- A grande maioria das vítimas continua a ser de homens na faixa etária dos trinta anos.

Eve abriu a porta da pequena casa alugada enquanto explicava a Hellion. Espantou-se quando encontrou o pequeno aposento inicial vazio. Já havia se acostumado a ter os três inquilinos constantemente sentados naquele cômodo, estudando por horas os livros que haviam trazido. Agora restava apenas Hellion. Vein e Elliot haviam partido na manhã do dia anterior, dando início ao ousado plano arquitetado pelo deus caído. Tinham como destino as redondezas de Mohok, mais especificamente, a guilda dos Mercenários do Deserto. Tudo deveria decorrer como o combinado: os dois iriam até a organização, contratariam os serviços da jovem assassina que haviam descoberto integrar o grupo criminoso e, quando esta aparecesse para o serviço – o suposto assassinato de Hellion –, iriam capturá-la, e esta seria uma espécie de ponte entre eles e os misteriosos seres encapuzados. Que melhor fonte de informação do que um dos próprios integrantes do grupo poderia haver?

- Entendo – Hellion sentou-se na cadeira mais próxima.

- Pode pensar em algum motivo para isso?

- Tenho algo em mente... – seu olhar ficou vago. – Mas talvez esteja indo longe demais em minhas divagações...

Antes que Eve pudesse questioná-lo acerca de suas hipóteses, o deus caído levantou-se novamente e foi até a cozinha.

- Qual é o próximo passo? – indagou a chefe de segurança, quando Hellion retornou ao cômodo.

Ele pareceu pensativo por um instante.

- Sem Vein e Elliot aqui, sinto-me hesitante em tomar alguma atitude. Com apenas dois de nós, se eu for afastado por algum motivo, você estaria sozinha e desprotegida contra uma organização inteira de criminosos desconhecidos.

Eve cerrou os dentes, lutando contra a sensação de impotência e fragilidade.

- Já que você se apresentou quando estávamos sob o efeito da ilusão daqueles dois, eles têm agora pleno conhecimento de quem é. Mesmo em minha companhia, é mais seguro que se afaste de vez de seu trabalho. Não vá nem mesmo para receber os relatórios.

- Posso contratar alguém para que busque os relatórios. Se não os tivermos, seremos privados de qualquer nova descoberta da central de segurança de Dollenham.

- Faça isso.

Eve assentiu.

- — — -

Era exatamente como haviam imaginado: uma estrutura em forma de esfinge, coberta por uma grossa camada de areia, como tudo o que havia ali. O monumento era pouco visível em meia às grandes dunas que havia no deserto, mas as tochas acessas na entrada emitiam luz suficiente para que fosse perceptível na noite escura.

Haviam chegado à guilda dos Mercenários do Deserto, depois de quatro dias intensos de viagem. Depois de cumprido o objetivo, teriam de repousar por pelo menos uma noite em Mohok, a cidade mais próxima. Os cavalos estavam exaustos, e não suportariam refazer todo o caminho até Dollenham.

- Um assassinato.

Vein e Elliot já haviam entrado. Estavam em uma pequena e escura sala. A esfinge servia apenas para identificação do local, uma vez que todo o resto estava no subsolo. Haviam descido as escadas e passado por um grande bar, mal iluminado e lotado de homens maltrapilhos ou encapuzados: mercenários, arruaceiros, ladrões. Todos os piores tipos do deserto de Mohok estavam ali, gastando em bebidas quase todo o dinheiro que conseguiam com serviços sujos e ilegais.

- Quem? Qual a localização? – quem falava mal podia ser visto em meio às sombras do minúsculo cômodo.

- Um velho homem cujo nome desconhecemos. Encontra-se em Dollenham – era Elliot quem falava. – Mora em uma pequena casa, na Rua 64. Não é difícil identifica-la: é a única casa com apenas um andar que há na rua.

A casa em que Hellion estaria esperando era, obviamente, uma outra residência alugada por Eve. A menor e mais barata que encontrara. O farto dinheiro que Eve ganhava com seu alto cargo na segurança de Dollenham mostrara-se extremamente útil.

- Certo. O serviço se... –

- Queremos um assassino em especial – interrompeu Elliot. – É de suma importância que não haja falhas. Alguns... amigos, digamos assim, já contrataram o serviço de uma jovem que costuma estar pelas redondezas de Dollenham. Dizem ser um dos mais competentes membros dessa organização. Decerto, sabe a quem me refiro. Cabelos longos e negros, de boa aparência... –

- Sim.

Elliot pegou pequena bolsa de couro, completamente cheia de moedas de ouro, e largou-a sobre a mesa que separava os dois do homem com quem falavam. Ambos sabiam ser uma quantia muito maior do que custava um assassinato.

- O serviço será feito. No prazo de três dias, a partir deste momento, a jovem assassina terá concluído o seu serviço.

- Ótimo.

— — — -

Já era noite quando Hellion e Eve saíam da pequena casa. O deus caído havia explicado que combinara com Vein e Elliot que entrariam em contato naquela noite, cinco dias após a partida. Para isso, no entanto, precisariam de uma grande superfície de água, segundo Hellion. Eve – embora sem entender – explicara que o local mais próximo seria o chafariz, mais para o centro de Dollenham. Logo, aquele era o destino dos dois.

Enquanto caminhavam pelas ruas mal iluminadas de pedra, Eve sentia-se insegura. Mesmo com o deus caído ao seu lado, costumava sair apenas durante o dia. Tinha consciência de que era um alvo cobiçado pelo grupo criminoso naquele momento.

- Acha que sabem quem você é? – Eve quebrou o silêncio.

Hellion pareceu pensativo.

- Talvez desconfiem. Mas duvido que tenham certeza. Mesmo assim, descobrirão em breve.

- O que quer dizer?

- Inevitavelmente, haverá conflitos. Estamos travando uma guerra, Eve. Uma guerra interna e às escondidas em meio a Dollenham, mas ainda uma guerra.

A chefe de segurança apenas assentiu, pesarosa.

Após meia hora de caminhada, chegaram ao chafariz, posicionado ao centro de um largo espaço aberto. Eve observou intrigada enquanto Hellion remexia a água fria, parecendo fazer desenhos em sua superfície. Após alguns segundos, o líquido começou borbulhar, mas logo se acalmou.

- Pai?

O rosto de Vein apareceu na superfície da água, para a surpresa da jovem chefe de segurança. Quando fitava o interior do chafariz, onde deveria haver o seu reflexo, estava a imagem da filha de Hellion.

- Olá, Vein – Hellion pareceu tranquilizar-se ao vê-la.

- Estamos em Mohok. A missão foi cumprida – ela sorriu, parecendo cansada. – Fomos ontem à guilda, e recebemos um prazo de três dias. Não tivemos como avisar antes, então estava temerosa que a mercenária pudesse ter dado início ao seu serviço antes que pudéssemos avisar. Fico feliz que estejam bem. Fiquem alertas: ela pode agir a qualquer momento.

Hellion assentiu.

- Retornem o mais rápido que puderem.

- Partiremos amanhã pela manhã.

- Certo.

Eve ia começar a cumprimentar Vein, quando, repentinamente, Hellion virou-se para trás.

- O que foi? – sobressaltou-se a chefe de segurança, notando a expressão de desconfiança do companheiro.

Olhou a sua volta: o largo estava quase completamente tomado pelas sombras. A única fonte de iluminação era a fraca luz das chamas de alguns postes espalhados pelo local. Um calafrio percorreu-lhe a espinha.

- Hellion...?

- Há alguém por perto.

- Quem? Onde? – Eve levou a mão ao arco, tirando-o das costas e preparando uma flecha, enquanto seus olhos vasculhavam a escuridão, em busca de qualquer sinal de movimento.

- São muitos.

Foi então que viu: a luz dos postes revelou dezenas de figuras, vindas de todas as direções, que avançavam na direção dos dois a passos lentos e compassados. Todos tinham o corpo coberto por mantos negros e o rosto, por capuzes. Eve engoliu em seco.

- Hellion... – murmurou debilmente, tomada pelo terror.

- Pai? Pai?! – a voz de Vein continuava a vir da água. – Pai, o que está hav... – ficou cada vez mais distante, até desaparecer.

Hellion posicionou-se ao lado de Eve.

Inevitavelmente, haverá conflitos. Estamos travando uma guerra, Eve.

A chefe de segurança apertou com força o arco.

Uma guerra interna e às escondias em meio a Dollenham...

As figuras negras avançaram.

... mas ainda uma guerra.

Só não sabia que o primeiro ataque seria declarado tão abertamente. E que seria tão cedo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.