O Destino de Buck
3 Capítulo 3
O treinamento começou pesado. Corridas, escaladas, rapel (não entendi porque, só tivemos que fazer o maldito do rapel) e, no intervalo de cada atividade, quinze polichinelos. Sempre odiei fazer polichinelos, acho a coisa mais humilhante do mundo. Corremos pra lá, escalamos ali, pausa para o almoço.
– Por que temos que fazer esse treinamento tão intenso? – perguntei para o treinador
– Porque vocês vão viajar depois de amanhã – ele respondeu
– Ué, por que tão rápido?
– Você faz perguntas demais, soldado.
Mais tarde, quando pensei que o treinamento havia finalmente terminado, Michael veio a mim.
– Acabou? – perguntei
Ele riu.
– Ai, ai. Está apenas começando – ele respondeu.
Aí fomos levados a um aquário gigante com um foguete dentro d’água.
– O que é isso? – perguntei a Michael
– Esse é o seu treinamento em gravidade zero, sem gravidade zero. O treinamento Zero-G será amanhã pela manhã. Por enquanto vocês treinarão debaixo da água. – ele respondeu
Vestimos as roupas especiais e caímos na água. Foi mais difícil do que pensei. Obviamente pensei que fosse morrer, afinal, a lente do capacete dá a impressão de que você não está vestindo-o, embora ele seja pesado de carregar na gravidade da Terra. Fizemos o básico: abrir umas coisas ali, consertar outras coisas aqui, procedimentos básicos. Algo que eu não sabia e que fomos treinados depois de termos saído da água foi que astronautas devem manter a calma sob qualquer circunstância. O professor contou de um caso que ocorreu há muitos anos, lá pelos anos 2010, 2015, de um comandante que foi realizar um reparo na estação espacial e começou a se afogar no próprio suor, de tão nervoso que estava. Nervoso por dentro. Quando deu sinais de que não estava passando bem e de que iria morrer, a tripulação rapidamente o trouxe de volta à espaçonave e ele parecia a pessoa mais calma do mundo, embora estivesse, evidentemente, mais nervoso do que nunca.
Eu fiquei pensando esses dias em ficar à deriva no espaço. Seria assustador e belo ao mesmo tempo. Assustador pois não teria o auxílio de ninguém e provavelmente morreria lentamente de fome ou sede (ou afogado no próprio suor) e belo pois não há vista como o espaço. As estrelas, as constelações, galáxias, planetas, supernovas, cometas. Pensei nisso por alguns instantes, mas depois só pensava no quão assustador era o buraco negro que entraria dali a dois dias – ou melhor, dali a milhares de anos.
Enfim chegou o dia do treinamento em gravidade zero de verdade. Sonhava com este momento desde que era garoto. Voar como os astronautas voam nos foguetes, bailando pelo ar embora não sejam bailarinas, flutuando suavemente como se não tivessem peso algum.
– Está gostando? – perguntou Michael
– Sempre sonhei em voar em gravidade zero. Agora estou finalmente realizando este sonho! – respondi
– Você provavelmente vai viver assim, Buck – ele disse. Isso me assustou, mas não me desanimou.
Enfim chegara o grande dia. Acreditem, eu consegui dormir na noite anterior. Com soníferos, óbvio. Chegamos no hangar, eu olhei pro foguete, o foguete olhou para mim e nós dois pensamos: “vamos dar o fora daqui”.
– Nervoso? – perguntou Daniel
– Nem um pouco – respondi irônico
Michael chega mais nervoso do que nunca.
– Muito bem, senhoras – ele começou – No instante em que entrarem nesse foguete não tem mais volta. Alguém quer mudar de ideia enquanto ainda há tempo?
– Não há tempo – respondi – A Terra está acabada.
– Sábias palavras, jovem padawan – ele disse – Muito bem, esqueçam todas as leis da física que aprenderam durante a vida pois um buraco negro puxa elas pra dentro também. Nem a luz escapa. Ah, aliás, demos um apelido para o GRS 1915+105
– E qual é? – perguntou Anna
– Willy – respondeu Michael
– Que nome fofo – eu disse, ironicamente.
Quando cheguei na pista de lançamento não acreditei. Presenciei tantos foguetes soltando fogo e voando para fora da atmosfera que agora, que finalmente estaria dentro de um deles, achei que era ficção. Engraçado, né? Subimos nas torres que sustentam o foguete e entramos no módulo. Sentamos na horizontal e é realmente muito bizarra essa sensação. Parece que você está caindo. Michael nos chamou no rádio.
– Alguém quer fazer um xixi antes de ir? – ele perguntou
– Vou sentir sua falta Michael – disse Daniel
– A quanto tempo vocês se conhecem? – perguntou Anna
– Desde o início do Projeto Universo. – respondeu Michael
– Vocês se conhecem a dez anos?! Meu deus! – eu disse
– Deus não existe – disse Michael – Não há deuses ou reis, apenas homens. Trinta segundos para lançamento. Tem certeza que não querer ir ao banheiro?
– Ha, ha, ha. – eu disse
– Ok, recolhendo plataformas. – avisou Michael. Logo, as plataformas que andamos para entrar no foguete foram recolhidas como se fossem esteiras – Checando combustível, gás, blá, blá, blá. Ok, estamos prontos para ir. Trinta segundos para lançamento.
– Michael – chamei – Vocês vão ficar bem?
– Claro que vamos. – ele disse – Pra vocês, em questão de segundos vamos todos morrer. Não se preocupe conosco. Dez segundos para lançamento.
Nunca fiquei tão tenso na minha vida.
– 10
O que faria quando saísse da atmosfera e atingisse duas mil vezes a velocidade da luz?
– 9
Como todos ficariam na Terra?
– 8
O que eu faria quando estivesse cara-a-cara com o buraco negro, ou melhor, com o Willy?
– 7
– 6
– 5
Cinco segundos. Era tudo que restava para abandonar a todos.
– 4
Quatro segundos e tudo que a Terra conquistou em dez mil anos seria levado comigo.
– 3
Três segundos.
– 2
Dois segundos.
– 1
Adeus.
– Lançamento. – disse Michael – Boa sorte, rapazes.
As torres que sustentavam o foguete se afastaram e eu senti a ignição nas minhas costas. De repente, o céu azul que esteve comigo durante os 25 anos em que eu estivesse neste planeta foi ficando cada vez menor. E menor. E menor. E menor.
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