Hellion já entrara. Sentindo o coração disparar no peito, Eve, ainda com o arco erguido e a flecha apontada, seguiu-o. Vein e Elliot fizeram o mesmo.

– O-olá? – a voz era fraca.

O que os esperava do outro lado da porta, no pequeno aposento central da casa era...

– Desculpem-nos! Acho que nos enganamos de endereço – Eve abaixou o arco.

... um casal de idosos.

Fingindo coçar a sobrancelha, a Chefe de Segurança lançou um olhar de canto de olho para Vein, esperando encontrar a jovem tão boquiaberta quanto ela própria. Porém, não era vergonha ou confusão que havia em suas feições. Era algo que Eve não entendia. Mais parecia... hesitação? Desconfiança?

– Sou Chefe de Segurança de Bergham. Desculpe por essa entrada tão... intimidadora. Ocorre que estávamos à procura de um criminoso. Há mais alguém aqui?

– Que nós saibamos... não, querida...

Estavam sentados em um velho e empoeirado sofá. A única iluminação presente era a luz de uma vela, posicionada em cima da pequena mesa redonda. Ambos pareciam impressionados com a invasão repentina. Fitavam os quatro com olhos esbugalhados de surpresa.

– Alguém diferente... esteve aqui hoje? – tentou mais uma vez a Chefe de Segurança.

– Não estivemos em casa durante todo o dia... então temo não poder dizer... – a idosa parecia mais calma.

Segundos constrangedores se passaram sem que uma palavra fosse dita. Eve desejava poder olhar para o rosto de Hellion ou Elliot, à procura de alguma explicação, mas ambos estavam alguns passos mais a frente.

– Bom... eu já ia preparar o jantar. Se quiserem ficar e jantar conosco, seria um prazer – convidou a velha senhora.

– Agradecemos mas n...

– Seria muito agradável. Aceitamos a ofertar – Hellion interrompeu Eve, sobrepondo o volume de sua voz.

A senhora riu gentilmente.

– Acho que é dever de todos os cidadãos fazer uma gentileza a quem cuida de nós – falou o senhor pela primeira vez, referindo-se claramente a Eve. – Sem os agentes de Segurança, essa cidade seria um verdadeiro caos!

A jovem mulher assentiu e sorriu, tentando disfarçar a confusão.

– Obrigada.


Em cinco minutos, todos estavam acomodados, distribuídos entre cadeiras prestes a quebrar e um velho sofá coberto por uma camada de poeira. Conversaram com o marido da senhora, enquanto essa andava pela sala, acendendo novas velas ou retirando teias de aranha muito aparentes. O velho homem desculpava-se pela sujeira, explicando que raramente recebiam visitas, e que não tinham mais a mesma disposição para a limpeza. Eve não dava atenção às palavras, sua mente estava nas razões de Hellion em aceitar o convite. Se ele o fizera, devia ser um sinal. Um sinal... para que ela pedisse permissão para checar o segundo andar? Como Chefe de Segurança, tinha tal direito. Mas se assim fosse, por que não o falava na frente do casal? De início, estivera certa de que Vein havia se enganado. No entanto... a expressão em seu rosto e a atitude de Hellion pareciam indicar que não havia erro algum. O que eles queriam? O que sabiam que ela não sabia? Aqueles senhores não podiam ser assassinos. A ideia era ridícula! Algo estranho estava se passando.

Virou o olhar para Vein novamente, tentando buscar algo em sua expressão. Percebendo que era observada, a jovem ruiva fingiu arrumar uma mecha do cabelo para virar o rosto na direção de Eve. Quando fizeram contanto visual, a filha de Hellion gesticulou velozmente algo com os lábios. A Chefe de Segurança franziu as sobrancelhas, mostrando que não entendera. Vein fez novamente. Formava com os lábios as palavras... ajeite? Agride? Cerrou os dentes de nervosismo. Não conseguia entender! Vein continuava...

– É uma... – formava com a boca.

Não conseguiu entender a palavra final. Era quase impossível enxergar seus lábios naquele cômodo mal iluminado.

– Chefe de Segurança? – a senhora chamou.

Eve desviou o olhar da jovem rapidamente e virou-se para a mulher.

– Poderia me ajudar a preparar o jantar? Desculpe o incômodo. Ora, vejam só. Eu lhes ofereço o jantar, e peço ajuda para prepará-lo! Sei que é uma indelicadeza, mas a idade tornou minhas mãos trêmulas, e isso tem piorado nesses último dias, o que torna uma tarefa complicada preparar a comida.

Eve lenvatou-se.

– Claro. Sem problemas.

– Eve está cansada. Deixe-me ajuda-la – Hellion levantou-se também.

– Ora, bobagem! Não confio em homens na cozinha! – disse a senhora rindo, enquanto pegava a jovem Chefe de Segurança pelo braço.

– Deixe que... – recomeçou o homem, mas velha mulher já conduzia Eve para uma porta à direita.

Antes de adentrar o outro cômodo, a Chefe de Segurança fitou o rosto de Hellion, e, naquele momento, a seriedade em seu rosto confirmou: havia algo de muito errado.


Eve recostou-se na parede enquanto esperava a velha senhora acender uma vela na cozinha. Sua mente ainda estava nos sinais de Vein e em seu olhar... assim como naquela última expressão de Hellion. Por que o homem tentara impedi-la de ajudar a velha senhora? Com aquela atitude, ficara claro que não a queria sozinha com a mulher idosa. Seria mesmo ela uma ameaça? Tão fraca, pequena, frágil...

Observou a velha senhora remexer em uma gaveta, tirar uma faca enferrujada e abaixar-se para uma outra gaveta, enquanto murmurava sobre ter esquecido onde botara as cenouras. Não podia ser uma ameaça... aquilo era risível. No entanto, tudo passava por sua mente... a expressão de Vein ao encontrar o velho casal, a atitude do Hellion de ter aceitado ficar para o jantar, o seu olhar de alerta... as palavras gesticuladas por Vein: Agride? Ajeite? Não podia ter sido isso... não fazia sentido. Lembrou-se de seu olhar, que fitava a parede enquanto a boca gesticulava. A parede em que estava apoiado... o arco! O coração disparou. Atire! Fora essa a primeira palavra! Pensou no resto, sentindo as batidas no coração como se estivesse na garganta. Atire! É uma... forçou-se a pensar no último movimento dos lábios. Formavam o som... ão. Mas nenhuma palavra terminada com esse fonema fazia sentido na frase. A não ser...


Atire! É uma ilusão!


Quando a compreensão chegou, com todo o corpo tremendo de puro desespero, levou a mão à adaga presa no cinto. Tarde demais.

A faca enferrujada já cortava o ar em sua direção.