O Devorador de Ossos
2 Meu encontro com Gabriela
Eu e Gabriela andamos algumas quadras até ao McDonald's. O trânsito era infernal. Passámos carros parados em um piscar de olhos. Em menos de 5 minutos já estávamos na lanchonete.
–Pois não, senhor. — disse a atendente com um olhar antipático.
Eu fiz meu pedido: 1 Coca-Cola média, 1 BigMac e batatas fritas. Paguei na hora com o dinheiro que tinha guardado em minha mochila. Gabriela fez o mesmo.
Subimos as escadas até o segundo andar. Onde escolhemos uma mesa para dois. Fui pegar ketchup e mostarda enquanto Gabriela acessava seu iPhone. Voltei e começamos a conversar e comer. Ela passou ketchup em meu nariz. Fiz o mesmo. Depois de meia hora de conversa, desci até o andar de baixo para pegar casquinhas de creme. A mesma moça me atendeu.
–Zane Thois. — disse ela com um tom sombrio.
Eu entrei em pânico por dentro e me controlei por fora. Peguei as duas casquinhas e subi até o andar de cima.
–Obrigada, Zane! — disse Gabriela. — Você é um garoto legal.
Eu fiquei tímido com o elogio e a elogiei também. Logo em seguida, a moça que me atendeu subiu as escadas e começou a varrer o chão. O curioso era que isso já tinha sido feito por outra mulher. Gabriela pareceu apavorada. Tentava se controlar, mas sua expressão de medo era visível.
–Thois, corra.
Eu não entendi o pedido. Mas obedeci sem questionar. Me escondi atrás da última mesa do local. Não havia ninguém além de eu, Gabriela e a atendente. De repente, algo de inesperado aconteceu. As bandejas começaram a flutuar. Eu fiz um olhar de susto. E comecei a tremer de medo. A atendente começou a modificar seu corpo. Escamas surgiram. Garras afiadas vieram no lugar das unhas e dentes pontiagudos surgiram em sua boca. Um par de asas aparecer em suas costas e uma cauda com espinhos apareceu. Gabriela parecia assustada também, mas tirou de sua mochila uma lança. Ela devia ter 1 metro de comprimento. Tinha detalhes a ouro e parecia muito pesada, mas Gabriela parecia pouco se importar com o peso. As bandejas começaram a voarem contra Gabriela, eu pulei e tentei impedir.
–Afaste-se, Zane! Desça as escadas e fuja. — gritou Gabriela.
Eu retruquei.
–Não! Venha comigo!
–Você não entenderá. Desça e me aguarde na entrada.
Obedeci. Estava com raiva e com medo. Quando cheguei lá embaixo, tive uma surpresa. Todos estavam, meio que, congelados. Feito estátua. Tudo. Até as nuvens estavam paradas. Eu me belisquei para ter certeza de que não era um sonho.
Dava para ouvir o barulho do duelo no andar de cima. Torcia para que Gabriela ficasse bem. Eu estava tenso. Ouvi passos vindos da escada.
–Vamos, corra para o mais longe possível. — ordenou Gabriela me puxando pelos braços.
Eu corri junto a ela. Fomos seguindo a Avenida Paulista. De repente, um clarão veio e as pessoas voltaram a se mexer.
–O que está acontecendo, Gabriela?
–Zane, não posso te dar detalhes agora. Mas digamos que, todas as vezes que tem um duelo entre humanos e monstros, assim dizendo, o tempo para. E tudo para. Mas as pessoas não se lembram de nada. Não sei o por quê disso. Mas sei que você também pode lutar com eles. Siga-me.
Fomos correndo até a portaria de um prédio. Quando entrei, me surpreendi. Havia criaturas estranhas de todos os lados. O salão parecia não ter fim. Era imenso. Havia um rio cortando-o. Pássaros voavam. As árvores balançavam.
–Aqui está ele. — disse Gabriela a um homem de aparência velha, cabelos grisalhos e um par de óculos igual ao meu. — Tive um pequeno problema no caminho, mas está tudo bem, senhor.
–Mas! Mas! Um monstro apareceu no McDonald's. E por sinal, o que era aquilo? — interrompi.
Gabriela tapou minha boca com a mão e eu recuei. O homem de aparência velha começou a falar.
–Muito bem, Gabriela. Agora siga-me até minha sala e leve Zane junto a mim.
Caminhamos quilômetros como se tivéssemos andado alguns metros. Paramos em uma porta, que estava no meio do nada. O homem abriu a porta. Quando eu olhei o tamanho de sua, humilde, sala fiquei boquiaberto. Havia livros por todas as partes. Estátuas de monstros pelo caminho. Um lustre enorme com dentes de, achava eu, monstros. O carpete era vermelho-sangue. Sua mesa era de mármore com detalhes a ouro. Ele puxou duas cadeiras e ordenou que eu e Gabriela nos sentássemos. Ele sentou sua cadeira, que mais parecia um trono.
–Seja bem-vindo, Zane Thois. — disse o homem. — Não se assuste. Aquilo que você viu em seu encontro com Gabriela não foi nada demais. Você ficará aqui por algum tempo até ter habilidade suficiente para derrotar monstros. Fique tranquilo, sua mãe já sabe disso e autorizou. Você ficará aqui por poucos dias, relaxe. Uma semana, talvez. Não se assuste com o que você verá aqui. Você entenderá logo menos o que é isso tudo e o que as coisas estranhas que você via durante o caminho de sua escola eram.
–Como... — fui interrompido rapidamente por Gabriela.
–Pois bem. Leve-o daqui. Ah, meu nome. — disse o homem como se estivesse lendo minha mente. — Meu nome é Gullster. Sou, digamos que, o coordenador daqui.
Gabriela me tirou da sala do homem. No caminho foi me explicando que o lugar onde estávamos era como se fosse uma escola para os escolhidos. Iremos aprender tudo sobre magia e a matar monstros. Eu me sentia um pouco incomodado com aquilo tudo.
–Zane, não se assuste, por favor. Você foi um dos escolhidos pela força suprema. Talvez você não queira isso, mas é o seu destino. Você não pode mudá-lo. Eu sou uma das escolhidas também. Eu estou aqui desde os meus 5 anos de idade. Meu pai me trouxe até aqui. Ele também sabia disso, assim como sua mãe. Eu fui obrigada a estudar com você para te proteger dos monstros. A senhora Bells, por exemplo.
–A senhora Bells? A professora Bells? — questionei com um olhar de surpresa.
–Sim, Zane. A própria. Ela é um monstro. Ela só não se manifestou pois você estava sob minha guarda. Mas agora ela já sabe que você tem o conhecimento disso tudo. E irá te atacar assim que o ver. Por isso você tem de ser treinado. Caso contrário, você virará comida de monstro.
Eu me assustei. E continuamos andando pelo salão. Havia vários bichos. Leões metade cobra. Pássaros metade peixe. E assim por diante. Gabriela foi me apresentando cada casa que havia ali. Ela me apresentou um amigo.
–Gustavo Lheo. Esse é Zane Thois, nosso novo membro. — disse Gabriela me apresentando a Gustavo. O menino aparentava ter 17 anos. Tinha um porte atlético e uma tatuagem em seu braço direito. Parecia ser um sol com um rosto de leão. Havia algumas escritas nas quais não consegui decifrar. Seus olhos eram pretos, pareciam jabuticabas. Seu cabelo era comprido e havia uma trança perto de sua orelha. Eu olhei duas vezes em sua orelha, faltava um pedaço dela. Estranhei. — Zane Thois, esse é Gustavo Lheo. Um membro antigo daqui.
Cumprimentei Gustavo com um aperto de mão e segui em frente. Atravessamos um rio. Nele havia vários peixes. Os mais lindos possíveis. Suas águas eram cristalinas. Podia ficar olhando para aquilo por horas. Mas tivemos de seguir. Chegamos até um estábulo. Havia cavalos com chifres, touros com pele de zebras, etc. Era estranho olhar para aqueles bichos. Havia um, em especial, que me chamou atenção. Ele tinha um chifre de unicórnio dourado e asas de prata. Um pégaso, decifrei. Ele possuía olhos azuis como o céu. O pégaso me encarou por alguns segundos. Fiquei deslumbrado com sua beleza. Seguimos até um local cheio de barracas.
–Este é o nosso dormitório para recém-chegados. Aqui você pode ter todo o contato com a natureza humana e mágica. Você pode encontrar qualquer coisa aqui. Basta pedir ou perguntar à alguém. — disse Gabriela.
Uma turma de jovens gritaram para mim. Acenei. Logo vi uma nascente, e fui correndo tomar água. A água era maravilhosa. A mais pura que já tinha tomado em toda minha vida. Lindoya ficava no chinelo. Eu olhei para Gabriela. Ela sorriu para mim. Ao lado dela, havia flores. De todos os tipos. Elas brilhavam e cheiravam a algo que, não sei explicar, algo magnífico. Olhei para o céu e avistei gaivotas voando por todas as partes. Aquilo era uma paisagem divina.
–Aquela é a sua barraca. — disse Gabriela apontando para uma barraca branca com detalhes a ouro. — Qualquer coisa, ligue em meu celular. Eu sempre irei atender. Agora, até mais. Espero caçar muitos monstros com você.
–Gabriela, posso te pedir um favor?
–Diga, Thois!
–Avise Pedro que eu estou bem.
Gabriela assentiu e partiu. Fiquei parado por um tempo, observando a paisagem. Quando um garoto me chamou.
–Bonito, não é? — disse um menino que aparentava ter 13 anos de idade. Sua pele era branca feito neve e seus olhos verdes feito esmeralda. Seu cabelo era curto e ruivo. Ele possuía várias sardas pelo rosto. Eu o achei, fofinho.
–Sim. Prazer — disse eu cumprimentando o garoto — Meu nome é Zane Thois. Cheguei aqui hoje e não entendi nada ainda.
–Prazer, meu nome é Anddy Ahve. Estou aqui desde que nasci. Mas ainda não tenho idade para caçar. Tenho apenas 12 anos, e você? Quantos anos você tem?
–Tenho 15, Anddy.
Anddy sorriu e saiu correndo pelos campos. Caminhei sozinho à beira do rio. Encontrei Gullster no caminho.
–Ér, ahn, Gullster?
–Diga, Thois.
–Você poderia, por favor, me dizer o que está acontecendo?
–Garoto, com o tempo você irá descobrir. — disse Gullster. — A força suprema te quis aqui, e aqui você está. Não se preocupe com o mundo lá fora. O que importa agora, é você treinar suas habilidades. Você descobrirá em breve qual a área que você domina. Preste atenção em tudo a sua volta. As criaturas aqui são inofensivas, não tema. Eu, por exemplo, domino as plantas. Alguns aqui dominam também, outros dominam os animais. E existem alguns que dominam a Terra, Água, Fogo ou o Ar. Não encontramos nenhum caso de dominantes disso por aqui, exceto Gabriela e Gustavo, mas espero que algum venha logo.
–O que Gabriela e Gustavo dominam?
–Gabriela tem a sabedoria sobre a água. Gustavo entende tudo sobre o fogo.
Deu um leve sorriso a Gullster e segui minha caminhada. O que será que eu domino? Enquanto eu pensava, vários pássaros começaram a cantar ao mesmo tempo que me seguiam. Um canto tão belo. Um canto divino. Estava pensando o que seria a tal Força Suprema. Seria uma espécie de controlador? Como um deus. Não fazia a menor ideia do que era a tal Força Suprema.
Comecei a ficar com fome. Logo avistei uma cerejeira e comecei a me degustar com aqueles frutos deliciosos. Anddy me encontrou e veio falar comigo.
–Ei, Zine!
–Zane! Não Zine. — corrigi.
–Desculpe. Vamos até ao refeitório comer alguma coisa?
–Pode ser, André. — brinquei com Anddy.
Anddy fez um som esquisito com a boca e caminhamos até o refeitório. Estava com vontade de comer uma lasanha à bolonhesa. Logo uma brisa penetrou em minhas narinas. O cheiro era da lasanha da minha avó! Salivei. Nos sentamos. E, de repente, bandejas voadoras trouxeram lasanha para nós dois.
–Hum, lasanha. — disse Anddy. — Boa pedida. Antes que estranhe, o refeitório serve o que você querer. Aparentemente, estava com vontade de lasanha.
Fiz um olhar de compreensão e comecei a comer. Aquilo era delicioso. Tinha exatamente o gosto da lasanha de minha avó. Comi tão rápido que nem percebi. Deu vontade de comer brigadeiro. Logo, dois potes de brigadeiro apareceram em nossa mesa.
Após o jantar, fomos de volta até o acampamento. Fui à minha barraca e me deitei. U-a-u! Ela era enorme! Tinha uma cama apenas. Mas seu espaço era enorme. Dez metros, fácil. Uma nuvem apareceu dentro de minha barraca e nela, um holograma de Gullster. Ele falou que eu poderia decorar o ambiente com o que eu quisesse. Não fiz nenhum pedido, exceto um porta retrato de minha mãe de outro de Pedro.
Adormeci rápido. Tive um sonho com furacões e com nuvens.
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