Notas iniciais
Errr... demorei bastante para escrever esse capítulo. Como estou sem tempo, os capítulos provavelmente demorarão para sair. :(
Mas, enfim, espero que ainda estejam acompanhando!

O sangue jorrou, sujando o chão de madeira. Um segundo de instinto fizera com que se virasse, levando a faca que acertaria o tórax a corta-la no braço esquerdo, abrindo um longo e profundo ferimento.

Fora tudo tão rápido. Há um segundo atrás, era uma frágil senhora preparando um jantar que nunca existira. No segundo seguinte, um assassino, encapuzado e envolto em um maltrapilho manto negro, avançando em sua direção com a faca em punho. Atire! É uma ilusão. Como fora tola. Agora entendia tudo: Hellion havia desconfiado do casal ao entrar na casa, e por isso havia aceitado o convite para o jantar. Naquele momento começara um perigoso jogo: os dois assassinos buscavam uma oportunidade de mata-los, enquanto os três companheiros buscavam uma oportunidade de captura-los sem que pudessem fugir. E ela fora a única a não compreender a verdadeira situação. Como iria imaginar que ilusões como aquela existiam?

Aaaaah... –

O grito de dor foi abafado por uma mão que se prendeu brutalmente em sua boca, impedindo o som de passar. Felizmente, fora tarde demais...

Bam!

A porta que ligava a sala à cozinha voou, indo colidir contra a parede oposta. Eve virou o olhar, atônita, e encontrou Hellion no vão onde estivera a porta. De repente, o assassino largou-a, e desapareceu...

Tudo acontecia tão rápido que se sentia desnorteada ao tentar entender. A figura encapuzada sumira em um piscar de olhos, como se nunca tivesse realmente estado ali... como se tivesse sido uma ilusão. Mais uma ilusão? Entendera algo errado? Não... o corte em seu braço era bem real.

– Não está lidando com um amador – pôde ouvir Hellion, com a voz repleta de seriedade. Nos olhos, um brilho selvagem que Eve nunca presenciara antes.

Uma forte corrente de ar invadiu o local, no exato momento em que a parede onde estivera a porta desmoronou atrás de Hellion. O resultado foi imediato: uma densa nuvem de poeira encheu o ar. Eve teve de estreitar os olhos para evitar as pequenas partículas. Então, entendeu tudo o que se passava. No centro do cômodo flutuava um amontoado de poeira, que prendia-se no ar como se ali houvesse alguma coisa, como se ali houvesse algo... invisível! “A partir daí os relatos são confusos: os soldados disseram que, ao chegar, viram apenas um borrão negro, que simplesmente desapareceu”. Podia ouvir mentalmente a própria voz contando o fato. Agora fazia sentido. “Um segundo depois, havia uma adaga no corpo do homem”. O depoimento dos soldados fora verdade, então.

Aaaaah!

O contorno empoeirado mal teve tempo de se mover. Hellion fechou o punho em sua direção. No segundo seguinte, a figura encapuzada encontrava-se contorcida contra o chão de madeira, como se algo a puxasse para baixo com uma força inumana.

De repente, Elliot e Vein surgiram no cômodo.

– Elliot! – Hellion virou-se para o homem. – Pegue-as, pegue as memórias.

O professor correu em direção à figura que se debatia debilmente no chão de madeira. Deixou-se cair de joelhos ao seu lado. Em seguida, tirou-lhe o capuz. Por mais que nenhuma palavra tivesse sido emitida, o ar de surpresa pôde ser sentido pelos quatro naquele cômodo: era uma jovem. Uma máscara de tecido cobria-lhe a boca e o nariz, mas a parte do rosto que estava a mostra deixava claro: tratava-se de uma jovem mulher. Não aparentava ter mais de vinte anos.

– Mais uma ilusão? – perguntou Vein.

Hellion estreitou os olhos.

– Não desta vez.

Elliot levou as duas mãos à cabeça da assassina, apertando-a sutilmente enquanto fechava os olhos.

– O q-q... – Eve tentava em vão perguntar. Sempre tivera a coragem necessária para exercer sua profissão. Porém, naquele momento, não se sentia uma Chefe de Segurança. Era apenas uma mulher apavorada, lidando constantemente com coisas que nunca sonhara existir.

– Elliot está acessando os dados mnemônicos dela – explicou Vein, enquanto rasgava uma tira de sua roupa e a amarrava na ferida de Eve. – Se ela faz parte desse grupo de assassinos que vem aterrorizando a sua cidade, decerto terá alguma informação valiosa na memória.

– Onde está o outro? – perguntou Hellion, virando-se para a filha.

– Não voltou depois de ter fugido – terminou de dar um nó na tira. – Nossa, isto está realmente feio – dirigiu-se a Eve. – Elliot cuidará de você depois.

De repente, um estrondo. Pedaços de madeira voaram para todos os lados enquanto se viravam na direção do som. Um enorme vulto de forma humanoide avançou na direção dos quatro. Chocou-se contra Hellion como um urso enfurecido, levando-o ao chão e derrubando Elliot no caminho. Por puro instinto, Eve arremessou desajeitadamente a adaga que tinha na mão. No entanto, antes que a arma pudesse alcançar o alvo, a figura já corria em direção à parede. Com um novo estrondo, atirou-se contra a madeira, abrindo um enorme buraco pelo qual fugiu sem hesitar.

O cômodo havia se transformado em um verdadeira cenário de guerra. Quase tudo havia sido destruído, e a camada de sujeira e sangue que cobria os quatro fazia com que parecessem remanescentes de uma árdua batalha.

Em meio à nova onda de poeira, Hellion levantava-se com dificuldade. Os olhares voltaram-se todos ao mesmo tempo para onde estivera a jovem encapuzada. Como o esperado, não havia mais nada ali. Fora esse o motivo do ataque repentino, afinal.

– O que foi aquilo? – a voz de Eve estava tão trêmula quanto suas mãos. – Não... não era humano.

Mas nem mesmo Hellion podia respondê-la.