O Devorador de Ossos
5 Descemos a serra
Acordamos às nove horas da manhã com um frentista batendo no vidro do carro. O rosto do homem era familiar.
–Ahn, bom dia. — cumprimentei Gustavo e Gabriela. — Quer dizer, espero que seja um bom dia.
–Olá, Zane. Todos desejamos isso. — disse Gustavo.
–Ai, ai... — Gabriela disse enquanto se espreguiçava. — Bom, uóóóóó, dia...
Gustavo sugeriu que pedíssemos alguns galões de gasolina para o frentista. Todos assentiram. Caminhamos até um deles.
–Olá, o senhor pode, por favor, nos dar alguns galões de gasolina? — pediu Gabriela delicadamente.
–O máximo que posso fazer por vocês é dar apenas um galão. — respondeu o frentista.
Gabriela assentiu. O frentista caminhou até os fundos do posto de gasolina e voltou com um galão de gasolina. Agradecemos e colocamos o galão no porta-malas do carro. Gustavo deu partida e seguimos a Maginal Tietê rumo à Imigrantes.
–Temos de entrar na Marginal Pinheiros. — disse Gabriela.
Gustavo virou bruscamente para entrar na Marginal Pinheiros. Gabriela parecia entender bastante sobre São Paulo. Liguei o rádio do carro.
–Como mexo nisso aqui? — perguntei a Gustavo.
–Qual estação você quer sintonizar?
–102,1. — disse.
Gustavo sintonizou para mim na Kiss FM. Estava tocando Kashmir.
–Vire à direita e pegue o retorno. Vá para a pista sentido contrário. — ordenou Gabriela, que estava sentada no banco da frente.
Gustavo obedeceu Gabriela e fez o retorno. Gabriela parecia uma co-pilota.
O carro andava a mais de 80 quilômetros por hora. Eu estava com o vidro direito aberto. O vento em meu rosto era divino, refrescante. Gabriela ordenou a Gustavo para que entrasse na Avenida dos Bandeirantes e que ele mantivesse o carro na faixa da direita. O trânsito estava bom naquele dia. Avistamos uma padaria. Pedi para que parássemos nela, pois eu estava com muita fome.
–Ahn, é... Senhora? — disse eu à uma atendente. — A senhora poderia nos dar um misto-quente com um copo de suco?
–Oh... — disse a atendente com um olhar de pena. — Aguardem.
Esperamos. A televisão estava sintonizada em um canal de esportes. O Corinthians havia ganhado o último jogo, Palmeiras e São Paulo empatado e Santos perdido. Começaram a surgir interferências na televisão. A atendente trouxe o nosso lanche.
–Aqui está, Zane Thois.
Toquei minha tatuagem e Bonzo apareceu em minhas mãos. Gabriela tirou sua lança da mochila. Gustavo sacou seu arco do bolso. O tempo congelou e a atendente começou a tomar a forma de uma fênix.
–Gustavo, não atire. Pegue algumas coisas da prateleira e leve-as para o carro. — ordenou Gabriela. — Zane, apenas corte-a.
Gabriela lançou sua lança no registro da torneira, que começou a jorrar água sem parar. Já tinha entendido tudo. Gabriela consegue controlar a água. O monstro era de fogo, então ela iria tentar apagá-lo. Investi no monstro, que soprou fogo em mim. Gabriela fechou os olhos e começou a movimentar as mãos. A água que jorrava começou a tomar um outro caminho rumo ao monstro. Enquanto isso, Gustavo pegava pacotes de chips pelas prateleiras. Gabriela soltou a água sobre o monstro, que urrou. O monstro bateu asas e voou para fora do estabelecimento. Gabriela fez a água ir direto ao monstro. A criatura apagou. Desobedeci Gabriela e girou Bonzo sem parar. O monstro de desintegrou.
–Zane. Nunca mais faça isso. N-U-N-C-A. Você sabe que fogo se alimenta de ar. Não importa se um vendaval muito forte apague-o. O monstro pertence a magia. — disse Gabriela.
–Desculpe, é que...
–Zane! O que nós conversamos ontem à noite? Nunca subestime um monstro. N-U-N-C-A. — disse Gustavo.
Me encolhi. Eu só tentei ajudar. E ajudei! Não entendia o porquê das reclamações. Entramos no carro e o tempo descongelou.
–Peguei 10 pacotes de Ruffles, 5 de Doritos e 3 de Baconzitos. Peguei duas caixas de Coca-Cola. E uma de garrafas de água. — disse Gustavo.
Gabriela e eu fizemos expressão de felicidade. Gustavo deu partida no carro e seguimos. Depois de alguns minutos conseguimos entrar na Imigrantes. A estrada estava vazia. O Sol estava tão forte que poderia-se fritar um ovo no asfalto.
–Finalmente na estrada. — disse.
Um carro estava colado em nossa traseira. Gustavo fez sinal para o carro passar, mas ele continuou acelerando atrás de nós. Lheo acelerou e foi para a faixa da direita. Mesmo assim, o carro continuou nos seguindo. Só que agora estava lado a lado com a gente. O passageiro abriu o vidro e começou a me encarar. Fiz uma rajada de vento soprar contra ele. Ele devolveu a rajada com folhas.
–Mallums! — gritou Gabriela.
Eu nunca tinha visto um Mallum antes. Parecem pessoas normais. Só que usam roupas pretas e são extremamente pálidos. O céu que estava sem nenhuma nuvem, começou a escurecer. Raios começaram a cair.
–Argh. Guerreiros da Tempestade. Guerreiros de Raios. — grunhiu Gabriela.
Gustavo jogou o carro contra o carro dos Mallums. Eles bateram no guard rail e jogaram o carro deles contra o nosso. Gustavo fez com que o carro deles começasse a pegar fogo. Tentei soprar as nuvens para longe de nós. Um raio caiu em Gabriela. Fiz soprar uma rajada de vento contra o carro dos Mallums, que capotou, mas continuou andando. Logo, o carro voltou a andar com as rodas. Gabriela estava desacordada. Gustavo fez com que as rodas dos Mallums pegasse fogo. Os Mallums giraram na pista e continuaram acelerando. Deixei metade de meu corpo fora do carro. Toquei na minha tatuagem e Bonzo surgiu em minhas mãos. Consegui furar a lataria do carro dos Mallums com minha naginata. Gustavo soltou o volante do carro e começou a atirar com seu arco. O carro dos Mallums estava pegando fogo. Consegui furar o buraco por onde entra combustível no veículo. Gustavo percebeu e atirou uma flecha ali.Buuuuuuuum. O carro dos Mallums explodiu.
–Foi por sorte. — disse Gustavo. — Eles já sabem de nossa missão. Precisamos tomar cuidado.
Pulei para o banco da frente. Tentei acordar Gabriela. Sem resultados. Apertei o pulso dela, estava fraco.
–O que iremos fazer?
–Não sei. Tentei re-acordá-la ou algo do tipo. — Gustavo fez uma breve pausa. — Pegue um garrafa de água e coloque na boca de Gabriela, aos poucos.
Assenti. Peguei uma garrafa e pinguei um pouco na boca de Gabriela. Coloquei-a em meu colo. Acariciava o rosto dela enquanto pingava água em sua boca. Sua pele era tão macia. Ela começou a acordar aos poucos. Gemeu meu nome. Tentou levantar o braço, mas estava muito fraca. A carreguei no colo e coloquei-a no banco de trás. Pinguei mais água em sua boca. Ela estava recuperando a consciência.
–Ahn... Ai... O quê... Ahn. Zane... Mallums. Cuidado... Lheo. Ai... O quê... Ahn. Socorro... Ah... — gemia Gabriela.
Gustavo e eu trocamos olhares. Ele me disse para abanar o rosto de Gabriela. Eu dominava o ar. Não era preciso. Fiz com que uma corrente de vento estável ficasse soprando no rosto de Gabriela. Chegamos em um pedágio.
–Seguram-se! — gritou Gustavo, rindo.
Ele acelerou o carro com tudo, quebrando a cancela. Um carro da Polícia Rodoviária começou a nos seguir. Pronto. Estávamos sendo seguidos por Mallums, monstros e policiais. Gustavo acelerava o carro com tudo. Chegamos ao limite. Duzentos e vinte quilômetros por hora. Os policiais começaram a atirar. Fiz com que uma rajada de vento soprasse contra os guardas. Eles diminuíram de velocidade. Fiz com que outra rajada soprasse a favor de nosso carro. Ele com certeza estava a mais de quatrocentos quilômetros por hora. Logo, os policiais desapareceram no horizonte.
Uma placa dizia que o trecho de serra havia começado. Já era final de tarde e uma neblina densa dominava a nossa visão. Gabriela acordou. Lúcida, perguntou o que aconteceu. Explicamos o que havia acabado de acontecer e ela se assustou. Passamos por um túnel. O trânsito começou a ficar pesado. Passamos pelo o segundo túnel e o trânsito estava completamente parado. Tinha um acidente. Duas carretas tombaram e bloquearam o túnel. Várias pessoas estavam para fora de seus veículos.
–É melhor a gente sair daqui. Coloque tudo na mochila de Gabriela. Vamos terminar de descer a serra a pé. — disse Gustavo.
–Qual o motivo disso? — questionei.
–Nós estávamos sendo perseguidos por policiais. Eles têm o número da placa no sistemas. Com certeza virão policiais aqui. — explicou Gustavo.
Pegamos nossos suprimentos e colocamos na mochila de Gabriela. Começamos a caminhar. Perguntamos a um policial o que tinha ocorrido. Ele nos explicou que uma carreta tentou ultrapassar a outra, se chocaram e tombaram. Passamos no meio dos dois caminhões e chegamos ao fim do túnel.
–Vamos descer pela trilha, é mais rápido. — disse Gustavo.
Assentimos. Pulamos os guard rail's e entramos em mata-fechada. Dava para ouvir os piados dos pássaros. Insetos voavam por toda a parte. Percebemos que o sol estava se pondo. Tínhamos mais quinze minutos para terminar a trilha.
–Cara, temos quinze minutos de sol! E agora? — disse.
–Qualquer coisa acampamos aqui. Eu consigo fazer tochas para nós três. — respondeu Gustavo com firmeza.
Andávamos no meio das árvores. Já não tínhamos luz natural. Gustavo acendeu uma tocha em suas mãos. Eu estava com medo, mas não demonstrava. Gabriela estava agarrada em meu braço direito. Já dava para ver a Lua no céu. Supus que faltava bastante para o final da mata. Não sabia a direção em que estávamos indo.
–Olhe! Um pedaço de estrada. — disse.
–Vamos até lá. Vamos ter de pedir carona. — murmurou Gustavo.
Fomos até a estrada. Fizemos sinal mas nenhum motorista parou. Depois de meia-hora fazendo aquilo, um caminhão de container.
–Entrem, crianças. — disse o motorista de meia-idade.
Entramos. Ele nos ofereceu café, mas recusamos. Gabriela dormiu. Gustavo e eu ficamos conversando com o motorista. Falamos sobre política, poluição, petróleo e uma porção de outras coisas. O motorista era um cara legal. Já tínhamos descido a serra. Ele nos disse que deixaria-nos no porto. Assentimos.
Chegamos no porto.
–Desçam. — disse o motorista.
De repente, para variar, o motorista tomou a forma de um demônio. Pele preta em cima de ossos finos. Chifres e garras surgiram. Ele urrou e pulou em mim. Bonzo já estava em minhas mãos e eu o joguei com minha arma. Gustavo começou a lançar suas flechas sem parar. Gabriela pegou sua lança e perfurou a barriga do bicho. Girei Bonzo. O monstro criou asas e me atacou de novo. Ele tentou me morder. Gustavo meteu uma flecha bem no olho do bicho. Gabriela enfiou sua lança no outro olho do monstro. Ele estava cego. Eu me levantei e cortei um dos braços da criatura. Ela urrou e me atacou de novo. Fugi e me escondi atrás de seu caminhão. Gabriela enfiou a lança no pescoço do demônio. Gustavo fez uma bola de fogo surgir e queimar o bicho. O monstro evaporou.
–Você está bem, Zane? — perguntou Gabriela.
Disse que estava bem.
O motorista não era um cara legal, com certeza não.
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