O Despertar De Ghorionn
7 Memórias
Faltavam apenas algumas horas para o amanhecer quando finalmente retornaram à pequena casa alugada. Quase nenhuma palavra havia sido dita no caminho de volta. Eve tentava disfarçar o medo e o nervosismo que sentia, sem muito sucesso. Ao chegar à casa, tirou as botas e jogou-se na cadeira mais próxima, respirando fundo.
- Ilusões – começou Hellion, com tom de explicação. – fazem parte do que chamam magia negra. Não passam de um jogo de luzes, mas um simples truque desses é capaz de enlouquecer alguém. Entretanto, são facilmente detectáveis por quem tem algum conhecimento no assunto. Em alguns minutos de análise, é possível dizer se o que você vê se trata de algo real ou ilusório – o velho homem também deixou-se cair na cadeira mais próxima. – Como deve ter percebido, o que chamariam de invisibilidade nada mais é do que um tipo de ilusão, que tem o conceito básico de deixar a luz passar pelo seu corpo, sem que ele a reflita. Um usuário pode tornar-se invisível aos olhos humanos, mas não pode fazer o mesmo com nada que for posto em seu corpo depois do uso da ilusão: água, areia, poeira, terra. Qualquer coisa que se prenda ao seu corpo irá parecer flutuar, revelando a localização – Hellion fez uma pausa. – É possível que tenha que lidar com isso daqui para frente, por isso, é oportuno que saiba.
Eve apenas assentiu.
- Agora eu e Vein iremos proteger essa casa, enquanto Elliot trata dessa cicatriz – acrescentou, apontando para o braço da chefe de segurança.
No caminho, o professor havia cuidado do fundo ferimento causado pela adaga. Para o espanto de Eve, em poucos segundos, o rasgo havia sido reduzido a uma fina cicatriz. Não sabia o que fizera, mas sabia que se tratava de algo envolvendo magia, e que ela provavelmente não entenderia se lhe fosse explicado. Então havia apenas agradecido.
- O que quer dizer com proteger? – perguntou Eve.
- Do mesmo modo que usamos o sangue de um assassino para localizá-lo, ele pode nos achar. Algumas contra-magias resolvem isso em alguns minutos.
. . . . .
- Eles sabem quem sou agora. Quando entrei na casa, apresentei-me como chefe de segurança de Bergham.
Elliot não ergueu o olhar, continuando a fitar a cicatriz enquanto cuidava dela.
- Não se preocupe. Enquanto estiver nessa casa, está segura. E quando precisar sair, Hellion estará com você.
Eve apenas suspirou.
- Pronto – anunciou Elliot.
Virou-se para o braço: como o esperado, não havia mais nada ali, apenas a pele lisa.
- Obrigada – sorriu timidamente.
Alguns minutos depois, Hellion e Vein já haviam terminado as contra-magias. Arrastaram duas cadeiras até formarem um círculo em torno de Elliot. Então sentaram-se.
- É hora de entender um pouco sobre esse grupo – anunciou Hellion. – Elliot, sei que não conseguiu terminar. Muitas memórias ainda devem estar faltando devido ao ataque, mas certamente teve acesso a algumas informações da vida daquela jovem.
Eve quase se esquecera de que o professor tivera acesso à mente da garota. Sobressaltando-se, virou-se para o homem e mordeu os lábio de ansiedade. Finalmente teriam alguma informação?
Elliot fechou os olhos com força, como se buscasse na mente memórias muito distantes.
- Nascida em Mohok, onde viveu uma infância muito pobre. Os pais foram mortos pelas gangues do deserto quando tinha sete anos. Desde então, foi criada por um homem estranho... – franziu o cenho, como se fosse necessário um grande esforço para ter acesso às informações. – nunca soube o nome. Era um dos Mercenários do Deserto. Um dos líderes deles, na verdade. Ela o odiava, mas viveu com ele longos anos. Foi treinada por ele: magia negra, técnicas de assassinato, adagas, veneno. Foi um treinamento traumatizante. Violento, muitas vezes. Aos quinze anos, entrou para os Mercenários do Deserto. Em seu primeiro ano, realizou cerca de cinquenta assassinatos remunerados. Continuou com o treinamento, aprimorando-se constantemente. Em cinco anos, tornou-se um dos mais disputados membros do grupo, apesar de ser uma das poucas mulheres assassinas. Ser uma jovem e bela mulher ajudou-a a não levantar suspeitas. Seus assassinatos ficaram conhecidos como os mais rápidos do deserto. Aos vinte anos, saiu de Mohok... – Elliot respirou fundo e abriu os olhos. – A partir de então, a conexão foi interrompida. As memórias as quais tenho acesso vão até esse ponto.
Hellion assentiu e pareceu pensativo.
- Elliot, procure o que a motiva, não busque apenas o que aconteceu. Procure o que ela sentiu.
O professor cerrou novamente os olhos.
- Sentiu toda a desolação, raiva, desespero, tristeza e desamparo que se imagina que uma criança sentiria quando perdeu os pais. A partir de então, seguiu o homem dos Mercenários do Deserto apenas por desamparo, por não ter mais ninguém, por não saber o que fazer. – fez uma pausa. – No entanto... com o tempo, as habilidades adquiridas com o árduo treinamento mudaram-na. Passou a não se sentir mais uma abandonada e indefesa menina, mas uma assassina capaz de acabar com tudo o que a desagradasse. Capaz de se vingar do mundo por tê-la maltratada durante toda a vida. – mais uma pausa. – Consegui mais alguns detalhes: quando tinha cerca de dezoito anos, matou o mestre que a ensinou as artes do assassinato, considerando aquilo um teste para saber seu real potencial. Um teste para saber se estava apta a concluir um objetivo que cultivou por anos em seu interior: vingar a morte dos pais. Em quatro meses, destruiu completamente a gangue do deserto que os matou. Assassinou um por um daqueles arruaceiros.
O silêncio se estendeu por alguns minutos. Hellion tinha o cenho franzido e fitava o chão de madeira.
- Infelizmente, nenhuma dessas lembranças indica alguma relação com esse grupo – falou. – Aparentemente, é algo recente em sua vida. As memórias a que você conseguiu acesso não são tão atuais quanto desejávamos. Porém.... consegui uma informação que nos vai ser extremamente útil.
- Qual? – perguntou Elliot, já de olhos abertos.
- Aquela jovem é um membro dos Mercenários do Deserto.
Os Mercenários do Deserto eram um conhecido e antigo grupo que tinha o assassinato como profissão. Funcionava de modo bem simples: o contratante ia até a Guilda – uma construção camuflada em meio ao deserto –, pagava uma quantia exorbitante, e em alguns dias a vítima desejada aparecia morta. A Guilda localizava-se nas redondezas de Mohok, o que tornava difícil que a organização fosse desmembrada e seus componentes presos, uma vez que a cidade estava em uma situação que chamariam de “jogada às moscas”. O governo era corrupto e pouco eficiente, e raramente dava atenção a assuntos públicos como segurança. Mohok era também uma cidade em meio ao deserto, grande em extensão, porém extremamente pobre. A situação era agravada pelos constantes arrastões organizados pelas gangues do deserto. Eram grupos de pobres e violentos ladrões, que se uniam com o simples propósito de assaltar em massa cidades e vilarejos. Provavelmente fora em uma dessas ocasiões que os pais da garota haviam morrido. As gangues não hesitavam em responder violentamente ao menor sinal de reação. Eve já havia pernoitado duas ou três vezes nas pequenas estalagens da cidade durante missões da Secretaria de Segurança de Dollenham, e lembrava-se bem do quão triste era ver aquela miséria.
- Ela deve ter abandonado a organização – argumentou Elliot, interrompendo os pensamentos de Hellion e Eve.
- Os Mercenários do Deserto estão escondidos por todo o mundo, e não só em Mohok. Decerto, ela tem algum meio de comunicação com a Guilda – dizia o velho homem. – E estou certo de que, por uma quantia generosa, ela não recusará um pequeno serviço.
- Que quantia? – perguntou Eve.
Hellion virou-se para um pequeno montinho de moedas que a chefe de segurança deixara sobre uma mesa próxima. Pegou-as com as duas mãos. Por um instante, pareceu concentrar-se. Então abriu as mãos, deixado uma verdadeira cachoeira de moedas de ouro jorrar em direção ao chão. Eve deu um pulo na cadeira.
- E que serviço? – Vein virou-se para o pai.
- Um assassinato, é claro.
- E quem vai ser a vítima?
- Eu.
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