Eve andava apressada pelas ruas da província de Bergham. O motivo da rapidez dos passos não era a ansiedade ou a agitação que sentia. Mas sim o desconforto. Como poderia se sentir confortável ao andar em uma rua lotada em plena tarde, carregando nas mãos uma espada ensanguentada? Todos os olhares eram direcionados a ela e ao objeto. Alguns até mesmo paravam o seu trajeto para observa-la com feições de quem pede uma explicação.

No entanto, o desconforto durou pouco. Em apenas alguns minutos, já estava de volta à pequena casa alugada.

- Vein? – fechou a porta atrás de si. – Mas o que é... – parou a frase na metade, boquiaberta e confusa.

A sala estava uma completa bagunça. Livros empilhados enchiam o chão, assim como algumas folhas arrancadas para anotações. As escassas mobílias que comprara nos dias anteriores haviam sido afastadas do centro, postas bem próximas à parede. Porém, não era a desordem o verdadeira motivo da surpresa. O que mais a intrigara havia sido o desenho no chão de madeira. Um enorme círculo de tinta preta havia sido pintado na superfície. Próximo a esse, havia um outro desenho em forma circular, consideravelmente menor. A borda de ambos os círculos não era apenas um traço, mas sim estranhos símbolos, que mais pareciam uma linguagem...

- Aionnen. Linguagem Rúnica – esclareceu Hellion, ainda agachado no chão. – Bastante útil em rituais de magia.

- Negra? – o preconceito falara mais alto. Arrependeu-se assim que a palavra saiu da boca.

- Todos os tipos. Neste caso, não – o velho homem não pareceu ofendido, para o alívio de Eve. – Resta muito pouco da magia de outrora no mundo atual. Diz-se que, nos primeiros tempos da criação desse mundo, todos os seres podiam moldá-lo como quisessem, o que chamaram magia. No entanto, os deuses se arrependeram de ter concedido tamanho poder a réis humanos. Então, com o passar do tempo, a magia tornou-se cada vez mais limitada. Assim o mundo estaria em maior equilíbrio. Porém, a vertente que o povo citadino conhece como magia negra persistiu, uma vez que essa é concedida aos seres pelos maus deuses. E deuses cruéis não desejam equilíbrio para o mundo, não é mesmo? – Hellion terminou de pintar um símbolo no chão e se ergueu. – Hoje em dia, muitos devem até mesmo duvidar da existência de alguma outra magia que não aquela feita para o mal. Porém, ela existe. De forma muito limitada e rara, confesso, mas existe.

- Segundo o que diz aqui, está pronto. – Vein anunciou de repente, tirando os olhos do livro que estivera estudando e dando fim à história do pai.

Eve foi até ela, entregando-lhe a espada ensanguentada e indo se sentar na cadeira mais próxima. Ainda divagava sobre o que acabara de ouvir.

- Fará isso você mesma, filha? – Hellion virou-se para a jovem ruiva, que assentiu.

A Chefe de Segurança pôde apenas observar enquanto Vein executava todo o ritual, acompanhada pelos olhares atentos do pai e do professor.

Depois de arrastar a espada no círculo menor até que o sujasse de sangue já seco, deixou-a de lado e se sentou no centro do maior desenho. Fechou os olhos e respirou fundo.

- Pode levar cerca de uma hora – explicou Hellion.

Eve esforçou-se para engolir a ansiedade e assentir.

. . . . .

- Consegui.

Eve deu um salto. Vein havia finalmente aberto os olhos.

- Por algum tempo, posso sentir a presença do ser do qual veio esse sangue – explicou, virando-se para a Chefe de Segurança. – Temos de agir imediatamente. Não sei por quanto tempo posso manter a conexão.

Eve estava extremamente intrigada pela forma como o ritual acontecera. No fundo, talvez esperasse efeitos ou luzes, ao estilo das histórias infantis sobre bruxaria. Porém, não havia tempo para curiosidade.

Vein levantou-se, saindo do círculo. Hellion e Elliot a acompanharam até a porta.

- Vamos, Eve – chamou o velho homem.

A jovem Chefe de Segurança suspirou, tentando afastar todo o medo e nervosismo que sentia.

Poucos minutos depois, já andavam pelas ruas de pedra de Bergham. Eve usava suas armas de costume: um longo arco na mão, uma aljava repleta de flechas nas costas e as duas facas que levava escondidas pelo corpo, uma no cinto, outra na bota. Tentava incessantemente convencer seu sistema nervoso de que aquilo era apenas uma missão comum. Já saíra em tantas. Não havia motivo algum para tamanho nervosismo... havia?

Já era noite. As ruas estavam vazias, o que se tornara comum desde que os assassinatos e desaparecimentos haviam começado. Até mesmo as janelas estavam frequentemente fechadas.

- Faz muitos anos que não ando por Dollenham. Preciso que seja minha guia – Vein comentou, claramente referindo-se a Eve.

Dollenham era uma das maiores cidades do mundo. Devido a sua imensidão, encontrava-se dividida entre cinco províncias. A família real e toda a corte localizavam-se na parte central, onde estava erguido o Grande Paço, uma incrível obra arquitetônica construída inteiramente em pedra, que servia de sede para governo, além de ser a moradia de toda a realeza.

A cidade apresentava um crescimento maior a cada dia. As casas e estabelecimentos, antes feitos de madeira, estavam sendo reconstruídos em pedra, e, em velocidade impressionante, surgiam segundos e terceiros andares em cima das construções.

Toda aquela imensidão, que Eve sempre vira como algo positivo, parecia um mero empecilho naquele momento. Tiveram de percorrer as ruas da cidade durante cerca de duas horas, tendo como iluminação apenas a luz da lua e das chamas de postes próximos.

- Aqui.

Vein havia parado de repente.

- Vangrield... – murmurou Eve.

- O que disse? – a jovem ruiva virou-se.

- Estamos em Vangrield – anunciou, recebendo como resposta um olhar interrogativo. – Província Norte da cidade – esclareceu.

A filha de Hellion assentiu.

- Está bem aqui... – apontava para uma pequena casa de madeira.

Estavam em uma rua comum da cidade. Uma vez que não havia bares ou quaisquer outros estabelecimentos noturnos por perto, as redondezas estavam completamente desertas. A casa apontada estava mergulhada em escuridão. Porém, podia-se notar claramente que estava em ruínas. Pareceria um galpão abandonado de histórias de terror, se não fosse o tamanho diminuto.

Eve tirou uma flecha da aljava e preparou-a no arco, mirando na porta da casa, enquanto Hellion assumia a dianteira. Elliot seguiu-o até a porta da casa. Sob os olhares atentos dos três companheiros, o velho homem respirou fundo, e a abriu.

Notas finais
Espero que tenham gostado e que continuem acompanhando! :)