O Devorador de Ossos
1 Um dia quase normal
Como todos os dias, acordei às 6 horas da manhã com o meu típico despertador beep-beep. Verifiquei as mensagens de meu celular, como o de costume, e fui para a cozinha tomar meu café-da-manhã. Minha mãe havia preparado um suco de laranja e torradas com margarina para mim.
Minha mãe é separada de meu pai, na verdade, eles nunca se casaram. Meu pai deixou a minha mãe grávida e foi para o interior. Eu nunca o conheci e não tenho a mínima vontade. Amo a minha mãe. Ela me sustentou durante toda a minha vida trabalhando apenas como vendedora. Com certeza é uma vencedora.
Acho que ainda não me apresentei. Meu nome é Zane Thois, tenho 15 anos e com certeza, embora os outros digam que não, eu não levo uma normal. Tenho cabelos castanhos e olhos verdes. Uso um par de óculos redondo que minha mãe me obriga a usar. Levo sempre comigo um diário, onde anoto todos os acontecimentos importantes e anormais em minha vida. Não possuo muitos amigos, a não ser Pedro, meu melhor amigo desde a infância. Os garotos mais velhos tentam praticar bullyng comigo, mas eu os ignoro e então me deixam em paz. Gosto de uma garota chamada Gabriela, mas ela me ignora. Ela é do tipo popular, ela não iria querer um garoto magrelo e que usa um par de óculos redondo.
Bem, retornando a história... Estava tomando o café-da-manhã junto a minha mãe. As torradas estavam deliciosas e o suco natural divino. Terminei tudo em 5 minutos e fui direto ao banheiro tomar banho. O shampoo estava no final, tive que esperar alguns minutos para o resto dele descer até a boca. Enquanto isso, eu me ensaboava com meu sabonete Lifebuoy. Quando o shampoo finalmente chegou à boca do frasco, minha mãe já estava berrando para eu sair do banho, pois eu já estava atrasado. Saí do banho e me enxuguei com minha toalha azul. Escovei os dentes rapidamente e coloquei meu uniforme de escola. Fui direto à sala me despedir de minha mãe e chamar o elevador.
Chegando ao térreo, vi meu ônibus passando na rua e fui correndo até o ponto de ônibus onde eu o pegava. Se eu tivesse esperado o shampoo descer, certamente perderia o ônibus e teria que perder a prova da senhora Bells, a professora de matemática de minha escola. Fiz sinal para o ônibus parar e entrei. Passei o cartão e a roleta liberou minha passagem. O ônibus estava lotado e não havia lugar para eu sentar.
O trajeto leva 20 minutos. Olhei em meu smartphone e o ônibus estava atrasado, faltava 15 minutos para o portão de minha escola fechar e o ônibus tinha acabado de sair. A aula da senhora Bells era a primeira e eu não podia me atrasar. Durante o caminho, avistei um poste de semáforo amassado, como se alguém tivesse o pegado e apertado o mais forte possível. Isso com certeza tinha que estar em meu diário. O sol estava ardente e eu suava feito porco. Várias pessoas em volta de mim me olhando com desgosto, isso me deixava louco. Então não tive dúvidas, peguei meu fone de ouvido e pluguei no celular. Estava pensando em algo mais agitado, escolhi o primeiro álbum do Metallica. Seek and Destroy entrava em meus ouvidos como um som divino. O thrash dos caras era um dos únicos que me agradava. Cheguei na escola e nem percebi como passou tão rápido.
A inspetora da escola estava fechando o portão quando eu cheguei, implorei a ela para entrar. Ela se fez de difícil mas liberou minha passagem. Subi as escadas correndo e cheguei na sala.
–Ér, licença senhor Bells. Posso entrar? — disse eu batendo na porta encostada.
A senhora Bells me olhou com um ar enfurecido. Pediu explicações sobre o meu atrasado e eu a expliquei que meu ônibus havia atrasado e que eu não tinha culpa nenhuma. Todos começaram a rir. Por ser uma escola particular de alto padrão, não hesitei. Eu tinha conseguido uma bolsa de 95% na escola. A senhora Bells mandou a sala se calar e liberou minha entrada.
Sentei na última carteira e peguei meu estojo. Enquanto a senhora Bells entregava as provas, eu cumprimentei Pedro, com voz baixa. A professora me entregou a prova e me chamou atenção dizendo para eu voltar à Terra. Eu estava observando Gabriela e seus lindos cabelos loiros. A professora ordenou aos alunos para virarem a prova e começarem a fazê-la. Tínhamos 40 minutos para termina-la.
Eu não entendia nada na prova, mas por algum motivo, eu respondia às questões e tinha certeza que essa era a resposta certa. Terminei-a em 10 minutos e pedi à professora para ouvir música. Queria relaxar a mente, escolhi Going to California, uma de minhas músicas favoritas. A voz de Robert Plant soava tão bem que dormi e só acordei com os berros da professora pedindo para eu entregar a prova.
O professor de história, o senhor Lipperd, havia faltado na segunda aula e os alunos ficaram livres para fazer o que quiser. Não pensei duas vezes e logo peguei meu diário na mochila e comecei a escrever.
Hoje, dia 3 de janeiro, às 6:45 a.m., eu avistei pela janela do ônibus um poste de metal amassado. Não era um amassado comum, parecia que algum gigante tinha o apertado com toda a sua força. Não sei o que ocasionou aquilo, só sei que assim ele estava.
Terminei de escrever em um minuto e logo peguei meu fone de ouvido. A faixa da vez era Layla, minha música predileta do Eric Clapton. Os solos entravam em meu ouvido e me relaxavam. Pedro veio me chamar.
–Ei, Zane. — disse Pedro a mim. — Por que não vai lá falar com a Gabriela? Ela parece tão só...
Eu tentei o ignorar.
–Zane! Larga a mão de ser tímido! — falou Pedro. — Vai lá agora.
Eu fiz uma careta irônica e fui direto à carteira de Gabriela.
–Ér, oi.
–Oi, Zane! — disse Gabriela com um tom de surpresa. — Como vai?
–Ah, vou na mesma rotina chata de sempre. Escola, internet e sono. E você?
–Ah... Estou indo. — respondeu Gabriela.
–Aconteceu alguma coisa que queira me contar?
Eu estava confuso. Por que Gabriela foi simpática comigo? Isso nunca havia acontecido antes.
–Vamos ao McDonald's depois da aula, que tal? Lá eu te conto. — disse Gabriela.
Nesse momento a inspetora que cuidava da sala liberou a saída de Gabriela ao banheiro. Me senti aliviado e fui direto falar com Pedro.
–Cara, você nem acredita... — disse eu.
–O que, velho? Fala aí! — Pedro se entusiasmou junto a mim. — Ela te deu um fora?
Fiquei um pouco irritado com Pedro naquele momento. Mas prossegui.
–Não. Ela me chamou para ir ao McDonald's depois da aula.
Pedro fez um olhar de surpresa. Parecia que as palavras não saíam de sua boca.
–Você está brincando, não é?
–Pedro, pode ficar quieto e me escutar um segundo? — retruquei. — Eu a cumprimentei. Ela perguntou como eu estava e eu a respondi e perguntei-lhe como ia. Ela pareceu meio confusa, mas disse que estava bem. Eu não acreditei e disse se tinha alguma coisa que ela queria me contar e ela disse: Vamos ao McDonald's depois da aula, que tal? Lá eu te conto. E só.
–Uau, cara... Estou sem palavras. — disse Pedro.
Eu fiquei quieto e coloquei meu fone de ouvido. Não sabia o que colocar para ouvir, então coloquei em aleatórios e esperei o sinal tocar. Só deu tempo de Hell Patrol chegar no solo e o sinal tocou. Bééééééééé. Não demorou sequer um segundo e a professora Sakni entrou na sala.
–Bom dia à todos. — disse Sakni — Abram o livro na página 87 e leiam o texto.
A professora Sakni é japonesa e veio para o Brasil logo quando nasceu. É formada em biologia e dá aulas de ciências na minha escola. Ela é um pouco descontraída, porém odeia conversa em sua aula. Como eu não sou muito de falar, me dou bem com ela.
Quando todos já tinham terminado de ler e já estavam conversando, Sakni ordenou à todos para que fizessem os exercícios 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8. Todos reclamaram e começaram a fazer. Eram perguntas fáceis e terminei em 20 minutos. A aula já estava no fim quando acabei. Peguei meu celular e comecei a ouvir Midnight Oil. O sinal para o intervalo tocou e todos saíram correndo.
Gabriela veio me chamar para lanchar com ela. Eu aceitei o convite e fomos ao pátio. Conversamos sobre diversas coisas. Desde cinema até o universo. Não entendíamos como era possível algo ser infinito. A conversa passou rápido e o sinal do fim do intervalo já tocou. Subimos à sala. A aula era com a professora Júlia, uma mulher de 30 anos que dava aulas de português desde seus 18 anos. Era uma professora legal. Tinha uma relação amigável com todos os alunos.
A professora tinha liberado a sala para lerem um livro. Peguei um livro qualquer e coloquei meus fones de ouvido e coloquei Rolling Stones para tocar. A história do livro era legal, um cavalheiro que havia perdido sua noiva em uma aposta, mas nada de emocionante. Terminei de lê-lo em 5 minutos. Após o término, fingia estar lendo apenas para ouvir música. Eu cantava mentalmente Start Me Up quando o sinal bateu. O tempo passou tão rápido, pensava eu.
A próxima aula era do professor de Educação Física Roberto. Um homem de aparência atlética e cabelo curto. Descemos até a quadra multi-esportiva. Era futsal e os garotos da minha sala já estavam de time montado. Preferi não participar da aula e escutar música. Gabriela veio até mim com seu grupo de meninas metidas.
–Não se esqueça do McDonald's depois da aula.
Eu assenti e me dirigi até Pedro. Contei da cobrança de Gabriela. Ele pareceu não acreditar naquilo e me disse que ela estava "na minha". Se ela está, ou não, não importa. Eu terei muito tempo para conversar com Gabriela.
Bééééééééé. O sinal tocou de novo e a aula já tinha acabado. Subimos para a sala. Era aula de Lipperd. Peguei meus fones e comecei a escutar AC/DC. Adormeci e acordei com o sinal da última aula.
A aula agora era da professora de geografia Nany. Uma senhora de 63 anos de idade, cabelos loiros e olhos azuis feito o céu.
–Exercícios das páginas 126 à 128. — ordenou Nany.
–É pra copiar? — disse Gabriel. Um colega de sala, um pouco desajeitado.
Todos zombaram dele.
–É pra tirar fotocópia, Gabriel. — disse a professora com um tom de ironia em sua fala.
Comecei a copiar os exercícios. Em 20 minutos já estava tudo copiado em meu caderno e eu estava começando a responder. Tirando as questões 2, 6 e 9, estava até que fácil. Comecei a fazer desenhos aleatórios na última folha de meu caderno. Amava desenhar olhos. Fiz um olho gigante e o pintei com lápis grafite. Mal terminei o desenho e o sinal da saída tocou. Todos saíram correndo menos eu e Gabriela.
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