ANTES

NOAH

É interessante observar a evolução da humanidade. Não apenas biológica e geneticamente falando, mas a progressão da mentalidade humana. É incrível como nos encontramos em estados de estagnação algumas vezes e como só as piores crises conseguem nos arrancar deles. Exemplos históricos estão aí para serem citados — as guerras mundiais. Nossa sociedade, pelo bem e pelo mal, não seria um terço do que é hoje se não fossem por elas. Tecnologia, medicina, indústrias, globalização — todas têm em comum seu start.

Olhando para Katie, vejo como a maior e mais recente crise que ela vivera a fizera bem. Perder o bebê, em hipótese alguma, seria o melhor caminho, ou então o caminho que ela escolheria para viver. Mas os frutos trazidos por esta fatalidade sobressaem-se às pragas. Ela está bem, madura como nunca e incrivelmente feliz. Os dados do universo tiraram-na a chance de ser mãe por agora, mas deram-na a oportunidade de ser muito mais — com ele. Nosso amigo querido do Setor 45, que conhecemos quando conseguimos visitar aquele mundo. Irmão de uma das melhores pessoas que conheci, cunhado da mulher mais peculiar daquele mundo, tio das crianças que acenderam em mim o desejo de alinhar meus genes e cromossomos nos de Mara para ver que pessoinha incrível resultaria — Jamie.

Pois é. Jamie. Não sei bem o que Katie tem com esse nome, mas aqui estamos. Esta data poderia ser passada de um modo completamente diferente, mas aqui estamos, todos felizes, com nossos espíritos unidos em exaltação.

Não sei se já tive um Natal tão feliz antes.

Após comemorarmos nosso feriado em família, junto dos pais de Mara e seus irmãos, mais Ruth e Katie, caminhamos pelas ruas decoradas de Miami. É uma noite tranquila e não tão fria como fora previsto, o que nos deu a liberdade de usar apenas uma blusa e um cachecol ao redor do pescoço. Mara está de mãos dadas comigo, seu cachecol dançando junto de seus cabelos no vento forte e frio. Paro-a e uso o pretexto de querer ajeitar suas roupas para protegê-la da friagem congelante apenas por querer tocá-la. A aura da noite tem certo carisma, uma tendência a cair na misticidade. Tocando-a posso saber que tudo é de verdade, e não mera obra de minha perturbada imaginação.

Meus olhos encontram-se com os dela e contenho um suspiro quando sinto a respiração dela chegar em minhas bochechas, seu hálito quente sussurrando por minha pele.

— O que é? — Mara pergunta-me delicadamente enquanto puxo as pontas do tecido envolto em seu colo e pescoço, deixando-as igualadas. Sei do que ela está falando sem precisar que ela complete a frase, e ela também sabe que sei.

Suas palavras enviam-me diretamente para três noites atrás, noite em que comemorávamos o meu aniversário, a noite de 21 de dezembro.

— O que é? — ela perguntara a mim conforme eu saira ainda úmido e com a toalha de banho enrolada em minha cintura do banheiro.

— O que é o quê? — perguntei-a quando parei à sua frente, olhando-a de cima enquanto meus cabelos molhados soltavam pequenas gotas de água que escorriam por meu corpo, algumas delas caindo no rosto de Mara, que falava comigo sentada na beira da cama. Limpando uma gotícula que parara em sua bochecha com o polegar, observei enquanto Mara deslizou as mãos por minhas costelas, indo em direção à minha cintura.

— O que é que está passando na sua cabeça? Posso quase ver as engrenagens girando no seu cérebro.

Assisti-a hipnotizado enquanto ela pegou o polegar com que eu limpara a água de seu rosto e beijou aonde a pequena gota deve ter passado.

— No momento — minha voz saiu rouca, meu coração batendo forte em meu peito, minha mente gritando luxúrias —, só estou pensando em qual seria o jeito mais rápido de te possuir.

— Ah, é?

— Com certeza.

As mãos dela brincaram com minha pele e caminharam até meu osso pélvico, deixando a protuberância mais aparente quando Mara desceu um pouco a toalha no lado esquerdo.

— É seu aniversário. Você não pode fazer nada rápido no seu aniversário, Noah. Você tem que aproveitar.

— E o que você sugere?

— Que você se preocupe em como eu vou possuir você do jeito mais lento possível — ela se ajustara no meio das minhas pernas, seu sorriso terminando o processo de aquecer meu corpo que seu toque começara.

Seus lábios encontraram onde outrora suas mãos estavam, meu osso parecendo mais sensível do que posso considerar possível sob sua boca. Agora com as mãos livres, ela espalhou os dedos por minha bunda, aproximando-me dela cada vez mais. Seu aperto firme já me levara além da borda, mas ela ainda o intensificou ao passar as pernas por minhas coxas e canelas.

Estávamos conectados, o corpo de Mara no meu indissoluvelmente. Não satisfeita em beijar-me na cintura, ela puxou ainda mais a toalha, sua mão direita enfiando-se por baixo dela. O que me mantivera em pé e firme sob seu charme e beleza me é desconhecido. Todo o mundo se transformara em mero figurante quando em meu palco central Mara era minha personagem principal. Seus lábios carregavam-me em ondas de sobressalto e puro desespero — queria entregar-me à sensação de tê-la me amando tanto quanto queria que ela terminasse logo com esta dor tão prazerosa. Toda a refrescância e tranquilidade que o banho me trouxera jazia sob meus pés inquietos, escorrendo para baixo junto do suor que começara a se agrupar em meu peito, minha testa, minhas costas.

Segurei os ombros de Mara e afastei-a de mim para olhar seu rosto. Havia um sorriso que liquefez todas as minhas resistências em sua boca e seus olhos estavam negros, o castanho deles escondidos por baixo da excitação e do amor de Mara.

Engoli em seco e passei meu dedo por seu queixo.

— Você vai me enlouquecer, mulher.

A ponta de meu indicador delineou sua jugular, caiu para sua clavícula, escorregou para sua camisola, parou no decote de sua lingerie preta. Minha língua pesara com o desejo de sentir seu gosto em meu paladar, meu nariz ardera com a vontade de inspirar seu cheiro, mas apenas meus olhos e meu tato se embeberam do cálice de sensações que é Mara Dyer.

Mara Shaw, eu me lembrei.

Mara Shaw.

— Conceda-me um último presente de aniversário — Sussurrei docemente para ela, minha voz combinando com o toque suave como pluma de meus dedos por sobre seus seios, seu coração.

— Te dou o que você quiser, Noah. Hoje, amanhã. Sempre. Todas as vezes em que você me pedir com jeitinho assim. — Sua mão esquerda ainda apertava fortemente minha bunda enquanto a direita se divertia com o suor em meu peito, zombando de meu corpo que já fraquejava por ela.

— Deixe eu te consumir. Deixe-me sorver tudo o que posso de você, ingerindo e tomando cada sensação e contato, cada inspiração e batida do seu coração.

Mara suspirou, sorrindo.

— Isso não é um presente de aniversário, Noah.

— Por quê?

— Por que eu já te presenteio com isso todas as vezes, todos os dias.

— Posso deixá-la com chantilly e chocolate e fingir que você é meu bolo, se você prefere.

O sorriso de Mara aumentou consideravelmente.

— Essa ideia é bem interessante. Você só precisa apagar as velinhas.

— Velas? Onde?

— Aqui há uma — seus dedos apontaram para os lábios abertos e ofegantes dela.

— Mara, Mara. Esse é um caminho sem volta. Se eu começar por aí, não conseguirei parar tão cedo.

Suas mãos atrevidas deslizaram e soltaram o resto da toalha presa em meus quadris, o sorriso espelhando as travessuras prometidas por seus olhos.

— Podemos deixar o chantilly para a segunda parte da festa.

Ergui as sobrancelhas, interessado.

— E quantas partes terão essa festa?

— Quantas você quiser.

Inspiro e expiro, deliciado.

— Essa é a melhor proposta já me oferecida. Em toda a minha vida.

Voltando ao presente, balançando levemente a cabeça para afugentar as belas lembranças que me dominam, respondo-na.

— Não é nada. Só estou feliz.

Posso sentir o brilho das luzes de Natal refletirem em meu humor, levantando o ânimo junto do desejo peculiar que vem palpitando em meu peito — o desejo de algo mais.

Mara morde o lábio inferior e acena com a cabeça, concordando, o que traz uma imagem como um raio por trás de meus olhos.

Ela se segurava sob os lençóis com força enquanto o gelado chantilly entrava em contato com a pele quente dela. Eu iniciei o caminho pelo interior da palma de sua mão direita e percorri todo o braço e colo, os seios e a barriga, espalhando tudo o que consegui e que sobrara na lata pelo osso pélvico dela. Vingança, vingança.

Mara sacodiu as pernas por baixo de mim quando comecei a lamber o doce creme em sua mão, inquieta.

— Pare quieta, mulher — zombei de sua agitação —, isso só vai me atrasar mais.

— Que belo tirano você é.

— Belo?

— Sim — ela murmurou sob os ataques ascendentes de meus lábios, minha língua e dentes, eu aproveitando cada segundo que posso do sabor delirante de sua pele com o chantilly —, muito belo. E gostoso.

Mordo o osso de sua clavícula com certa intensidade, o que a faz engasgar no meio de sua fala.

— Belo e gostoso?

— E tirano — suas unhas pressionavam minhas costas com fim de conter sua agitação —, não se esqueça de tirano.

— Se você não reparou — concentrei-me em provar da combinação do chantilly caindo em direção aos seios dela —, o tirano está ocupado no momento.

Chego impossivelmente mais perto de Mara.

— Mara.

— Sim?

— Você está mordendo o lábio. Você consegue lembrar qual foi a última vez em que mordera o lábio?

A inclinação de sua boca em um sorriso me diz que sim. Ela beija a ponta do meu nariz e dá um jeito de apertar a minha bunda.

— Mara — meio que aviso-a para parar, meio que peço-a para continuar.

— Sim? — ela repete.

— Nós estamos em público, caminhando com a nossa família.

— E?

— E acho que estou semi-ereto agora — confesso.

Mara abafa uma risada e Kate grita a alguns passos de distância.

— Eu ouvi isso!

— Não ouviu nada! — respondo-a.

— Você é um safado — Mara murmura de propósito a frase que ela dissera para mim naquelas noites anteriores.

Ela sabe que eu lembraria.

— Você é um safado — ela riu ao sentir meus dedos espalhando um pouco do chantilly no meio de suas pernas.

— Esse é o ponto alto da minha noite. Da minha semana. O ponto alto de toda a minha vida. Jesus — suspirei em antecipação —, não estou bem.

— Mas você parece — as risadinhas de Mara se tornaram mais frequentes com a quantidade crescente de embriaguez de hormônios em seu corpo —, você parece muito bem.

— É porque esse é o melhor aniversário de todos. — Vou mais para a borda da cama, ficando no topo de suas pernas — Você é o melhor presente de todos.

Os dedos dos pés dela balançaram zangados contra meus tornozelos.

— Bem, então feliz aniversário.

Beijei o alto de sua coxa.

— Feliz. Muito feliz.

E finalizei todo o trabalho lambendo cada gota de chantilly que estava em seu corpo.

— O que posso fazer se só consigo pensar em você nua o tempo todo? — digo em resposta à sua provocação.

— Eu também ouvi isso! — Katie diz novamente.

Chamando-a de intrometida, Mara vai atrás dela e fica um tempo conversando com minha irmã. Aproveito o tempo e prolongo minhas passadas, ficando para trás e encarando a grande estrela brilhante sobre nossas cabeças.

Não fui completamente sincero com Mara. Faz algum tempo em que não tenho pensado apenas nela nua, apesar disso tomar boa parte de meus dias. Ultimamente, uma constante tem se feito frequente e imperturbável em minha mente. Uma ideia que virou vontade e agora cria raízes em meu coração.

O sorriso brilhante de minha irmã desperta novamente o sentimento que senti no Setor 45. Recordo-me do que senti quando vi Warner com seus filhos, a sensação balsâmica de querer ter alguns para mim também, e faço uma pequena prece àqueles que estiverem dispostos a ouvir em meio aos fogos de comemoração. Contrário a tudo o que acharia possível, começo a dizer:

— Tenho um pedido de aniversário atrasado. Some isso às perspectivas natalinas e me dê alguns pontos a mais. — Suspiro, sentindo-me ridículo por estar falando em voz alta comigo mesmo — Eu desejo ter um filho. Filhos. Agora, mais tarde, daqui uns anos, daqui uma década. Não importa. Só peço alguém que seja meu, que seja nosso, meu e de Mara.

Três meses depois, mal sabia eu, meu pedido fora atendido. O que quer que tenha realizado meu pedido fora rápido e eficaz. Pensar que meu desejo possa ter se realizado antes mesmo de eu proferi-lo é engraçado, pois contando as semanas anteriores, posso calcular quando a criança fora de fato gerada.

Dia 21 de dezembro. No meu aniversário.

Um presente dado sem o conhecimento de minha parte de que era tão aguardado.

Um pedido cumprido.

Uma prece respondida.

Estava tudo certo.

Tudo certo o bastante até ele ser rapidamente tirado de mim.

Depois disso, nada mais parecera certo no mundo. Como se uma guerra mundial estivesse acontecendo em meu corpo e a crise não estivesse surtindo efeitos em mim.

Como se eu fosse a crise, a ruína, e meu filho fosse minha evolução.

Meu filho — perdido. E minha guerra também.