O Devaneio

1 O prisioneiro


I- O prisioneiro

Chovia intensamente naquela noite, o barulho dos trovões era de certa forma aterrorizante, mas do alto de uma grande torre não se pode “ouvir” o clima do mundo lá fora. Dentro da torre o prisioneiro recebe dois visitantes, um já é conhecido de longa data, Dr. Rudie é um homem velho, mas de boa saúde, e também um homem louco, como todos os cientistas que tentam quebrar a barreira entre ciência e a magia, sua acompanhante era uma jovem de pele branca como a neve, cabelos negros como o carvão e que tinha um doce cheiro de flores de cemitério.

O velho caminhou em direção ao prisioneiro:

–Essa é Nigra, a nova encarregada de te vigiar e de te manter aqui. –Sorriu com os lábios. –E vou avisando que é impossível você usar seus poderes nela, ela nunca dorme.

-Dr. Rudie, o senhor me disse que ele está aqui faz uns, 10 anos... –A garota faz uma pausa. –Incrível! E essa gota de água caindo sobre sua cabeça?

-É para ele não dormir. –Respondeu o velho.

-Não dormir? Por quê?

-Para que ele não use os seus poderes minha cara, essa criatura precisa dormir para viajar pelo reino dos sonhos. –O Doutor olha para Nigra. –Igual a você que precisa morrer para andar no reino dos mortos. –Ele espera a jovem dizer algo, mas a espera foi em vão. –Vamos embora, não há mais nada para se ver aqui. – Rudie vira as costas, sai da sala e espera por Nigra.

Para o Doutor, não tinha mais nada para ver ali naquele lugar, mas Nigra viu o prisioneiro sorrir para ela, a jovem retribuiu o sorriso de forma irônica e saiu da sala esperando que o velho mostra-se os seus aposentos, ele apontou o dedo para uma porta e disse:

– É ali que você vai dormir, bons sonhos. –O velho solta uma risada abafada.

A jovem não dá bola para a piadinha do Doutor e vai para o quarto. É o único cômodo do topo da torre, alem da sala aonde se encontra o prisioneiro, não é lá grande coisa, mas é mais confortável do que um caixão, e Nigra sabia bem disso. Depois de duas horas meditando em seu reduto, ela levanta da cama, pega as chaves, sai do quarto e vai para a sala do prisioneiro, de tempos em tempos ela luta contra o seu próprio corpo, mas ela acaba perdendo, a garota já não tem mais o controle sobre si mesma, quando acorda já é tarde demais, o lugar dela é ocupado pelo prisioneiro enquanto ela ocupa o dele.

-É inútil você tentar se soltar, no primeiro ano eu tentei algumas vezes, mas foi inútil. –Riu o prisioneiro. –Eu era conhecido popularmente como Oneiros, e nunca imaginei que eles cometeriam tamanho deslize, onde já se viu contratar alguém que está em sono eterno para vigiar um navegante dos sonhos? Tive certa dificuldade por causa da falta de concentração causada pela gota d’água, mas não foi nada que eu não pudesse contornar com concentração.

-Foi uma burrice mesmo, e eu pensando que estava protegida porque nunca durmo, mas a verdade é que eu nunca acordo. –Ela abaixa a cabeça e levanta novamente olhando para Oneiros. –Você está na frente, aproveite e corra, quando eu sair daqui eu irei caçar você!

-Se eu fosse você eu não faria isso, as mulheres que me seguem acabam morrendo. Hahahahaha! –Ele sai da sala e tranca a porta, Nigra começa a ficar nervosa com a água que goteja sobre sua cabeça.

Oneiros anda pelo corredor, passa pela porta do quarto onde Nigra estava hospedada e chega até uma escadaria, começa a descer as escadas e descobre que só existe um andar na torre, desce vários degraus até chegar na porta de entrada da torre, o solo do lugar aonde ficava a imensa torre de Lebab era de uma terra escura que com a chuva parecia petróleo, encostado no lado da entrada estava um soldado cochilando, tinha uns 30 e poucos anos de idade e nosso “amigo” prisioneiro parecia reconhecer a figura.

-Será que é ele? –Murmurou. –Parece muito com ele, não mudou muito em 10 anos, é uma boa oportunidade de testar meus poderes.

Ele fecha os olhos e logo se vê em outro mundo, agora ele viaja pelos sonhos do soldado que sonha que é um Rei cercado de mulheres e rico graças à arrecadação de impostos, ele parece feliz com isso, mas logo sua felicidade acaba. As mulheres viram demônios com grandes chifres e começam a tirar “pedaços” do homem com suas enormes unhas e dentes, o povo invade o castelo e começa a levar todos os seus tesouros, o soldado grita por socorro, somente depois de alguns minutos de agonia, as mulheres, o povo e todo aquele mundo some, só resta a escuridão e o vazio, eis que um homem aparece na sua frente:

-Você! Como pode? –Pergunta o homem indignado. – Você está preso!

-Estava preso, e ainda me lembro que você escarrou na minha face.

-Me desculpe senhor! Tenha piedade! – Implora o soldado.

-Se já não tivesse passado tanto tempo eu te mataria. –Faz uma pausa. – Mas como eu já não estou com tanta raiva, darei o troco na mesma moeda. –Oneiros da uma cusparada na cara do homem. – Ai está sua penitencia.

-Obrigado Senhor, muito obrigado! – O homem ajoelha-se venerando Oneiros.

-Não me chame de Senhor, eu não sou dono de ninguém!

-Sim Senhor! Digo…

-Estou partindo, volte a sonhar, te deixarei preso no seu sonho por três dias.

Antes que o homem pudesse dizer mais alguma coisa, o ator principal desse conto sumiu daquele sonho, o pobre soldado volta a sonhar com suas riquezas e mulheres, mas o sonho está diferente, em vez de beijos, ele recebe escarros de todas as mulheres e logo de todo o reino, enquanto que no mundo real ele agoniza.

Já no mundo real, Oneiros vê o soldado se debatendo e protegendo o rosto com as mãos:

–“Esse foi só o primeiro, foi fácil, mas creio que os outros serão mais difíceis.”-Pensou.

Percebeu que o Sol já estava nascendo, devido ter ficado 10 anos sem ver a luz do Sol, ele se sente incomodado e molda um par de lentes feito de sombras, ele pode controlar as sombras, pois os sonhos são as sombras da realidade, assim como o inferno é do céu. Ele olha para o horizonte e vê que terá uma longa jornada.