O furgão já seguia caminho faziam alguns minutos, e Aurora não conseguia deixar de pensar no que deixara para trás. Stuart, seus amigos, seu pertences, seu lar. Não havia outro lugar, se não aquele circo, para chamar de casa.
Era como se todos os funcionários dali fossem uma família, mas Aurora tivesse escolhido ser a mais quieta deles, nem sempre sendo tão próxima do resto como era de Stuart.
Estou doente.
Aquelas palavras retornaram para sua mente, causando um aperto em seu peito. Ela havia acabado de abandonar o amigo, provavelmente em seu leito de morte. Sentiu um peso consumí-la, e desejou chorar, mas as lágrimas se recusavam a sair.
— Então — começou a mulher, do assento do carona. -, eu não me apresentei.
Ela parecia bem mais calma do que quando a havia resgatado do circo em chamas, mesmo que sua expressão permanecesse dura, como se estivesse prestes a dar uma bronca em Aurora.
— Me chamo Lorin Goéz — apresentou-se a moça.
Mas a agitação já havia saído de Aurora, e ela agora encontrava-se entristecida demais para se importar em saber o nome ou não dos que estavam conduzindo o carro.
— E eu sou Walson Sanches — o motorista aproveitou para se manifestar.
Aurora tentou ser educada e acenou com a cabeça, mostrando que compreendera.
— Você nem precisa se apresentar — continuou Walson, sem tirar os olhos da pista. — Sabemos tudo sobre você — e ao notar que a garota não estava nem um pouco interessada no que ele estava falando, persistiu. -, pelos jornais.
— Dá um tempo para ela — pediu Lorin, urticária.
A atenção de Aurora encontrava-se voltada inteiramente para a paisagem que corria, depressa, do lado de fora da janela. Seus olhos encontravam-se pesados, desejando se fechar, ao mesmo tempo em que a garota se recusava a descansar com a culpa que ainda infectava seu peito.
Deu um longo suspiro, seu cérebro ainda não assimilava corretamente o que acabara de acontecer. Fora tudo tão rápido. Mas a mente ainda era capaz de articular o que poderia estar por vir. Por fim, tomou a iniciativa de começar uma nova conversa, combatendo o peso que retraía sua estrutura.
— O que vocês pretendem fazer? — o tom exaustivo e desanimado da garota foi inevitável, e Aurora perguntou a si mesma o que as pessoas que conduziam o carro deveriam ter pensado daquela atitude.
Demorou algum tempo para que obtesse alguma resposta. Walson ainda chegou a abrir a boca, conseguiu ver pelo retrovisor, mas foi Lorin quem falou.
— Quer dizer, de agora em diante? — indagou a mulher, ainda com a expressão séria, mas buscando sinalizar, com as sombrancelhas, que estava disposta a esclarecer suas dúvidas.
Aurora respirava exalando vapor quente de sua boca. Ela encarou a paisagem externa mais uma vez, assistindo ao show de cores e definições turvas, antes de confirmar.
— Isso — disse ela.
— Bom — Lorin voltou a cabeça para frente, satisfeita com a confirmação. -, nosso objetivo, no momento, é nos afastarmos o máximo possível.
Como imaginou, estavam fugindo sem um destino certo, mesmo que Lorin transparecesse premeditação. Por mais incrível que parecesse, Aurora nem preocupara-se em indagar se o que eles diziam era de fato verdade, como se seu cérebro houvesse aceitado o fato de aquela mulher de terno branco ter estraçalhado um ser violeta bem na sua frente como um símbolo de confiança.
— E onde vamos passar a noite? — Aurora resolveu tirar mais essa dúvida, o queixo apoiado sobre o punho esquerdo. Já nem se importava mais com o que estava dizendo.
Era como se um emaranhado de teias pegajosas não permitissem que ela se afastasse da família, puxando seu corpo para trás, enquanto o furgão se movimentava rápido demais para que a garota pudesse se preparar psicologicamente para passar uma noite com desconhecidos. Sem as pessoas que tanto amava. Sem Stuart.
Estou doente.
Ela apertou os olhos, como se uma dor aguda a tivesse atingido. Nenhuma lágrima.
— No furgão mesmo — respondeu Lorin, direta. — Temos alguns lençóis aí atrás, caso sinta frio.
Aurora acenou positivamente com a cabeça mais uma vez, observando as partículas dançantes do vapor que saía de sua boca, lentamente. Impressionante como uma única circunstância poderia provocar a explosão de um turbilhão de sensações.
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A cidade emergia diante do amanhecer, a sombra contornada dos prédios acordando silenciosamente em meio ao amontoado de árvores que passavam pela janela. Fazia frio, mas não tanto, pelo menos não para Aurora, que não havia utilizado um único lençol durante toda a noite que passara. Para falar a verdade, nem lembrava-se de ter dormido.
O reflexo alaranjado vindo do sol nascente refletia no estofamento do furgão, realçando detalhes que a adolescente não havia nem sequer percebido assim que entrara no veículo. Seu corpo encontrava-se um pouco dolorido, e sua mente, dispersa. Por algum motivo, o acontecimento do dia anterior parecia ter sido apenas um sonho ruim, mesmo que soubesse que havia sido bem mais que isso.
Ela olhou para frente, certa de encontrar o motorista e a outra passageira já despertos, mas Walson descansava profundamente no banco do carona, sem haver nenhum sinal de Lorin por perto. Onde será que ela estava?
Aurora espreguiçou-se, reduzindo um pouco a dor que a afetava nas juntas, talvez tivesse dormido de mal jeito. Ela levantou-se de um dos assentos traseiros, tomando cuidado para não bater a cabeça no teto do furgão, e seguiu em direção à porta lateral.
A garota puxou a maçaneta e empurrou a porta para a direita, com dificuldade. O ambiente diante dela não possuía tanta luz, inclusive porque o sol despertava do lado oposto ao que Aurora agora saía. Não havia, ali, um cenário urbano, mas um pequeno matagal, seguindo para uma floresta escura, era um tanto sombrio e misterioso.
Aurora desceu do furgão e olhou a sua volta, não fazia ideia de onde estava. Mesmo que quisesse voltar para o circo sem a ajuda de Lorin e Walson, duvidava que conseguisse ir muito longe sem se perder. Nunca havia estado em outro país antes, só durante aquele período suas habilidades artísticas haviam se destacado o suficiente para que o circo pudesse ter a oportunidade de sair da Suíça.
Sem ter muita ideia de para onde ir, ela sentou-se no gramado, sentindo a natureza sob seu corpo. Talvez esperasse Lorin voltar de onde quer que estivesse, ou talvez acordasse Walson de seu sono profundo e pedisse a ele uma pequena ajuda para voltar ao circo e averiguar a situação atual daquele lugar. Mas não tinha certeza se realmente queria voltar para lá, encarar o que restara da lona listrada, observar seus pertences todos queimados. Quem sabe certificar-se de que alguns de seu amigos estavam mortos.
Aurora olhou para o chão. Por que sua mente tinha que ser tão negativa? Eles não estavam mortos. Muito menos Stuart. Stuart sabia se virar, independente de seu estado.
A garota suspirou, em dúvida se o que acabara de pensar era realmente verdade. Ela voltou a cabeça para o alto novamente, encontrando o braço de Walson escapando da janela do carona, inerte. Precisava da ajuda dele, podia ser que ninguém estivesse morto, mas precisava voltar.
Era até estranho considerar que havia mais unidades daquela criatura gosmenta que aparecera noite passada, e que elas haviam se aproximado do circo para atacá-la. O que Aurora tinha de tão especial, afinal? De repente, lembrou-se do que Lorin dissera na noite anterior.
Porque você é uma de nós.
Ela enfiou as mãos sobre seus cabelos curtos, indignada. Odiava toda aquela confusão. Por que toda sua vida tinha que ter virado de cabeça para baixo em apenas algumas horas? E podia apostar que ainda nem atingira o ápice, as criaturas gosmentas ainda estavam vivas, segundo Lorin.
De repente, Walson se mexeu, provavelmente tentando ajustar sua posição no assento desconfortável. Seu braço bateu na estrutura externa do furgão, emitindo um som metálico.
Aurora olhou para ele novamente. Seus olhos expressavam certeza dessa vez, ela iria acordá-lo e pedir que ele a levasse para o circo de uma vez por todas. Pelo menos assim, poderia assimilar melhor o ocorrido.
A garota ergueu-se do chão, e caminhou, lentamente, na direção da janela, tentando escolher qual seria a melhor maneira de acordar o rapaz. Walson parecia tão indefeso, os cabelos longos e negros todos desengonçados sobre o rosto, o semblante ingênuo, os lábios finos semiabertos. Aurora hesitou.
— Vejo que acordou — observou Lorin, a alguma distância. A mulher carregava duas sacolas nas mãos e trajava apenas uma camisa social azul, agora.
Sem saber como explicar o que pretendia fazer, e em dúvida se Lorin havia percebido ou não, Aurora apenas acenou com a cabeça, confirmando.
— Sabe — Lorin continuava, aproximando-se da porta do furgão para colocar as sacolas lá dentro. Seu tom de voz fazia parecer que estava em um quartel general, e ela fosse alguma espécie de general. -, cheguei a pensar que você pegaria o furgão e sairia correndo de volta para o seu cirquinho. Mas... quem diria?
Cirquinho. Lorin havia dito aquilo com tanta repugnância que Aurora teve certeza de que a mulher não gostara do show. O rosto da garota se contraiu com aquelas palavras de desgosto.
— Eu não faria isso — devolveu Aurora, em resposta. Diante de Lorin, naquela hora da manhã, ela preferia não se envolver em confusões, e aquela mulher parecia o tipo que não cansava de procurar por alguma.
— Vou acreditar em você — disse Lorin, seguindo para o banco do motorista, parecia querer pegar alguma coisa. Ela abriu a porta e ajoelhou-se.
Aurora já não tinha mais certeza de que se sentia confortável ali.
— Sabia — Lorin voltou, subitamente. Seu rosto trazia um sorriso um tanto sádico. — Que eu fiquei um tempo observando você, de longe?
Ela contava aquilo como se fosse algo engraçado, mas Aurora encarava de outra maneira, como se tivesse acabado de receber um xingamento. Sentiu, naquelas palavras, uma pontada de incerteza, como se Lorin quisesse se certificar de que poderia confiar em Aurora.
— Eu não faria isso — repetiu Aurora, dessa vez em um tom mais firme. Foi tudo que lhe veio à cabeça, na tentativa de evidenciar que estava do lado de Lorin e Walson.
As perguntas, então, se formavam na mente da garota, e ela sentiu que talvez aquela fosse a hora de falar. A hora da verdade. Não queria ser abusada, mas queria esclarecer suas dúvidas. Quem eram os... acabara de esquecer o nome daquelas criaturas gosmentas. O que queriam com ela. Quem eram nós, e como Lori sabia que ela fazia parte deles.
— Deve estar muito confusa, não está? — Lorin apoiou-se na lataria, ao lado de Aurora. Sua postura lembrava alguém importante.
Aurora virou-se para encarar Lori, a expressão no rosto da mulher exalando maturidade e desafio.
— Um pouco — respondeu.
— Quer beber um pouco? — o rosto de Lorin voltou-se, agora, para o interior do furgão, e ela começou a remexer nas sacolas. — Trouxe bebidas para todos nós.
Aurora acenou com a cabeça, mais uma vez.
Lorin franziu o cenho.
— Você não fala muito, não é? — a mulher entregou uma lata de cerveja à Aurora, que aceitou sem perceber que havia acabado de receber uma bebida alcóolica.
— Acho que... falo normal — disse Aurora, fazendo o possível para soar mais à vontade para o indivíduo que a examinava, ao seu lado.
— Só está um pouco tímida, no momento, não é? — Lorin falava aquilo como se fosse tudo uma grande piada. Ela abriu a lata, e tomou o primeiro gole.
Aurora sentiu que deveria fazer o mesmo, e retirou o lacre de sua lata. O cheiro que tomou conta das narinas foi forte, milho misturado com cevada, e ela levou o instrumento à boca, retirando rapidamente assim que averiguou o gosto diferente. Fez uma careta.
Lorin riu baixinho.
— Não está familiarizada com cerveja? — a mulher caçoou dela.
Aurora não respondeu, estava ocupada demais limpando a boca.
Lorin puxou outra lata da sacola, ignorando o que acabara de acontecer, e se dirigiu para a janela do carona.
— Walson — chamou ela, abandonando o tom de voz sarcástico.
O rapaz despertou, observando o cenário ao seu redor lentamente, e parecendo perceber que possuía braços e pernas pela primeira vez.
— Bebida — Lorin empurrou a lata para o rapaz.
Walson balançou a cabeça, afastando os cachos escuros do rosto, e sentou-se em uma posição mais adequada.
— De novo? — perguntou ele, a voz fraca. Ele espreguiçava-se enquanto tentava se expressar. — Já disse que preciso forrar o estômago antes de tomar uma coisa dessas.
Lorin revirou os olhos.
— Vai começar com a frescura? — o tom de voz sarcástico retornou, mas ela parecia um pouco mais irritada agora.
Walson puxou a maçaneta e empurrou a porta, saltando do furgão, meio desconcertado. Seus olhos permaneciam um pouco confusos, como se nem ao menos ele soubesse para onde olhar.
— Onde está a... — e assim que seus olhos encontraram os de Aurora, o rapaz parou no mesmo lugar. — Ah... — parecia surpreso.
Talvez ele também achasse que ela fugiria, com ou sem o furgão. Foi assim que Aurora passou a cogitar se fugir não teria sido a melhor ideia.
Onde raios ela se metera?
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