O Diário do Príncipe Mestiço
10 O inverno encontra meu coração
Notas iniciais
Severus Snape
Ao chegar em casa, subi a escada correndo sem dar ouvidos ao que minha mãe começara a falar na sala. Tranquei a porta do quarto e deitei na cama. Eu mexia meus pés com nervosismo. Não sabia o que Lily ia fazer... será que ela deixaria de ser minha amiga?
Eu não queria ter feito aquilo com Petúnia, por Lily é claro, mas fiz. E Ela mereceu. Ninguém mexe com Lily e sai impune... NIN-GUÉM.
Sem perceber... adormeci e acordei com o barulho de batidas fortes na porta. Já havia anoitecido, então liguei o meu abajur.
– Severus Snape! – Meu pai gritava com sua voz áspera. – Abra essa porta... Agora!
– Já estou indo! – respondi e fui abrir a porta.
Ele entrou rapidamente, sem pedir licença. Ele estava com o macacão sujo da fábrica em que trabalha, usava o capacete de operário e cheirava a graxa. Sua expressão era rígida... E lá vem bronca...
– Para onde foi?! – me questionou, arqueando uma das sobrancelhas. – Por que saiu sem permissão?!
– Eu... eu fui dar uma volta. – balbuciei sentindo minhas pernas bambas de medo por causa do olhar dele.
– Uma volta?! Olha só para você! Está parecendo um esquilo atropelado e vem com essa de dar uma volta?!
– Serio... eu fui dar uma volta... estava cansado de ficar dentro desse quarto. – menti, desviando meu olhar do dele.
– Incrível... Ótimo... – ele andou de um lado para o outro batendo palmas. – Excelente... você foi dar uma volta... ok.
– Então tudo bem? – perguntei esperançoso.
– Claro... que não! – ele se aproximou de mim, ficando quase colado ao me corpo. – Você está mentindo! Você desviou o olhar e seus ombros estão muito curvos!
– Eu...
– Olhe para mim! Agora!
Eu levantei a cabeça até meu olhar encontrar o dele. Ele era muito alto, o que fazia eu me sentir uma formiga.
– Para onde foi hoje de manhã? – ele perguntou lentamente, com rispidez.
Não vou mentir, pensei, mas não vou dizer toda verdade...
– Eu fui andar pelas proximidades do bosque. Eu sei que é proibido, mas de vez em quando eu dou um passeio por lá para respirar um pouco de ar fresco. Estava sufocado dentro desse quarto. Me desculpa ter desobedecido o senhor e a mamãe.
Ele ficou um tempo me observando. Seu olhar era frio e calculista.
– Desça e coma alguma coisa... – disse ele, saindo do quarto.
Ótimo, acho que já estou apto para o cargo de Ministro da Magia...
Fiz o que ele mandou e tomei um banho quente pois a tarde, a temperatura havia caído muito. O que não é de se admirar, já que o mês de dezembro veio com tudo, trazendo o início do inverno.
Fiquei afogado em meus pensamentos, até que adormeci.
Tudo estava confuso...
Eu andava pela rua em que fica minha casa tentando se comunicar com as pessoas, mas não importava o que eu fizesse, elas não viam e nem ouviam, era como se não existisse.
– Ei! – gritei pelo meu vizinho careca que segurava o seu buldogue pela coleira- Por favor me escute!
Ele virou-se na minha direção e pensei finalmente conseguir falar com alguém. Então seu cachorro escapou de suas mãos e veio na minha direção. Eu já ia fugir dele se o mesmo não tivesse atravessado minhas pernas. Me virei e vi ele mordendo o pé do dono da barraquinha de cachorro quente. Em seguida seu dono atravessou meu corpo que se desfez em fumaça por um momento e depois voltou ao normal. Eu senti minha respiração falhar e cai em desespero.
Sai correndo pela rua tentando tocar todas as pessoas que encontrava no meu caminho, sem sucesso. Minhas mãos viravam fumaça toda vez que tocava em algo, até que todo o meu corpo começou a sumir e de repente o sonho mudou...
Estávamos no meio do bosque e Lily me xingava muito...
– Acabou Severus! Não quero lhe ver... nunca mais! – ela saiu correndo floresta adentro e eu caí no chão desolado.
O céu assumiu um tom cinza e as folhas das árvores ficaram amarelas e caíram. As flores murcharam e cada lágrima minha que caia no solo, o fazia ficar infértil e seco.
– Lily! – eu gritava chorando olhando para o céu.
Um trovão altíssimo ribombou... e eu cai da cama.
Massageei minha cabeça com uma das mãos, atordoado. Eu estava suado e com frio. O despertador marcava exatas nove e dez da manhã, mas tudo estava escuro. Joguei o lençol na cama e fui até a janela.
Fiquei impressionado ao ver a tempestade de neve que se formara. As nuvens não permitiam que os raios de sol iluminassem o dia. Apesar da visibilidade ser quase zero, eu pude enxergar pequenos retângulos luminosos ao longe.
As lâmpadas das casas, pensei.
Coloquei meu velho agasalho sobre minhas vestes normais e desci para tomar café da manhã. Comi alguns pães com um pouco de café. Ainda com fome, fui a velha geladeira pegar um copo de leite e vi um bilhete pregado na mesma.
“Fui a feira semanal de Cokeworth comprar suprimentos.
Com toda essa neve caindo, talvez eu volte só no final da tarde.
Possivelmente seu pai chegará primeiro em casa, então por favor
Prepare o banho quente dele as 18hrs.
Eileen.”
Como a tempestade não permitiria que eu saísse para ver Lily, fiquei na sala de estar, folheando um jornal dos trouxas – As fotos nem se mexiam... Tedio! – , sendo aquecido pela lareira. Em algumas páginas, tinham fotos de pessoas mortas, cidades e ruas em chamas. Uma guerra ocorria no mundo trouxa... para determinar bem... No país chamado Vietnã.
A tarde, a tempestade de neve tinha cessado, então abri a janela do meu quarto e murmurei algumas palavras:
– Sei que está bem... Eu não permitiria que se desintegrasse nessa tempestade. Vá e encontre aquela linda garota ruiva. Brinque com ela e o recado estará dado.
Eu sabia que podia está ficando louco, mas eu acreditava que aquele pequeno passarinho de barro estaria vivo.
Enrolei o cachecol do papai no pescoço e sai de casa. As ruas estavam cheias de neve e eu sabia que isso iria atrasar os meus pais. Eu teria tempo para conversar com Lily.
Quando cheguei a lareira vi Lily sentada em baixo do salgueiro, apreciando as manobras que o pássaro mágico fazia no ar.
As árvores, a grama, tudo estava cheio de neve.
Ao me avistar, a minha pequena criação veio até mim e fez acrobacias a minha volta. Estendi minha mão para a frente e ele pousou no meu dedo indicador.
– Bom trabalho amigo... – eu disse dando um sorriso para Lily, que observava tudo.
Ela simplesmente virou o rosto para o lado e imediatamente percebi sua decepção. Corri até o Salgueiro e me sentei na neve, ao seu lado. Fiquei um tempo calado, enquanto meu pássaro voava e cantava alegre. Ela nem mesmo disse oi.
– Por que fez aquilo Snape? – ela perguntou com a voz triste e calma, ainda com o rosto virado para o lado.
Snape? Opa! Tem algo muito errado...
– Eu... eu... não suportei. – falei olhando para o horizonte. – Me desculpe... eu tentei me controlar, mas... mas não deu.
– Você passou dos limites... Aquele enxame de moscas quase deixou Petúnia louca de raiva... e ainda a fez passar muito mal, a fazendo ir para o hospital...
– Desculpe mas eu não aguentei ao ouvir ela lhe chamar de aberração! – desabafei. – Você é maravilhosa! A melhor amiga que se pode ter e uma futura grande bruxa.
Ela olhou para mim com tristeza. Eu sei que ela estava magoada e tudo, mas tinha algo mais no seu olhar...
– Lily... o que está acontecendo? – perguntei mudando de posição, desconfortável.
Ela não respondeu.
– Sei que não somos amigos a tanto tempo, mas a conheço o bastante para saber que está preocupada. Sei que não é com a Petúnia.
– Cala a boca! – ela berrou se levantando. – Fique longe de mim!
Eu fiquei sem reação.
– O que...
– Você e tão... tão... Argh!
Me levantei e a confrontei.
– O que deu em você?!
– O que deu em mim? O que deu em mim? O que deu em você?!
– Por que está gritando comigo?!
Por um momento, ela ficou sem fala.
– Não fale mais comigo! Não chegue perto da minha casa! Esqueça que eu existo!
Quando ela se virou para ir embora eu puxei seu braço.
– O que você tem? Você não é assim...
Ela tirou minhas mãos dela, me deu um empurrão e saiu correndo pelo bosque.
Eu fiquei lá... caído na neve... chorando... sem rumo... minha única amizade reduzida ao nada... dizimada...
– Lily!!!
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