O Deus do Sol
3 III – A primeira desobediência
Liceu ficou em seu quarto até o sol ser carregado por Hélio e desaparecer no céu, enquanto Ipeleu vigiava o homem bêbado amarrado ao tronco da árvore e Kipédius ficava com sua irmã aguardando o pai deles chegar. Liceu ficava imaginando qual jeito de acabar com o homem bêbado ele mandaria os filhos fazerem. Arrancar dedo por dedo, fazer cortes superficiais no bêbado até ele morrer sem sangue, amputar os braços e as pernas e o ver morrer, deixar semanas sem comida e água para morrer lentamente, entre várias outras formas de matar o bêbado que tinha encostado no corpo da irmã.
Os pensamentos de Liceu foram interrompidos por uma discussão entre seu irmão Ipeleu e um homem que parecia ter a voz de seu pai. Liceu correu para fora de casa para ver o porquê de o irmão estar discutindo tão surpreso. Quando Liceu chegou fora de sua casa se deparou com seu pai soltando as cordas do bêbado e falando que Ipeleu e Kipédius deveriam carregar o homem até a floresta.
– Esse homem deve ser carregado até a floresta e lá solto – disse o pai olhando para todos os seus filhos que pareciam não acreditar na decisão do pai.
– E se ele voltar? – Perguntou Kipédius com medo de o bêbado tentar algo contra a irmã novamente.
– Ele não voltará. Sei disso pela hospitalidade que vocês devem ter dado para ele, e se vocês conseguiram prendê-lo quer dizer que ele não conseguiria vingar-se de vocês sozinhos. – Falou o pai querendo encerrar o assunto naquele momento – Agora Ipeleu e Kipédius soltem esse homem no meio da floresta e retornem para casa a tempo do jantar.
– Pai! Você não entendeu o que este homem fez? – Esbravejou Liceu tremendo de ódio pela repulsa que tinha do bêbado.
– Esse assunto se encerrou. – Disse o pai sem querendo acabar com uma vida – Ele já sofreu de mais, nem um homem merece a morte como punição de um ato causado pela bebida.
– O assunto só se encerra quando ele estiver morto! – Gritou Liceu o mais alto que pode.
– Não grite comigo, e muito menos, dê uma ordem que contraponha a minha. – Disse o pai com uma frieza e com uma firmeza maior ainda – Vou esquecer que você disse isso e vou deixá-lo sem punição alguma. Agora entre e ajude sua irmã no que ela estiver fazendo.
– O assunto só acaba quando ele estiver morto. – Falou Liceu num último sussurro que só ele pode ouvir.
Enquanto Ipeleu e Kipédius andavam com o bêbado para a floresta e sem saber o que conversar, já que eles foram contrariados e receberam uma ordem direta que não poderia ser questionada. Liceu foi para o quarto do pai, desobedecendo a primeira ordem que ele dera, “... entre e ajude sua irmã no que ela estiver fazendo.”, procurando algo que uma vez tinha encontrado quando era menor e que o pai deveria ter guardado por todo o tempo que passara de lá para cá. Liceu achou o que procurava uma espada cor de prata e extremamente pesada para a sua idade, mas que o ódio o fazia esquecer-se do peso. A espada não estava nem um pouco afiada, agora já quase enferrujava, mas serviria para o propósito de Liceu. Sem pensar Liceu pegou a espada e saltou pela janela que tinha no quarto do pai e se enfiou no meio da mata seguindo o rastro que os irmãos deixavam pelo peso do corpo que se arrastava pelo chão.
Os irmãos Ipeleu e Kipédius largaram o homem com uma garrafa água do lado e com uma cesta, que continha uns pedaços de pão e frutas. Viraram o corpo para voltara para a casa, mas viram o irmão mais novo, Liceu, segurando uma espada de verdade, que nenhuns dos dois tinham visto antes.
– Liceu? O que está fazendo aqui? – Perguntou Ipeleu impressionado com o olhar que o irmão carregava.
– Acho que a pergunta mais apropriada não é essa, Ipeleu. E sim: Onde você arrumou essa espada? – Corrigiu o irmão e fez a pergunta mais “apropriada”, como sempre fazia Kipédius.
– Deixem fazer o que vim fazer, que responderei a todas as perguntas que puder. – Respondeu Liceu como quem queria provar sangue.
– Não podemos fazer isso. – Responde Ipeleu – O pai nos mandou deixá-lo vivi na floresta com comida e água.
– Voltemos para a casa que não contamos para o pai de sua desobediência. – Falou Kipédius tentando um acordo.
– Vocês podem voltar para casa e falar o que quiser para nosso pai, mas eu ainda tenho assuntos a resolver com esse incrédulo. – Respondeu Liceu sem tirar os olhos do bêbado estirado no chão.
– Ipeleu o único jeito de para Liceu é: Alguém ficando aqui e arranjando tempo o suficiente até voltar com o pai – Sussurrou Kipédius sem mover a cabeça e em um tom que só Ipeleu ouvisse.
– Vá chamar o pai. Tenho mais habilidades que você em uma luta, mesmo estando desarmado, acho que tenho mais chances contra ele do que você. Você é mais jovem, tem o corpo mais leve que o meu, chegaria a casa primeiro do que eu. Então vá! Que eu evito do bêbado ser morto. – Ipeleu falava baixo até acabar de falar com Kipédius e se voltar para Liceu e tomando a frente para chamar a atenção de Liceu e concentrou o máximo de sua voz, para que o irmão ouvisse em alto e bom tom – Liceu! Não deixarei que mate esse homem. Terá que passar por cima de mim antes de matar um homem que está desarmado e caído ao chão.
– Se é assim que você quer... – Liceu olhou para o irmão e empunhou a espada para um primeiro ataque, mas não viu seu outro irmão correr em direção a casa deles floresta adentro.
Liceu disparou um golpe horizontal que fez um arco no ar, que não chegou a Ipeleu, mas que serviu muito bem para amedrontar e afastar o irmão. Ipeleu deu um pulo para não ser atingido, se ele ficasse parado não seria atingido, mas pulou por precaução. Liceu fez o golpe de volta, fazendo outro arco no ar, mas que esse acertaria o irmão se não tivesse abaixado o suficiente. Ipeleu abaixou se desviando do golpe, mas antes que o irmão tentasse outro pulou em cima dele e o abraçou, imobilizando os braços enquanto caíam em direção ao chão. Ipeleu não largou o irmão enquanto estavam rolando no chão, mas Liceu também não largou a espada enquanto tentava se soltar do irmão mais velho, mais rápido, mais forte, mais experiente e maior. Quando Ipeleu conseguiu imobilizar Liceu com um abraço forte o suficiente para fazer o irmão desistir, chegou Kipédius com seu pai pisando duro de raiva.
Ipeleu largou Liceu enquanto os dois se levantavam, o pai chegou perto de Ipeleu e passou a mão em seu rosto e sussurrou algo como “Estou orgulhoso.”, depois se virou para Liceu e deu um tapa no rosto do garoto com as costas mão, fazendo-o cair de imediato. O pai falou entre dentes cerrados para os dois garotos mais velhos irem para casa que ele tinha assuntos pendentes com o filho desobediente. Os garotos mais velhos se viraram e começaram a ir em direção a casa, enquanto ouviram mais um tapa e o irmão mais novo fazendo um gemido.
Liceu ainda não tinha se esquecido do que havia acontecido a tarde, enquanto ele estava se levantando da lama onde o segundo tapa tinha feito cair. Levantou e olhou para os pés do pai e viu a espada ao lado, enquanto os pés do pai se aproximavam e faziam a lama afundar por conta de seu peso, foi quando o garoto sentiu mais um tapa em sua face, fazendo cair para o lado direito, olhando diretamente do chão para a espada a alguns metros a sua frente.
Uma lição que o pai sempre ensinou foi “Apanhe de pé, pois crianças não aprontam deitadas”. O garoto levantou mais uma vez, fitou o pai com um olhar sério enquanto sentia uma lágrima escorrer pelo rosto, mas o pai o olhava sério e não tinha medo de ensinar lições para seus filhos e ergueu a mão para bater no rosto do filho novamente, mas desta vez o garoto não ficou parado. Quando a mão do pai desceu o menino esquivou para trás e correu na direção da espada a pegou pelo cabo e contornou o pai pelas costas e foi na direção do bêbado, onde fincou a espada na parte do pescoço.
O garoto matou o bêbado com uma única espadada, assim desobedecendo a segunda ordem do pai, que olhou e não acreditou que o filho tinha se esquivado da lição que ele estava aplicando e que desacreditava mais no que o filho tinha acabado de fazer. O pai pegou o filho pelo pescoço e o jogou na direção contraria a do morto, o filho se ergueu orgulhoso, por ter vingado a irmã, mas a expressão de felicidade não durou muito, o pai pegou a espada que i filho tinha fincado e bateu com a parte chata dela na barriga do garoto, que dobrou o abdômen por extinto, que fez cortar a parte de cima e a de baixo da barriga, onde rasparam na lâmina mal afiada. O garoto tentou não cair, ficando de joelho e com a cabeça erguida, mas o pai acreditava que o garoto ainda tinha forças para ficar em pé e que ele só estava fingindo para não apanhar mais.
O pai pega os garotos pelos cabelos longos e o levanta, enquanto larga a espada e da um duro soco peito do garoto, que desmaia no mesmo instante. Largando o corpo da criança ao chão e vendo o que o filho acabara de fazer com um homem em um estado indefeso ouve uma voz doce e delicada, mas falando com rigidez.
– Não deixei você tomar conta dos garotos para fazer isso.
– Ele me desobedeceu. – Responde o pai em um ato de reflexo.
– Ele só estava fazendo o que é da natureza dele. – responde a mulher que falava pelas costas do homem que aplicara uma surra violenta de mais no filho.
– Ele não tem só essa natureza. – Fala o pai enquanto se vira para ver a mulher.
– Mas essa é a que mais se destaca e a mais forte que ele tem. Que qualquer um de seus filhos tem. – Fala a mulher com um tom doce e delicado.
– Mesmo sendo a mais forte. Ele deve saber a quem tem que obedecer. – O homem olha a mulher que sempre o encantou com a sua beleza. Ela vestia um vestido azul claro que moldava o corpo e que se alargava nas canelas, que não podiam ser vistas e como o vento batia no vestido parecia que ela flutuava. Os cabelos negros enrolados destacavam a pela alva da mulher.
– Obedecer? O que você fará quando não tiver mais força para contê-lo com sua força? Ou melhor: Quando ficará velho e não ter quem te ajudar nas atividades diárias? Vai esperar um jovem aparecer e ajudar. Não se esqueça de que você tem três jovens para te ajudar, não os faça inimigos.
– Se ele não me obedecer e eu não conseguir mais educá-lo, eu o mato. – Responde o homem olhando para o chão e com raiva, desejando que isso nunca ocorra.
– Sabe que eu não deixaria você fazer isso com seu próprio filho. – responde a mulher se aproximando do pai que tinha um olhar inseguro.
– Pra que você protege tanto meu filho? – Pergunta o homem rudemente e encarando a mulher muito mais nova que ele, que agora se encontrava a menos de dois palmos dele.
– Para nenhum de seus outros filhos usarem a natureza deles. – Responde a mulher aproximando o rosto mais, deixando a menos de um palmo – Você envelheceu muito desde o último encontro que tivemos.
– E você continua tão linda como no nosso primeiro encontro. – Responde o homem carinhosamente. – Mas se afastou de mais desde o nosso primeiro encontro. – O homem virou-se e andou para pegar o filho no colo.
– Você nunca tinha me negado antes. – Responde a mulher decepcionada.
– As coisas mudam, agora tenho mais responsabilidades. – O pai responde pegando o filho no colo.
– Agora você tem cinco responsabilidades. – Responde a mulher se abaixando e pegando a espada que estava no chão.
– Cinco? Eu só lembro-me de ter tido quatro filhos. – Responde o homem com certo tom de ironia.
– A outra responsabilidade sou eu. – Responde a moça colocando a espada velha em cima do garoto.
– Essa responsabilidade eu não posso ter. Desculpe-me, mas quatro já me trazem muitos problemas. – Responde o homem se virando e andando em direção a casa.
– Você jurou sempre me servir e que iria por até o submundo e que não hesitaria nunca por mim. – Responde a moça acompanhando o homem que carregava o filho.
– Eu faria isso, se não tivesse nada a perder, mas agora se eu morrer, não tenho com quem deixar as crianças. – O homem fala com uma voz falha.
– Você acha que não cuidaria de seus filhos? – A mulher pergunta surpresa.
– Me responda uma única pergunta: Se eu ficar com você toda vez que enjoa de seus namoradinhos, quantas responsabilidades terei até o resto de minha vida? – Pergunta o homem parando de caminhar e a fitando nos olhos com uma expressão rude.
– Acha que eles atrapalharam sua vida? – A mulher baixa o tom com certo receio.
– Não atrapalharam, mas prejudicaram minha vida com você. Agora com licença, tenho um ferimento a tratar e uma lição a ensinar aos meus filhos o porquê fiz isso. – O pai se virou e continuou indo para a casa, não ouviu mais a voz da bela moça que não lhe tentava a muitas luas.
Entrou em casa e viu que o filho Liceu ao tinha mais os cortes na barriga e que os outros filhos esperavam pelos dois, até respiraram mais aliviados quando os viram. O pai pediu a filha para tratar der Liceu enquanto ele explicava o que o garoto tinha aprontado com o bêbado. Depois de explicar tudo o que tinha acontecido, exceto o fato de a mulher ter aparecido, e de dar a lição para os dois garotos que jaziam acordados, o pai mandou todos dormirem enquanto deitava na grama fora de casa e fitava o céu estrelado.
Pensou em como pedir desculpas a Liceu pela surra aplicada e ensiná-lo a não matar homens por ódio ou vingança. Acabou pegando no sono enquanto pensava em como falar com o garoto pela manhã, mas que foi acordado pela filha no meio da noite falando que já estava tarde e que o pai não deveria dormir longe de sua cama. O pai agradeceu e levantou falando que a filha já deveria estar na cama, mas a menina rebateu falando que acordou no meio da noite para ver o irmão que se recuperava da surra e aproveitou para ver o pai que deveria estar em céu quarto, mas que se encontrava dormindo fora de casa.
O pai riu da argumentação da garota e observou o sorriso que ela deu de volta, e percebeu como ela era parecida com a moça que encontrara mais cedo no boque e que falava do mesmo jeito. O pai carregou a menina no colo até sua cama e lá a deixou com um beijo, depois passou no quarto dos três filhos e lá olhou como os garotos estavam passando em sua noite de sono. Liceu abriu os olhos e viu o pai na porta do quarto e resolveu falar algo.
– Pai, me desculpe por hoje. Não aguentei, foi como se algo me dominasse e insistisse em fazer o que fiz. – Falou o garoto com um arrependimento muito grade internamente.
– Eu sei o que você sentiu, mas não quero ver você me desobedecendo de novo, amanhã conversaremos melhor sobre isso. Agora volte a dormir. – O pai deu um beijo na testa do garoto e foi para o seu quarto que lá deitou e só acordou de manhã.
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