O Deus do Sol

24 XXIV – Novamente, atrás de uma Ménade


Liceu correu até o lado de fora do templo e lá viu seu pai e Ipeleu sentados no chão, pelo jeito que eles estavam descansando, pois estavam suados e e cheios de sangue ainda molhado no chão. Liceu se aproximou e viu que estavam acordados e que não passavam mal, só descansando, não falou nada só fez um gesto com a sobrancelha. Os dois levantaram e andaram até o templo e viram Kipédius encarando Apolo com uma cara nada animadora.

– Não acho que você é Apolo. – Kipédius falou olhando para os parentes que entravam.

– Como? – O deus falou saindo da sua habitual posição de ficar encostado na estátua.

– Não acho que ele tenha falado isso! – Liceu correu preocupado por Kipédius ser o único dos irmãos que não tinha uma armadura regenerativa, mesmo sabendo que não ajudaria muito contra um deus.

– Explica isso melhor. – Apolo, não ligou para o que Liceu disse, só andou em direção a Kipédius que ainda estava na mesma posição e com a mesma expressão.

– Você não previu e nem acertou Hélio. Você não sabia onde estava o sol de Hélio, exatamente. Não tinha ideia de onde estava a biga. Não consegue proteger seu templo sozinho.

– Tudo bem, eu sou um dos poucos deuses que provam que são antes de matar o idiota que dúvida. – Apolo parou e fez Kipédius pensar. – Se eu não sou Apolo, como trouxe Atenas aqui? Eu não sabia onde estava o sol ou fiz a armadura costumar o corpo dos dois antes que eles pudessem tostar. Eu não sabia onde estava o templo, mas quando escobri não tirei vocês de lá? Ou eu deixei vocês fugirem do templo? – Apolo fez Kipédius pensar. – Como trouxe a terceira espada dos filhos de Nêmeses, se não fosse um deus?

– Está convencido? – Perguntou Liceu olhando para Kipédius, mais aliviado.

– Acho que sim. Pelo menos por enquanto. – Kipédius falou com certa indiferença para o que Apolo tinha acabado de falar.

– Então, agora é hora de te matar. – Apolo falou tirando o arco de prata e puxando uma flecha com ponta e cabo de ouro.

– O quê? – Kipédius deu um passo para trás.

– Não pode fazer isso. – Ipeleu falou andando para frente de Kipédius.

– Apolo, meu deus, não tem como esquecer isso? – Liceu sentiu o desespero vindo, pois sabia que se Apolo atacasse, eles não conseguiriam se defender do deus, mesmo com a Solaris e com várias outras magias.

– Não tem renegociação. Do mesmo jeito que não tem como ele tirar o que acabou de dizer. – Apolo falou mirando na cabeça do desafiador.

– Ipeleu e Liceu, saiam de perto de Kipédius. – Falou o pai dos garotos. – Do mesmo jeito que ele escolheu suas palavras, ele escolhe seu destino.

– Mas pai... – Ipeleu olhou horrorizado.

– Mas nada. Vocês sairão de perto e deixarão Apolo fazer o que ele bem entender. – O pai falou sério para os filhos. – E você que saiba medir suas palavras de agora em diante. – O pai olhou na direção de Kipédius e falou asperamente. – Ele deu provas de mais, só percebe que tem os olhos de olhar.

– Você deixaria seu filho morrer por...

Deixaria qualquer pessoa morrer por imprudência. – O pai falou cortando Kipédius. – Você quem foi o burro, você que pague sua burrice, agora você dois saíam da frente de Apolo, ou pagarão pelas suas burrices também. – O pai não deu mais aviso algum, só saiu pela porta do templo.

– Boa sorte no submundo. – Ipeleu falou virando para abraçar o irmão mais novo. – Nos veremos em breve. – Ipeleu abraçou o irmão sem receber um abraço de volta. – Te espero lá fora Liceu.

– Tudo bem, eu vou ver a cena. – Liceu falou olhando o irmão sair pela porta do templo. – Apolo, se for assim, eu vou junto com meu irmão.

– Sabe que consigo matar só Kipédius sem te acertar? – Apolo queria ver até onde Liceu iria.

– Não se eu pegar isso. – Liceu pegou o Refletor e o colocou no braço esquerdo e o levantou até o ombro. – Ou mata os dois, ou não mata nenhum.

– Está colocando regras para um deus? – Apolo falou abaixando o arco.

– Não, estou sabendo os limites que os deuses devem ter com os mortais. Não somos coisas que vocês fazem o que querem e não foi você quem criou os mortais. Não tem direito de nos tratar como queira, devemos ter respeito, mas sem nós como vocês impediram Hélio? – Liceu falou com receio de que morreria no momento em que terminasse a frase.

– Acha que somos tão dependentes de vocês? – Apolo falou abrindo um sorriso e pegando mais uma flecha das costas. – Só colocamos vocês em meio a nós, para vocês não ficarem se achando que não tem utilidades nessa vida.

– Então por que alguns de vocês têm relações com humanos? – Kipédius falou lembrando-se de muitos semideuses.

– Do mesmo jeito que temos relações com outros deuses, titãs, animais, monstros, feras, etc. – Apolo falou mirando nos dois irmãos.

– Pode falar o que você quiser, mas ainda acho que tem que ter mais respeito dos dois lados, tanto dos deuses quanto dos lados dos mortais. – Liceu falou colocando o escudo na frente dele e de Kipédius.

– Não irei matar vocês. Liceu você se sacrificaria pelo seu irmão, não é algo que tem muito valor, mas também não é algo que se despreze. Terá momentos em que eu te atrapalharei em sua viagem, até que sua dívida comigo seja paga. Kipédius você sofrerá um pouco mais, não deixarei impune sua atitude, irá pagar, mas não agora. Não temos tempo para isso. Terá que fazer uma missão parecida com a sua primeira missão. – Apolo falou se virando de costas.

– Matar uma serva de Dionísio? – Liceu falou enquanto abaixava o escudo e o guardava.

– Sim, infelizmente sim. – Apolo andou até a estátua e se encostou como de costume. – E você já a feriu. Ela se chama Egle, o esplendor. Ela também se cura com a benção de Dionísio, mas ele concordou que não a salvaria caso você a leve para um templo de Hélio e a fizesse rezar para o deus traidor.

– Não posso matar mais uma mulher. – Liceu falou olhando para baixo e lembrando-se de como havia matado Enante.

– Como pode negar uma missão dada por mim? – Apolo desencostou da estátua.

– Ainda fico com a imagem de Enante sendo queimada, não conseguiria matar mais uma das Ménades.

– Como não pode? Você tem que fazer isso, ou se não será mais difícil para você mesmo. Não serei eu que terei que matar Hélio. Quer dificultar as coisas para você? – Apolo foi caminhando em direção a Liceu, e enquanto se aproximava aumentava o tom da sua voz.

– Você quer me dizer que: se um deus for perdendo seus laços ele fica mais fraco? – Liceu queria saber até onde poderia descobrir como mataria um deus.

– Não. Ninguém sabe como matar um deus. Hélio é filho de titãs, então ele é um titã, e sabemos como matar um titã.

– O que Liceu terá que fazer na próxima missão? – Ipeleu falou enquanto entrava no templo, mas levou um susto ao ver o irmão vivo. – Ainda não matou Kipédius?

– E nem matará. – Liceu falou olhando para o irmão. – Apolo cobrará depois que Hélio foi morto.

– E como se mata um titã? – Perguntou Kipédius voltando-se para Apolo.

– Só tem um jeito conhecido de matar um titã. – o pai falou entrando no templo, mas perdeu as palavras ao ver o filho vivo.

– De que jeito? – Perguntou Apolo temendo que o homem soubesse da verdade.

– Se um titã acertado por um golpe fatal por um deus e um mortal ao mesmo tempo o titã morrerá como se fosse um mortal.

– Como você ficou sabendo disso? Nêmeses? – Apolo tentou fingir que estava calmo.

– Não. Quando você vive na época de vários filhos de deuses, acaba sabendo de histórias quando eles ficavam bêbados.

– Ridículo! Isso é impossível, não funcionaria! – Apolo ficou nervoso e acertou um soco na perna da estátua, que rachou até o alto da perna.

– Pela aparência, e graças ao Crânio posso ver que está mentindo, seus pensamentos tomam forma a aparência do elmo que estás em minha cabeça, e consigo perceber que faz isso só para tirar nossa atenção para a possibilidade, que é totalmente verdadeira.

– Vocês já sabem agora então como matar um titã, então tem que matar as ligações dele. Terá que matar Egle, se não vocês não conseguirão matar Hélio.

– Sem querer ofender, mas o oráculo não disse nada disso. Ele só falou que eu iria ajudar, já que será necessário um deus para matá-lo. Que deus irá levar essa glória? A glória de: matar outro deus? Já que tenho certeza, que nem falarão meu nome. – Liceu estava querendo saber até onde Apolo falaria sobre o assunto dos deuses.

– Não importa o que o oráculo disse! – Apolo gritou com Liceu. – O oráculo disse só o final, e os meios justificam os fins. E para dar um fim em um titã é preciso acabar com seus laços.

– Tenho uma ideia melhor do que mata-la. – Kipédius falou se colocando a frente do irmão mais novo. – Que tal coloca-la contra o deus traidor?

– Como se coloca o filho contra o próprio pai? – Ipeleu perguntou para que todos ouvissem.

– Fácil. Quando se é da família dos deuses, todos sabem que o melhor é ficar ao lado dos deuses olimpianos. – Apolo falou com uma voz mais calma. – Mas vocês terão que encontrá-la e convencê-la a ficar contra seu próprio pai.

– Ela vai entrar no grupo para ajudar Liceu a matar o deus traidor? – Perguntou Kipédius já imaginando se ele teria chance com ela.

– Não sei, não tenho nada contra. Se conseguirem convencê-la, não vejo porque não. Ela se encontra no mesmo local desde a última vez. Se não se lembrar de onde ela está, Herc guiará vocês até o local. Não saíram de lá desde a última vez. – Apolo respondeu indiferente. – Já estou indo. Não ocorrerão mais ataques ao templo. Quando convencerem ela, tragam-na de volta ao templo, para ficar em segurança, depois veremos se ela continuará com vocês ou se irá para outro lugar. Eu a deixo viva, mas tragam-na rápido, nem todos os olimpianos vão querer ela viva. – Apolo falou enquanto uma luz começou a emanar da sua pele.

Liceu conseguiu descobrir como os deuses se tele transportavam pelo espaço após observar Apolo saindo do templo. Primeiro viu as células do corpo de Apolo vibrando a uma velocidade inimaginável. Depois de as células chegarem a uma velocidade surreal, o ar em volta do corpo de Apolo começou a ser deslocado em forma esférica e depois foi deslocado para baixo das células de Apolo, que foram empurradas pela deslocação de ar. O ar a volta de Apolo estava sendo deslocado para impulsionar Apolo como se não houvesse gravidade.

Apolo se deslocou através do teto do templo, sem afetar nenhuma parte da estrutura, mas Liceu só pode ver o teto do templo depois que parou de ver a reação que Crânio pode lhe mostrar com tantos detalhes. Liceu não pode acompanhar com os olhos a velocidade que Apolo se deslocou, o cérebro raciocinava na velocidade da cena que ocorreu, mas o corpo não respondia na mesma velocidade.

– Então vamos com Herc até as... Como é o nome delas mesmo? – Perguntou Ipeleu sem se recordar do nome do grupo de mulheres a qual Egle pertencia.

– Ménades. As servas de Dionísio se chamam Ménades. – Liceu falou se virando e indo em direção à porta do templo. – Montou em Herc e começou a viagem. – Não quero que ninguém me siga, elas irão se vingar de mim, e me atacarão com força total. Não quero ninguém machucado aguardem todos no templo. – Liceu bateu os calcanhares na pele de Herc e ele logo começou a correr em direção as Ménades.

Os familiares ficaram indignados, mas ninguém correu até um cavalo, pois não conseguiriam alcançar um cavalo que já estava a certa distância e não teria como seguir um cavalo que não se sabe para que rumo ele seguirá.

Liceu cavalgou com Herc por uma longa distância, mas antes de o anoitecer o cavalo parou de correr e caminhou vagarosamente até uma árvore, Liceu achou estranho, então esporou o cavalo novamente, para ver se ele voltaria a correr.

– Não tem como parar agora. – Liceu falou descendo do cavalo. – Ainda nem está tão escuro, está ficando velho? – Liceu olhou para o cavalo, que parecia querer se esconder atrás da árvore. – Vamos! Ainda tem muito chão para correr. – Liceu puxou o cavalo pelas orelhas, mas sem machucar.

Herc não saiu do lugar, então Liceu ouviu um som constante vindo de trás de suas costas, mas parecia ao longe, bem sútil, mas ainda sim perceptível. Liceu se virou para Herc e acenou com a cabeça.

Liceu se aproximou com passos lentos se escondendo pelas árvores, e um pouco a frente pode ver uma fogueira e varias sombras que tampavam a claridade da fogueira. Liceu foi se aproximando, mas foi surpreendido por um barril de óleo fervendo. Várias das Ménades estavam em cima de árvores segurando barris com óleo fervendo, para caso algum intrometido querer ver algum de seus rituais.

Liceu gritou e caiu no chão, à grama seca pegou fogo com o contato do óleo. O óleo entrou em contato com as partes úmidas do corpo de Liceu, o que fez Liceu pegar fogo e começar a derreter.

As Ménades foram se juntando e acertando Liceu com mais óleo, ele tentou correr para longe, mas sua pele e músculos estavam derretendo. Liceu caiu rolando no chão e as Ménades o deixaram sofrer por um longo período, ele não aguentou e desmaiou de tanta dor.

Liceu recobrou a consciência sentindo muita dor, tentou abrir os olhos, mas ao abrir percebeu algo estranho. Não conseguia enxergar pelo olho esquerdo e o direito estava muito embaçado, só poderia ser sequelas ainda não restauradas pelo óleo fervente.

Identificou pelos borrões muitas pessoas em sua volta, mas não sabia o que estavam fazendo, então tentou se comunicar e avisar que estava tentando ser pacífico.

– Egle! Filha de Hélio. Venho aqui em missão de Apolo para salvar sua vida, pois se não vir comigo será morta para que seu pai, o deus traidor, fique mais fraco. – Sua voz saiu fraca, e baixa, comparada a força que fazia. Ouviram-se muitas gargalhadas, mas ninguém retrucou nada, ficaram em silêncio. – Não estou mentindo. E se vocês acham que são imortais nunca viram um deus lutando, e aposto que nunca lutaram com um deus imortal de verdade, se fossem imortais Enante estaria viva! – As risadas cessaram, mas em compensação começaram vários murmúrios enraivecidos.

– Passou dos limites herói! – Uma das Ménades respondeu.

– Você é a Egle? – Liceu percebeu que seu olho esquerdo começou a ficar embaçado, e os dedos da mão direita recuperavam os movimentos, enquanto os dedos da mão esquerda estavam em carne viva, como a maior parte de seu corpo.

– Não te interessa quem eu sou. Retirarei sua armadura e quero ver se continuara falando.

– Espera! Não faça isso! – Liceu tentou se mexer, mas percebeu que estava amarrado a um tronco de árvore. – Não tirem minha armadura! – Liceu tentou rasgar as cordas, mas seu anel da força não estava em sua mão esquerda, então com o Cinturão da Presença o fez materializar-se em seu dedo.

Com o anel sua força aumentou, o poder da Solaris e a sua resistência. Sentiu seus ferimentos se curando mais rápido. O seu olho direito recuperou sua visão por inteira, ambas as mãos ficaram quase em estado normal.

Liceu rompeu as cordas que o amarravam, materializou a Vingadora em sua mão direita e decapitou a mulher que estava em sua frente. Materializou o Refletor e acumulou um poder na Vingadora, chocou a espada contra o escudo. Fez-se uma grande deslocação de ar e todas as Ménades caíram ao chão, Liceu não foi uma exceção.

– Prestem atenção! — Liceu falou enquanto se levantava rapidamente. – Não quero confusão, cadê a Egle? Tenho que tirá-la daqui, senão vocês todas irão morrer. Apolo oferece abrigo para ela em seu templo.

– Ninguém vai com você, assassino de Ménades. – Falou uma das garotas.

– Não tenho tempo para isso. Entendam uma coisa. Tenho que matar Hélio, e precisarei de ajuda para mata-lo. Se não tiver Egle me ajudando, tê-la-ei contra mim. – Ninguém falou nada, então Liceu tentou uma nova abordagem. – Tive uma ideia melhor, vocês são em muitas, né? E gostam de saquear? Que tal se juntarem a mim contra Hélio?

– Que idiotice! – Uma das mulheres falou.

– Idiotice? Seria ótimo, teria um batalhão para cumprir as missões, as coisas seriam mais fáceis. E cerca de vinte imortais lutando contra um deus fica muito mais fácil. Venham comigo e ajudem a matar o deus traidor.

– Nunca faríamos isso. – Retrucou a mulher que tinha sido decapitada.

– Quantas vezes vocês já viram Dionísio pessoalmente? – Liceu tentou usar a inteligência. – Eu mostraria Apolo assim que chegássemos ao templo dele. Aposto que Dionísio fala com vocês através de estátuas. Nunca o viram pessoalmente, estou errado?

– Não está. – Uma das Ménades falou. – Quero me juntar a você contra o deus traidor.

– Muito obrigado. Será muito útil, acho que depois que ele morrer, você terá sua vida de volta. Mais alguém se juntará a nós?

– Eu também vou, já que precisam de mim. – Falou Egle se aproximando de Liceu.

– Ótimo! Vocês também irão? Ou ficarão com três a menos no grupo? – Liceu falou se virando de costas e indo em direção a Herc.

Logo o grupo todo das Ménades o seguia. Liceu achou Herc e preferiu não montar no cavalo, a penas foi sendo guiado segurando seu pescoço, andando com todas as garotas as suas costas, carregando vários tipos de bolsas, acessórios, objetos, instrumentos musicais, entre várias outras coisas. Depois de três dias andando as Ménades e Liceu, chegaram ao templo de Apolo seguindo Herc, o único guia cavalo.