O Devorador de Ossos

4 O primeiro dia da jornada


Acordamos cedo. O cheiro do rio Tietê era horrível. Nunca havia dormido nas ruas de São Paulo.

–Não é melhor nós pegarmos um carro para atravessar esse trecho mais rápido? — sugeri.

–Acho que um barco poderia nos ajudar. — disse Gabriela. — Mas, onde iremos achar um?

De repente, uma senhora de aparência velha, suja, com roupas rasgadas e fedida chega.

–O-olá, m-m-m-meus amigo-go-gos. — disse a velha. — Vocês pro-ro-rocuram um barco, não?

–Sim. Procuramos. Consegue nos ajudar? — disse Gustavo.

–Ma-ma-mas é claro, me-me-meus amigos. — disse a velha.

–Então nos ajude! — gritei.

–Basta seguir ce-ce-cem metros pelo ri-rio Ti-ti-tietê e ir a oeste em seguida. Vo-vo-vocês verão u-u-uma loja de-de-de barcos. E-e-e-eles alugam alguns de-de-deles também. — disse a velha.

Agradecemos e seguimos as instruções da velha. O trânsito era caótico. O fedor do rio penetrava em minhas narinas. O som das buzinas entravam em meus ouvidos. Parecia que eu estava prestes a enlouquecer. O sol já começava a esquentar. Terra da garoa, onde está uma garoa quando precisamos? Me perguntei. Corremos 100 metros em frente e viramos ao oeste. Era uma ruazinha que saía da Marginal. Seguimos reto nela. Não havia nenhuma loja de barcos.

–Surpresos? Amiguinhos. — disse a velha tomando aparência de monstro. Sua pele tomou a aparência de uma cobra-cega, seus olhos ficaram inteiramente pretos, uma língua de cobra apareceu em sua boca, duas presas afiadas surgiram e garras tomaram o lugar de unhas.

Toquei em minha tatuagem e Bonzo apareceu em minhas mãos. Gustavo tirou seu arco de seu bolso. Gabriela tirou sua lança da mochila.

–Primeiro eu. Depois Gabriela e depois Gustavo. — ordenei.

Todos assentiram. Investi contra o monstro. Fiz um corte em sua pele, mas logo cicatrizou. Gabriela ficou um olho da criatura, que urrou de dor. Gustavo começou a atirar suas flechas de fogo sem parar. Eles fincavam na pele do bicho feito agulha de acupuntura. Comecei a girar Bonzo sem parar. A pele do monstro começou a sair de seu corpo. Gabriela permaneceu parada enquanto Gustavo lançava suas flechas. O monstro começou a gritar sem parar e deu um pulo para o lado. O monstro investiu contra mim. Caí no chão e fui rastejando até atrás de um carro. Gabriela furou a barriga do monstro com sua lança. Gustavo acerto um olho do bicho com sua flecha. De repente, Lheo começou a atirar suas flechas no chão. Eles fez alguns movimentos com as mãos e controlou as chamas. Uma labareda de 10 metros se ergueu em sua frente e foi direto ao monstro. O monstro urrou de dor e derreteu.

–Ufa. Esse foi difícil. — comentou Gabriela. — Você está bem, Thois?

–Estou bem. Vamos continuar nossa jornada.

–E agora? Como vamos saber aonde ir? — disse Gustavo.

–Não sei. — respondi.

Uma águia chegou. Pousou na minha frente e me entregou um bilhete.

–Segue ao sul. Vá à praia. — li o bilhete para Gabriela e Gustavo.

–Não vou a pé à praia nem ferrando! — retrucou Gustavo.

–Pois bem. Você é o mais velho. Vamos roubar um carro. Ou melhor. Sei onde tem um ferro-velho. Ele é meio longe, mas não sai de nossa rota. Se começarmos a caminhar agora, chegaremos lá no fim do dia. Vamos esperar anoitecer para entrar lá e roubar um carro. — disse Gabriela.

–O.K. Meu pai estava me ensinando a dirigir. Já tenho uma noção, acho que consigo ir até à praia dirigindo. — replicou Gustavo.

Todos concordamos e começamos a caminhar. Andamos alguns minutos e voltamos à beira do rio. Já era quase meio-dia. O sol era de lascar. Gustavo e eu tiramos a camisa e penduramos na cintura. Gabriela improvisou um top com sua camisa. Eu lembrei que dominava o ar e mentalizei. Sopre vento, sopre!. Meu pedido foi atendido. Ventos médios começaram a soprar, refrescando-nos.

–Valeu, garoto. — disse Gustavo.

Assenti. E continuamos a caminhar. Vimos um vendedor ambulante.

–Senhor, com licença — disse Gabriela chamando o vendedor. — Estamos sem dinheiro algum e precisamos de água. O senhor pode, por favor, nos dar uma garrafinha?

–Oh, meu Deus. É claro. Tome. — disse o vendedor ambulante entregando uma garrafa de 500ml de água para eu, Gabriela e Gustavo. — Vão com Deus. Deus te abençoe.

–Obrigado, Deus te abençoe. — dissemos.

Abrimos uma garrafa e dividimos entre nós três. Cada um deu um gole e, em seguida, guardamos a garrafa na mochila de Gabriela.

Gabriela disse que mais tarde pode tentar multiplicar a água, mas que era difícil, pois nunca conseguiu. Seguimos a nossa caminhada. Suávamos feito porco. Calculei que, pela posição do Sol, já era quase duas horas da tarde. Gabriela disse que ainda faltava muito para o ferro-velho.

–Ei, que tal jogarmos um jogo? — sugeri.

–Qual? — disse Gabriela.

–Um de nós fala uma palavra, o outro tem que repetir e acrescentar uma e assim por diante. — expliquei.

–Tá. Pode ser. Eu começo — disse Gabriela — Água.

–Água, ar. — disse.

–Água, ar, fogo. — continuou Gustavo.

Fizemos isso por várias horas. Até todos nós acharmos entediante demais. Esqueci que ainda tinha meu celular. Verifiquei o horário. Quatro horas da tarde. O sol já estava começando a se por e o calor começando a passar. O trânsito estava melhor que algumas horas atrás, mas com certeza havia vários carros passando por ali. O mau-cheiro já passava despercebido. Olhávamos os aviões no céu. As motos passando entre os carros. Os caminhões desrespeitando as leis. Fade to Black não saía de minha cabeça. Estava com saudade de ficar a madrugada inteira na internet. Parecia que eu vivia uma era antiga. Minha rotina se modificou, digamos que, da escola para um encontro. Era legal passar o tempo com Gabriela e com Gustavo. Lheo parecia um homem sábio. Ele meio que, sabe de tudo, aparentemente. Gabriela era uma menina legal de se falar.

O Sol se pôs. Chegamos ao ferro-velho. Agora bastava esperar ele fechar. Gabriela disse que depois das dez horas da noite poderíamos pegar um carro e sair. Enquanto isso lanchávamos o Doritos que peguei no Campo de Lorem. Aguardamos ali por algumas horas, até o dono do ferro-velho sair. Ele me encarou. Parecia que eu já tinha visto aquele rosto antes. Bobagem. Pensei.

–Pronto, já podemos pular a cerca e roubar um carro. — disse Gabriela — Zane, acha que consegue nos levitar com o ar?

–Consigo.

–Faça isso, agora. — ordenou Gabriela.

Obedeci. Me surpreendi e consegui levitar três pessoas de uma só vez. Havia um Rottweiler no ferro-velho. Gustavo, Gabriela e eu trocamos olhares.

–Lheo. Distraia-o com fogo enquanto eu e Gabriela pegamos um carro.

Gustavo assentiu e fez surgir uma tocha em suas mãos, distraindo o cachorro. Gabriela e eu fomos procurar um carro. Um sem motor, outro sem porta, outro sem vidro. De repente, um Gol 2000 inteiro estava a nossa frente. Entramos no carro. Ele estava com tanque e pneus cheios. Fiz ligação direta e consegui ligar o carro. Chamei Gustavo, que lançou um pedaço de borracha para distrair o cachorro e entrar no carro. Lheo notou que o carro estava com placa. Gustavo acelerou o carro cantando pneus e derrubamos o portão do ferro-velho.

–Conseguimos. — comentei.

Todos pareciam felizes. Andamos alguns quilômetros. O carro possuía um rádio, sintonizamos na Rádio Rock 89,1. Nada melhor do que estar dentro de um carro seguro ouvindo rock. Gustavo e eu fomos na frente, conversando. Gabriela dormiu no banco de trás.

–Poxa, me sinto aliviado.

–Eu também, Zane. — disse Gustavo. — Sabe, eu já participei de uma missão antes. Saiu tudo legal. Eu tinha de matar um monstro que estava acabando com uma cidade no interior. Eu, Gabriela e João. Infelizmente, João morreu. O monstro arrancou-lhe a cabeça. Eu matei o monstro depois. Gabriela o furou tanto que desmaiou de cansaço. Eu meti bilhares de flechas nele. João era novato, assim como você. Ele tentou subestimar o monstro, que investiu nele. Ele não sabia a força que o monstro tinha e achou que era mais forte. Ele não respeito alguém que era mais forte que ele. Por isso, garoto, nunca subestime um monstro. Você tem a sua força e ele tem a dele.

–Lamento. Mas, por que está me contando essa história?

–Eu vi você investindo no monstro. Você poderia ter se ferido gravemente.

–Isso quer dizer que você não acredita em minha força? — retruquei.

–Não, Zane. É um conselho. Entenda como quiser. Mas tome cuidado com monstros. Eu já perdi um amigo, não quero perder outro. Por favor, Zane.

Fiquei furioso com aquilo. Mas me acalmei.

Gustavo parou o carro em um posto de gasolina e dormimos ali naquela noite.