O Deus do Sol
4 IV – Alegria para um e sufoco para outros
Muitas luas se passaram desde a morte do homem bêbado que tentou estuprar Mineléia até que algo na rotina de todos que moravam na casinha simples na beirado de um rio de água doce mudasse. O pai achou que o filho mais velho, Ipeleu, tinha se tornado homem e que chegara à hora dele decidir o que fazer do futuro de sua vida.
– Meu filho Ipeleu. Você já se transformou em um homem. Agora quero saber do que você pretende fazer no caminho que irá trilhar.
– Pai, eu quero ir para Atenas e servir o exército. – Disse o filho decidido – E trazer muito glória e honra para nossa família.
– Não há honra maior do que ter um filho assim. Seu desejo será realizado. Vamos para Atenas comprar armas de um soldado e te registrar no exército. – Disse o pai dando um beijo na testa do filho.
– Quando iremos? – Perguntou Mineléia para o pai.
– Só iremos eu e Ipeleu. E partiremos agora. – Respondeu o pai com um pouco de receio de magoar os filhos. – Quero que vocês tomem conta da casa até eu voltar, e quando isso acontecer será tarde da noite. Não façam nada que eu não aprovaria.
Os irmãos Liceu e Mineléia ficaram arrasados por não ver seu irmão, Ipeleu, realizar o seu sonho, se tornar um guarda na cidade, mas Kipédius entendeu que aquilo seria o último momento do pai com um filho garoto e com o primeiro momento como homem e que essa tradição seria respeitada por todos que passassem, cada um teria seu momento único com o pai realizando o sonho deles.
O pai dos garotos pegou a bolsa em que guardava as moedas de prata e foi com seu filho mais velho rumo à Atenas. Enquanto Mineléia indignada foi lavar o chão da casa, que já estava inacreditavelmente sujo (para seus critérios, que passava o dia limpando), Kipédius foi tirar um cochilo na beirada do rio, como fazia de costume toda vez que não tinha nada há fazer e Liceu pegou a antiga espada do pai, que estava mais enferrujada do que da última vez que tinha visto, e a colocou no meio de suas coisas e em seguida avisou a irmã que partiria para pegar alguma fruta para comer.
No meio da mata Liceu procurava por pedras que poderiam amolar a antiga espada do pai. Quando ouviu passos barulhentos seguido de risadas altas e grotescas, que deveriam vir de um bando de pelo menos cinco homens que cheiravam a vinho velho e suor na pele de animais, provavelmente eles teriam retirado o coro do animal e nunca lavados. Liceu pensou logo na irmã que poderia ser vítima de algum homem nojento de novo e logo correu para casa.
Ao chegar a casa ouviu os homens vindo direção à própria casa então já chegou dando um chute em seu irmão que dormia na beira do rio. Kipédius já levantou com um susto, olhou para cima e viu o irmão mais novo, que só apontou para o meio da floresta e fez um sinal para que ficasse quieto.
– Quem é? – Perguntou Kipédius como já prevendo que encontrariam a casa.
– Não sei, mas fedem a vinho e a pele de animal morto. – Respondeu Liceu ainda preocupado com a irmã.
– Quantos são? – Perguntou Kipédius elaborando um plano de fuga.
– Cinco no mínimo. – Respondeu Liceu com certo temor pelo que estava prestes a dizer. – Kipédius eu tive uma ideia para ganharmos essa luta, mas você não vai gostar. Não quero que Mineléia seja vista por esses homens.
– Estou de pleno acordo. – Respondeu Kipédius, já tentando imaginar no que seu irmão iria falar.
– Ainda tem o arco do velho homem bêbado?
– Sim, uso ele para caçar.
– Como você é melhor no arco que eu e Mineléia nem sabe usá-lo ainda. Quero que pegue o arco e as flechas e suba na casa, mate quantos você conseguir.
– Mas e Mineléia? – Perguntou Kipédius com receio de que a irmã tivesse que lutar.
– Ela ficara escondida dentro de casa até as coisas amenizarem.
– Mas e você? – Perguntou o irmão agora apreensivo pelo irmão mais novo.
– Eu estarei atrasando os homens para não pegarem Mineléia e matarem você.
– De jeito nenhum. Como eu poderia arriscar a cabeça do meu irmão mais novo – Perguntou Kipédius já irritado.
– Você consegue pensar em algum plano melhor que resolva pensar e colocar em prática em menos tempo que esse? – Liceu perguntou para Kipédius já observando que as risadas estavam altas e que já era possível ver vultos na floresta.
– Quem está fazendo esse barulho todo? — Perguntou Mineléia saindo de casa e se virando para os irmãos.
– Mineléia, acho que tem um grupo de ladrões vindo pela floresta em direção a casa. – Kipédius sussurrou alto para que os ladrões na o ouvissem. — Se esconda! – Agora já se virando para Liceu. – Com o que você vai se defender?
– Com a antiga espada do pai. Vamos pegando as coisas.
Liceu correu para dentro de casa e pegou a espada do pai e uma faca que tinha na cozinha, foi até o quarto da irmã e falou para caso ele não conseguisse evitar os ladrões que ela morresse tentando se proteger. Kipédius pegou o arco e as flechas que tinha feito com o passar do tempo e subiu em cima de casa pela janela de seu quarto e lá ficou aguardando os ladrões. Liceu correu para fora de casa e viu o grupo se aproximando a poucos metros da densa floresta e resolveu esperar até o grupo chegar.
Enquanto se aproximavam bebendo um deles gritou que logo a frente tinha um garoto com uma espada na mão e com a cara amarrada. O garoto se manteve firme enquanto ouvia o grupo zombando de sua cara e de como era ridículo segurando uma espada que tinha quase a metade do corpo dele.
– Garoto o que você faz em um lugar deserto desses? – Gritou um homem se mostrando claramente bêbado pela voz.
– Eu moro nesse lugar. Agora o que vocês fazem em um lugar desses? – Perguntou o garoto gritando com fúria.
– Acho que o menininho está nervoso. – Falou um dos homens que ria sozinho de sua tentativa de piada.
– Nós estamos saindo de Atenas e estamos indo a... Pra onde estamos indo mesmo? – falou sem lembrar, olhando para o suposto chefe do grupo.
– Sei lá. Nós somos saqueadores e não temos rumo! – gritou o chefe em resposta do amigo.
– E vamos saquear você! – E todos os outros homens gritaram, como se já esperassem por isso. Todos riam do ataque que estavam prestes a fazer.
– Eu acho que é melhor vocês se virarem e irem embora antes que eu mate todos! – Gritou o garoto blefando.
– Ah é? – Perguntou o chefe, enquanto os outros riam mais ainda pela audácia do garoto. – Garoto preste bastante atenção. Se você mora nessa casa. – O chefe apontou para a casa que conseguia ver por ter saído da floresta e ficado no leito do rio. – Você não deve morar sozinho e muito menos sem uma mãe, que não importa como ela seja. Eu vou agarrá-la e estuprá-la até ela implorar para eu matá-la e assim eu farei, mas cortarei a garganta dela e a deixarei sangrar até a morte. Agora o que farei com seu pai será algo...
– Cale a sua boca de merda – Esbravejou o jovem com os dentes cerrados de raiva. – Eu não tenho mãe, mas se você ousar falar de meu pai eu cortarei sua língua fora e enfiá-la-ei em cada uma da bunda de seus comparsas.
– O garoto é corajoso, mas estúpido. – Disse o líder com uma voz já menos alegre e gritou como uma ordem. – Já que você não tem mãe, farei isso com você mesmo! – E todos os comparsas tiraram e as tomaram em punho, mas antes de qualquer um começar a correr para atacar o garoto ele gritou para o irmão.
– Agora Kipédius! – E assim o irmão lançou uma flecha no olho do homem que carregava um arco.
O homem que carregava o arco foi abatido, mas nenhum dos outros ligaram para um deles que tinha caído, o importante era acabar com o garoto que ouvia desafiado o grupo de agora com seis membros, sem contar o que tinha sido abatido por Kipédius. O primeiro a atacar Liceu foi um homem que carregava um machado de cortar lenha, mas este errou o golpe pelo desvio do garoto para o lado que correu para as costas do inimigo e lá fincou, bem no meio da coluna, quebrando alguns ossos. O garoto apoiou o pé direito nas costas do homem e empurrou para tirar a espada de lá, que tinha ficado presa, mas que foi removida antes que outro do grupo conseguisse acertar o garoto, que caiu com o puxão que teve que dar para tirar a espada.
O garoto rolou para o lado para escapar de alguns homens que tentavam pisoteá-lo, até chegar à beirada do rio e lá conseguir levantar e se recompor para a luta. Agora ele via quatro homens e o líder do grupo que carregava dois machados grandes. Os homens fungavam de raiva enquanto olhavam para o garoto com o máximo de ódio que poderiam ter, até que quase todos foram atacá-lo, menos um que foi acertado por uma flecha nas costas e assim caiu no chão se contorcendo de dor.
O líder tentou um golpe com um machado que foi esquivado para trás por Liceu e que abaixou para fugir do segundo golpe. O terceiro foi dado por um homem que vinha pela esquerda de Liceu e tentou enfiar uma espada em seu peito, mas que foi rebatida para o lado do líder do grupo que acabou se enrolando com o saqueador que tentava o golpe de espada. O garoto se virou rápido e sabia que tinha ainda dois querendo matá-lo e foi quando viu um martelo vindo em direção a suas pernas, mas conseguiu se livrar pulando para trás, sendo amortecido pela parte mais funda da água. Levantou o mais rápido que pode, mas não evitou do quarto homem pegar ele pelos cabelos e tirar a espada com a outra mão e com a mesma mão dar um incrível soco em sua face, o deixando atordoado por levar um soco tão forte.
O homem que segurava o garoto exibia-se para os outros que tinha conseguido capturar o garoto na primeira tentativa, até brincou com o líder, mas o garoto não tentava entender nada do que eles diziam, apenas limpou o sangue que saía da sua boca com uma cuspida e viu onde o homem estava vulnerável. Olhou para a cintura dele e viu um punhal grande e percebeu que o homem estava com o braço completamente esticado, então segurou firme no pulso do homem e o torceu no sentido anti-horário o que fez o homem se torcer e soltar um gemido, enquanto o garoto pegava com a mão esquerda o punhal e o apunhalava no pescoço, fazendo um gemido maior.
Liceu deixou o homem cair e viu os quatro oponentes que iria ter que enfrentar, então pegou sua espada em meio a água, mas antes que os outros homens partissem para a briga contra o garoto um zunido cortou o ar e acertou mais um homem pelas costas, enquanto os homens viravam para ver quem o estavam desfalcando tanto, Liceu jogou o punhal, do homem que acabara de acertar, no saqueador que carregava uma espada que o acertou em cheio no ombro direito causando um grito e a fazer o homem largar a espada no rio. O líder falou para o homem que ainda estava em pé pegar quem estava atirando flechas enquanto ele cuidava do garoto que acabara de lançar o punhal no amigo deles.
O outro homem saiu em disparada para a casa, enquanto liceu arregalou os olhos lembrando de que a irmã, Mineléia, estava em casa. O que fez o líder dos saqueadores ficar feliz por ver a preocupação do garoto. O líder foi para cima tentando acertar um de seus machados no pescoço do garoto, que defendeu com a espada e já fez um contragolpe tentando acertar o peito do inimigo, mas que defendeu com o outro machado, e já atacando com a mão direita tentou cortar o pescoço do garoto novamente, que dessa vez se esquivou e fez um corte diagonal no braço do oponente, que largou o machado do braço direito, mas que mesmo assim tentou um golpe com o machado esquerdo tentando cortar o pescoço do garoto pela última vez. Liceu abaixou e se esquivou do golpe e quando levantou já cortando o baço esquerdo do líder dos saqueadores o deixando de joelho enquanto seus olhos, provavelmente, já conseguiam ver o Caronte se aproximando com seu barco.
Liceu examinou seu oponente cair de joelhos e fitar o nada por alguns segundos, depois decidiu acabar com o sofrimento de seu inimigo e por trás perfurou as costas dele na altura do coração. E assim fez com os outros que estava caído ao chão, os mortos e os gravemente feridos. Depois que enfiou a espada nos cinco homens que estavam na margem do rio viu o primeiro a ser acertado por uma flecha de seu irmão, que agora já tinha cinco flechas pelas costas, olhou para as flechas e depois viu que seu irmão não se encontrava mais em cima de casa e percebeu que a casa estava muito silenciosa para uma casa que tinha um saqueador enfurecido.
Correu para dentro de casa e logo de cara já viu o saqueador morto com uma no seu rosto e vários litros de sangue escorrendo de sua barriga e só para terminar com sua tradição, virou o homem e enfiou a espada de seu pai na atura do coração do homem.
– Kipédius! Mineléia! Cadê vocês? – Gritou o irmão com receio de ter acontecido algo com os dois irmãos. – Não tem mais nenhum deles lá fora.
– Liceu. – Falou Mineléia com uma voz abafada vinda de seu quarto. – Cadê Kipédius? – Já saindo completamente de seu quarto.
– Não sei. – Respondeu o irmão agora tremendamente assustado – Kipédius!
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