O Devorador de Ossos

3 Descubro o meu elemento


–Quem é você? — perguntei a um menino em meio ao caos do furacão.

Ele não me respondeu. Em seguida uma água lamacenta começou a subir e eu fiquei encurralado. Felizmente, era um sonho. Acordei. Alguém batia em minha barraca. Abri o zíper pela metade e vi que era Anddy.

–Vamos, Zine! Temos de tomar o café da manhã.

Eu o corrigi e fui direto ao refeitório. Estava com vontade de comer panquecas da minha mãe. Apenas pensei nelas e surgiram bandejas voadoras com uma porção delas! Me deliciei com aquilo. Pensei que ia explodir. Fomos ao rio.

–Esse é o Rio Iungo. — disse Anddy apontando para o Rio. — Iungo significa conector em latim. Deram-lhe esse nome pois ele une o mundo todo.

–Como assim o mundo todo?

–Você não sabe? — Anddy olhou para o meu olhar inocente e continuou. — Ah, sim. Bem, esse lugar se chama Campo de Lorem. Ele têm pessoas de todos os lugares do mundo. Ele não existe. É mágico. Há prédios em Nova Iorque com entradas para aqui, em Tóquio também, por exemplo. Você pode simplesmente caminhar alguns quilômetros e entrar em Nova Iorque facilmente ou vice-versa. Aqui o tempo passa mais rápido, mas nós não percebemos. O nosso organismo funciona com o tempo real. E não com o mágico. Por isso não envelhecemos rápido e demoramos para se cansar.

–Uau. Extraordinário. E quem? Como isso aqui existe?

–A Força Suprema há zilhões de anos criou o Universo Real e o Universo Mágico. Até a Idade Média, tudo funcionava como deveria. Mas com um descuido da Força Suprema, surgiu uma nova Força Maligna e os selecionados foram se perdendo aos poucos. As lendas sobre dragões e cavalheiros é real. Antigamente existiam milhares de selecionados para combater o mal. Mas, com o tempo, os cavalheiros começaram a se perder e ir para o lado mal. Com isso o mal está começando a combater o bem. A poluição, por exemplo. Ela é causada por guerreiros do mal, que chamamos de Guerreiros Mallum. Eles tentam criar caos no mundo e, assim, acabar com a criação da Força Suprema.

–E nós? O que nós somos?

–Nós somos os selecionados para proteger o mundo de monstros e dos Mallums. Nós somos chamados de Guerreiros et Venatores. Ou simplesmente Venatores. Que, do latim, significa Caçadores do Bem. — disse Anddy com uma expressão de felicidade no rosto.

Sentei à margem do Rio Iungo. Fiquei quieto observando a paisagem e as águas cristalinas. Peguei uma maçã da árvore ao lado. O gosto dela não era comum. Imagine a melhor maçã que você já comeu, agora imagine aquele sabor multiplicado por milhares de vezes. Era divino. Naquele momento, agradeci, involuntariamente, a Força Suprema.

–Ei, podemos nadar nele ou tomar sua água? — perguntei a Anddy.

–Não. Apenas os guerreiros dos 4 elementos podem. Água, Fogo, Terra e Ar.

–Anddy, o que você domina? Qual o seu elemento?

–Eu domino as plantas. Sei tudo delas. Posso controlá-las. Olhe.

Anddy, de repente, começou a fazer alguns movimentos com as mãos e ramos começaram a surgir do chão. Eram melancias! Achei aquilo fascinante. Pensei em qual seria o meu elemento. Me levantei e caminhei até um bosque. Havia árvores gigantes. Os pássaros cantavam e as árvores mexiam. Entrei naquele lugar. Por estar com Anddy, me sentia seguro.

–Esse é o meu lugar favorito. — disse Anddy olhando a paisagem a sua volta. — Foi aqui que descobri o meu poder. Já acampei diversas vezes aqui.

Trocamos olhares e ficamos ali conversando por diversas horas.

Uma corneta tocou.

–Vamos! Rápido! — ordenou Anddy.

Eu não entendi o que aquilo significava. Segui Anddy. Chegamos em um lugar onde havia uma fogueira enorme. Havia centenas de pessoas em volta dela. Perguntei do que se tratava a Anddy. Ele me explicou que era como se fosse uma cerimonia de oferendas à Força Suprema. Deveríamos jogar algo na fogueira. Com isso, nos sentiríamos renovados por dentro e por fora. Gullster apareceu e subiu em um pequeno palanque. Ele bateu no microfone para testar o áudio e começou a falar.

–Guerreiros, dominantes e Ignotus. Celebrai-mos à Força Suprema. Criadora de tudo o que temos e que já tivemos. Dona da razão e da salvação. Aceitai nossas oferendas. Renovai-nos.

Todas as pessoas começaram a gritar e a bater palmas. O clima era de festa. Bandejas voadoras chegaram trazendo comida e bebida à vontade. Eu estava fascinado com aquilo. Era lindo ver a felicidades das pessoas. Peguei um pedaço de pizza e um copo de Coca-Cola. Anddy pegou um cachorro-quente e um copo de Guaraná Antarctica. Comemos à beça. Gullster subiu no palanque e começou a falar, novamente.

–Chegou o tão esperado momento. Força Suprema! Aceite nossa oferenda! — Gullster gritou com entusiasmo.

Todos começaram a jogar suas comidas na fogueira. Quando eu fui jogar um hambúrguer, algo de estranho aconteceu. Eu comecei a levitar e fui até o topo da fogueira. Todos começaram a olhar para mim. Gullster parecia não acreditar no que estava acontecendo. Uma rajada de vento soprou. Todos começaram a gritar feito loucos.

–Eis o terceiro Grande! — gritou Gullster. — O Guerreiro de Aer!

Eu desci levemente até o chão. Não entendi nada. Todos estavam batendo palmas para mim. Perguntei o que estava acontecendo.

–O que está acontecendo? Você é o Guerreiro de Aer. O dominante do ar! Um dos quatro Grandes. Falta apenas o último Guerreiro. O da Terra. Mas já temos três. O mal não conseguirá nos vencer, não por enquanto. — explicou Gullster.

Me senti feliz. Bem, agora eu podia nadar em Iungo e beber sua água. Todos começaram a me cumprimentar. Alguns até me abraçavam. Me senti um pouco, ahn, incomodado. Porém contente. Todos começaram a cantar. Et tertia ad! In aere, hoc in salutem. Decifrei que era latim. Pois a maioria dos nomes era em latim.

A primeira coisa que fiz depois que descobri que era um Guerreiro do Ar foi nadar no Rio Iungo. Sua água era extremamente leve. Eu conseguia respirar embaixo d'água pois o ar entrava e saía de meus pulmões sem que eu percebesse. Acho que era porque eu dominava o ar, então ele podia entrar e sair de mim sem que eu percebesse. Passei a noite do rio com alguns peixes e animais misturados. Havia um animal que era metade ganso metade sapo. Outrora avistei um metade peixe metade lagarto. A Lua já estava se pondo quando fui dormir.

Sonhei com o mesmo garoto da noite anterior. Não tenho a menor ideia de quem é ele.

Assim que acordei havia um dominante do ouro me esperando no lado de fora de minha barraca.

–Olá, novo Guerreiro! Vamos até meu galpão de metalúrgica. — disse um menino de aproximadamente 15 anos. Ele tinha cabelos loiros e olhos verdes.

Eu o segui até o galpão. Ele me fez esperar por alguns minutos. Depois de aproximadamente 15 minutos, ele me entregou uma naginata de ouro com detalhes em mármore. O bastão tinha quase um metro e meio de comprimento. Ele parecia incrivelmente pesado.

–Zane Thois. Essa naginata é a sua arma mágica. Você pode girá-la em suas mãos fazendo soprar um vento terrível. Ela é perfeita para matar monstros a distância. Escolha um nome a ela. — disse o menino. — Ah, meu nome é Leonardo.

–Um nome. Bonzo? Arbonzo? Aerbonzo? Não sei! Acho que Bonzo é legal.

–Bonzo? Um momento.

Leonardo começou a escrever BONZO na minha naginata. Ela era incrivelmente linda.

–Ela sempre irá aparecer quando você precisar. Basta desenhar três argolas. Uma interligada na outra. E ela irá aparecer em sua mão.

–Mas desenhar não levaria muito tempo?

–Levaria. Por isso, se quiser, posso tatuar o símbolo em seu braço direito. Assim, basta tocá-la para que ela apareça. — explicou Leonardo.

–Ótimo! Mas, dói para tatuar? — disse eu com um olhar de medo.

–Tatuagens mágicas. Doem feito picadas de formiga. — Leonardo riu.

Eu pedi para que ele tatuasse meu pulso. Ele fez a tatuagem em dez segundo. Não doeu nada. Achei aquilo incrível. Leonardo explicou-me também que a tatuagem só é visível para quem consegue enxergar o mundo mágico, caso contrário, ela se torna uma mancha.

Fui chamado para a sala de Gullster.

–Olá, Gullster.

–Olá, Zane Thois.

Gustavo e Gabriela também estavam lá. Cumprimentaram Gullster e se sentaram.

–Vocês terão uma missão. Achar o quarto elemento. Sigam os ventos. A água os guiarão. Uma surpresa virá. Vocês perderão o que mais importa. - disse Gullster. — Agora, saiam e vão em busca do quarto elemento.

Saí da sala e fui até o rio. Comecei a falar com Gustavo e Gabriela.

–O que ele quis dizer com Sigam os ventos? — questionei.

–Não sei. Talvez temos de seguir você ou seguir as direções dos ventos. — disse Gabriela.

–Uma surpresa virá. – disse Gustavo Lheo.

–Vocês perderão o que mais importa. — completei.

–Seja lá o que for. É melhor nos arrumarmos. — disse Gabriela.

Nos dirigimos até nossas barracas e fizemos uma mala para viagem. Coloquei um porta de retrato de minha mãe e outro de Pedro. Coloquei também um pacote de Doritos e algumas garrafas de água do Rio Iungo.

Após algumas horas, partimos de Lorem. Estávamos na Paulista. A sensação de sair de lá era extremamente estranha.

Os ventos sopravam a Oeste. Começamos a caminhar ao oeste. Um homem estranho nos seguia. Estava de terno e possuía uma maleta. De repente, um monstro surgiu em nossa frente. Toquei em minha tatuagem e Bonzo apareceu em minhas mãos.

O monstro tinha a aparência de um lagarto gigante.

–Zane, treine com este! Vamos dar cobertura. — gritou Gustavo.

Investi no monstro. Ele urrou e investiu em mim. Gire a naginata e ela soprará um vento terrível. Segui as ordens de Leonardo. Comecei a girar Bonzo e um vento. De aproximadamente 1000 quilômetros por hora soprou. O monstro estava se desintegrando quando apareceram mais 10 daquele. Gustavo e Gabriela começaram a lutar com os outros monstros. O vento desintegrou a primeira criatura. Ótimo, faltavam só mais nove daqueles. Gabriela jogou um pouco de água em sua lança e, de repente, uma incrível onda gigante matou um dos monstros. Agora só faltavam mais oito. Gustavo tinha um arco como arma. Ele usava flechas de mármore que pegavam fogo. Após algumas flechadas, o monstro evaporou. Uma criatura avançou contra Gabriela e a feriu. Fiquei vermelho de raiva e, com apenas uma investida, matei o monstro que fizera isso com Gabriela.

–Você está bem? — disse a Gabriela.

–Mate os outros. Eu vou ficar bem. — Gabriela respondeu.

Segui o conselho de Gabriela e comecei a girar Bonzo com força. O monstro pareceu enfraquecido. Gustavo lançou uma flecha. Acertou no peito do monstro. Ele evaporou. Fizemos isso com o restante de monstros.

–Gabriela, venha. Vou fazer um curativo. — disse Gustavo.

Gustavo fez surgir fogo em seu dedo. Era um fogo, ahn, diferente. Ele era azul. Lheo passou o fogo sob a ferida de Gabriela, que cicatrizou na hora.

–Uau, como você fez isso? — perguntei.

–Anos de prática, gafanhoto. — Lheo riu de minha cara.

Gabriela levantou e continuamos a seguir os ventos. Fomos parar na Marginal Tietê e disse:

–A água os guiarão.

–Chegamos a água. Mas, para onde devemos ir? — disse Gustavo.

–Sul. Devemos seguir ao sul. — afirmou Gabriela com certeza.

Não discordei. Gabriela dominava a água, com certeza ela sabia o que estava dizendo. Andamos quilômetros ao lado do Tietê. Gabriela teve uma ótima ideia.

–Zane, você consegue nos fazer levitar?

Respondi que sim.

–Então levite nós sobre as águas do Rio Tietê. E deixe que eu faço o resto.

Ela controlou a água que nos serviu como transporte. Paramos às margens do rio quando escurecer e acampamos por ali.

A noite era fria, Gustavo acendeu uma fogueira, o que foi uma ótima ideia. Dormimos rapidamente. Estávamos cansados.