O Deus do Sol

5 V – A desobediência torna-se desavença


Kipédius entrou na casa pela porta da frente, assim como Liceu tinha feito a pouco tempo, dando um susto em Liceu e em sua irmão que agora se olhavam desesperadamente pensando na pior coisa que poderia ter acontecido com Kipédius.

- Me chamaram? – Perguntou Kipédius entrando em casa.

- Que susto! – Exclamou a irmã depois de se recompor pelo estremecimento do corpo.

- Onde você estava? – Perguntou Liceu preocupado.

- Depois que matei esse cara aqui. – E apontou para o cadáver morto no chão. – Eu fui para o telhado de casa e tentei achar você e os outros, mas só vi gente morta, então desci para ver se todos estavam realmente mortos. Estava conferindo quando ouvi a sua voz me chamando. Corri para ver o que tinha acontecido. Até cheguei a pensar que vocês tivessem correndo perigo.

- Ainda bem que conseguimos acabar com todos. – Disse Liceu agora se relaxando.

- Minhas estratégias são as melhores. – Disse Kipédius querendo uma discussão para mostrar vantagem de seu modo de atuar em combate e pensar.

- Sua estratégia? Que eu me lembre, eu falei o que eu iria fazer. O que você iria fazer e qual era seu posto de comando. – Disse Liceu já incorfomado.

- Isso foi você. Mas percebeu que de todos os que caíram, nenhum deles levantou para tentar um ataque novo? – Kipédius fez a pergunta com uma cara pensativa.

- Nenhum levantou para me atacar de novo. – Disse Liceu querendo saber aonde Kipédius queria chegar.

- Eu acertava pelo menos cinco flechas em lugares mortais para ter absoluta certeza de que eles não levantariam, até nos que você derrubou fiz isso. – Disse Kipédius querendo mostrar que era o mais apropriado para arcos e flechas. – Minha estratégia foi perfeita.

- A minha estratégia foi perfeita, pois eu escolhi você para esse posto. – Disse Liceu já querendo receber os méritos.

- Minha estratégia foi tão perfeita que eu abati o arqueiro deles primeiro já para não correr o risco de receber ataques a longa distância e além de...

- Vocês irão ficar discutindo para aumentar o ego de vocês ou recolheram os corpos e os enterraram? – Disse Mineléia já farta de ouvir a discussão dos irmãos.

- Me ajude a carregar esse daqui para fora. Alguém terá que ir cavando as covas e o outro arrastando os outros para perto. – Disse Liceu para o irmão já esquecendo o motivo da discussão.

- Carregamos esse e você cava as covas enquanto eu trago os homens para perto de onde você cava. Mineléia, você pega todo tipo de pertence que seja útil para nós. Inclusive as armas.

Liceu começou a cavar uma cova para caber os sete homens e um pouco funda, enquanto Kipédius arrastava os corpos para perto da cova e Mineléia pegava moedas, armas, sacolas, entre outras coisas que eles carregavam. Liceu fez um buraco de dois palmos fundos e cercados de pedras comuns, onde estavam todos os corpos com duas moedas (uma em cada olho).

Todos os homens estavam com suas roupas e até com alguns de seus pertences (alguns pingentes, anéis, blusas de couro, etc.). Kipédius pegou duas garrafas de vinho e espalho em cima de todos os corpos e depois pediu para Liceu pegar uma tocha e atirar em cima dos homens, e assim fois feito. Liceu jogou a tocha em cima dos homens, á uma certa distância para não ser acertado pelas chamas.

Enquanto os cadáveres pegavam fogo Liceu, Kipédius e Mineléia enchiam baldes com a água do rio e jogavam em cima da grama que tinha sido molhada com o sangue dos homens que agora jaziam mortos.

Quando todos os cadáveres já estavam completamente cinzas o pai dos garotos chegou com o filho Ipeleu que vestia um peitoral de cobre e couro, um escudo completamente de cobre e uma lança de madeira com a ponta de bronze e trazia o elmo na sacola que carregava nos ombros. Eles vinham dando risada e nem um pouco preocupados com a vida até que chegaram perto da grande cova que Liceu tinha cavado e olharam profundamente. Ipeleu deu risada, que aparentava um estado bêbado, e apontou para a cova falando para o pai.

- Acho que eles estão fazendo uma oferenda para os deuses. – Disse Ipeleu claramente bêbado.

- Você bebeu? – Disse Mineléia inconformada. – Pai! Como deixou Ipeleu beber?

- Agora ele é um homem. Foi a escolha dele. Isso é mesmo uma oferenda para os deuses? – Perguntou o pai tentando adivinha que tipo de animal estava sendo queimado a algum tempo.

- Sim. – Disse Liceu pensando rápido.

- Sim? – Perguntou Kipédius olhando estranho para o irmão, como se quisesse uma explicação.

- À que deus? – Perguntou o pai desconfiado, não conseguindo identificar quantos animais e nem quais eram.

- A todos. – Disse Kipédius com uma resposta evasiva.

- A todos? Cada deus tem o animal certo a ser sacrificado. Não acredito que vocês tenham conseguido todos os animais. – Disse o pai já querendo a resposta verdadeira.

- Se é assim, estamos fazendo uma oferenda a Ares. – Respondeu Mineléia bem baixo para que ninguém ouvisse.

- O que você disse Mineléia? – Perguntou o pai olhando na direção da garota quase que sentindo o coração explodir no peito. – A Ares? Como assim Ares?

- É que teve uns saqueadores e nós revidamos, aí deu nisso. – Respondeu Kipédius falando com um tom baixo e discreto.

- Saqueadores? Quantos eram? – Perguntou o pai já olhando para os garotos, angustiado.

- Sete. – Falou Liceu já temendo a bronca.

- Sete? – Berrou Ipeleu fazendo uma careta por conta da bebida – E sem mim? Se eu tivesse aí matava então uns quinze.

- Não foi tão fácil quanto parece. – Respondeu Kipédius tentando fazer um tom de que não teve outra escolha a não ser matar os homens pela dificuldade.

- Como vocês arranjaram encrenca com sete saqueadores? – Perguntou o pai querendo uma explicação plausível.

- Eu fui para a floresta enquanto Kipédius dormia no rio e Mineléia limpava a casa. Lá na floresta ouvi o barulho de vários homens e senti um cheiro pútrido, resolvi ir para a casa e me precaver. Peguei sua espada e falei para Kipédius pegar um arco e ficar no telhado de casa. O mandei esperar um sinal até atacar os homens, enquanto Mineléia ficava escondida dentro de casa. Falei para os homens que não queríamos confusão e indiquei o caminho que eles precisavam seguir, mas não gostaram da idéia e resolveram me atacar. Dei o sinal para Kipédius e a primeira flechada que ele acertou foi no olho de um dos caras (já não tinha como ele ficar vivo) e os outros foram sendo acertadas por golpes de espadas e flechadas em lugares que não poderiam ser curados sem um médico da cidade. No fim os que já não estavam mortos tinham sido gravemente feridos, então achei melhor não deixá-los se agonizando de dor e os matei.

- Como você matou sete homens a sangue frio? – Perguntou o pai assustado.

- Na verdade eu matei quatro e não os sete. – Liceu quis diminuir a bronca.

- Quantos foram mortos ao todo? – Perguntou o pai já muito bravo.

- Sete. – Disse Mineléia por reflexo.

- Como vocês mataram sete homens sem pensar nas conseqüências? – Perguntou o pai indignado.

- Era matar ou morrer. – Disse Liceu tentando se defender.

- Matar ou morrer? Vocês claramente que ouviu tudo e ainda planejou como deveriam agir e conseguiram tempo até tomar as posições de luta. Isso dava tempo de pegar a irmã e seu irmão e fugirem para ninguém se ferir. – Disse o pai já nervoso.

- Fugir? Não fujo de uma luta. – Disse Liceu lembrando-se das lições que o pai dera sobre valores de um herói.

- É isso aí! – Disse Ipeleu bêbado.

- Se eu morrer, eu morro lutando e defendendo os meus pertences. – Disse Liceu já inflado pelo orgulho da atitude que tomara naquela tarde.

- Isso mesmo! – Concordou Ipeleu quase caindo enquanto fazia um gesto com a mão.

- Ipeleu vá tomar um banho no rio e depois se deite. Você já não Sabe o que fala. Mineléia vá e ajude o seu irmão. – Disse o pai já querendo uma conversa com os dois filhos.

- Tudo bem pai. – Disse Mineléia já agarrando o cotovelo do irmão mais velho e o carregando para dentro de casa.

- Como vocês mataram sete homens mesmo? – Perguntou o pai querendo uma resposta plausível.

- Matamos para não ter a casa saqueada. – Respondeu Liceu já se irritando das perguntas freqüentes do pai.

- A casa não vale nada, já a vida vale muita coisa. – Respondeu o pai olhando nos olhos dos filhos.

- A casa vale muita coisa. Muito suor derramado para ser construída e muito trabalho para conservá-la.

- Isso não se compara a uma vida.

- Você acha que eu largaria minha casa? Eu dei as condições e eles aceitaram. Não os obriguei ao ataque. – Perguntou Liceu com o peito estufado e olhando o pai rudemente.

- Liceu vocês poderiam ter fugido não poderiam? – Perguntou o pai querendo sobrepor a atitude do filho.

- Sim, mas me responda. Vocês poderiam ter ido outro dia para Atenas, não poderiam? – Perguntou Liceu querendo encurralar o pai entre as próprias respostas.

- Sim, mas os deuses quiseram que eu fosse hoje. – Respondeu o pai olhando para o céu e fechando os olhos.

- Os deuses também quiseram que eu ganhasse a luta. – Disse Liceu já fazendo uma cara de “te peguei”.

- Vocês ganharam? Vocês tiveram sorte de ficar vivos. Posso ver o inchaço no seu rosto, quer dizer que eles o subestimaram, se não estaria morto. – Disse o pai já achando que o filho o desafiava.

- Sim eles subestimaram, mas ainda tinha Kipédius para continuar com a luta. Não foi sorte, foi o que os deuses acharam melhor. Isso significa que tive batalhas enquanto cresci, não fui um garoto mimado que fui criado em berço de ouro e escravos. – Disse Liceu olhando o pai nos olhos.

- Liceu menos. – Disse Kipédius preocupado. Com as consequências.

- Chega de diálogos. Vamos para a lição. – Disse o pai se erguendo.

O pai deu um tapa incrivelmente rude em Kipédius, que o fez cair e girar metade no corpo no chão. Enquanto Kipédius se levantava Liceu tomou um tapa que o fez cair para o lado. Kipédius já tinha se levantado e foi por isso que ele levou mais um tapa no rosto e mais uma vez caiu no chão. Liceu se ajoelhou e tentando reunir forças para levantar e acabou olhando para o chão e viu a sombra do pai virado em sua direção esperando ele se levantar. Quando Liceu se levantou recebeu mais um tapa no rosto, que não o fez cair, só se ajoelhar e já levantar em seguida, mas a vez de apanhar era de Kipédius, que caiu com mais um tapa. Liceu olhou para o pai e balançou a cabeça negativamente e quando o tapa veio no rosto do garoto ele o desviou o que o fez o pai olhar severamente para o garoto e tentou mais uma vez, mas dessa vez o garoto segurou o pulso do pai e olhou com total desprezo e falou – Já apanhei de mais por fazer o certo.

O pai olhou para Kipédius que já estava de pé e estava impressionado para o irmão. O pai se livrou da mão do filho e deu mais um tapa em Kipédius – Vá tomar banho e depois deite-se, eu ainda tenho assuntos pendentes com Liceu. – E enquanto olhava para Kipédius que estava no chão deu um soco no estômago, sem olhar. O garoto se curvou e depois foi segurado pelo pescoço e arrastado até uma viga de madeira que tinha na casa e lá foi amarrado pelo pai, que pegou a espada velha e enferrujada acertou trinta espadadas nas costas do filho com a parte achatada, que o fez cair.

Todos os irmãos ouviram atentamente, mas não interviram no castigo do irmão que gritou e chegou a desmaiar de tantas pancadas. Depois de bater no filho o pai deixou o filho amarrado a viga de madeira sem receio ou raiva e falou aos outros filhos que não era para alimentar Liceu e nem dar água, isso era para o “bem” dele. Liceu acordou já tarde da noite, as cinzas dos saqueadores já estavam se espalhando com o vento e ninguém mais estava acordado, apenas uma tocha estava acesa dentro de casa, mas era a tocha que ninguém apagava e que a usavam para acender as coisas durante o dia.

O frio batia no corpo do garoto, o que o fez começar a tremer e ele começou a sentir as dores e os cortes que tinha nas costas, que aumentavam com o frio. Liceu não quis gritar para acordar seus irmãos, não quis acordar o pai, não quis nem mesmo pedir aos deuses, só esperou até o castigo terminar. Passou muito tempo até o garoto pegar no sono e durante o sono teve um pesadelo fazendo acordar, mas não se lembrando de nada dos seus sonhos. Viu que já era cedo e viu seu irmão Ipeleu plantando algumas flores na cova que Liceu escavou no dia passado, Kipédius estava tirando sua soneca a beira do rio e Mineléia treinava golpes para qualquer coisa com o pai enquanto Liceu estava amarrado a uma viga de madeira com as cordas roçando seus pulsos já deixando marcas. O dia se passou e ninguém veio falar com Liceu, ele já imaginava que o pai tinha proibido os filhos de falar com o filho que ousou desafiá-lo. Para Liceu o dia passou lentamente enquanto para Kipédius o dia foi rápido de mais entre suas sonecas, Ipeleu terminou de plantar as flores e foi para Atenas e só voltou à noite, Mineléia depois do treinamento foi fazer os seus deveres de única mulher e o pai foi para o seu comércio na cidade que ficava perto de sua casa.

Quando o pai voltou pela noite colocou todos os filhos de frente para Liceu, que agora já implorava com o olhar por água, e falou que qualquer um ficaria daquele mesmo jeito, mas podendo ser por mais tempo ou menos tempo, dependendo da gravidade do problema causado. O pai cortou as cordas que seguravam as pernas do garoto, depois as cordas que sustentavam o tronco e por último a corda que segurava as mãos. Liceu caiu secamente no chão e começou a se arrastar para a margem do rio, enquanto os outros o observavam. O pai entrou em casa e foi para seus aposentos, os dois irmãos foram para o quarto deles e Mineléia foi ajudar o irmão que se arrastava em busca de água.

Mineléia levantou o irmão e escorou-o até o rio o lavando enquanto ele bebia água. Ela o ajudou com os curativos e também o alimentou durante a noite e fez um chá para ver se melhorava o aspecto do irmão, depois o deixou na cama dele sem fazer barulho para não acordar os outros irmãos e de lá foi se deitar já cansada pelo dia puxado.

Liceu acordou quando o sol já tinha atravessado grande parte do céu e que nenhum de seus irmãos se encontrava no quarto. Liceu levantou com muitas dores e foi para o rio beber um pouco de água, mas no meio do trajeto desistiu para comer algumas frutas que estavam em cima da mesa, depois que as comeu foi para fora e viu Kipédius assando um peixe, foi até a beira do rio e bebeu água e virou para ver se as dores se apaziguavam, mas acabou dormindo. Liceu foi acordado por Kipédius oferecendo um pedaço de peixe que Liceu aceitou de bom grado, enquanto comia ninguém quis falar nada. Kipédius não falou nada com medo do irmão ter ficado com receio do pai e Liceu não falou por causa da fome que tinha e só conseguia se concentrar na comida.

Depois que comeu Liceu foi caçar algum animal para sacrificar e dar de presente para o deus Ares e a deusa Atenas por tê-lo ajudado na pequena guerra que tinha tido no dia passado. Liceu encontrou dois coelhos e acertou os com flechas disparas pelo arco roubou dos saqueadores. Liceu fez uma cova pequena e sacrificou o coelho macho para Ares e o coelho fêmea para Atenas e até fez uma oração para os deuses – Agradeço a Ares por ter me ajudado a matar os saqueadores sem nenhuma dó e que ajudou a aguçar meus instintos na batalha e pela proteção que me deu. Eu agradeço a deusa Atenas por ter me ajudado a pensar em uma estratégia rápida o suficiente na batalha e ter ajudado a realizá-la perfeitamente.

O garoto Colocou fogo nos coelhos e os deixou queimando e depois andou pela floresta sem querer encontrar nada, mas que acabou encontrando uma árvore que estava carregada de maçãs, não resistiu a tentação e pegou quatro maçãs, comeu duas maçãs enquanto voltava para casa. Ao chegar em casa viu seu irmão Kipédius pescando outro peixe e ouviu os barulhos de água escorrendo do chão da sala, mas quando viu era água misturada com sangue saindo pela porta. Liceu pensou rápido e lembrou que um dos saqueadores tinha morrido dentro de casa e deixando muito sangue sendo derramado. Liceu entrou e deu as duas maçãs a irmã e fez que ele limpava o chão ela deu um sorriso em meio a mordida que tinha acabado de dar e acenou com a cabeça, como quem agradecia. Ela foi para fora de casa e lá se deitou no chão e ficou olhando as nuvens a tarde enquanto Liceu com o esfregão tirava a mancha de sangue que Kipédius fizera ao homem morto e que agora era cinzas. Kipédius acordou quando o céu já estava alaranjado e viu que não tinha conseguido nenhum peixe então foi na floresta tentar pegar algum animal. Mineléia ficou observando a passagem do sol para a lua enquanto Liceu limpava a mancha de sangue que tinham respingado na parede.