Notas iniciais
Bom, pessoal. Tive que ficar um bom tempo sem escrever :(
Peço desculpas a quem estava acompanhando, mas realmente não estava tendo tempo para a fanfic. Espero que ainda haja alguém lendo, e que consiga conquistar novos leitores, é claro, heheh. =)
Enfim, espero que gostem!

Naquela noite, Eve não dormiu. As imagens de tudo o que se passara havia algumas horas não lhe saíam da mente: as ilusões, a reação de Hellion, o ataque da figura humanoide, que mais parecia um ogro das histórias infantis. Sua capacidade de acreditar parecia ser testada a cada dia. Sabia, finalmente, que estivera certa desde o início: não estavam lidando com criminosos comuns.

Era já alta madrugada quando se levantou, desistindo das insistentes tentativas de cair no sono. Perambulou pelo quarto e pela sala até chegar à pequena cozinha. A única fonte de iluminação era a luz da lua, que entrava pelas janelas de vidro da diminuta casa.

Com um suspiro, pegou um pouco de água e se encostou na parede enquanto a bebericava, tentando não produzir nenhum som, uma vez que os três inquilinos dormiam na sala, o cômodo ao lado da cozinha.

- Olá.

Eve deu um pulo, com o coração disparando. Já ia levando a mão a uma faca próxima quando percebeu que se tratava de Hellion.

- Ahn, boa noite – respirou fundo, tentando recuperar-se do susto.

O velho homem estava sentado na cadeira posicionada ao canto da cozinha. Estivera tão silencioso e envolto na escuridão noturna que não o notara antes.

- Não consegue dormir? – perguntou.

- Não. E quanto a você? –

- Ainda não tentei. Estive apenas pensativo – notou que o homem também tinha um copo de água nas mãos. – O que lhe aflige?

- Ahn... – Eve sentia-se boba. – acho que tudo. Não... estou acostumada a lidar com essas coisas. Esses criminosos... o que eles podem fazer. Ilusões e tudo o mais. Nem mesmo sabia que isso era possível. Até mesmo o que você pode fazer – fez uma pausa. – Quero dizer, já tinha ouvido histórias, é claro. Mas não sabia como era. Você pode fazer... tudo?! Eu não queria admitir isso, mas, para falar a verdade, eu entendo o por quê de você ter sido afastado das cidades. Não que concorde, é claro – acrescentou rápido, vigiando o rosto de Hellion em busca de qualquer sinal que indicasse que se ofendera. – É que... seja lá qual for o motivo de você poder controlar... tudo, é assustador para nós, simples humanos. Tememos o que vai além de nossa compreensão.

Alguns segundos de desconfortável silêncio se passaram. Segundos durante os quais o velho homem apenas fitava o chão. Algo em suas feições mostrava que entendia Eve.

- Eu dediquei minha vida a tentar fazer do mundo um lugar melhor – começou, erguendo o olhar e suspirando. –, por algum tempo, depois que fui exilado, parece que me esqueci disso. Fui dominado por sentimentos egoístas, como o rancor, e perdi o meu objetivo. No entanto, agora estou aqui. Graças a você, reencontrei minha vontade. Quando você falou da situação de seu povo e ajoelhou-se para pedir ajuda... eu vi em você o que morrera em mim: a vontade de ajudar. Desde então, voltei a ser eu mesmo.

Um estranho misto de sensações surgia dentro da chefe de segurança. Sentia-se honrada e agradecida pelas palavras de Hellion.

- E é por isso... – continuou o homem. – por toda a gratidão que tenho a você, que acho que merece saber.

- Saber o quê?

- Saber quem é Hellion. Quem e o que eu sou.

O coração de Eve voltou a disparar, tão forte como quando levara o susto de encontra-lo ali. Abriu a boca, pronta para responder algo, mas percebeu que não tinha o que dizer. Então apenas ficou em silêncio e observou o velho homem fitar o vazio. Seu olhar exprimia muitas sensações, impossíveis de serem decifradas, como de costume.

- Quando um deus faz algo que quebras as regras divinas, a punição é o exílio. E, na maior parte das vezes, o exílio é aqui, no mundo humano. Assim... surgem os deuses caídos.

Eve engoliu em seco.

- Atualmente... – prosseguiu o Hellion, falando lentamente, como se fosse difícil dizer aquelas palavras. Talvez realmente fosse. – o único deus caído... sou eu.

A chefe de segurança sentiu um calafrio percorrer o corpo. Uma onda de emoções a invadiu, tirando-lhe o fôlego. “O únicos deus caído... sou eu”. Estava na presença de um ser que um dia fora um deus. Já havia imaginado muitas vezes a origem dos poderes de Hellion, mas nunca sequer lhe passara pela mente aquela possibilidade.

- Alguns deuses não se importam com o que acontece no mundo dos humanos. São-lhes indiferentes. Outros são até mesmo cruéis. No entanto, muitos deuses são o que chamariam de bons, e querem o bem dos que habitam o mundo humano. Muitos sofrem com o estado de crueldade ao qual a humanidade chegou. De todos esses, o único que não pôde suportar... fui eu.

Eve não tinha palavras. Apenas olhava a figura à sua frente, em choque. A presença de Hellion, de repente, voltara a ser tão pesada e mística quanto era na primeira vez em que o viu.

- Durante longos anos, assisti ao surgimento da crueldade no mundo. Alguns humanos eram tão ruins, tão... sórdidos. Guerras, crimes horríveis, massacres, sangue por todo o lado. Por muito tempo presenciei cenas como essas – Uma longa pausa, durante a qual Eve ouvia apenas a própria respiração, forte e descompassada. – Os deuses são terminantemente proibidos de interferir de forma direta na vida mundana. No entanto, eu já havia chegado ao meu limite: em uma noite sem lua, quando nuvens densas e escurar cobriam o céu, impedindo que eu fosse visto dos reinos celestes, e um enorme festival concentrava a atenção dos deuses... eu desci para este mundo. Sabia que tinha de fazer tudo durante o festival. Ao amanhecer, minha queda seria descoberta, e eu, punido. Durante aquela noite... – mais uma pausa, durante a qual Hellion apenas fitou o chão. – eu incinerei todos os humanos de má essência que pude encontrar. Todos os mais sórdidos... assassinos, torturadores... todos. Bastava um movimento de minha mão para serem exterminados. Haviam causado sofrimentos inimagináveis para as pessoas por demasiado tempo. Eu estava sendo movido pelo ódio. Simplesmente surgi em todas as cidades que pude encontrar, procurando-os e os exterminando. – algo nas feições de Hellion demonstrava algo que nunca vira antes no velho homem. Vergonha? Talvez... mas havia algo mais: arrependimento. O arrependimento de quem sabia ter ido longe demais. – Era um deus relativamente novo, de mentalidade ainda imatura, radical e imprudente... hoje, penso que nunca deveria ter feito aquilo – uma pausa para um prolongado suspiro. – Enfim, algumas horas antes de o sol começar a despontar no horizonte, fui até a cidade mais próxima, dando início ao meu plano. Em questão de alguns minutos, criei um livro no qual estava toda a minha história, e todo o conhecimento de um deus, o que os humanos chamariam de magia. Deuses sabem, obviamente, como controlar todos os elementos deste mundo, e o fazem em qualquer escala, manejando-os ao seu bel prazer. Certamente, você já se perguntou a origem do meu poder. Agora, está esclarecida. – mais uma pausa. – Então... escondi o livro no solo da cidade em que estava. Tive de cavar bem fundo... se um humano o achasse, teria acesso a todo o conhecimento divino existente, e as consequências provavelmente seriam desastrosas. Depois de escondê-lo, gravei com ferro quente as coordenadas de onde estava em minhas costas, onde estaria sempre coberta por uma roupa.

Eve franziu o cenho involuntariamente, como se pudesse sentir a dor.

- Não houve dor alguma – disse Hellion, percebendo o gesto. – Deuses não sentem dor.

A chefe de segurança ainda estava em estado de choque. Extasiada demais para pronunciar sequer uma sílaba.

- Eu não sabia se iria funcionar. Na realidade, não acreditava que funcionaria, mas tinha de tentar. Quando amanheceu, fui achado e levado de volta. Como sempre acontece, houve uma reunião, na qual foi decretada a minha sentença. A punição para as infrações cometidas pelos deuses costuma ser sempre a mesma: uma vida mundana. Como imaginara, comigo não foi diferente. Minha punição seria viver uma vida inteira como humano, sem memórias ou poderes, amadurecendo em minha essência, para um dia poder retornar à vida divina. E assim foi feito. Até os vinte anos de idade, nada sabia sobre minha origem, apenas que, ainda bebê, fora encontrado na grama de uma praça, ao centro de um pequeno vilarejo. Lá vivi até os vinte anos, quando passei a me considerar maduro o bastante para ir em busca daquele local, o local que estava gravado em minhas costas, como uma grande marca de nascença. Ao chegar, cavei até as mãos sangrarem. Demorei alguns dias, mas o encontrei... o livro. Ao ler, lembrei-me de tudo, de imediato... todas as memórias antes adormecidas despertaram em minha mente, e recuperei a consciência de quem era. Percebi, pouco depois, que não tinha tamanho acesso aos elementos desse mundo como quando era um deus. Este corpo humano me limita. Meu controle sobre os elementos mundanos está drasticamente reduzido. No entanto, continuo tendo o conhecimento divino, portanto, nem o melhor de seus magos pode... – ergueu um dedo. No mesmo instante, uma parte do piso de madeira se soltou, e, enquanto flutuava em direção ao dedo estendido de Hellion, moldou-se e se retorceu como se um escultor invisível lhe desse forma agilmente. Em segundos, o que antes era uma lasca de madeira velha tornou-se uma minúscula escultura em forma de ave, delicadamente moldada. – controlar este mundo tão bem quanto eu.

Novos minutos de silêncio se sucederam.

- Depois de ler e destruir o livro, vaguei pelo mundo, ponderando acerca do que deveria fazer de minha vida. Acabei chegando a uma conclusão previsível: já que havia tido êxito em meu plano, deveria terminar o que começara. E, assim, juntei-me ao exército de grandes cidades, tornei-me um guerreiro conhecido mundialmente, tanto por derrubar governos tiranos em guerras quanto por trazer paz às cidades pelas quais passava.

Novamente, o silêncio. Desta vez, Eve percebeu, Hellion não continuaria. Algumas vezes, abriu a boca para tecer algum comentário, mas se percebeu ainda incapaz. Não sabia o que dizer. Não sabia o que fazer. Deveria se curvar? Conseguiria continuar tratando Hellion normalmente? Podia conviver normalmente com a presença de alguém que já fora um deus? Naquele momento, pôde apenas se virar e sair do cômodo, indo em direção ao seu pequeno quarto, como se pudesse fugir de tanta confusão. O velho homem não a chamou. Entendia: era demais para apenas uma noite. Eve deitou-se e respirou fundo, enquanto o mundo parecia girar. Sabia que muitas opiniões e conceitos acerca de Hellion mudariam nos próximos dias. Nunca conseguiria vê-lo do mesmo modo. Nunca conseguiria ver o mundo a sua volta do mesmo modo. Há dias atrás, acordava como uma simplória cidadã de Dollenham, que se empenhava em combater criminosos comuns. Agora, via-se repentinamente em meio a uma complexa trama, que envolvia desde assassinos versados em magias proibidas até deuses caídos.