance... Queria que fosse honesto comigo... Eu queria... Acreditar nele...
– Com quem você estava falando? – Perguntei.
– Eu... Ah, era só um amig...
– Naruto-kun! – Eu o interrompi firme, calando-o de imediato. Controlava minha voz para que parecesse da forma mais fria possível. – Com quem você estava falando?!
– Quem liga?! Tá muito cedo pra discutir. Vamos voltar pra cama, é melhor...
Ele se aproximou abrindo os braços como se fosse me abraçar e eu afastei dois passos para trás para evitar o contato físico.
– Você está trabalhando para o meu pai?
– Que? Que pergunta maluca é essa?! É claro que eu trabalho com o seu pai, nós dois trabalhamos. Você sabe, somos estagiários e...
– Não! – O interrompi agora, elevando minha voz, falhando em tentar me conter. – Você sabe não que é isso que eu estou perguntando!
Não... Não era o que eu queria ouvir... Era uma pergunta simples e queria que fosse honesto. Sim ou não... Era tão difícil assim?! Por que ele não podia responder sinceramente?! Mas, ao invés disso, ele estava de pé a minha frente evitando a resposta, tentando se explicar, tentando se justificar, com as desculpas e mentiras que saiam de sua boca.
Por que estava inventando historias...?
Percebi as lagrimas começarem a escapar de meus olhos novamente e eu tentei parar, tentei muito. Não queria que ele me visse assim, não queria que ele sentisse pena de mim e do quão patética eu era por ainda querer honestidade dele...
– Hinata... Eu sei que é confuso, eu nunca... – Ele fez uma pausa, pensativo, e se aproximou tentando tocar meu rosto. – As coisas não são assim... Você não entenderia, mas...
– É só uma pergunta! – Afastei-me novamente. – Por que não consegue responder?! Por que não consegue ser honesto?!
Ele ficou calado agora, quase como se não tivesse ouvido, ou como se tivesse ignorado, isso me deixou com ainda mais raiva, eu não conseguia ficar parada vendo-o ali tão indiferente, depois de tentar me enrolar. Sentia minhas mãos ficando quentes, tremendo e ansiando por derrubar esse muro de mentira e falsidade que eu pensei que já tinha se quebrado e que, num instante, reapareceu entre a gente mais rígido do que nunca, não mais por minha causa, mas agora pelas ações dele.
– Desde quando? Desde quando isso vem acontecendo? – Não me contive, bati em seu peito com os punhos fechados, mas as emoções me deixava fraca de mais para causar algum dano real. – Desde quando, Naruto-kun?!!
– Sempre... – Ele me segurou facilmente pelos pulsos falando serio pela primeira vez. – Desde sempre, Hinata... Eu só te conheci por causa do seu pai. Ele me contratou para ser seu amigo, para te vigiar.
Sentir-me fraca agora... Imaginar era algo menos doloroso do que ouvir as palavras saindo de seus lábios revelarem o real motivo de toda sua aproximação e insistência para comigo. Eu praticamente via os tantos momentos vividos juntos, nossos passeios, nossos encontros, as festas em que nos esbarrávamos um no outro por mera “coincidência”...
Finalmente entendia porque ele era tão compreensivo com minhas recusas, ou sempre era paciente em nossas brigas e se mostrava tão prestativo, atencioso, ou mesmo “apaixonado”. E eu, boba, achava que era por algum tipo mágico de sentimento?!
Não, ele, de verdade, sempre estivera lá para mim... Estudando juntos para os cursos... Os ensaiando para a peça da escola... Trabalhando ate tarde na empresa, em algum projeto.
Sempre lá... Me vigiando... Me manipulando... Me usando...
Ofegando e com uma imensa vontade de chorar, mas, ainda dominada pela raiva, não me permiti derramar mais nenhuma lagrima sequer, não queria me deixar levar por esse sentimento que crescia em meu peito. Respirei fundo para me conter.
– Começou quando...
– Não quero saber! – Eu me afastei, andando de um lado para o outro na sala. Não tinha um lugar para ir, mesmo assim não queria ficar parada perto dele para ouvir suas desculpas.
– Me deixa explicar! – Ele falava vindo atrás de mim.
– Não precisa. Eu já entendi tudo!
Ele continuou falando mesmo assim, mas eu me recusei a ouvir de tal forma que meus ouvidos praticamente pararam de captar a sua voz. Não era de proposito, mas a única coisa que prendia a minha atenção era o pensamento de que cada uma das conversas e cada momento era falso. Cada sentimento irreal... Tudo era uma grande mentira...
Eu era apenas uma garota manipulável que estava no caminho dos planos do meu pai e precisava ser distraída e Naruto foi contratado para isso...
– Olha para mim! – Ele me pegou pelos ombros, me forçando a encara-lo. Odiando ser ignorado, Naruto-kun perdeu a paciência com a minha frieza. – Você tem ideia de quantos sapos eu já engoli por sua causa! E agora, eu erro uma vez e você nem quer me ouvir?!
– Eu não te pedi nada! – Distanciei seus braços com um tapa leve das minhas mãos e andei de costas para me afastar.
– Não, não pediu! Você nunca pede nada! Orgulhosa desse jeito, nunca admite nada! Resolve tudo sozinha, não é?!
– Eu estou aqui! Eu vim te procurar! Eu...
Minha fala sumiu agora quando finalmente me dei conta do que mais envolvia essa descoberta e como essa “traição” inesperada me atingia de uma maneira mais obscura e profunda.
Os sentimentos misturados de antes não tinha me deixado pensar por esse lado... Aquilo que conversamos essa noite, as coisas que ele me disse... O que fizemos... Tudo...
Era mentira também...
– Eu me entreguei... Eu deixei que você me fizesse sua...
Todos os meus sentidos pareciam ter sido incapacitados... Tentei conter novamente minhas lagrimas, mas desta vez foi em vão, não tinha forças para mais nada e deixei que passassem pelo meu rosto sem qualquer controle. O ar desapareceu de meus pulmões também, me deixando um pouco tonta enquanto sentia um nó no estomago dando voltas desordenadas.
– Ei...
O ouvi me chamando, mas não disse nada, nem o olhei, apenas baixei meu rosto e me escorei no sofá mais próximo.
– Eu nunca... – Já me sentia tão inútil que nem conseguia mais formar qualquer frase. – Nunca devia ter confiado...
– Hinata, não... – Ele tentou rebuscar um tom mais calmo. – O que aconteceu essa noite não muda... Nossos sentimentos, Hinata... Fizemos amor...
– Amor?! Foi só mais uma forma de me “manipular”... Como aqueles beijos, como aquelas palavras, aqueles toques...
Ele veio na minha direção, mas eu só percebi quando ele tentou por a mão no meu ombro, provavelmente ele só queria me fazer encara-lo como antes, mas eu reagi “diferente”, não sei descrever como me sentia, era maior do que a raiva, diferente de medo, e muito mais intenso do que qualquer pesar.
– Não me toque! – Eu me levantei encarando-o, finalmente conseguindo me recompor o suficiente para enxugar minhas lagrimas.
– Hinata...
– Eu... estou com nojo...
– Você tem nojo de mim?! É isso?!
– Não! Tenho de mim! Do que eu fiz! De tudo que planejei!! – Eu gritei, não queria, saiu em um impulso.
– Que?! – Ele me encarou ainda mais raivoso que antes.
– Eu me entreguei para você, Naruto-kun! Tem ideia do que isso significou para mim?!
– Foi importante para mim também...
– Importante para o seu trabalho! Meu pai sabe dos seus métodos de manipulação?! Ou dormir comigo é parte do seu pagamento?!
– Não fale assim!
– E como você quer que eu fale então?!
– Para! – Ele gritou agora, furioso. – Para de se fazer de vitima! Você não estava com nojo a duas horas atrás quando estava gemendo na minha cama!
– Você não tem ideia de como eu estava me sentindo antes! Não entende como me sinto agora!
– E você me entende?! Não, né?! Nem me deixa explicar nada!
– Eu confiei em você! Me declarei! Escolhi você para ter a noite mais especial da minha vida!
– Do jeito que está falando ate parece que você era virgem!
Encarei-o surpresa agora, sem qualquer ação imediata, se ele tivesse me batido ou me esfaqueado doeria menos do que ouvi-lo falando aquilo. Não conseguia engolir aquele nó que se instalou em minha garganta para poder responder a altura, estava petrificada por meus próprios temores e, por fim, me bastou apenas ouvir enquanto ele prosseguia furioso.
– Fica falando que se entregou para mim, mas pra quem mais você se entregou, hein?! Fez um trato com o puto do seu “noivo” pra conseguir ajuda nos seus planos e o que você DEU em troca?! – Naruto continuou alterado, se aproximou gritando enquanto me encarava feroz. – Foi tão bom com ele quanto foi comigo?! Você chegou a gritar o nome dele como gritou o meu hoje?! Não sentiu nojo com ele, sentiu?! Responde Hinata!!!
Desisti de me conter, deixando-me dominar por esse caótico e crescente sentimento que vinha brotando sem que eu entendesse, se apossou de mim de tal forma que tudo que fiz a seguir saiu em um espasmo do meu subconsciente.
Envolvi minha mão com todo meu ódio e acertei o rosto dele em cheio, com um movimento rápido e forte que, com certeza, tirou sua linha de raciocino do lugar, calando cada uma de suas ofensas.
Encarei-o ofegante ainda raivosa de mais para pensar no que tinha acabado de fazer, ficando parada encarando sua expressão abobada e descrente, o retrato de alguém que nunca esperava um tapa meu como resposta. Os segundos passaram com nós dois praticamente petrificados e logo conseguia ver uma marca vermelha no formato dos meus dedos se formando em seu rosto.
Fechei os olhos, respirando fundo uma única vez para, assim, conseguir me recompor e sair andando. Meu coração doía, parecia que toda a dor emocional estivesse se transformando em dor física. Isso me deixava um pouco letárgica, mas me obriguei a ser forte, pois não queria vacilar na frente dele.
– Hinata?!
Pude ouvi-lo me chamando, mas o ignorei enquanto me encaminhava para a pequena lavanderia que nada mais era do que um cubículo com uma pia, uma maquina de lavar, uma secadora e um varal de fio pregado na parede.
– O que vai fazer? – Ele insistiu.
Abri a tampa de um dos aparelhos, bufando para manter-me fria e distante do olhar que eu sabia que estava direcionado a mim. Peguei minha roupa que o próprio Naruto tinha posto para secar na maquina após a chuva que tomei para chegar aqui, quando ainda pensava que valia a pena...
Se eu queria mesmo sair da cidade, aquilo era tudo que eu poderia levar, não tinha como voltar em casa para pegar outras, não se o meu pai já soubesse que pretendia fugir.
– Eu estou falando com você! O que pensa que está fazendo?! – Ele me agarrou pelo braço quando me viu juntando minhas coisas.
– Me larga... – Empurrei seu braço para que o afastasse de mim. – Não te interessa o que eu faço ou deixo de fazer!
Com aqueles montes de peças de roupa em meus braços passei por ele, voltando a sala, indo agora em direção ao banheiro onde minha mochila estava. Ainda sentindo Naruto e toda sua raiva seguir meus passos.
Encontrei minha mochila jogada no mesmo canto perto da pia onde eu havia deixado, verifiquei brevemente as minhas coisas só para constatar se ele não tinha tentado pegar nada do que eu guardava ali e depois tentei socar minhas roupas para dentro, mas percebi que não caberiam todas desse jeito e eu não estava com cabeça para dobrar as peças maiores para conseguir fechar o zíper.
– Vamos conversar... – Ouvi Naruto de novo, ele me observava da porta.
– Conversar sobre o que?! Você já não disse tudo que queria?! – Disse imitando o mesmo tom raivoso e impaciente que ele usava.
– Onde está indo?
– Embora!
Tinha que pensar racionalmente, era a única forma de prosseguir com meus planos. Eu posso ignorar meus sentimentos distorcidos, já fiz isso uma vez, por que não poderia de novo?! Colocaria as roupas que coubessem na mochila, vestiria essas de frio e deixaria as outras para trás, poderia comprar mais quando fosse seguro usar o meu cartão.
– Como assim vai embora?! Tá caindo uma tempestade lá fora! – Ele veio na minha direção agora. – Você vai acabar doente ou...
– E você se importa... – Disse irônica enquanto terminava de fechar os bolsos.
– Se te acontecer alguma coisa...
Ele deteve suas palavras por um momento, também fez uma leve ameaça de tentar pegar as minhas mãos, mas, parecendo saber minha reação, se parou para evitar uma rejeição.
– Hoje você disse que me amava! Disse que queria proteger seus sentimentos... Isso teve significado, não teve?!
Significado?! Ele só podia estar querendo me provocar... Não sei qual foi a intensão dele ao falar aquilo, mas só conseguiu despertar minha fúria novamente. Aquela raiva em um nível mais alto e horrível que eu acumulei e extrapolei em seu rosto, voltou a fermentar em meu interior, agora que eu já sabia o que era, conseguia lidar melhor com isso, embora não via nenhum problema em acerta-lo com outro tapa se precisasse. Sério, se eu ouvisse outra de suas declarações estupidas, seria isso que aconteceria, e sem nenhuma culpa da minha parte.
– Sai daqui, Naruto-kun!
– Hinata, você disse que só eu importava pra você! Que você só tem a mim agora, lembra?!
– Então eu estou sozinha, não estou?! – Falei ríspida. – E sou muito orgulhosa pra admitir meus erros... ou para superar as consequências...
– É isso?! Tá zangada porque tudo que eu falei é verdade, não é?!
– Sai daqui! – Disse, mas ele me encarou serio e se manteve parado a minha frente, tão solido quanto um poste. Tive receio por sua postura, mas mantive minha frieza enquanto criava coragem para reforçar minhas palavras. – Naruto-kun, eu vou me trocar. Me deixa sozinha... – Nos encaramos e ele continuou parado, então tive que rebuscar um tom mais ameno. – Sai, por favor...
Ele ainda não se moveu num primeiro momento, mas depois bufou naquele gesto corriqueiro que usava para dispersar a raiva e então saiu de cabisbaixo, fechando a porta atrás de si.
Ele realmente acha que tem algum direito de pedir algo? Poderia me ofender com aquelas palavras, então depois viria simplesmente me chamar de volta que eu atenderia, como se nada tivesse acontecido?! Achava que poderia usar o meu corpo... e depois vir conversar normalmente...?
Eu me sentia tão... tão... Não havia palavras que pudessem descrever... Meus sentimentos ou a dor que eles me causavam... Acho que estava mesmo passando mal, ainda com aquele aperto estranho no coração e com dificuldade para respirar. Talvez nem mesmo o reflexo de um espelho partido em mil pedaços conseguisse representar melhor o estrago que tinha se tornado o meu interior.
Como eu estava me aguentando de pé era um mistério ate mesmo para mim, mas ainda conseguia ser um pouco forte para continuar resistindo e mantendo essa pose de “Hyuuga fria” quando na verdade tudo que eu queria era me sentar no chão, abraçar meus joelhos e chorar em posição fetal. Teria visão mais patética do que essa?! Não, acho que não.
As lagrimas caíram enquanto eu lutava contra o botão da calça jeans que decidira vestir, estava tendo problemas para fechar por causa do nervosismo do momento.
Quando finalmente consegui me vestir adequadamente, coloquei minha mochila nas costas e tentei, mais uma vez, respirar fundo antes de abrir a porta para sair do banheiro. Fiquei aliviada ao perceber que ele não estava no quarto, ainda assim, andei um pouco desconfiada quanto adentrava no cômodo.
Olhei por um segundo para a cama desarrumada que a alguns poucos minutos atrás eu estava dormindo confortável e preguiçosamente sem querer ir embora nunca, agora só de lembrar no que aconteceu ali...
Suspirei indo para sala, surpresa por Naruto não estar lá também. Busquei o local com os olhos e encontrei meus tênis encostados perto da porta e fui ate lá, antes eu os tirei porque estavam encharcados, mas agora isso não fazia a menor diferença, iria embora mesmo que fosse descalça.
– Tá mais calma agora?!– Naruto apareceu na porta da cozinha.
– Você está?! – Estava abaixada amarrando meus cadarços e nem me dei ao trabalho erguer o olhar.
– Podemos conversar ou não?! Quero me ouça o meu lado...
– Eu já ouvi o seu lado! Já ouvi tudo que pensa.
– O que eu disse antes, aquilo que nós dois dissemos... não deveria... – Ele se calou entrando na minha frente, impaciente com minha falta de atenção. – Hinata, quer parar um segundo e me ouvir?!
– Pra que?! – Me levantei o encarando. – Pra você me manipular de novo?! Pra você me fazer acreditar que alguma coisa entre nós foi real?
– FOI REAL, HINATA! O que fizemos naquela cama foi real! Os sentimentos que dividimos são reais! Nós dois nos amamos e qualquer outra coisa não deveria importar!
– “Não deveria importa”?! – Ri de suas “palavras de amor” sem qualquer graça, só conseguindo ver a hipocrisia que havia ali. – Então não importa se eu era virgem ou não?! Ou de quem eu sinto nojo?! Ou de como foi minha primeira vez?!
– Tudo que vivemos não pode ter mudado só com meia dúzia de palavras idiotas.
– Não é por causa de meia dúzia de palavras! É porque você não entende e nunca vai entender! É porque eu não quero que você me entenda...
Gritei com minha voz saindo em um tom sério que com certeza o intimidou, ele não parecia saber o que responder e eu prossegui, dominada pelos caóticos sentimentos que emanavam de mim.
– E, sim, foi exatamente do jeito que você falou... Eu fiz um trato, paguei da pior forma e carregarei esse arrependimento pelo resto da minha vida, mas e dai...?! Isso “não importa” também...
Vi seu olhar se transformar, voltando com aquela expressão tão raivosa e eu sabia que ele falaria algo, mais de suas verdades ofensivas sobre mim que tanto machucavam. Eu não queria ouvir mais nada dele, era pior do que enfrentar essa tempestade...
Abri a porta e deixei-o para trás, descendo as escadas e voltando a rua meio alagada, ao vento gelado e a chuva cujas gotas davam para sentir na pele. Eu ainda não tinha pensado em para onde eu iria agora, mas tinha algum dinheiro guardado e se conseguisse achar um taxi, logo estaria longe o bastante. Seria meu primeiro objetivo, ir para o parque tentar achar uma condução e depois sumir dessa cidade. Se antes eu duvidava se deveria voltar quando tudo acabasse, agora eu tinha certeza que não queria mais por os pés aqui.
A chuva pesada tornava a visibilidade quase nula, mas mesmo com os trovoes abafando a maioria dos sons ao redor, ainda era capaz de ouvir seu grito.
– Hinata!
Ele segurou meu ombro com uma certa força, impedindo minha caminhada de supetão e me puxando para trás, onde ele estava, de maneira bruta. Doeu. O jeito como ele me prendeu com o aperto dos seus dedos machucaram de tal forma que, no segundo que virei para encara-lo, quase pensei que veria outro alguém no lugar do Naruto-kun. Mas, não, era só ele e estava visivelmente irritado.
– Não venha atrás de mim! – Minha voz saiu em um tom de ordem proposital, enquanto me libertava com um puxão.
Quando vi a expressão de seu semblante, soube que ele não me obedeceria. Naruto não era uma pessoa que desistia fácil e parecia que agora ele queria brigar e não ia descansar ate realmente brigarmos.
Por isso, assim que fiquei livre, corri para me afastar.
– Espera! – Ele me alcançou rápido e logo fui agarrada pelo pulso.
– Me solta! – Puxava com força, mas ele acabou por segurar o outro também.
– Não! Está chovendo muito! Vamos procurar abrigo e conversar!
– Eu não quero conversar com você! – Soltei meus dois braços com um puxão só, mas ele me segurou novamente pelos ombros.
– Eu me arrependi do que eu disse, Hinata!
Um de seus braços enlaçou minha cintura enquanto o outro guiava sua mão para que segurasse meu rosto, sendo impossível desviar o olhar, tentei me sacudir e espernear, mas ele era mais forte e não permitiu que nossos corpos se separassem.
Parecia que ele queria mais do que apenas impedir que eu fugisse dele e comecei a ficar desesperada quando minha mente, já tão perturbada, começou a imaginar quais eram suas intenções... Eu não iria lidar com isso de novo, não com o Naruto-kun... Não com ele...
– Não está ouvindo?! Eu estou arrependido de tudo que te falei! MUITO arrependido do que eu fiz... Vamos conversar, por favor! – Ele tentou aproximar seu rosto do meu o que atiçou ainda mais minha paranoia.
– Não! – Virei o rosto, me debatendo para me livrar da prisão que eram os seus braços. – Me solta!
Então o empurrei com força e senti seus braços se afrouxarem, talvez de proposito, tentei me afastar, mas, já no primeiro passo, pisei em falso no meio fio e cai de costas no chão.
– Desculpa, eu... – Ele vinha ate mim, pronto para me pegar novamente.
– Não! – Me levantei sozinha, desesperada para distanciar de suas mãos. – Não me toca!
– Deixa eu te explicar, por favor! Eu sei que você vai entender, é só se acalmar um pouco e...
– Não quero explicação! Eu quero você longe, entendeu?!
– Hinata, eu não queria ter gritado! – Ele segurou minhas mãos agora, tão firme quanto foi com meus pulsos. – Nem ter falado daquele jeito com você, então, por favor...
– Eu te odeio!
Ele ficou sem reação pela minha ultima frase, soltando seu aperto de forma mecânica. Um trovão iluminou o seu rosto por um segundo e eu pude ver claramente com sua expressão de dor sombria que eu nunca tinha visto na face de mais ninguém. Agradeci inconscientemente por estar chovendo, assim ele não perceberia minhas lagrimas e talvez eu as dele.
E agora com sua repentina desistência, eu pude correr novamente, o mais rápido que pude, para ir o mais longe que fosse possível.
Tudo para esquecer-se dos seus olhos azuis e seu sorriso cativante que sempre me encantavam, cada palavra e cada declaração que saiu de sua boca, todos os momentos que passávamos juntos... Esquecer as lagrimas que já derramei por ele, as brigas e insultos que trocamos... E essa ultima expressão de sofrimento que eu causei nele...
Tudo para esquecer-se de uma vez por todas dele... Naruto Uzumaki...
Então um clarão me encobriu e eu ouvi sons foscos de buzina e freios... Depois tudo se apagou...
***
Naruto estava parado encarando o teto enquanto esperava... Havia contado tudo sobre seu passado com Hinata... Desde quando foi contratado como “guarda-costas” dela ate a noite da briga e do acidente. Contou de como foi pedir emprego para Hiashi, que já fora um antigo amigo de negocio de seu falecido pai, e acabou por ser abordado com sua proposta... Explicou como o próprio Hyuuga o ajudou a ganhar uma bolsa de estudos no colégio a qual a garota pertencia... Disse ate mesmo quanto ganhava por espia-la e vigia-la e quais cursos pagou com esse dinheiro, sempre visando seu sonho de reerguer a empresa da família.
Ele falou de como lutou muito contra a atração que sentia por ela, por saber o quanto era errado deseja-la tendo este “trabalho” em seu currículo, mas que acabara por se entregar aos sentimentos quando percebeu que nada era mais forte e importante do que o que sentia... Contou-lhe como ficar com ela se tornara seu principal objetivo, seu sonho...
Agora esperava a resposta dela, mas, ansioso como sempre, já enlouquecia com sua demora, pois a garota já estava calada e pensativa a algum tempo, que para ele parecia uma eternidade.
– Hinata, por favor, fala alguma coisa... – Naruto pediu. – Vai me deixar maluco com todo esse silencio.
– Eu... – Ela falava baixo, com a voz um pouco tremula. – Eu acho que me lembro...
Eles se olharam por mais meio segundo e então a garota se levantou, passando por ele e indo em direção a saída. Naruto foi rápido ao entrar na frente da porta impedindo a passagem.
– Não, não... Escuta, por favor... Hinata... Não foge de mim, por favor...
– Você não entende como é recuperar esse tipo de memória! Comigo não é só lembrar, é SENTIR de novo como se tivesse acabado de acontecer. Cada grito, cada ofensa, tudo de novo na minha cabeça!
– Você disse que me ouviria... Você prometeu... – O tom dele era quase uma suplica. – Por favor...
Houve um curto momento de silencio, enquanto a garota parecia ponderar uma decisão, e Naruto aproveitou esse instante, por mais breve que fosse, para falar:
– Quando tudo começou, eu pensava que Hiashi era só um velho rico que queria alguém de olho na filha mimada dele... E eu?! Eu era um moleque que só ligava pra dinheiro e queria me dar bem... É, eu era assim! – Naruto falava de forma firme com os olhos fixos nos de Hinata. – Mas com o tempo tudo foi mudando... EU mudei... Fui conhecendo você, descobrindo o quando você era incrível e do quanto eu gostava de estar por perto...
Naruto se aproximou receoso e cuidadosamente colocou as mãos em volta dos ombros de Hinata, de forma lenta e respeitosa. Ela não o afastou como antes, porem baixou o olhar para evitar o dele.
– Eu queria contar a verdade, a cada segundo... Mas eu tinha medo de estragar tudo, medo de não ser perdoado... Medo de te perder... – Naruto suspirou decidindo o que dizer. – E foi exatamente isso que aconteceu... Eu perdi você por meses, em coma naquele Hospital... Mas agora você está aqui de novo, é quase como uma segunda chance, não é?!
Hinata recusou sua ultima frase, respondendo uma seria negativa com a cabeça, mas o rapaz não se intimidou com o gesto e prosseguiu firme com sua declaração, disposto a ir ate o fim com as palavras que escolhera.
– E, sim, eu cometi muitos erros e me arrependo de um monte de coisas, mas não posso me arrepender de ter aceitado a oferta do seu pai... Porque, se não fosse isso, eu nunca teria te conhecido... E te conhecer foi a melhor coisa que já me aconteceu...
Ela ergueu a cabeça agora encarando-o com os olhos úmidos e Naruto via o quanto ela se segurava para não chorar.
– E eu me apaixonei...
Ele falou baixo e fechou os olhos proferindo as próximas palavras como se fosse mais que um pedido, mas um desejo que queria que se realizasse.
– Por favor, Hinata... Diz que você entende isso...
– Eu... Eu entendo...
Naruto a ouviu se pronunciar e abriu os olhos, um pouco espantado, então sorriu por um segundo, sentindo-se aliviado pela resposta dela. Mas, quando tentou abraça-la, Hinata deu dois passos para trás.
– Entender e perdoar são coisas diferentes...
– Hinata...
– Eu não posso, Naruto-kun... Simplesmente, não posso...
***
Neji vinha andando com a pasta cheia de papeis nas mãos, tentando encontrar a pessoa que os pediu, não se lembrava de ter visto um rosto, muito menos sabia o nome da pessoa.
Foi quando avistou a prima vindo de um corredor, Naruto a seguia a alguns metros de distancia, porem logo percebeu um contraste entre os dois: A garota andava em um ritmo acelerado incomum, quase como alguém que estivesse com pressa ou atrasada para algum compromisso; Quanto ao rapaz, estava lento de mais, dizer que estava arrastando os pés não seria um exagero, andava sem qualquer vontade...
– Ei, como foi o...
O Hyuuga foi se encontrar com eles, porem sua tentativa de puxar assunto foi bruscamente interrompida pela garota que simplesmente o ignorou e continuou andando.
– Hinata-sama, o que houve?! – Ele perguntou preocupado, notando como ela se assustara quando tentou tocar em seu ombro para chamar sua atenção e foi quando pode dar uma boa olhada na expressão que seu rosto carregava. – Ei, calma... Você estava chorando?!
– Não é nada, só quero ir embora.
– Embora pra onde?! Hiashi-sama ainda está...
– Neji... – Naruto chegou ate eles. – Vai com ela, por favor...
– Claro que eu vou, mas... – Neji iria fazer outra pergunta, mas percebeu Naruto fazendo um sutil sinal negativo com a cabeça e ele, entendendo, se calou, ainda confuso. – Hinata, me espera no elevador, ok?! Eu não vou demorar.
O rapaz esperou ate a prima estar bem distante para então encarar o loiro, fez questão de demonstrar em seu olhar o quanto esperava por uma boa resposta diante daquilo.
– Naruto...
– Neji, não faz nenhuma pergunta, por enquanto. Hinata não tá legal pra conversar, vai ser melhor deixar ela quieta por um tempo...
– Vocês dois brigaram de novo?!
– Só leva ela pra casa, por favor... Eu mesmo te explico tudo depois...
– Entendo, quer contar o seu lado da história primeiro, certo?
– Você ainda vai querer me matar, não importa quantos lados dessa historia eu conte...
O Hyuuga preferiria ser mais tranquilo e, talvez, levar esse assunto descontraidamente, mas, percebendo como Naruto e Hinata estavam tensos e sérios, sabia que, o que quer que tenha acontecido, era grave e ele teria que agir tal como a situação lhe exigia.
– Olha, Naruto, a Hinata-sama e você salvaram a minha vida, literalmente, e eu devo muito a vocês dois... Mas se você fez alguma coisa com ela e não vou...
– Eu sei... – Naruto disse simples. – E acredite, eu vou merecer...
Os dois se encararam estáticos e, por mais de meio segundo, era como se eles fossem estatuas decorativas do ambiente, enquanto o movimento dos funcionários em volta continuava normalmente.
– Naruto! Onde estão minhas copias?! – Ouviram alguém que, mesmo próximo, falava alto e foi o que os despertou de suas respectivas analises.
– Vou leva a Hinata-sama para casa... – Neji disse enfim, entregando a pasta com as copias que fizera para o loiro. – E não vou questiona-la sobre o que aconteceu, vou espera sua explicação...
– Obrigado.
– Você é meu amigo e meu futuro cunhado, então merece o beneficio da duvida, certo?
Naruto sorriu minimamente em resposta ao voto de confiança que Neji depositara. Depois esticou o olhar para além do amigo, observando o caminho em direção ao elevador ate chegar onde Hinata esperava pelo primo. A garota estava escorada na parede de costas para a sala e parecia observar a paisagem da janela próxima.
O loiro bufou o ar para fora, pesando novamente sua consciência.
Será que ele merecia mesmo uma segunda chance?!
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