O Diário
11 Capitulo 11
Notas iniciais
11.
Doía tanto e estava tão frio... A melhor coisa que fiz foi sentar nesse banco e me cobrir com meu casaco, eu não queria sair dali tão cedo, não importa quantas vezes o sinal tocasse.
Suspirei me encostando para trás e meu ombro reclamou do contato com a madeira. Será que eu merecia mesmo tudo isso?! Ele disse que merecia... Quando iria acabar?! Quanto tempo mais eu preciso?!
– Então era aqui que você estava se escondendo?! – Eu ouvi e então olhei para frente.
– Naruto-kun... – Eu o encarei sarcástica. – Veio aqui me “tacar pedras” como os outros?!
– Não... Meu teto é de vidro também. – Ele sorriu como sempre sorria para mim e se sentou ao meu lado. – Sinto muito por aquele showzinho no refeitório, foi muito mal o que a Shion fez...
– Eu não me importo nem um pouco com o que a Shion faz ou deixa de fazer. – Eu disse simples com um tom baixo e desanimado. – Não ligo para nenhuma delas...
– Qual é, Hinata, Sakura-chan não é como as outras! Aposto que já esta arrependida e vai se desculpar a qualquer hora.
– Eu sei disso... Mas não acho que ela precise se desculpar, talvez ela esteja certa...
– Cara, o que te deu hoje?! Com esse seu animo ate eu vou ficar deprimido. – Ele cercou um dos braços ao redor dos meus ombros.
Era um simples meio abraço, comum entre a gente, tal como muitas outras formas de afeto que nossa amizade nos permitia trocar. Tão caloroso e simpático, gestos que, para mim, significavam mais que apenas a nossa cumplicidade.
Aquilo sempre me consolava e acalmava. Mas não hoje...
Seu braço me apertou um pouco mais e senti dor no meu ombro de novo. Foi essa dor que me despertou e me fez relembrar tudo que acontecera na noite anterior e quase me senti daquele mesmo jeito enojado de antes. Como se não fosse o Naruto-kun me tocando e sim ele...
– Para, Naruto-kun... – Eu afastei sua mão com um tapinha leve, mas desesperado.
Esse foi o meu erro: Quando ele desfez o abraço, meu casaco se desajeitou deixando o hematoma do meu ombro a vista.
– Por q... – Naruto desistiu de perguntar algo quando viu o ferimento, seus olhos estavam fixos com uma expressão quase de descrença. – Hinata, você brigou com alguém?! Foi a Shion ou as amiguinhas dela? Pode me dizer quem foi que eu vou tirar satisfação agora mesmo!
– Não foi ninguém. – Ajeitei minha blusa cobrindo meu ombro novamente.
– Como assim?! Você não se machucou assim sozinha!
Me levantei ficando de costas, mentir para ele sempre era difícil, mas fazer isso olhando em seus olhos era impossível. Não era só sensação de o estar enganando, mas era como admitir meu egoísmo e minha falta de consideração. Mentir me fazia se sentir como uma pessoa horrível.
– Olha, eu estava com pressa hoje de manhã, acabei caindo da escada de casa.– Tentei controlar minha voz para que ele não percebesse a mentira. – Não vi que o cadarço do meu tênis estava desamarrado. Foi só um acidente.
– Você diz “só”?! Cair da escada é serio e isso está bem ruim, Hinata. Vamos para enfermaria ver se você não quebrou nada! – Ele disse já segurando minha mão e me puxando para o corredor.
Não, essa era uma péssima ideia.
Qualquer leigo poderia acreditar na minha mentira, mas a enfermeira obviamente perceberia a diferença entre um ferimento de uma queda e um provido de uma surra. E isso não era o pior, Naruto viu apenas a ponta do Iceberg, enquanto a funcionaria da escola iria querer analisar meu corpo por completo. Ela certamente descobriria tudo.
Essa era definitivamente a pior ideia que ele poderia ter.
– Para de se meter em tudo! – Soltei minha mão da dele e cruzei os braços. – Se eu quisesse ir a enfermaria, eu já teria ido.
– Mas qual é o seu problema?! – Ele parecia mais preocupado do que zangado.
Tive que me sentar no banco de novo, aquela péssima sensação zunindo na minha cabeça. Cobri meu rosto com as mãos e tentei respirar fundo, mas o nó em minha garganta quase me fizera engasgar. Eu não queria passar por outra discussão, depois de tudo que aconteceu, não tinha mais força psicológica para isso.
– Você não confia em mim? – Ele perguntou e eu senti sua mão tocando meu rosto. Levantei a cabeça e encontrei-o ajoelhado a minha frente. – Me fala o que está errado...
– Eu apenas... Não sei... – Fiquei extremamente tentada a contar tudo a ele, mas me mantive calada ate ter algo não comprometedor em mente para falar. – Estou cansada das pessoas tomarem as decisões por mim. Cansada de ser forçada a fazer coisas... Eu queria apenas sentir que tenho o controle da minha vida.
Eu tinha vontade se chorar, mas não, nunca poderia, não na frente dele. Me segurei firme, encarando-o enquanto ele pensava sobre minhas palavras.
– E o que você quer fazer? – Ele perguntou simples e eu não soube o que dizer, na verdade, não entendi o sentido da pergunta. Ninguém nunca tinha me perguntado, ou melhor, nunca perguntou e se importou com a resposta. Naruto-kun percebeu minha confusão e reforçou as palavras. – Viajar o mundo?! Dar uma festa?! Ficar de porre em um bar?! Fazer uma tatuagem?! Sair da cidade?! Assaltar um banco?!
Balancei a cabeça negativamente, de fato, não queria nada daquilo. Naruto-kun apenas sorriu:
– O que você quer fazer nesse exato momento, Hinata?!
O que eu queria era...
Segurei a mão dele que estava em meu rosto e me aproximei tocando minha testa na dele, ele me olhou por um tempo e depois fechou os olhos.
Eu queria mesmo um...
Mas me senti mal comigo mesma. A verdade é que eu sentia nojo da forma que eu estava agindo, mentindo e enganando enquanto ele era sempre tão verdadeiro.
No fim apenas o abracei, aconchegando meu rosto em seu ombro. Torci para que ele não retribuísse o abraço, pois, se ele tocasse em minhas costas, eu sentiria dor de novo e iria involuntariamente querer me afastar. Felizmente, ou não, ele não me abraçou de volta, obviamente meu gesto o pegou de surpresa e ele demoraria para reagir.
– Queria sumir e ir para um lugar que ninguém me conheça e recomeçar...
– Então a gente faz isso. Sumimos, pelo menos por hoje.
– Como assim?!
– Que tal a gente ligar o “foda-se” e esquecer tudo?! Essa escola idiota e os alunos riquinhos e mimados; a sua empresa Hyuuga e o meu estagio; seu pai, meu padrinho e qualquer outra pessoa que atrapalhe; A gente manda todo mundo pro inferno e sai zoando por ai. O que acha?!
– Acho que você vai perder o emprego e a bolsa se fizer isso.
– Vai valer a pena o risco... – Eu o ouvi rindo e então ele me separou do abraço para me encarar. – Hoje somos só nós dois e é você quem da as ordens, Hinata!
Minha resposta foi apenas um sorriso e foi a primeira vez que sorri de verdade desde a pior noite da minha vida.
***
Hinata não conseguia dormir, após ter seu sono invadido por aquele homem tantas vezes, decidiu se manter desperta, mesmo com o dia sendo tão agitado.
Em um rápido cochilo fora atacada por seus medos novamente, foi rápido e não se lembrava de fato do que se tratava seu novo pesadelo, sua mente o apagou assim que abrira seus olhos espantados, mas sabia que era com ele e que foi horrível.
Seu corpo já não doía mais, os remédios finalmente parecendo fazer efeito, porem seu joelho continuava inchado e incomodava bastante quando ficava muito tempo parado na mesma posição. Então, sem querer sair da cama, ela se deteve a ficar ouvindo as musicas armazenada em seu celular, principalmente das faixas de clássicos ao piano, que ela descobrira que adorava, e escrevendo em seu diário.
Isso ate recuperar a pequena lembrança daquela conversa. Ela não sabia o que tinha acontecido, mas tinha alguma ideia e podia imaginar o motivo de estar machucada e o porque de não contar nada a Naruto...
Mas o que realmente chamou sua atenção foi aquele momento com ele, bem antes de abraça-lo. Surpreendeu a si mesma descobrir que tinha vontade de beija-lo naquela hora e teve a leve impressão de que ele queria também.
Levantou-se, afastando esse pensamento. Por que pensar algo assim logo agora que sabia que Naruto não queria nem vê-la mais?! Era tão ridículo.
Andou por seu quarto, vendo suas coisas, tentando se lembrar e se distrair. Tudo era tão pessoal, parecia pertencer a uma garota feliz. Suspirou pesado, vendo como nada aparentava ser o que era. Ela poderia viver bem, mas nunca feliz, não com aquilo acontecendo.
Por uma pontada no joelho, decidiu ir pegar um pouco de gelo. Desceu as escadas com cuidado e andou pelo salão escuro, chegando a cozinha e improvisou uma compressa com um pano de prato que achara numa gaveta.
Foi para a sala, acendendo a luz e ficando sentada lá por algum tempo.
Todos estavam dormindo e aquele o silencio a fazia mal, a deixava sufocada.
Precisava de barulho para arejar a mente, então sentou-se no banco do piano e, com a mão direita, tocou três teclas consecutivas, saiu um som aleatório das notas sem ritmo e que não combinavam.
Desanimada, a garota usou a mão esquerda e tocou duas notas mais graves. Fazia duas batidas respeitando um compasso que ela imaginava. E sem nenhum motivo aparente decidiu tocar as três notas com a mão direita, não todas juntas como da primeira vez, mas cada uma entre os intervalos das notas da esquerda.
Para sua surpresa, o áudio foi bem mais harmônico agora e lhe agradou bastante.
Decidiu repetir, só que mais lentamente, para poder desfrutar da combinação de notas.
Por instinto, após terminar as três notas dedilhadas, tocou mais duas ao mesmo tempo e depois outra aguda mais distante. Não deu certo, algo na melodia pareceu turva o som.
Ela novamente focou em sua mão esquerda e deixou de tocar as notas do primeiro ritmo e encontrou outras que também faziam um bom som. Era dois toques longos, uma pausa curta, um toque rápido e trocava de nota repetindo o ritmo...
Hinata sorriu percebendo como era fácil e divertido combinar aquelas teclas. Enquanto tocava a sequencia de graves com a esquerda, decidiu tentar por as notas agudas da direita ao mesmo tempo.
Na primeira tentativa as teclas seriam desordenadas sem conseguir manter a sequencia. O som torto a assustou.
Ela parou, pensou um pouco no que deveria fazer, respirou fundo e tentou novamente:
Estava indo mais lentamente do que achara que deveria com os toques da esquerda, mas então introduziu as notas da direita percebendo que combinava perfeitamente dessa vez.
Quando as notas acabaram, ela repetiu, vendo como a melodia progredia bem e pedia por uma continuação. Observando as teclas, mudou as notas no meio, mão direita e esquerda trabalhando juntas e seguindo para um mesmo tom musical. A virada de ritmo combinou bem e a fez sorrir pela facilidade que era coordenar cada passo do som que produzia.
Se distraiu feliz, trocando entre dedilhados e acordes com essa musica que ela, sinceramente, não conhecia mas gostava de tocar.
Sentiu olhos sob si subitamente e quando desviou o olhar das teclas por um segundo, percebeu as três empregadas e o motorista a observando parados na divisão entre a sala e o salão.
A distração a fez, simplesmente, errar.
Parou e se levantou de supetão, já sentindo suas bochechas ficarem avermelhadas, quando ouviu um pigarro do outro lado e notou os olhares das duas pessoas que estavam nas escadas, Neji e Hiashi.
Lá estavam todos que deveriam estar dormindo e ficaram em silencio para ouvi-la tocar.
Desde quando?!
– Sinto muito... – Hinata disse baixando a cabeça e respirando pesando de tanto nervoso. – Não queria acordar ninguém.
– Não precisa se desculpar. – Neji se aproximou com um sorriso. – Você não fez nada de errado.
– Na verdade, isso foi lindo, Hinata-sama! – Natsu disse também sorrindo.
– Obrigada... – Ela sorriu tímida, mas não levantou a cabeça. – Ninguém me disse que eu tocava piano.
– Isso porque você não toca! – A voz de Hiashi soou rígida e fria, chamando a atenção de todos da sala. – Esse piano era da sua mãe, você nunca mais chegou perto dele desde que ela morreu.
Hinata o olhou e percebeu que diferente dos outros, ele não parecia ter gostado de ser acordado pela musica dela. Ele mostrava aqueles olhos analíticos que a incomodava e a enchia de insegurança. Estava visivelmente aborrecido.
– Sinto muito se incomodei, Sr. Hyuuga. – Ela disse fazendo uma leve reverencia com a cabeça.
– Levante a cabeça, você não é tão submissa assim... – Ele disse já subindo as escadas. – Vamos todos dormir, hoje foi um longo dia, e amanha pode ser pior.
Sim, não era submissa, sabia que não era, mas as vezes era inevitável se sentir assim, principalmente com o claro mau humor de Hiashi.
A garota não se sentia bem com ele por perto, as palavras frias daquele homem que dizia ser o seu pai parecia drenar os poucos momentos de alegria que ela experimentou a pouco. Ela não entendia por que ele tinha que ser tão ríspido assim.
– Outra coisa, Hinata... – O ouviu já do alto do segundo andar. – Essa musica que você tocou, foi sua mãe quem compôs.
Ela sorriu ao ouvir aquelas palavras, saber que deliberadamente se lembrou de algo da sua mãe foi ótimo. Mas depois se deu conta de que Hiashi poderia estar sentindo por ouvir a melodia vindo do instrumento de sua falecida esposa. Deveria ter sido perturbador para ele ser acordado assim.
Voltou ao seu quarto e, agora que sabia o que procurar, encontrou partituras antigas escondidas no guarda-roupa. Ficou boa parte do tempo estudando e se imaginando tocando aquelas melodias, pensou em usar seu computador para descobrir mais musicas que poderia guardar, mas não sabia a senha para acessar sua própria conta de usuário, então se contentou em entrar como visitante e buscar novas musica e temas online. O tempo passou bem rápido agora que ela tinha o que fazer.
De qualquer forma, descobrir que tocava piano foi revigorante para seu espirito e lhe deu um novo sentindo as musicas que ouvia em seu celular. Agora ela sabia ser capaz de tocar também e esperava ter uma chance de poder praticar, mas não deveria ser no piano de sua mãe, Hiashi Hyuuga queria respeito com os objetos pessoais da falecida esposa, Hinata entendia o que significava para ele.
Pegou no sono horas depois, dormindo bem e sem sinais de pesadelos.
***
Durante muito tempo, enquanto a visitava religiosamente nos primeiros meses, Naruto ficava imaginando como seria quando ela acordasse:
Se ela ainda estaria com raiva e o odiava; ou já o perdoaria e ainda queria sua amizade; ou se percebera seus verdadeiros sentimentos e decidira lhe dar uma chance;
Ele pensou nas possibilidades de cada caso, já formando um tipo de estratégia:
Seria paciente se ela não quisesse vê-lo, levaria flores, conversaria, a convenceria a sair para passear, faria de tudo para ela perdoa-lo; Se ainda quisesse só amizade, ele a respeitaria, mas tentaria diariamente conquista-la, mas de forma calma como sempre foi o relacionamento deles; Agora o que realmente queria era que ela já acordasse dizendo que o amava, então ele a faria a mulher mais feliz do mundo;
Com os meses passando ele foi percebendo que seus planos não passavam de sonhos. Naruto quase desistiu de vê-la acordada novamente. Então, quando menos esperava, ela acordou e, infelizmente, mesmo tendo tanto tempo para pensar, ele não estava preparado para o que estava por vir. A amnesia o pegou desprevenido.
Naruto acabara de acordar, mas não tinha qualquer animo para se levantar, estava de ressaca. Após chegar em casa a noite, acabou com uma garrafa de bebida do padrinho. Tentava desprender seus pensamentos que teimosamente se mantinham em Hinata, mas agora era pior, estava com dor de cabeça e ainda pensava nela.
Quem foi que disse que beber ajudava?!
Se martirizava por ter sido fraco e ter se deixado convencer por Sakura que veio pessoalmente busca-lo em casa para ir naquela porcaria de festa.
Nunca deveria ter ido lá!!
“Você esta abandonando a Hinata”.
Foi isso que disse, mas Sakura não entendia... Não sabia como tinha sido doloroso para ele quando olhou pela janela viu sua garota se divertindo sem sentir sua falta, sem lembrar que existia. Sentia-se mal por não ter aparecido para Hinata, mas doía na alma saber que a presença dele não fazia diferença...
O corpo dele estava dolorido também, não esperava chegar lá e acabar entrando em uma briga, principalmente com Neji lá, ele era quem sempre evitava confusão. Por que o provocou daquele jeito? Por que ele estava fazendo aquele monte de exigência?!
Parecia que queria mais que apenas afasta-lo de Hinata, queria provar que conseguia protege-la sozinho... Por que?!
Naruto bufou, confuso. Ajuda-la de longe se mostrou ser mais difícil do que imaginava, mas isso é o que ele queria, certo?! Distancia...
Talvez, muitas coisas que Neji disse fosse verdade, mas ele não sabia sobre aquela noite, então a opinião dele valia tanto quanto a da Sakura.
Esses dois têm mesmo que parar de se envolver e deixar que ele e Hinata se acertem sozinhos...
Será que conseguiriam?! Riu sem graça, pensando em seus antigos planos.
Talvez fosse o caso de ter que seguir todos os planos ao mesmo tempo: Ser paciente, a respeitar e, com o tempo, faze-la feliz.
A teoria parecia ser bem mais fácil que a pratica...
Gostaria de estar bem com ela de qualquer forma, só não queria ter que fazer isso como um mero “amigo”, não queria ser coadjuvante enquanto outro cara ficava ao lado da mulher que amava.
***
– Hinata-sama? – Ela ouviu a voz da empregada chamando e abriu os olhos preguiçosamente.
– Natsu? – Hinata se endireitou percebendo que cochilara sobre o teclado do computador. – Que horas são?
– Já é bem tarde. A senhorita esta passando mal?
– Não, os últimos dias foram bem estressantes. Só estou com sono... – Hinata disse recolhendo as folhas de partitura, nas quais adormeceu encima.
– Ah, Hinata-sama, todos nós estamos com sono depois do espetáculo que a senhorita deu de madrugada. – A empregada sorriu simpática.
– Sim... Devo ter chateado você e os outros, não é?!
– Não, todos nós sentimos falta do seu gosto musical.
– Tocar piano é tão bom, que nem sei expressar como me sinto.
– A senhorita parece sua mãe quando fala assim.
– Natsu, você sabe onde eu tocava piano? Eu sei que não era aqui em casa, então...
– Sim... – A governanta pareceu pensar um pouco. – Havia um no colégio onde a senhorita estudava. Acho que fez um trato com o coordenador do clube de teatro para poder usa-lo, desde que ajudasse com a trilha sonora das peças.
– Na escola?! – Hinata ficou um pouco pensativa.
– A senhorita poderia dormir melhor na cama, quer que eu sirva o almoço agora ou mais tarde?!
– O almoço? Onde esta o meu pa... – Hinata suspirou. – O Sr. Hyuuga... Onde esta o Sr. Hyuuga e o Neji-niisan?!
– Hiashi-sama foi para a empresa bem cedo, acredito que volte no fim da tarde. Neji-sama tem cursos todas as manhãs de Domingo e não costuma almoçar em casa.
– Hoje é domingo? – Hinata riu sem graça, percebendo que não tinha qualquer noção do tempo e que não havia se preocupado com isso desde que acordou. – Eu vou almoçar sozinha em um dia de domingo?
– A senhorita também não costumava fazer as refeições em casa nos finais de semana.
Ela não quis perguntar onde passava os finais de semana, ficou claro em seus pensamentos que ficava com os amigos.
– Natsu, eu não estou com fome agora, será que eu posso passar na cozinha mais tarde apenas para um lanche?!
– Certamente, senhorita.
– Ótimo, vou tomar um banho e dar uma volta no jardim.
Hinata passou toda tarde do lado de fora, gostava de observar os canteiros de flores, ou de ficar sentada embaixo de alguma arvore lendo algum livro. O dia estava perfeito para esse tipo de coisa, nem muito quente nem muito frio, ela quase se lembrava de passar algum tempo daquela mesma forma no passado.
Só foi para a cozinha quando realmente sentiu fome, fez lanche leve e aproveitou para conversar com as empregadas enquanto comia para descobrir mais sobre sua própria rotina.
Hiashi chegou antes das seis e para surpresa das empregadas, pediu os mesmos sanduiches que Hinata e a acompanhou ali mesmo no balcão da cozinha.
Eles não conversaram, ficaram quietos cada um com seus pensamentos, mas a garota percebeu que era o jeito dele de talvez “se desculpar” pela forma fria que falou na noite anterior.
O orgulho parecia ser uma característica de família, afinal.
– Hinata-sama? – Neji a chamou.
– Aqui, Neji-niisan. – Ela respondeu e não demorou para o rapaz aparecer.
– Vá se arrumar, a gente vai sair. – Ele disse parecendo apressado.
– Sair?!
Então os dois encararam Hiashi que estava ao lado, ele agia como se não tivesse ouvido nada.
– Terá algum problema se eu sair com a Hinata-sama?! – O rapaz perguntou.
– Se ela quiser... Mas não cheguem muito tarde. – Ele disse simples e se retirou, deixando seu sanduiche pela metade.
– Então...
– Para onde? – Hinata perguntou curiosa.
– É uma surpresa.
***
Já estava ficando tarde e nada daquela garota aparecer, Naruto já estava ficando impaciente, a ressaca o ajudava a ficar ainda mais irritadiço. Não que não gostasse do ambiente daquela lanchonete 24h de beira de estrada, mas Sakura disse que demoraria apenas dois minutos e sumiu a quase uma hora. Quanto tempo leva para se arrumar o estoque de uma espelunca como essa?!
– Pronto, cheguei! – Ela se aproximou sem que ele percebesse, usava avental e tinha um bloco de notas e uma caneta nas mãos.
Sentou-se de frente para ele, estavam numa das mesas da fileira que ficava a beira das vidraças, essas eram arrumadas de forma especial, adequada para encontros duplos. Foi onde a garota pediu que ele esperasse, já que as outras mesas estavam ocupadas.
– Que isso no seu rosto? – Ela reparou no curativo enorme que ele tinha na bochecha.
– Eu me cortei fazendo a barba. – Naruto respondeu simples e mal humorado, não ia contar a ela sobre a briga.
– Fez a barba com uma foice?!
– Haha...
– Vai querer comer alguma coisa?
– Só se for pra viagem, já viu que horas são?! Você me deixou plantado e nem me disse ainda por que me chamou, Sakura-chan.
– Simples, você vai me levar para casa hoje!
– Eu vou?! Por que?
– Ora, porque as ruas são perigosas para uma garota da minha idade e você é meu amigo, deve cuidar de mim.
– Eu não me lembro de você ser tão indefesa assim... Além disso, sua casa é a três quarteirões daqui.
– Não seja tão indiferente assim com a minha segurança, idiota!!
– Que seja!
– Vai esperar meu turno aqui acabar e me levar para casa. – Sakura disse, parecia mais uma ameaça do que um pedido, ou uma ordem.
– Tá bom, quando vai ser isso?
– Daqui a algumas horas.
– Horas? O que eu vou fazer esse tempo todo?!
– Pode fazer um pedido.
– Você abusa da minha paciência. – Ele deu um sorriso sem graça enquanto coçava a cabeça.
Então a porta se abriu e quem entrou chamou a atenção deles instantaneamente. Neji estava com o braço cercado ao redor dos ombros de Hinata e vasculhava o local com os olhos, como se procurasse alguém.
– Neji, aqui! – Sakura acenou para eles.
Naruto teve certeza de que quais eram as verdadeiras intenções de Sakura ao chama-lo ali quando encontrou ou olhos de Hinata e percebeu o quanto ela estava surpresa ao vê-lo. Mas que ele próprio. Ela não tinha ideia de que o encontraria.
Ficou obvio que Sakura e Neji armaram esse encontro.
– Finalmente peguei a Hinata-sama para dar uma volta! – Neji respondeu a garçonete ignorando a troca de olhares de Naruto e Hinata.
– Ficar em casa por muito tempo desanima! – Sakura disse. – Podem se sentar, o que vão querer?!
– Talvez uma porção de batata frita e uns sanduiches. – Neji se sentou sem cerimonia ao lado de Sakura, deixando o único lugar vago ao lado do loiro. – O que acha Hinata-sama?!
– Ah... Não sei. – Hinata disse tímida, se desviando dos olhos de Naruto e se sentando sem jeito. – Eu não sabia que Sakura trabalhava aqui.
– Nem me fale... Só aturo isso pra juntar dinheiro para a faculdade de medicina. – A garçonete respondeu simples. – E você Naruto, o que vai querer?!
– N-nada... – Ele respondeu finalmente tirando os olhos de cima da morena sentada ao lado.
– Não seja pão duro! Peça pelo menos uma agua!
– Não precisa se preocupar, Naruto. Você é nosso convidado, pode pedir o que quiser. – Neji disse.
– Eu não... – Parecia que Naruto tinha perdido todas as palavras de seu vocabulário.
– Tudo bem, vou trazer o mesmo para todos, depois vocês pensam na conta! – Sakura disse se levantando e indo para trás do balcão.
Neji observou como Naruto e Hinata evitavam olhar um para o outro e percebeu que eles não pretendiam quebrar o gelo e iniciar um dialogo, pelo menos não com ele por perto, então apensas sorriu e disse:
– O que houve com a sua cara, Naruto?!
Hinata também notou o curativo, mas não teve coragem de dizer nada. Naruto estava de cara fechada, não levando a pergunta na brincadeira.
– Não sei, talvez o mesmo que o seu olho roxo.
– Que isso, conta para ele com quem eu briguei ontem, Hinata-sama.
– Eu... – Ela não sabia o que falar, não entendia aquele tom de voz dos dois.
– Você contou...?! – Naruto falava quase incrédulo quando Neji o interrompeu.
– Que eu briguei com um idiota?! É, contei...
– Foi só isso?! – Naruto pareceu relaxar e desviou o olhar sem graça.
– Se você tivesse ido a festa, saberia. – Neji disse, se levantando com um sorriso simples. – Eu vou no Caixa Eletrônico, tirar dinheiro para pagar a conta. Já volto.
– Mas e eu... – Hinata perguntou quase desesperada ao perceber que ficaria sozinha com o loiro.
– O Naruto te faz companhia ate eu voltar, vai ser rápido.
Neji saiu e ficaram em silencio e aquilo era constrangedor.
O Rapaz se perguntava se ela já tinha percebido que o encontro era uma armação dos amigos ou se ainda pensava que fora coincidência.
Ir ao caixa fazer uma retirada?! Como se a lanchonete não aceitasse qualquer um das suas dezenas de cartões. Estava tão obvio...
Ele queria se encontrar e conversar com a garota, mas não assim, não desse jeito tão artificial em um lugar tão “nada haver” com eles. Se fosse para se resolverem deveria ser do jeito que imaginara, da forma que ambos se sentissem bem. Nenhum dos dois estava confortável com isso e Naruto acreditava que eles mereciam mais.
Percebia como o olhar dela era diferente, ele não conseguia mais distinguir o que ela sentia. Era uma desconhecida que as vezes parecia com a sua Hinata.
Isso o deixava ainda mais indeciso sobre o que fazer nessa situação, mas, bem, por que não tentar?!
– Então... – Naruto decidiu puxar assunto. – Soube que você recebeu alta. Esta se sentindo melhor?
– Sim, melhor. – Hinata disse tímida.
– E como se sentiu finalmente voltando para casa?
– Foi bom, mas me assustei um pouco com a minha “casa”, se é que posso chamar assim.
– É grande, não é... – Naruto riu divertido. – Você sempre dizia que ela parecia vazia demais sem... – Se deteve no final da frase, concluiu simples. – Eu sabia que você ia estranhar...
– Foi estranho mesmo, mas Neji chamou alguns amigos para me “reapresentar”. Foi legal.
– É, eu soube...
– Eu... – Hinata pensou um pouco e respirou fundo antes de prosseguir. – Queria que você tivesse ido.
– Queria mesmo?! Eu não tinha tanta certeza assim... – Naruto disse simples.
O silencio se instalou entre eles novamente.
Tê-lo ali perto e não ter nada a dizer era pior do que estar longe.
Hinata queira dizer muitas coisas e ate se imaginou como agiria quando chegasse a hora. Mas o momento a pegou totalmente de surpresa e ela não sabia o que fazer.
Estava mais que claro que Neji sabia que Naruto estaria lá e foi por isso que a trouxe. Mas por que tinham feito aquilo sem avisa-la?
Naruto não parecia querer vê-la, estava rindo enquanto conversava com Sakura e quando ela chegou essa alegria sumiu, como se uma onda de raiva o consumisse. Esse era o efeito que ela provocava nele?!
Se sentia com a consciência mais pesada agora do que apenas pela briga do hospital. Ainda se lembrava de como se sentiu naquele dia, mas também recuperou momentos bons com Naruto. Estava se sentindo confusa estando ali tão perto, era um misto de sentimentos que ela não entendia. Raiva, gratidão, anseio, admiração, medo...
Seu coração batia tão forte que quase a impedia de pensar claramente.
Era hora de se desculpar, mas percebeu que não conseguiria falar, era o orgulho a consumindo como se algo dissesse para não prosseguir, desejou em vão ser menos Hyuuga naquele momento. Então levou o olhar para as mãos que estavam em cima da mesa e respirou fundo.
– Naruto, eu... Eu queria me desculpar pela briga do hospital.
Naruto ficou surpreso com esse pedido dela, mas, por algum motivo, percebeu que sua voz parecia estranha. Como se ela estivesse se forçando a dizer aquilo, como se não acreditasse em suas próprias palavras. Desviava o olhar como uma pessoa que não podia mentir de cara limpa. Essa falsa Hinata o irritava.
– Não precisa, Hinata.
– Mas eu fui grosseira e não deveria ter falado com você daquela maneira. Te culpando daquela forma por causa de uma briga boba! Foi errado!
– Não, não foi! Para você não foi uma briga boba. – Ele disse firme. – Eu entendo isso e você não precisa se desculpar, entendeu?!
– Eu sinto que preciso. Pela nossa amizade...
Amizade?!
De novo ela vinha com esse discurso.
Só Naruto fazia ideia de quantas vezes já a ouviu repetir isso, mas nem ele sabia como odiava essa palavra ate ver Hinata pronuncia-la novamente.
Ela sofreu um acidente, passou por uma lavagem cerebral no coma, esqueceu da vida e de tudo que passaram juntos, mas a “amizade” que ela tinha por ele continuava intacta!
Naruto não entendia por que ela não conseguia olha-lo de outra maneira? Será que tinha uma placa colada na testa dele dizendo “Amigos para sempre”.
Queria poder desmentir isso, gritar aos quatro ventos o que sentia de verdade. Queria dizer que não tinha intenções de amizade e que ela o conquistara na primeira vez que a viu.
Queria dizer tudo que ela nunca o deixou fazer, por medo, confusão ou orgulho.
– Não quero ser seu amigo. – Naruto falou firme.
– O que? – Ela o encarou surpresa.
Seus pensamentos congelaram percebendo o erro que cometera, surpreso ao notar que falara em voz alta. Não tinha pensado, falou de verdade e ela ouviu.
– Não... Isso... – Ele tentou disfarçar. – Esqueça o que eu disse, Hinata.
– Eu só estava tentando me desculpar. – Ela disse com um tom frio.
Agora sim ela estava o olhando com verdade e Naruto estava ciente de que foi ele quem provocou a mudança. Parar de mentir era bom, mas ser a Hyuuga frívola só o deixou com mais raiva.
– Não preciso das suas desculpas! O que eu preciso é...
... Da Hinata de sempre, a garota que amava...
Ele se calou antes que falasse de mais, não conseguia pensar em outra resposta que não fosse aquela que ficou ensaiando durante aquele tempo.
Naruto imaginou todo um momento e queria leva-la a um lugar especial para eles e contar tudo, se declarar e receber a resposta dela. Esse foi o plano que arquitetou nos meses de espera ate que acordasse.
Não queria falar agora. Não assim!
Fazer isso em um encontro surpresa, numa espelunca de esquina, cheirando a gordura e com pessoas gritando o pedido especial do dia para todo lado, estava longe de certo! Não era isso que ele queria...
Não sabia mais o que falar, perdera todas as suas palavras ali quando fora encarado pelos olhares gélidos da morena que não era mais a garota para quem queria se declarar.
– Acho que fui boba pensando que te magoei com o que eu disse antes, não é?! – Hinata disse irônica.
– Claro que não me magoei. Quem se magoa sendo chamado de falso?! – Naruto devolveu a ironia.
– Eu só pensei que você se importava, já que ficou tanto tempo no hospital por minha causa.
– Ah, então é isso? Você só tá com a consciência pesada porque brigou comigo e descobriu que eu te visitava no hospital. Isso é culpa, sabia?
– Talvez a mesma culpa que te fez me visitar tão regularmente.
– É, isso mesmo! Eu odeio hospitais e mesmo assim fiquei com você lá esse tempo todo, por culpa! – Ele falou alto e grave, deixando evidente seu tom de sarcasmo. – E ainda tenho que te aturar insinuando que eu não me importo!
– Foi você que disse no começo que não quer ser meu amigo.
– Claro! Por que você não é mais a garota que eu gosto!
Não aguentava mais, nesse ritmo, acabaria gritando com ela, como na briga do hospital. Era irônico, mas parecia que as coisas estavam se repetindo.
Ele simplesmente se levantou e foi andando para a saída, ao chegar perto da porta viu Neji escorado no balcão, Sakura estava do outro lado, com certeza viram tudo.
Bufou e fugiu dos olhares deles. Torcia para que a garota de cabelo rosa não viesse atrás dele, não estava com cabeça para aguentar um sermão.
Hinata o viu sair e não sabia o que fazer.
“A garota que eu gosto!”
Foi isso que ela entendeu?!
Se levantou no primeiro intuito, ainda pensando se deveria ir atrás dele, ou chama-lo de volta, mas não conseguiu fazer nenhuma das opções, apenas voltou a se sentar, pensativa.
Não sabia o que desencadeou aquela reação.
Foi uma discussão simples, não chegou a ser uma briga, foi uma “conversa”, uma troca de provocações... Mas por que? Tudo estava indo bem ate ela começar a pedir desculpas. O que disse de errado?!
– Mas o que aquele idiota fez?! – Sakura esbravejou já indo para a saída da lanchonete.
– Sakura! – Neji a impediu pondo a mão em seu ombro. – Fique com a Hinata-sama, por favor, deixa que eu me entendo com o Naruto.
Sakura aceitou a sugestão de contra gosto e se sentou ao lado de Hinata, o que queria mesmo era arrebentar o Naruto por ser tão idiota, mas decidiu ficar com a garota e esperar que ela falasse, sabia que precisava de um tempo para digerir as palavras do loiro.
– Eu pensei que você iria embora. – Neji disse assim que o encontrou escorado no poste perto da entrada do estacionamento.
– Tenho que acompanhar a Sakura-chan ate em casa, daqui apouco.
– Você pode ir se quiser, eu levo a Sakura depois.
– Não se preocupe, posso ser cabeça quente, mas não sou maluco. Não vou fazer nada idiota com a Hinata... não importa quantas vezes ela pise em mim...
– Não entrou nada do que eu te disse ontem na sua cabeça, não é?!
– Você disse para eu me afastar dela. É o que estou fazendo.
– Foi isso que você entendeu? Então é mais idiota do que pensei.
– Se eu entendi errado, então me explica o que você disse. – Ele falava como se quisesse começar uma briga ali mesmo.
– Não, primeiro você vai me explicar o que foi aquilo lá dentro. Sakura me disse que vocês estavam brigados, mas aquilo foi ridículo.
Naruto bufou e se virou, ficando de costas. Estava ciente de que foi uma briga boba, ela pediu desculpas e ele não quis aceitar, quando se deram conta já estavam falando as mesmas coisas que disseram no hospital.
– Naruto, o que aconteceu?!
– Não foi legal... – Naruto disse simples. – Esse encontro que você e a Sakura-chan armaram, não foi legal...
– Sinto muito, só queríamos ajudar... – Neji respondeu.
– Eu não gostei de encontrar o Naruto de surpresa... – Hinata finalmente falou com a Sakura. – Eu queria ter pensado melhor do que dizer.
– Não foi por mal, Hinata, serio... – Sakura disse.
– E eu que pensei que pedir desculpas seria melhor. – Hinata forçou um sorriso.
– Deixa, foi melhor assim... – Naruto disse. – Eu disse tudo que estava engasgado, me sinto bem assim.
– Eu ainda não entendo como chegou a esse ponto? – Neji perguntou.
– Nós brigamos... – Naruto disse simples.
– Isso eu já sei, mas por que?
– Foi o que eu quis dizer: Nós brigamos porque nós brigamos...
– Não era você quem deveria pedir desculpas, Hinata! – Sakura disse. – Naruto foi muito grosso.
– Fui eu que comecei, então esta tudo bem.
– É difícil de acreditar que vocês bateram boca daquele jeito no hospital e agora discutiram de novo. O que aconteceu, afinal?
– Não tenho certeza, mas... Eu fico misturando meus sentimentos, me lembro de tanta coisa boa e ruim ao mesmo tempo... E com o Naruto tudo fica mais confuso ainda, acabo descontando tudo encima dele, eu acho. – Hinata olhou para a janela observando o rapaz que conversava com o primo. – A raiva que eu estava sentindo naquele dia do hospital me dominou de uma forma que nem eu consigo entender. E de novo hoje...
– Sabe, eu e a Hinata nunca brigamos serio. Sempre que eu ficava fulo, ela dava um jeito de me acalmar e quando era ela quem perdia a calma eu tentava ser parcial. – Naruto respondeu simples. – Mas, no dia do acidente, eu estava com um monte de coisa na cabeça, estressado, tenso e a Hinata, bem, ela deve ter tido um dia dos infernos também.
– E vocês brigaram?
– Nenhum de nos dois estava com muita paciência, acho que qualquer coisa que acontecesse iria acabar em briga. Hinata e eu falamos muitas coisas de não devíamos...
– Então foi como uma bola de neve descendo uma montanha. – Sakura riu um pouco. – E foi cair em cima do Naruto.
– Imagina, eu nem me lembro porque brigamos no dia do acidente e eu usei isso de base para a briga do hospital. – Hinata suspirou. – Ele chegou com tão bom humor, sorrindo para mim, e eu acabei com isso com aquelas acusações. Me arrependi tanto depois... E, quando tenho a chance de me desculpar, estrago tudo. Não entendo!
– Então foi isso... – Sakura ficou pensativa.
– Na hora da raiva, as pessoas dizem besteira mesmo... – Neji disse.
– Na briga do hospital, com a Hinata falando comigo igual naquela noite, me olhando daquele jeito de novo... Vendo todo o ódio que ela parecia sentir... Toda aquela raiva voltou de uma vez só e não consegui me conter.
– Agora finalmente entendi... – Neji pensou bem.
– Sei que parece idiota, mas não quero ver ela me olhar assim. Se eu desperto um sentimento tão ruim nela, é melhor ficar longe...
– Prefiro assim. – Hinata disse. – Se for para ele perder o sorriso sempre que estiver comigo, então eu prefiro me afastar...
– Isso, para mim, tem outro nome... – Sakura usou um tom irônico.
– Como assim?! – Hinata a encarou confusa.
– Sabe, Naruto, você podia admitir e agir com pouco de sinceridade...
– Admitir?! – Naruto o encarou agora, sem entender onde Neji queria chegar.
– Hinata, você está gostando do Naruto?! – Sakura perguntou com ênfase.
– A verdade é que você esta apaixonado pela Hinata-sama, certo, Naruto?! – Neji perguntou irônico.
Aquela pergunta, que mais soou como uma afirmação, tirou o ritmo tranquilo do seu coração. Logo depois percebeu que não sabia o que responder e isso só serviu para mostra-la que a resposta simplesmente não importava.
O motivo pela ausência de Naruto lhe fazer se sentir tão mal ficou tão claro de repente que Hinata, sabendo que estava com o rosto completamente corado, conseguiu apenas dar um tímido sorriso...
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