O Despertar

2 Audiência


Notas iniciais
Para acompanhar a leitura, por que não ouvir:

Scarlett Johansson - Town With No Cheer
Paramore - Where The Line's Overlap
Evanescence - Like You

Espero que goste.

O vapor de água do banheiro embaçava o único espelho que havia naquele pequeno espaço com paredes cobertas por um azulejo bege. Não era lá a cor que agradava ao homem que se banhava ali, mas era o melhor que ele poderia fazer naquele momento sem dinheiro. Os tempos haviam ficado difíceis desde que ele passara a gastar seu dinheiro com coisas que não para a casa ou roupas, mas sim mais e mais álcool. Ao menos era o que a garrafa de vodka pela metade em seu quarto revelava.

Não demorou muito a que ele fechasse o registro, colocando os pés molhados para fora do espaço de plástico que o impedia de inundar o cômodo, agarrando a toalha que estava pendurada ao lado da saída. Seus cabelos empapados caíam sobre seus olhos, forçando-o a puxá-los para longe enquanto continuava a enxugar seu corpo, caminhando para o espelho com suas bordas manchadas devido o longo tempo que estava pendurado por ali, além de tantas outras ocorrências que o destruíam pouco a pouco. A rachadura que quase o cortava em dois grandes pedaços separavam o rosto daquele garoto, passando a observar aquela estranha figura.

- Preciso ir pra Califórnia, definitivamente. – resmungou, comentando sobre como estava pálido. – Não vai demorar, vão me perguntar se eu morri e se esqueceram de me enterrar.

Com um gesto leve, puxou a toalha que o envolvia pela cintura, esfregando-a contra os cabelos negros e molhados enquanto caminhava para o cômodo ao lado, um local tão simples quanto o anterior, constituído de uma janela de tamanho considerável, coberta muito malfeitamente por um lençol azul de estampa de leão. Ao lado da cama, que possuía uma de suas bases quebradas e emendadas com tijolos e livros, uma pequena cômoda arranhada e manchada pelos copos de uísque com gelo, um pequeno despertador piscava o horário em neon. O gato laranja que dormia silenciosamente em cima da cama sequer reclamou quando a toalha úmida foi lançada para cima dele, talvez respondendo com somente uma de suas orelhas pontudas.

- Bom dia, Bigodes. – o garoto disse, um pouco de ânimo em sua voz. – Fome? Acho que tem um pouco de atum na geladeira, se é que sobrou alguma coisa da noite passada. Eu estava com uma larica da porra... Se eu ainda tivesse conseguido aquele papel, tudo seria diferente.

Bartholomeu Von Tustle foi, um dia, um ator famoso de um seriado adolescente que passava dia sim, dia não na televisão americana. Isso quando ele possuía somente 15 anos de idade e ainda possuía pais em sua vida. Agora, nada daquele antigo glamour sobrara, somente ele e seu gato, enquanto ele lutava para voltar ao status que um dia possuiu. Talvez esse fosse o maior motivo de sua amargura que ele lutava para não deixar aparecer, talvez esse fosse a verdadeira razão pela qual ele havia se afundado pateticamente na cocaína e álcool, uma combinação que o garantia, quase diariamente, muita dor de cabeça e falta de dinheiro.

Após colocar sua cueca, Bart caminhou para a cozinha que supostamente tinha. Assim como seu quarto, era uma bagunça total. As portas dos armários velhos ficavam ligeiramente caídas, deixando a mostra o pouco conteúdo do que possuía, que era muito mais sujeira do que itens. Sua mão tateou cegamente um dos compartimentos do armário mais antigo, encontrando uma pequena lata de atum roxa. Aproximou-se do recipiente onde colocava comida para o bichano, agachando e colocando o que havia dentro para que o gato pudesse comer.

- BIGO...

Antes mesmo que pudesse terminar o nome, o animal já estava passando por suas pernas, como se agradecesse o mimo. Não era muito lá aquelas coisas, mas provavelmente o suficiente para que o pequeno se sentisse feliz e satisfeito até que o outro conseguisse dinheiro para comprá-lo algo melhor.

- Era óbvio que você viria correndo ao ouvir a comida, não é mesmo? – o garoto começou a rir, coçando seus olhos da cor de esmeraldas polidas. – Certo, eu preciso dar uma saída, tenho uma oferta de emprego por enquanto que eu não encontro algo melhor. Cuida do apartamento, sim? Eu não tenho como vigiar essa merda de longe.

***

Estava relativamente quente naquele final de dia, o que obrigava a muitos dos cidadãos vestirem roupas mais largas e até mesmo sem pedaços dela, como por exemplo, mangas. Já Bart caminhava com o peito desnudo, sem sequer se importar com a careta que lhe faziam conforme caminhava com o sol poente refletindo. Ele queria aproveitar o calor que emanava do Sol, já que eram raras as oportunidades que ele acordava cedo o suficiente para poder andar na rua sem quase morrer de insolação devida sua pele clara. Ele possuía uns bons vinte minutos para chegar ao escritório de jornalismo o qual ele iria ser entrevistado para se tornar um colunista do mundo pop, mais voltado para a indústria cinematográfica.

- Olha por onde anda! – exclamou, quando sentiu alguém esbarrar em seu braço, fazendo tanto ele quanto a pessoa tropeçarem um pouco.

- Você deveria prestar mais atenção no que acontece ao seu redor. — a pessoa respondeu, encarando-o levemente.

Não precisou muitos segundos para que Bartholomeu percebesse que se tratava de um ruivo muito bem vestido por sinal. Aparentava ter uns trinta anos, os ombros largos e fortes sustentavam um terno de alta costura, combinando com o chapéu de coco que deveria ter sido moda lá pelos anos 30 e camisa levemente suja. O mais estranho, no entanto, era o sorriso que ele possuía em seus lábios e a ausência de vida em seu olhar. Parecia que ele estava bem doente, quase sem forças, embora seu corpo demonstrasse o contrário.

- Ah, cala a boca, seu filho da puta. Quem você pensa que é pra me dar sermões?

- Como eu vou ficar feliz quando você ficar quase sem vida...

- Como é que é?

- Posso até imaginar a cena já. Tenha um bom dia, Bart.

O moreno ficou sem compreender quando o outro saiu, ainda sorridente, continuando seu caminho. Não estranhava o fato de ele saber seu nome, muito pelo contrário, era completamente razoável, afinal, ele não era uma pessoa qualquer. Mas as palavras proferidas por este faziam sentido algum, sequer conseguia explicar como tudo era anormal naquele homem, seu aspecto doente, porém ainda com vitalidade incomum, seu olhar como se não possuísse vontade própria.

O prédio da editora era daqueles imponentes os quais são reconhecíveis de longe, sendo extremamente fino para um edifício. Suas janelas espelhadas brilhavam com os raios solares incidindo com força, dando um aspecto de importância e elegância no meio de uma selva de pedras. O jornal era bem conhecido, embora não chegasse ao top 10 dos lidos pela comunidade local. Sua tiragem era escassa, atendendo, geralmente, aos vagabundos que não possuíam dinheiro para comprar uma coberta decente e utilizava o papel de baixa qualidade para isolar sua temperatura. Os boatos que corriam pela cidade eram que o dono possuía aquela editora somente para lavagem de dinheiro, já que nenhuns dos seus empregados, além do diretor geral, sequer haviam visto o big boss por lá. Ninguém se importava muito com isso, pois o pagamento era o suficiente para pagar as contas de seus funcionários e ainda funcionava com harmonia. Ao menos é o que diziam.

- Caralho. Que treco imenso. – Bart olhou até o topo do prédio, que possuía um enorme logotipo do jornal, enquanto colocava a camiseta que estava pendurada em sua calça jeans de volta.

Assim que passou pelas portas rotatórias, o garoto foi barrado por um largo homem de terno, que o observava com cautela. Era possível ver em seu rosto um cansaço não muito simpático, como se preferisse estar em qualquer outro lugar que não ali.

- O que você quer por aqui? – ele perguntou rispidamente.

Contendo-se para não disparar uma resposta agressiva, o moreno respirou um pouco fundo para falar o seu objetivo. Como aquele segurança era grosso!

- Entrevista para uma coluna no jornal. – respondeu um tanto seco, ousando até a encará-lo com certo desprezo.

- Bartholomeu?

- Exato.

- Vigésimo quinto andar. Não o faça esperar.

- Eu estar aqui adiantado provavelmente indica que eu não o farei esperar, não é? – disse, dando um sorriso sarcástico enquanto caminhava para o elevador.

O elevador chegou rapidamente ao térreo, abrindo suas portas imponentes. O que não viu deixou-o um pouco frustrado, pois esperava que houvesse um espelho para poder se arrumar.

- Acho que vou esperar o social, então. – suspirou, num desabafo para si mesmo.

- O outro também não tem.

- Pois não? – olhou para o segurança com expressão assustada. Ele havia falado em um tom baixo, não era para o outro sequer ter ouvido o que dissera. Quem dera saber o que acontecia.

- Espelho. Não tem em nenhum dos elevadores.

Sem responder, Bart entrou e apertou o botão que indicava o número 26, ficando em silêncio. Não sabia por que, mas algo naquele lugar lhe dava arrepios, principalmente o segurança estúpido que havia encontrado.

Seus devaneios foram cortados em questão de segundos quando as portas se abriram novamente, dando para um aposento amplo e claro. Era exatamente o ambiente empresarial o qual constatava em filmes, com uma grande escrivaninha de madeira cara e escura no centro, próximo à parede do fundo, um bar de vidro logo ao seu lado e alguns sofás brancos num espaço com patamar mais baixo, havendo um tapete felpudo de cor marrom claro, mesmo tom que o da parede oposta ao elevador, e uma mesa de centro com alguns enfeites e um cinzeiro de vidro.

- Pontual. – um homem loiro disse, parado em frente ao bar com um copo de uísque na mão e um cigarro aceso na outra, observando o recém chegado. Sua aparência era jovial, como se possuísse sequer trinta anos. – Gosto disso. Servido?

Ergueu as duas mãos, oferecendo ambos os itens que carregava. Bart caminhou até ele com passos levemente largos, chegando próximo o suficiente para apertar a mão do outro, negando com a cabeça de que queria algo, embora sua garganta estivesse implorando para sentir o líquido alcoólico descendo levemente como um sonho. Até podia sentir o seu gosto levemente doce, o gelo batendo em seus lábios conforme virava o copo para ingeri-lo.

- Eu posso ver que você quer. Não precisa se acuar, afinal, você foi convidado para o cargo. Não teremos um processo seletivo, sabe? Você já foi selecionado, Bartholomeu.

- Então terei que aceitar ambos. – sorriu em resposta.

- Sinta-se a vontade para escolher o que quiser do bar. O maço está aí em cima, também. Assim que terminar, pode se sentar no sofá. É exatamente o que irei fazer agora.

O outro caminhou para um dos sofás, o menor, sentando-se como se fosse a melhor sensação do mundo somente poder descansar naquele local. Após derramar o uísque num copo, colocar gelo e acender um cigarro para si mesmo, Bart acompanhou o movimento dele, sentando-se à sua frente.

- Ainda não nos conhecemos, creio. Ao menos não me lembro de tanto. Só conhece Amanda, do RH, certo?

- Exato. Muito simpática essa Amanda. Mas sinto pena por ela, trabalhar tão tarde na empresa... Quero dizer, ela me ligou, eram dez horas da noite. Por acaso, foi por extrema sorte que ela conseguiu contato, já que eu iria pra balada que inaugurou próximo à Quinta Avenida, sabe?

- Sim, este clube é da minha irmã. Rose. Eu sou Matthew Rotten, por acaso. – ele esticou a mão na direção do moreno, desta vez com um meio sorriso por estar com o cigarro preso entre seus lábios. – Eu sou o diretor geral daqui, filho do dono. Os boatos dizem que aqui é uma empresa pra lavagem de dinheiro, mas não se preocupe, não é. É que meu pai não cuida mais daqui, ficando sob minha responsabilidade tratar dos negócios. Ele está bem debilitado, o coitado.

- Sinto muito.

- Não precisa. Ele vai ficar bem logo. – Matthew sorriu, bebendo mais um gole de seu copo. – Como Amanda conversou com você, Bart, posso lhe chamar assim?

- Claro. Eu até acho bem estranho quando me chamam pelo nome inteiro.

- Certo. Enfim, como ela deve ter informado, somos uma empresa regional de tiragem de jornais, com repercussão somente local. Não somos ambiciosos como a The New Yorker ou então a The New York Times, queremos nos manter somente nesta cidade, o que é ótimo. Não lideramos as vendas, mas também não nos preocupamos tanto com isso, já que temos uma tiragem suficiente para cobrir nossas despesas.

- Eu conheço um pouco sobre a O Balista, Matthew. Eu sou um dos seus leitores, eu diria.

- Fico feliz em saber que já nos conhece. – ele respondeu com entusiasmo. – Estávamos procurando alguém que realmente entendesse sobre o meio cinematográfico para que pudesse dar cobertura aos eventos que ocorrem por aqui e acompanhar filmes e outros com uma visão mais crítica. Por você ser um ator conhecido, pensamos que seria o melhor candidato para a vaga.

- De fato, sou bem atualizado quanto às novidades do ramo.

- Eu sei. – seus olhos azuis se estreitaram enquanto tragava, dando a impressão que possuía um grande interesse naquele que estava à sua frente. – A proposta é simples e rápida. Uma coluna semanal sobre as novidades do mundo pop no que tange a indústria cinematográfica e em troca, você receberá uma remuneração por palavra escrita, podendo utilizar uma página inteira de nossa tiragem. Se for aprovado após dois meses em teste, você terá maiores benefícios.

- Quando começo? – Bart respondeu com ânimo, dando um trago do próprio cigarro.

- Esse é o espírito! Bom, você poderá ter acesso ao sexto andar deste prédio pra escrever seus artigos. Sinto muito em não dar-lhe acesso aos outros andares, mas temos uma política de independência e segredo dos bastidores de cada departamento, para que a equipe se sinta mais no controle da situação, como se fosse um incentivo.

- Sem problemas. Posso escrever de casa também?

- Como se sentir melhor.

- Perfeito! Quero dizer, isso sim é emprego.

Matthew riu conforme retirava um cartão credencial com a foto de Bartholomeu, que este não soube explicar de onde saíra aquela fotografia, além de um contrato informal. Não havia nada estranho além de cláusulas e mais cláusulas, além do compromisso de não revelar nada do que acontecia internamente aos outros.

Era possível ver o ânimo brilhar nos olhos do diretor quando o moreno assinou os papéis, encostando-se ao sofá para continuar a tragar seu cigarro e copo de uísque. O movimento foi imitado pelo loiro logo após este guardar uma via do documento em uma pequena pasta preta que estava acima da mesa de centro, passando a olhar o outro com mais atenção.

- Agora me conte mais sobre você, Bart. Você parece ser interessantíssimo.

- Bom... Não tenho muito a contar, para ser sincero. Eu nasci no interior do Estado, mudando para cá pouco depois da morte do meu pai.

- Sinto muito sobre ele.

- Ah, que isso. Não precisa. Eu mal cheguei a conhecê-lo, eu era realmente novo naquela época. Pouco depois que eu e minha mãe nos mudamos, eu fazia pequenas peças de teatro no colégio, sendo descoberto um caça talentos num ato que apresentamos quando eu era júnior.

- Eis que você começou a atuar naquela série? Mais Do Que Um, pela Fox?

- É. Foi quando eu me tornei famoso e coisa e tal.

- Entendo. Uma boa fase para você, então. Eu assistia ao seu show, eu realmente gostava. – Matt sorriu ao outro, terminando de beber seu copo.

- Foi muito bom... Bom, obrigado pela chance, Matthew. – Bart se levantou, erguendo a mão para cumprimentar o outro.

- Somente Matt, por favor. E eu que agradeço você ter aceitado, Bart. Tenho certeza que sua experiência aqui valerá mais do que ouro.

Notas finais
Agora sim a história começa. Peço só que tenha paciência com o novo escritor aqui.
Não esqueça de comentar! O feedback é o mais importante pra mim