O Destino de Buck
4 Capítulo 4
Nunca estive tão perto das estrelas. Parece bobo e clichê eu dizer isso com um ar de poeta, mas é verdade! Foi como se eu pudesse tocá-las, senti-las. Ok, chega dessa bobagem de poesia. Nós saímos de todas as camadas da Terra e estávamos oficialmente no espaço.
– Sabe aquela brincadeira de encontrar fuscas? – perguntou Daniel
– Sei – respondi
– Vamos brincar de encontrar o alien primeiro. Eu começo. – Daniel começou a olhar pelos arredores, girando a cabeça em gravidade zero enquanto as partes do foguete foram desacoplando. Ele apontou para mim.
– Encontrei o alien! Vamos captura-lo e estudá-lo!
– Ha, ha – ri sarcasticamente
– Ok, vamos entrar em velocidade de batida em 10 minutos.
– Velocidade de batida? – perguntei
– É o nome que eu dei para não falarmos que iremos entrar a duas mil vezes a velocidade da luz. É mais sonoro. – respondeu Anna.
– Temos que entrar nas cápsulas e nos congelar para aguentarmos a viajem no tempo. – disse Daniel
– Então vamos.
Na parte de trás da nave havia três camas com água gelada, para nós nos congelarmos e aguentarmos a viajem no tempo. Na velocidade de batida vamos demorar cerca de 20 anos para chegar no Willy. Chegaremos velhos, porém preservados.
Pode parecer estranho, mas eu vou usar um marcador de tempo para nós não ficarmos entediados: 20 anos depois, podíamos avistar, a apenas algumas horas de nós, Willy.
– Lá está! – disse Anna
– É tão bonito... – disse Daniel
Eu só pensava no quão assustador iria ser e não no quão bonito ele era.
– Temos como nos comunicar com a Terra? – eu perguntei
– Não, ela provavelmente já está devastada. – respondeu Daniel – Ok, crianças, vamos a uma aulinha básica de física. O GRS 1915+105, vulgo Willy, é o buraco negro mais poderoso da nossa galáxia. Muitas pessoas acham que, quando se entra em um buraco negro, você é rapidamente sugado para dentro.
– E não é? – eu perguntei
– Não. Você, na verdade, fica mais lento, e lento, e lento. Na verdade, a força gravitacional vai puxando você para dentro da grande bola de escuridão, mas tudo começa a ficar distorcido após o Horizonte de Eventos.
– “Horizonte de Eventos?” – perguntei
– O Horizonte de Eventos é também conhecido como o “ponto sem volta”, em que você entra em uma área de Singularidade gravitacional e se inicia um processo chamado de Espaguetificação que, como já deve se suspeitar pelo nome, você começa a ser distorcido até parecer um grande espaguete para finalmente ser sugado para o buraco negro. A partir dali, não se sabe o que há lá dentro.
– Já estamos na posição ideal. Vamos começar a manobrar. – disse Anna
Então, Anna pega no manche e começa a nivelar a nave acima do buraco negro. Eu nunca tive tanto medo na minha vida. Aquela grande bola distorcida de pura escuridão... só nos resta deduzir o que há lá dentro. Decido relaxar fazendo uma brincadeira.
– Vamos brincar de “O que tem dentro do buraco negro assustador”. Você primeiro, Dan. Não se importa se eu te chamar de Dan, né?
– Nem um pouco. Eu acho que não há nada no buraco negro. Vamos nos tornar grandes átomos indivisíveis. Pelo menos vamos poder nos comunicar.
– Como assim, “nos comunicar”? – perguntou Anna
– Eu fui escolhido para o Projeto Universo não só pelo meu porte físico, mas também porque eu construí um walkie-talkie que desvia das irregularidades da distorção do som que há em um buraco negro e consegue manter uma linha reta. Assim, poderemos nos falar lá dentro. Sua vez de adivinhar, Anna.
– Eu não sei, eu juro que eu não sei. Deve ter tanta coisa... Mas ao mesmo tempo não deve ter nada... E você, Buck? O que acha que tem em um buraco negro?
Pensei por bastante tempo. Estávamos à beira de Willy.
– Fale agora ou cale-se para sempre. – disse Daniel
– Muito antigamente, havia um grande físico chamado Albert Einstein que dizia que existem outros universos além do nosso. Vamos ver se ele está certo.
Estávamos bem acima do Willy.
– Ok, não estão esquecendo nada? Não querem fazer um xixi antes? – disse Anna
– Você tá parecendo minha mãe. Pare já com isso. – disse Daniel, rindo. – Willy, aí vamos nós.
Anna abriu a porta e lá estávamos nós. Cara-a-cara com Willy. Essa era uma luta que eu comecei, agora teria que terminar.
– Vejo vocês do outro lado, rapazes. – nisso, ela saltou no grande buraco.
– Ahhh! – eu gritei – Anna, não!
– Calma, todos nós vamos lá. – disse Daniel, tentando me acalmar.
– Não vou – eu disse
– Você deveria ter dito isso há 20 anos atrás. Vamos!
– Vou voltar!
– Não há combustível suficiente, Buck, vamos logo!
– Vai você primeiro.
– Tudo bem. Que Deus esteja com você.
– Deus não existe.
Gostaria que minhas palavras fossem outras quando ele me olhou com sangue nos olhos e, sem mais palavras, pulou também. Só restava a mim. Olhava aquele buraco negro e pensei: “Ok, não há como voltar, vamos, Buck”. Ouvia sons no meu rádio, possivelmente as vozes de Dan e Anna. Olhei o buraco e olhei de novo. Pensei na vida, no tudo, no nada, fiquei poético, desisti de ser poeta. Olhei e pulei. Não há mais volta.
De repente, tudo a minha volta parece um silêncio. Olho para baixo e vou caindo lentamente, como se estivesse em câmera lenta. Lembrei de Wallace caindo daquele penhasco. Quando dou por mim, minhas pernas começam a alongar. Depois meu tronco. Depois meu pescoço. Passei o Horizonte de Eventos.
A escuridão estava cada vez mais perto, e quando eu finalmente parecia uma grande vara, fui puxado violentamente para dentro de Willy. O que eu vi não foi preto, não. Foi uma grande distorção do que estava do lado de fora. Tudo, assim como eu, parecia ter iniciado a Espaguetificação. Começaram a se alongar enquanto eu caía suavemente naquele show de cores que não paravam de ser mover. De repente, olho na minha frente, um capacete da NASA distorcido? Seria Daniel? Comecei a gritar.
– Daniel! Daniel!
Ouvi apenas ruídos. Como suspeitei, o rádio de Dan não funciona. Nada escapa do buraco negro. Foi aí que eu me dei conta: aquele capacete era meu.
– Eu estou sem capacete?! – pensei alto
Na verdade, meu corpo estava tão distorcido que eu conseguia ver a parte de trás da minha cabeça. Quando olhei novamente para cima, todo aquele escorregador de cores em que eu estava caindo (me fez lembrar de Interstellar) foi ficando cada vez menor, parecendo uma pequena bolinha de luz que foi indo embora.
– É o caminho invertido. – disse. De repente, ouvi um ruído.
– SSSHhhhshshshsSHSHSHSHhshSHSHSHhsssh...BUCKsjshasSH
– Dan?!
– SHWHshshshshAHSH...BUCK! Meu deus, Buck! Você está me ouvindo?!
– Estou, sim!
– Ha, ha! Funciona! Meu rádio funciona!
– Onde está você?!
– Mas que pergunta, Buck! Estamos no meio da escuridão, como vamos nos encontrar aqui?!
Meu corpo começa a voltar ao normal. Olho para frente e avisto uma bola de luz. Não estávamos voltando, era outro caminho.
– Dan?
– Sim, Buck.
– Você está vendo aquela bola de luz ali na frente.
– Sim... acho que estamos voltando.
A bola foi se aproximando cada vez mais e eu vi um caminho de estrelas.
– Não estamos voltando. – eu disse – Estamos chegando.
De repente vimos um clarão de luz e a bola gigante chegou em nós. Não pudemos nos comunicar de novo. Todo aquele corredor de cores se repetiu, porém, não estávamos distorcidos. De repente eu vi o caminho de estrelas. Quando dei por mim, fui jogado para fora de um buraco negro diretamente para esse caminho.
– É uma Estrada Estelar! – disse Dan no rádio
– Estrada Estel... – não consegui terminar minha frase, pois fui empurrado com força para a “Estrada Estelar”. Fui levado para lá e para cá, ouvindo apenas os gritinhos de tiete de Dan. Fui balançado, jogado, empurrado, puxado até finalmente desmaiar.
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