O Devorador de Ossos

6 O Velho Continente nos aguarda


Já era noite e não tínhamos um lugar adequado para dormir. Sentíamos o cheiro de mar. Gabriela parecia estar contente. Acho que, por ela ser uma Guerreira da Água, se sentia mais forte.

–E agora? — disse Gustavo.

–Devemos dormir e aguardar. — respondeu Gabriela.

Assentimos.

–Porém, onde dormir? — questionei.

–Às vezes pessoas dormem no saguão do porto. Podemos ir até lá e ver no quê dá. — explicou Gustavo.

Todos concordamos. O saguão para passageiros estava fechado. Gabriela disse para irmos até o porto comercial.

Era fácil entrar no porto comercial. Tivemos apenas de pular um alambrado. Tinha um container aberto. Entramos. Havia alguns sacos de trigo lá. Fizemos como se fosse uma cama de sacos. Não era uma cama de hotel, mas era mais confortável do que um banco de praça, por exemplo. Gustavo fez uma tocha com a mão. Conversamos um pouco sobre o que deveríamos fazer e dormimos.

Acordamos com a buzina de um navio de carga. Bãããããããã. O sol já estava queimando. Era aproximadamente nove horas da manhã. As gaivotas devoravam um peixe a nossa frente.

–E aí? — disse Gustavo com um tom de não sei o que fazer.

Avistei uma gaivota diferente. Preta. Olhei-a novamente e percebi que era uma águia. Ela voou entre os pássaros e veio até a mim. Ela trazia outro bilhete.

S_C_L_A

I — Velho continente.

–S-C-L-A. I — Velho continente. O.K. — disse.

–Hum. Velho continente, Europa. — decifrou Gabriela. — S-C-L-A. Scla. Não forma nada. Talvez devemos adicionar algumas letras nos espaços vazios. O que esse I faz aí?

–SICILIA. Itália! — afirmou Gustavo com entusiasmo. — Hum, mas, como? Como iremos à Itália?

–Hello-ou?! Estamos em um porto. Normalmente há navios em portos, não? — ironizou Gabriela.

Gustavo lançou um olhar maligno à Gabriela.

–O.K. Então vamos achar um container que vá para Sicília. — disse Gustavo.

Olhei a nossa volta. Reparei que havia um papel no container onde tínhamos dormido.

From: Brazil

To: Sicilia

Hamburg Süd

–Ha-ha-ha... Nós dormimos em um container que vai à Sicília. Podemos modificá-lo um pouco para ele ficar confortável para nós. São quatorze dia de viagem. Precisamos de algo bom. — sugeri.

–Ótimo. Como vamos organizar um container sem sermos vistos? Privada? Banho? — disse Gabriela.

Pensei um pouco na resposta.

–Ahn, não sei. Hum... E se pegássemos dois container's? Não sei! Temos que ter estoque de comida. E pra hoje! Água potável. E podemos usar o banheiro do navio. Mas teremos de tomar cuidado para não sermos vistos.

Todos concordaram comigo.

–Hum. Acho que aqui deve ter alguns container's de comida. — disse Gustavo. — Vamos procurar!

Assentimos. Nos dividimos para a busca. Fui para o norte. Gabriela ao sul e Gustavo à leste.

Andei por alguns minutos e encontrei um container que dizia: From: Brazil To: U.S.A. Hamburg Süd. Oranges/Laranja. Abri o container e peguei dois sacos de laranja. Voltei para o ponto inicial da busca e os deixei lá.

Procuramos por mais duas horas.

–Dois sacos de laranja. Dez sacos de arroz. Vinte sacos de enlatados. — disse Gustavo. — U-a-u.

–Acha que dá? — perguntei.

–Sim. — respondeu Gustavo com firmeza.

Todos pareciam contentes. Colocamos os sacos no container onde dormimos. Fizemos uma proteção aos nossos mantimentos com pacotes de trigo. Nós tivemos que tirar alguns sacos de trigo para que coubesse tudo. Suspirei.

–Acho que está, perfeito.

–Concordo, Zane. — disse Gustavo.

Gabriela deu um sorriso. Um homem dirigindo uma empilhadeira apareceu. Gelei.

–O que estão fazendo aqui? — perguntou o homem.

–Ér, ahn, droga! — disse Gabriela.

–Vou chamar a polícia. — disse o homem.

–Não! — disse Gustavo.

A empilhadeira começou a tomar uma forma humana, enquanto o homem tomava a forma de um pássaro morto. Antes um monstro do que um policial, pensei. Toquei minha tatuagem e Bonzo apareceu em minhas mãos. Gabriela sacou sua lança e Gustavo pegou seu arco.

–Eu, você e você. — disse Gabriela olhando para mim e Gustavo.

Gabriela furou a barriga do monstro. O monstro urrou, que dizer, piou. Gustavo lançou duas flechas nos olhos do bicho. A empilhadeira tentou me rasgar com sua lâmina. Recuei e caí. Usei Bonzo como escudo.

–Corra, Zane. — disse Gabriela.

Corri para dentro do container. Escutava gritos e barulho de lâminas cortando. Fiquei aprensivo.

–Gustavo! Não! — gritou Gabriela desesperadamente.

Corri para fora do container. Gustavo estava no chão, desacordado e ferido gravemente na mão.

–Gabriela! O que houve? — disse eu à Gabriela enquanto investia no monstro.

–Essa maldita máquina cortou a mão de Gustavo. Ele desmaiou.

Fiquei furioso. Corri em direção ao monstro. Dei um soco no estômago dele. Chutei sua asa. Girei Bonzo com tanta força que as penas do pássaro-monstro saíram voando. Ele parecia um frango depenado. Cortei a barriga da criatura, ela urrou de dor e virou fumaça.

–Maldito seja! — gritei.

Corri em direção à empilhadeira-humana. Cortei os braços dela e ela começou a soltar faíscas. Enfiei Bonzo no meio da máquina. Ela desapareceu em meio a raios.

–Boa, Zane. — disse Gabriela.

Fomos socorrer Gustavo. Ele estava desacordado. Sua mão esquerda estava embaixo de sua mão direita. Preferia não ter visto aquela cena.

–E agora? O navio partirá às seis horas da tarde. — disse Gabriela.

Fiquei quieto por um instante.

–Fogo, faça fogo! — respondi à Gabriela.

Gabriela tirou uma caixa de fósforos da sua mochila.

–Toma. — disse Gabriela entregando-me a caixa.

Acendi um fósforo e coloquei em um pedaço de saco de trigo, que começou a pegar fogo. Peguei calmamente o saco e coloquei na ferida de Gustavo. A ferida cicatrizou na hora. Gustavo começou a acordar.

–É, ahn, hum...

–É-e-e-e? — disse eu.

–Minha, não... — Gustavo começou a chorar. — Por que? — Gustavo começou a gritar feito gado no abate.

–Lamentamos. — disse Gabriela. — Agora entre no container.

Entramos e trancamos a porta. Um barulho muito forte surgiu. O container começou a balançar. Estávamos sendo colocados no navio rumo à Itália.