O Diário do Príncipe Mestiço
9 Petúnia, a Chata
Notas iniciais
Depois daquele longo banho fui para o quarto e tentei dormir novamente, sem sucesso. Eu não estava impressionado com isso. Ainda sentia fortes dores e minha cabeça estava ainda estava transtornada com as imagens do sonho vindouro. Fiquei me remexendo na cama pelo resto da madrugada até os primeiros raios de Sol entrarem pela janela do meu quarto.
Me levantei com dificuldade me apoiando no criado-mudo, derrubando sem querer o despertador no chão. Fui até a janela observar as primeiras pessoas que saiam de suas casas para trabalhar. O céu estava assumindo uma tonalidade amarela leve graças ao alvor da manhã.
Minha mãe entrou no meu quarto de repente.
– Eu ouvi o barulho de algo caindo. – disse ela me observando de cima a baixo. Ela vestia um robe de seda verde e velho que já estava perdendo a cor. — Você está bem?
– Sim... foi só o despertador que caiu. – e com um movimento com a cabeça, apontei para ele que estava caído aos meus pés.
– Vá se deitar garoto! – ele mandou com uma expressão dura. – Está ferido e cansado. Seus olhos estão vermelhos e seu rosto está esboçando uma expressão mais cansada que a do próprio Albus Dumbledore quando madruga estudando!
Ela apontou para o espelho e vi que ela tinha razão. Eu estava acabado, então a obedeci e me deitei.
– Durma... depois trago um lanche para você. – ela disse. — E nem pense que vai sair hoje!
Ela saiu e eu fiquei sozinho. Fechei os olhos e com muito esforço adormeci.
Não sabia se eu tinha voltado aos sonhos que matam, mas eu vi flashes. A correria, o tal Ferus, as vozes, o salgueiro desaparecendo com o diamante, minha morte. A única diferença era que o diamante estava mais belo... então acordei com mamãe chamando-me.
– Severus... acorde já anoiteceu. – ela ficou balançando meu braço. Minha visão estava embaçada, mas aos poucos foi melhorando.
Papai estava perto da porta com uma bandeja. Havia uma tigela de sopa, pão e um copo de suco de abóbora. Me sentei e senti a barriga roncar. O quarto estava iluminado pelo meu velho abajur.
– Anoiteceu? E por que ainda me sinto tão cansado?
– O primeiro que sobreviveu a um Sonho Vindouro passou duas semanas dormindo depois de acordar ferido ou com o coração quase parando. Você teve sorte.
Sentei-me na cama, encostando as costas na cabeceira. Deixei escapar um gemido de dor. Ainda sentia dores mas não com a intensidade de antes. Coloquei o travesseiro no meu colo e fiz um gesto pedindo a tigela. Papai me deu a comida, deixou a bandeja no criado-mudo e saiu do quarto sem dizer uma palavra, seguido pela mamãe.
Depois que comi ela voltou e recolheu tudo. Me deitei novamente e antes dela sair ela me perguntou algo que eu não queria responder.
– Quem é Lily? – ela estava segurando a maçaneta da porta com uma mão e a bandeja com a outra. Eu arregalei meus olhos.
– É...
– Você gritava o nome dela no momento em que as feridas estavam aparecendo. No momento que seu coração estava parando... você ia perdendo a voz, mas não se esquecia do nome... ficava repetindo várias vezes até que eu consegui te arrancar do sonho.
– Não é ninguém! – falei bem rápido com o sorriso forçado. Droga Severus! Aprenda a mentir melhor! – Boa noite! – cobri meu corpo inteiro com o lençol e esperei a porta bater para colocar a cabeça para fora.
Ufa! Oque eu diria a ela?
“Ah, Lily é só uma boa amiga bruxa pela qual me apaixonei!”
Apaixonado? Espera, não saiu direito...ou saiu?
***
Depois de uma longa semana obrigado a ficar na cama sem ver Lily, me decidi que amanhã sairia escondido de casa. Então adormeci tão rápido quanto um coala deitado numa grama fresquinha. A noite passou “voando”, mal senti meu corpo descansar. Foi como se eu tivesse dormido por cinco minutos e nesse meio tempo ter amanhecido. O que é impossível não?
Sai pelo corredor e ouvi o ruído de água sendo agitada na banheira.
Mamãe, presumi.
Ótimo! Ela estava tomando banho e papai com certeza tinha ido trabalhar.
Voltei para o quarto e me vesti com as roupas de sempre. Apesar de ainda sentir algumas dores, desci a escada correndo, fazendo o possível para não ser ouvido. Peguei uma maça na cozinha e corri até a sala.
– É melhor esconder esses ferimentos. – falei baixinho, tateando meu rosto.
Peguei o velho cachecol do papai que estava no cabideiro e o enrolei no pescoço. O levantei de forma que ele cobriu meu rosto até a ponte do nariz. Sinceramente, eu estava parecendo um ninja trouxa.
Ouvi a porta do banheiro abrir-se e disparei para a rua, indo para o bosque em que eu e Lily nos encontrávamos todas as manhãs. Quando cheguei a clareira, ela não estava lá.
“Oh Céus! Lily deve estar uma fera por tê-la deixado sozinha a semana inteira.”, pensei.
Sem ponderar a situação, corri o mais rápido que pude até atravessar o bosque. A casa de Lily estava bem a minha frente. A mureta que separa o jardim da pequena floresta estava bem próxima. E lá estava ela deitada de bruços na grama, com uma expressão triste no rosto. Sua cabeça estava em cima dos braços e seus olhos acompanhavam o movimento de algumas pequenas formigas que carregavam folhas.
Me escondi atrás de uma árvore e peguei um punhado de terra molhada. Apertei com força, murmurei algo e abri minha mão deixando a terra ser levada pelo vento. Só ficou um pequeno passarinho de barro. O coloquei próximo a minha boca coberta pelo cachecol e murmurei:
– Você pode trazer a minha amiga até mim? – O tecido em minha boca abafava minha voz.
De repente a pequena escultura animal ganhou vida. Com um balançado de cabeça, o pequeno pássaro assentiu e saiu voando até o jardim dos Evans. Ele pousou na frente de Lily que o observou maravilhada. Com um chamado mental, eu pedi que ele viesse de volta a mim e ele assim fez com Lily o seguindo.
– Você é feito de barro! – ela perseguia o passarinho com alegria. – É lindo...
Quando Lily passou pela mureta, através do pequeno portão que lá havia, eu fiz um movimento com o dedo e o pássaro saiu voando bem alto.
– Não vai! – suplicou Lily, o perdendo de vista. – Era um pássaro tão lindo.
– Eu sei. – me revelei saindo detrás da árvore, ajeitando o cachecol para que o mesmo não caísse e mostrasse as feridas. – Talvez ele volte.
Lily ficou sem reação por um momento e depois seu rosto esboçou uma expressão furiosa. Ela avançou em cima de mim berrando e me dando tapas no peito.
– Severus Snape! Seu idiota! – ela me deu um empurrão e continuou com os tapas– Arrogante! Você me deixou toda a semana sozinha na sombra do salgueiro!
Eu recuava, tentando aplacar sua “fúria feminina”, o que não estava adiantando nem um pouco.
– Eu não queria te deixar sozinha! – tentei acalma-la, mas não conseguia. A esse ponto ela já estava magoando meus machucados. — Desculpe!
– Desculpa nada Snape! Se não queria ser meu amigo devia ter dito antes.
Ela me deu outro empurrão, me fazendo tropeçar numa pedra e cair. Foi nesse momento que o cachecol descobriu meu rosto, mostrando as feridas quase cicatrizadas. Lily ficou horrorizada.
– Essa doeu... essa doeu mesmo. – balbucie, me arrastando até tronco de uma das arvores ao redor e me encostando no mesmo com um pequeno gemido de dor.
– Meu Deus! – ela estava com as mão na boca, com espanto. – O que te fizeram?!
Ela se ajoelhou ao meu lado e percebi seus olhos marejados.
– Foi o seu pai não foi? Ele que te fez isso não foi? – Lily estava com um tom de preocupação na voz. Ela passou seus dedos delicados pelo meu rosto, e eu fiz uma careta. Não que eu não tivesse gostando, mas as feridas ainda doíam. — Sev... Você tem que contar a alguém. Não pode ficar sofrendo desse jeito.
– Não foi nada disso Lily. – respondi e nossos olhares se encontraram. Ela estava a beira do choro. Peguei na sua mão que estava no meu rosto e a tirei com delicadeza. Certamente queria que ela continuasse ali, mas infelizmente aquelas belas mãos irritavam as malditas feridas. – Aconteceu um... acidente... se é que se pode chamar aquilo de acidente.
– Você está me assustando... – ela deixou uma lagrima rolar pelo seu rosto. Eu, para retribuir o favor, peguei seu rosto com cuidado e passei meu polegar sob seu olho.
– Encoste-se aqui. – me afastei um pouco para que ela ficasse ao meu lado, escorada no tronco da arvore. — Vou lhe contar tudo.
Então contei-lhe sobre os tais sonhos vindouros e cada detalhe sobre o que tive. Então ela ficou tentando desvendar o sonho junto comigo, o que nos tomou muito tempo. Era realmente ótimo estar com Lily depois de uma semana naquele quarto sem vida. Eu me sentia como se nada pudesse estragar minha felicidade quando estava perto dela... até que a "coisa" apareceu.
– Lily! – gritou a pescoçuda da Petúnia vindo na nossa direção. – Não acredito que está conversando com esse... esse esquisito ai.
Lily se levantou, estendendo em seguida seu braço para mim, que aceitei e me levantei com aquela ajudinha.
Aquela pescoçuda esnobe se aproximou e mexeu nos seus cabelos loiros. Em seguida me olhou de cima a baixo e fez uma expressão de desdém.
– Com certeza... – ela disse com uma voz aguda irritante, arqueando uma das sobrancelhas. – Esquisito e mal vestido.
– Eu já vou indo Lily. – dei as costas para Petúnia. – Não vá a clareira, por que talvez eu não vá amanhã ok?
– Pode ir indo mesmo... aqui não é lugar para “gentinha”! – Eu estava com vontade de amaldiçoa-la mas me contive...
Por Lily Severus, Por Lily... não perda o controle... não faça essa girafa voar pelos ares ou pegar fogo aqui mesmo, mentalizei sentindo um formigamento estranho na nuca.
– Se eu for amanhã... aquele pássaro magico que te trouxe aqui aparecerá. – continuei, tentando ignorar aquela... Se acalme... não fale palavrões. – Até mais.
Quando eu estava indo, ouvi Petúnia dizer palavras que me enfureceram:
– Vai deixar ele ir? Por que não fica com ele? Vocês se merecem... Aberração!
Virei-me de volta e avancei na direção daquela galinha de pescoço girafês. Eu teria pulado em cima dela se Lily não tivesse em impedido. Ela me abraçava, jogando o peso do seu corpo contra mim.
– Não fale desse jeito com ela! Sua... – eu a fitava com fúria. – Sua... desalmada sem coração!
– Vá se juntar com sua ralé seu porco! – ela respondeu rindo, mas seus olhos esboçavam medo.
– PAREM POR FAVOR! – Lily suplicava, me abraçando mais forte. – SEV... POR FAVOR!
– Me solta Lily! – berrei mantendo o contato visual. — Eu vou acabar com ela.... Eu vou acabar com ela!
– Sev... de servente? – ela deu uma risadinha aguda pondo uma das mãos na boca. – Há! Esse é seu futuro emprego!
Lily já estava chorando desesperada. Eu não queria fazer nada... mas perdi o controle... e quando vi já tinha feito...
Retribui o abraço dela e ela achou meio estranho pois estava me impedindo de descabelar a irmã, mas não me largou. Eu murmurei no seu ouvido:
– Eu tentei Lily, me desculpa, mas ela merece.
Ela ficou sem reação e eu a soltei.
– O casalzinho de aberrações! Que lindo... – ela falou com seu sarcasmo.
– O que você fez... – Lily estava muito assustada e parecia sentir que algo se aproximava.
– Eu sinto muito mesmo...
Dei um último olhar furioso para Petúnia e corri direto para a floresta. Só pude ouvir os gritos de terror de Petúnia antes de se afastar o suficiente...
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