Aurora era a próxima. Já trajava a vestimenta da atração, esperando apenas pelo anúncio de entrada para subir naquele palco vibrante e exibir a si mesma para aquela cidade grande. Tinha que admitir, estava nervosa, mesmo que já tivesse feito aquilo um milhão de vezes. Sentia que daquela vez era diferente, nunca havia saído da Suíça, e quando saíra, fora direto para Munique, onde as críticas seriam mais pesadas e a cobrança, obviamente, seria maior também.

Permanecia atrás da cortina negra que separava os bastidores da plataforma circular que era o palco do circo, se ficasse mais um tempo ali, era provável que fosse enlouquecer. Suas pernas já estavam posicionadas para entrar em cena, mas sua cabeça continuava se perguntando se tinha certeza do que estava fazendo.

Uma mão pousou em seu ombro, despertando-a de seu devaneio. Ela olhou para trás, carinhosamente, quase certa de quem se tratava.

Stuart.

O idoso era quase como um pai para ela, e agraciava a garota com palavras doces nos bastidores sempre que considerava o espetáculo que viria, significativo. Aurora estranhara o fato de ele ainda não ter feito aquilo naquele dia, mas, pelo visto, aquela era a hora.

— Minha menina — começou ele, sorrindo suavemente, suas rugas destacadas pela luminosidade que escapulia pelas brechas da cortina negra. — Percebo que está sentindo o sabor da mudança.

Ele passou a mão em seus cabelos, e ela baixou um pouco a cabeça, tornando claro que aquele carinho era muito bem vindo.

— É um sabor bom, não é? — Stuart permanecia mexendo em seus cabelos curtos, estilizados em channel. — Enche a mente com incertezas, inseguranças, mas também enche o corpo de adrenalina. Consegue sentir a empolgação? — indagou ele, agitado.

A adolescente riu, um riso mudo, onde apenas o som da respiração pudera ser ouvido saindo de sua boca. Se o nervosismo contasse como empolgação, certamente estava sentindo.

— Você me enche de orgulho — finalizou o senhor, retirando a mão de suas madechas escuras e posicionando-se ao seu lado.

Stuart era uma espécie de faz tudo, cuidava da limpeza da lona, lavava as vestimentas, organizava as papeladas e muito mais. Poderia parecer muito velho, mas quando se tratava de realizar tarefas de grande esforço, ele mostrava grande resistência.

Só havia mais duas outras pessoas cuidando dessas tarefas além dele, o que já era alguma coisa.

— Agora, com vocês — anunciava o apresentador do circo, com entusiasmo. -, a nossa brilhante... Aurora!

A garota atravessou a cortina, que era recortada em tiras, com os braços erguidos, como se estivesse pronta para receber os aplausos. Buscara esvaziar a mente e deixar a emoção conduzi-la, aparentemente seu cérebro se encarregaria de seguir os movimentos que não cansava de repetir em outras apresentações.

Ela caminhou lentamente para o canto do palco, do lado oposto aos objetos que seriam utilizados durante a atração, e posicionou a perna direita atrás de seu corpo, escolhendo a esquerda como a de apoio.
Estava preparada.

Observou, de relance, a população de Munique, e conseguiu identificar seus semblantes animados. Poderia ser uma cidade grande, mas ainda, ela era a estrela. De todas as atrações do circo, tinha plena consciência de que todos estavam ali por ela.

Ali estavam, os espelhos planos organizados em espiral com uma fita avermelhada caindo do centro superior do círculo. Era tudo o que seria necessário para mostrar suas habilidades.

Ela avançou, determinada a atingir o espelho mais próximo ao chão, e saltou sobre ele, utilizando as mãos e os joelhos para se alojar na superfície vertical. Aplausos! Ela havia conseguido. Como se estivesse parada sobre um plano grudento, Aurora aguentou mais um pouco.

Logo em seguida, começou a caminhar, "de quatro", em cima do espelho em pé, seguindo em direção aos outros, que subiam, em sequência, na direção espiralar. Era tudo parte do show.

— Conheçam a nossa mulher aranha! — exclamou o apresentador, novamente, sua voz ecoando ao longo da lona, listrada em vermelho e amarelo, do circo.

Aquele era seu nome artístico: mulher aranha, por sua habilidade incrível de conseguir se prender a superfícies verticais sem muito esforço. Tudo o que precisava era ter concentração, então seu corpo inteiro seria capaz de se prender a qualquer lugar.

Era por isso que era tão especial naquele circo.

Enquanto subia, algo na platéia chamou sua atenção. Uma criatura em branco movimentando-se na multidão, desajeitada. Ela acompanhava a criatura de relance, com os olhos, mesmo sabendo que deveria estar devidamente concentrada no que estava fazendo.

Aurora continuava subindo, andando sobre os espelhos, arrancando urros de felicidade e aplausos de muitos espectadores. Não era tão diferente da Suíça, nem sabia por que imaginou que seria.

Subitamente, as luzes multicoloridas que sondavam a platéia focalizaram a criatura branca, revelando-a. Era uma mulher, vestindo um terno branco e segurando uma prancheta.

Aurora franziu a testa, voltando sua atenção para os espelhos e enxergando seu reflexo na superfície refletora do que estava abaixo dela. Nunca vira alguém semelhante enquanto se apresentava em seu país natal, seria um crítico? Segurava uma prancheta, provavelmente a resposta era sim.

Assim que atingiu o ápice do espiral de espelhos, alojou-se em um último espelho, localizado no alto e paralelo ao chão, com o plano brilhante voltado para baixo, e soltou os pés.

A platéia foi à loucura mais uma vez, desta vez aplaudindo de pé. Ela estava presa ao objeto apenas com a palma das mãos.

Imaginou o que a mulher de branco estaria achando, e a encontrou com um semblante sério, como se a habilidade da Aurora não fosse surpresa para ela e a atração não tivesse surtido nenhum efeito. Era assim que críticos costumavam ser, pensou. Nada fora do normal, ela continuava fazendo um excelente trabalho.

Então, dirigiu-se para a fita avermelhada, tomando cuidado ao ficar de ponta cabeça e posicionar seus pés acima do corpo, em algum lugar firme.
A platéia encarou, apreensiva.

E foi quando Aurora começou a deslocar-se para baixo, usando apenas os pés "colados" na superfície da fita, para descer, que viu a mulher de terno olhar para o lado. A crítica nem ao menos parecia preocupada em vê-la daquele jeito.
A garota continuou descendo, fazendo uma espécie de concha com as pernas enquanto utilizava os dois pés para alcançar o chão, com cuidado. Não podia acreditar que a crítica não havia ficado impressionada, aquilo era tudo o que ela sabia fazer.

Assim que atingiu o palco, Aurora se levantou, e ergueu os braços novamente, esperando pela última salva de palmas, que não demorou a acontecer. Ela olhou para a crítica novamente, que parecia bater palmas apenas por obrigação.

— Essa foi a nossa brilhante Aurora — finalizou o apresentador. -, e seu número fantástico!

Aurora forçou um sorriso para a platéia e tratou de voltar para os bastidores. Seu rosto encontrava-se coberto de suor, alguns cabelos da pastinha grudados na testa, e o resto do corpo exausto, como quem havia feito um dia inteiro de academia. Seus músculos se contraíam.

— Você foi maravilhosa — elogiou Stuart, assim que a adolescente chegou ao camarim.

Ela bagunçou os cabelos, sentando-se pesadamente em um dos assentos do quarto, e sorriu para ele.

— Tem certeza? — perguntou a ele, com simpatia.

— Claro que tenho — Stuart respondeu, sentando-se ao lado dela, no assento que restara.

Aurora ainda respirava ofegante, e, enquanto encarava o chão, lembrou-se da figura esbranquiçada que a estudava com os olhos há pouco tempo.

— Acho que vi um crítico hoje — informou ao idoso, imediatamente, que franziu a testa.

Logo mais, ele abriu outro sorriso, meio despreocupado.

— Não é comum identificarmos críticos em Zermatt, não é? — disse Stuart, com tranquilidade.

Zermatt era a cidade natal de Stuart e Aurora, local sede do circo em que trabalhavam.

— Nem um pouco — respondeu Aurora, ainda olhando para o chão.

Aceitando que aquele assunto não havia se prolongado, levantou-se do assento e foi procurar as vestimentas da próxima atração. Dali a meia hora, dançaria com os outros funcionários do circo para a conclusão teatral do espetáculo.

— Tem um assunto que eu queria conversar com você — começou Stuart, em um tom sério. Normalmente, o velho oscilava entre emoções de modo ordinário, porém, naquele dia, estava mais feliz do que o habitual, sorrindo sempre que avistava Aurora. Aquilo era estranho.

Aurora pareceu compreender, com aquelas palavras, que o que viria não era nada bom. Parou de fazer o que estava fazendo, no exato momento.

— Estou doente — informou ele, como quem joga um balde de água fria e o faz de uma vez.

O rosto de Aurora tomou uma forma diferente, de incredulidade mesclada com um desespero emergente. Stuart já havia ficado doente diversas vezes, mas a recuperação sempre era árdua, os médicos já haviam informado a ela que da próxima vez ele poderia chegar a falecer.

Ela puxou as vestimentas de uma vez, tentando não mostrar que estava muito preocupada, ou talvez Stuart também não fosse capaz de lidar devidamente com a situação.

— Vai ficar tudo bem — replicou Aurora, sem olhar para ele.

Ela dirigiu-se para a parte traseira de uma cabine estilizada branca, muito utilizada em tempos antigos para a troca de roupas, e começou a arrancar as vestimentas que trajava. Seus olhos vislumbravam o nada, aquela havia sido uma péssima hora para descobrir da doença de Stuart.

— Eu sei que vai — retrucou ele, a voz suave, porém, com um certo nervosismo presente.

Ele estava mentindo, assim como ela. Um na tentativa de tranquilizar o outro, porém, ambos sabiam o que poderia acontecer.

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A concentração estava feita, a grande maioria de funcionários do circo aguardava na parte de trás da cortina negra. Como esperado, Aurora ficava na frente de todos eles, já que era um dos verdadeiros motivos de o espetáculo manter-se estável financeiramente. As habilidades da garota sempre traziam gente nova.

— Muito obrigado, pessoal! — agradeceu o apresentador, aquela era a deixa.

Os funcionários adentraram o palco, iniciando a performance clássica de despedida. Porém, Aurora ainda possuía o pensamento distante, realizando os movimentos de modo mecânico, sem tanta graça.

Gritos surgiram da platéia, e inicialmente Aurora achou que estivessem tentando falar com ela, mas as pessoas estavam se levantando e olhando para o corredor vazio ao lado dos assentos. Como se uma cobra estivesse se arrastando por lá, estavam assustados.

A garota franziu a testa, ainda seguindo a coreografia. Não havia percebido antes, mas a crítica olhava, enraivecida, para o corredor, como se desejasse matar a cobra. A mulher se levantou, talvez fosse matá-la.

De repente, alguém pisou no pé de Aurora, e ela percebeu o quanto havia se distraído. Tentou voltar e seguir os passos dos outros, mas quase ninguém da platéia ainda prestava atenção neles, estavam todos voltados para a cobra que encontrava-se no corredor, e ela vinha para perto do palco.

Quando finalmente os olhos dos espectadores acompanharam o que parecia ser uma serpente, chegar próximo ao fim das arquibancadas, Aurora conseguiu ver. Era uma espécie de gosma violeta locomovendo-se em um rastejo nojento.

Pelo visto, tinha vida. Era repugnante.

Stuart surgiu de trás dos bastidores, carregando um pano molhado e um facão.

Aurora olhou para aquilo com surpresa, o idoso tinha que descansar e mesmo assim estava fazendo esforço. Nem ao menos sabia com o que estava lidando, uma gosma violeta com vida não parecia muito possível, mas ali estava.

Os funcionários já haviam parado de dançar, agora todos encaravam o trabalho de Stuart, enquanto o velho cobria a criatura gosmenta com o pano molhado e tacava o facão. Não fazia muito sentido, já que Aurora tinha certeza de que um facão não seria suficiente.

De repente, o ser gosmento emergiu do pano, sem sequer deixar rastros nele ou no chão, estava tudo intacto. Não rastejava mais, pelo contrário, havia formado duas próteses de gosma para caminhar. Parecia vir abraçar Aurora, que recuava com passos ligeiros.

A crítica saltou das arquibancadas e veio correndo em direção à criatura. Seu braço agora envolto por uma armadura rubra, e ela atingiu o ser gosmento em cheio, estraçalhando parte de seu corpo gelatinoso.

Certa de que não havia terminado, a crítica transformou parte de sua armadura em líquido em instantes, como se a placa escura no braço cuspisse gotículas de água, e lançou sobre os fragmentos gelatinosos do ente violeta, que arderam em vapor.

Aurora assistia a tudo aquilo abismada, não conseguia sequer sair do lugar. Nada parecia real. Talvez fosse melhor se tudo aquilo fosse um sonho.

Uma coloração amarelada chamou a atenção da garota, e Aurora percebeu que a lona do circo começara a pegar fogo pela lateral. Os funcionários já haviam retornado para os bastidores, e os espectadores pressionavam uns aos outros para sair dali.

— Temos que sair daqui — informou a crítica, alarmada. — Mais deles estão vindo.

Aurora tinha vontade de perguntar "deles quem?", mas achou melhor seguir a moça, ainda não fazia ideia do que era aquele ser gelatinoso e como havia transformado uma armadura sólida em líquido. Como quem desperta de um transe, a adolescente se lembrou.

Stuart.

— Podemos sair por ali? — a crítica perguntou, acenando a cabeça para os bastidores do circo.

Aurora confirmou com a cabeça.

Então, a crítica guiou a garota pela mão, como se Aurora nunca tivesse trilhado o percurso que faziam agora.

— Eles estão atrás de você — informou a mulher, enquanto caminhavam, depressa.

— Eles quem? — Aurora finalmente indagou.

— Os Hisanna — a crítica olhou para ela, de relance. — Como aquele animal roxo que quase te atacou.

— Aquela gosma?

A crítica confirmou com a cabeça, mas estava muito apressada. Já haviam passado por diversos camarins, vários funcionários desesperados e inúmeros setores do circo. Faltava pouco para chegarem até a saída.

— Espera! — exclamou Aurora, interrompendo a corrida das duas. — Eu queria levar um amigo meu.

— Onde ele está? — indagou a crítica, ríspida, felizmente soltando a mão de Aurora. — Não dá para perder tempo. Você é o alvo, mais ninguém aqui.

— E por que está tão preocupada comigo, afinal? — Aurora franziu a testa, cruzando os braços. Havia sido uma mudança brusca de assunto, possivelmente causada pela pressão que aquela mulher exercera sobre ela. Mas realmente, havia um ponto ali.

Fez-se um breve silêncio, em que a moça encarou Aurora como se indagando se realmente havia a necessidade de iniciar uma explicação naquela hora.

— Bem, porque você é uma de nós — retrucou a crítica, logo em seguida, gesticulando para enfatizar a ideia. — E causaria sérios danos se eles colocassem as mãos em você. Sabe-se lá o que poderia acontecer.

— Quem são nós? — Aurora insistia, incrédula. As dúvidas não paravam de aparecer. Ela era uma deles?

— Isso é conversa para outra hora — o rosto da mulher entregava que aquela, de fato, era uma situação de risco e ela não estava com a menor vontade de prolongar aquela discussão.

Aurora olhou para trás uma última vez, desesperançosa quanto a achar Stuart, exibindo uma expressão de culpa, e seguiu adiante, acompanhando o indivíduo de terno branco. O fogo já havia atingido a cortina negra.

Um furgão branco aguardava pelas duas a alguns metros dali, o motorista acompanhando seus passos com os olhos. Aurora nem se perguntara para onde iria, ou quem eram aquelas pessoas, só queria dar o fora dali. Acabara por confiar em uma completa estranha pelo fato de ela ter eliminado uma criatura misteriosa bem na sua frente, uma criatura que nem mesmo ela sabia do se tratava.

— Andem logo! — apressou o motorista, parecia bem mais novo que a crítica, que, talvez não fosse uma crítica.

Aurora acomodou-se em um dos bancos traseiros e observou quando a mulher que a acompanhava deu a volta no veículo e sentou no assento do carona.

— Que o destino nos guie — disse o motorista, dando a partida.

Notas finais
Se gostaram, por favor, comentem. Preciso saber se devo continuar.