O Desfastio de Mara Dyer
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MARA
Caminho na dianteira, não olhando para trás para confirmar se Jamie está me seguindo ou não. Meu coração se estabeleceu em uma versão petrificada dele mesmo, frio e distante e inatingível. Lembro-me das últimas palavras de Noah antes de sairmos, ele se aproximando e dizendo para eu me cuidar, seus dedos atordoados querendo tocar meu rosto e meu cérebro agoniado afastando-o mais uma vez, e depois outra e outra.
Não é proposital, quero dizê-lo, não é por sua causa — não é você. Eu não consigo pensar em outra coisa a não ser matar o David, matar o seu pai, e isso me aterroriza, me enoja. O que me tornei por causa dele dá ânsias em meu estômago. Não quero que você me toque porque não sou... não sou mais merecedora do seu toque, da sua paixão, da sua pureza.
Mas, ao contrário, não lhe disse nada. Não me despedi. Não sorri, não acenei. Apenas saí andando, com Jamie na minha retaguarda, meus olhos e mente focados apenas no meu objetivo.
Hoje é o último dia de David Shaw, e serei eu a tirar sua mísera vida.
Respiro fundo e fecho os olhos, sentindo o sangue fluir rapidamente por meu corpo, minha mente e membros preparados para qualquer eventualidade.
— Ele está aqui — digo, ainda de olhos fechados.
— Maravilhoso — Jamie comemora baixinho antes de concluir —, contudo, onde é aqui?
Abro os olhos e observo esta área reservada da cidade, próxima da onde David me mantivera em cativeiro, quase vazia de transeuntes e carros.
— Não posso dizer que ele está aqui, neste local, mas de algum modo sinto que ele está próximo. Muito próximo.
— Que incrível — sarcástico, ele murmura, conforme aproximo-me do homem que me espera —, estou com um péssimo pressentimento.
— Jamie, você não é o cérebro desta operação, então você pode, por favor, ficar em silêncio?
— Claro. Desculpe. — Alguns segundos se passaram até que ele solta a língua outra vez — Se não sou o cérebro, sou os músculos?
— Não — respondo rapidamente.
Ele me olha num misto de confusão e curiosidade.
— O que sou, então?
— O que fica quieto e coopera enquanto o cérebro e os músculos trabalham? — Não pretendia soar tão ríspida, mas acabou saindo.
— Certo.
Jamie olha para suas unhas enquanto analiso nosso entorno por dez segundos antes de retornar a falar.
— Só não é justo você ser o cérebro e os músculos...
— Jamie! — Repreendo-o. Temos de ficar calados para não sermos pegos.
Lanço-lhe um olhar penetrante antes de correr até uma janela aberta em um dos prédios próximos a nós. Estamos em uma avenida abandonada, parecendo as únicas almas por aqui.
— Estou me sentindo no The Walking Dead — ele murmura.
Rezo mentalmente para Deus me dar forças e paciência quando salto, tentando enganchar meus dedos na janela. Eles automaticamente reclamam quando me penduro sob eles, meus braços raspando no concreto áspero, levando dor e foco até meus nervos. Cada raspão será um golpe violento contra David, cada arranhão uma facada em suas mãos. Meu corpo fica pêndulo por alguns segundos e então salto para cima, apoiando minha barriga na mureta e segurando-me pelas grades da janela. Ponho minhas pernas para dentro do cômodo e verifico se está vazio antes de confirmar para J que é seguro me seguir.
Olho rapidamente o sangue escorrendo de meus braços e permito-me sentir o ardor do ralado neles, utilizando-os como potencializadores da minha fúria.
Ajudo Jamie a subir e logo começo a andar, sem realmente saber qual caminho tomar mas seguindo meu senso de direção. Descemos alguns lances de escada, entramos em escritórios abarrotados de papéis e cadernos, embora nenhum destes lugares pareceram o lugar. Encaminhei-me em direção ao que parecia ser uma loja. O ice desbotado na placa sugere que ela deveria vender bebidas e gelo. Provavelmente foi um dos primeiros escritórios a encontrar seu fim, já que este prédio está um completo breu, a falta de energia evidente.
Sinalizo para que Jamie abra a porta enquanto eu me posiciono, com armas em mãos — um revólver e duas facas — para invadir e inspecionar.
Conto até três com os dedos e, no três, Jamie abre a porta num rompante. Entro rapidamente e olho em volta, o espaço vazio e ecoante respondendo-me com quietude.
Suspiro pesadamente e guardo o revólver, devolvo uma das facas e suspiro mais uma vez, observando os ornamentos da faca que restara.
— Tinha a sensação que ele estaria aqui.
Jamie suspira também e dá um passo em minha direção.
— Nós logo o encontraremos.
Estava de olhos fechados, pensando, quando ouvi o som do ataque antes de meu cérebro percebê-lo como ameaça. Jamie já estava preso numa chave de braço que, para a insatisfação do raptor, não se mexia e nem resmungava. Ele ficou incrivelmente parado.
Agora sei como deixá-lo quieto.
Não preciso olhar para o rosto do dono daquelas mãos para saber de quem se tratava.
— Cuidado com o que você deseja — apenas a voz de David já é o suficiente para me dar arrepios.
— Largue-o.
David o solta de uma vez, e Jamie cai pesadamente no chão, inconsciente. David provavelmente o apagara com alguma visão. Tomo um tempo para sentir os batimentos dele em seu pescoço e um suspiro de alívio me escapa ao constatar que eles ainda estão lá.
— Esta dança não parece inédita para nós dois — meu sogro diz, um sorriso de escárnio em seu rosto enquanto olhares avaliadores pesam cada movimento e comportamento.
— Você não vai se safar desta vez, David.
— Veremos — os olhos dele caem em Jamie por alguns segundos e logo J começa a gemer, a visão machucando-o por dentro.
Contenho um grito de fúria. Ele vai matar Jamie se perceber que estou tramando alguma coisa, se eu der um movimento sugestivo ou um olhar significativo. Tem de ser de outro jeito.
Uma ideia surge em minha mente.
— Que tal fazermos um trato?
Ele ri e lambe os lábios, como se preparando para sentir o meu gosto.
— Que tipo de trato?
— Nada de armas, nada de poderes. Nós lutamos com nossas próprias mãos.
Escárnio. Há escárnio em sua expressão, em seus ombros, em suas pernas flexionadas.
— E você acha que pode me vencer assim?
— Eu não acho; eu sei.
O sorriso que ele dá é tão assustador que tenho de me concentrar para não tremer.
Vamos lá, Mara. Mentir não foi um curso da grade da faculdade, mas você consegue.
— Aqui — jogo todas as armas no chão do outro lado da sala. Olho para ele enquanto vejo indecisão brilhar sob seus olhos.
Só preciso dele um pouco confuso. Alguns socos bastarão. Golpes bem sucedidos no tímpano resolveriam rapidamente o problema. Desorientado, fazer uso de seu dom será infinitamente mais difícil.
Observo-o enquanto ele joga sua arma junto das minhas. Estalando o pescoço e alongando os braços, seus olhos têm um brilho maquiavélico. Agrego toda a escuridão e ódio em mim e apago o que sei sobre ética. Apago o que tenho como ideais. Apago tudo o que poderia me refrear quanto a ele. Compaixão. Solidariedade. Tudo.
Só há a busca pela vingança em meus punhos e em minha mente.
— Vou me divertir infinitamente mais assim — ele começa a dizer, mas não deixo-o terminar. Fecho minha mão e soco sua boca com potência pelo simples prazer de vê-lo cuspir seus dentes perfeitos em várias poças de sangue.
Aaron Warner Anderson, o Comandante do Setor 45, estaria muito orgulhoso de mim agora.
Deixo David tomar seu tempo enquanto se recupera apoiado em seus joelhos. Quero vê-lo rastejar, quero vê-lo lutando para ficar em pé apenas para levá-lo ao chão novamente.
Passando a mão pela boca, ele espalha o sangue por seu queixo e bochechas, seu sorriso sinistro enviando fagulhas frias em meu corpo — fagulhas que não podem apagar a violência acesa em cada átomo do meu corpo. Quando David dá o primeiro passo em minha direção, posiciono-me com uma perna atrás do meu corpo. Espero ele se aproximar o suficiente para pensar em me golpear, mas sou mais ágil. Colocando o peso na perna afastada, lanço-a com força com o joelho para cima em direção ao estômago do meu querido sogro. O ar é completamente sugado de seus pulmões e ele se curva como uma bola no chão, protegendo-se.
— Conheça a sensação de ter tudo tirado de você — meu sussurro soa frio em meus ouvidos, estéril, sem emoção. Para cada frase sussurrada, presenteio-o com um chute em seu abdômen —, conheça a intensidade da dor da impotência, de não poder fazer nada. Saboreie a doçura da morte de seu eu antes de seu corpo.
Segundos se passam até que vejo certa sobriedade sobre seus olhos. Com uma força sobrenatural, seus olhos engancham-se nos meus e ele me bloqueia, cegando-me e paralisando-me.
Fora um erro meu dar tempo a ele.
— Aqui vai a minha retribuição. Sempre achei que conhecimento deveria ser compartilhado — Seu sarcasmo é uma brisa em minha carne quando ele começa a me bater, parecendo sentir o mesmo prazer que eu sentira. Resisto aos golpes como posso, minha mente rugindo cada vez mais alto em meus ouvidos, cada batida de meu coração aumentando a frequência de minha raiva. O chute de David nas minhas costelas recém curadas fizeram-me sentir o gosto de ferrugem na minha boca, minhas unhas rasgando as palmas das minhas mãos, eu sucumbindo a um estado mais profundo de ira e sede de sangue que nunca antes provara.
A dor parece converter-me a um estado de homeostase, de equilíbrio. Minhas emoções parecem inativas. Meu corpo não responde à minha mente, mas sim às memórias musculares de tantas batalhas.
Sinto os últimos pensamentos sãos se liquefazerem.
Sinto apenas minha força, meu corpo, meu poder e milhares de anos de instintos. Quando abro os olhos, não o faço porque Shaw me fez abri-los.
Abro porque eu quero.
Abro porque eu não sou mais Mara. Eu sou a pura e imparável vingança. Sou a cuspida no prato frio, sou aquela que mata as almas e envenena os corações.
E David Shaw não pode mais me controlar. Não pode mais controlar minha mente.
Ele não pode mais acessá-la pois ela está fora de alcance.
Desligada.
E o instinto de sobrevivência está no mode on.
Estalo o pescoço.
Respiro fundo.
E começo.
Seguro suas pernas e ponho minha mão em seu joelho, levando seu tornozelo para cima enquanto seu joelho ia para baixo, o ângulo ficando mais estranho e anormal até que ouço o osso se quebrando.
David grita.
Ele tenta fugir, arrastando-se em mãos e com uma perna.
Giro seu pulso em um círculo de trezentos e sessenta graus perfeito.
Uma perna e um pulso quebrados. Ele ainda pode tentar fugir, o que me leva a quebrar o fêmur dele.
Pego uma das minhas facas. Ponho na mão de David.
Quero que ele sofra uma hemorragia. Ele pode começar perfurando sua mão direita.
Observo-o fazê-lo. Observo seus olhos aterrorizados observarem ele esfaqueando a si mesmo.
Os gritos viraram minha música favorita. A cor escarlate de seu sangue virara a minha cor preferida. O jeito estranho que seus ossos quebrados se posicionaram virara a mais requintada posição que eu já vira.
É claro, os gritos começam a me irritar depois de um tempo.
Ele bem que poderia sofrer uma parada cardíaca. Seu coração bem que poderia ceder a toda a dor e sangue perdido.
Sorrio enquanto assisto seu corpo se imobilizando, seus olhos parando de piscar.
Não tão rápido.
Tiro da bota a arma de choque e descarrego um bem potente em seu peito. Os membros de David chacoalham no cimento frio e sua boca puxa uma quantidade grotesca de ar quando ele volta.
Ele não parece feliz por fazê-lo.
É uma pena. Porque eu estou feliz.
David Shaw está tão feliz que ele poderia rasgar a garganta de tanto gargalhar.
O canto de sua boca se curva em um sorriso e aumenta, virando uma gargalhada alta e contínua, duradoura.
A alegria, é claro, não chega nos olhos dele.
Desesperado, suas mãos estão em seu pescoço, os olhos molhados com lágrimas de dor.
Sento-me ao lado do corpo inerte de meu amigo, confortável e satisfeita com o show à minha frente.
Quando David dá os primeiros sinais de que o estou perdendo novamente, deixo sua risada cessar. Ele tosse sem parar por alguns minutos, suas mãos cada vez mais sujas com seu sangue. Percebo que ele está verdadeiramente com medo agora. Seus olhos encaram-me apavorados, sem entender porquê não estou mais sujeita às suas visões.
Compreendendo seu fatídico fim, ele começa a implorar.
Implorar para que eu pare.
Implorar para que eu não o torture mais.
Implorar para que eu tenha piedade dele.
— Eu sou um monstro, David. Não fora isso o que você me dissera?
Ele nega com a cabeça, desesperado.
— O que é ser um monstro pra você?— Levanto-me, avaliando as mãos dele, uma quebrada e a outra esfaqueada; suas pernas, apenas uma intacta; sua boca, olhos e queixo inchados pelos socos; procurando um lugar para feri-lo que ainda não tenha alcançado. — Monstro, para mim, é alguém que faz mal sem sentir remorso. Monstro é alguém que não tem misericórdia nem compaixão. Monstro é o que sou hoje, com você prestes a morrer sob os meus pés.
Com a garganta machucada demais para falar, ele apenas me olha, cada vez mais aterrorizado.
Bom.
Muito bom.
— Você vai andar até aquela faca — aponto para a faca mais distante dele, praticamente a cinco metros de sua posição atual.
Pavor. David é puro pavor.
Não me interessa se ele consegue ou não caminhar até lá. O que me interessa é que ele faça o que o foi ordenado.
— Eu esperava mais de você, sogro.
Ele andará até a faca perto da janela, a pegará e cortará o dedinho do pé dele.
Vejo o esforço de sua perna boa para erguê-lo sobre o chão. Vejo-o cair em cima de suas mãos e braços feridos. Ouço-o resmungar de dor ao tentar levantar novamente. As lágrimas caem com mais frequência de seus olhos agora que ele está de pé. Suas pernas não conseguem o sustentar mais do que dois passos para então cair. Em cinco metros ele caira sete vezes. Em cinco metros meu sorriso se prolongara mais a cada centímetro. Não conseguindo se agachar para pegar a faca, David cai no chão, grunhindo. Ainda grunhindo, seus dedos alcançam a lâmina. Grunhindo mais ainda, ele assiste a faca cortar, de poucos a poucos, o menor dedo de seu pé.
— Deveria ter avisado que a faca não está afiada.
Os lábios dele se mexem em resposta. Primeiro acho que ele está rezando, mas logo percebo que ele está me xingando.
Rio de sua careta de dor.
Um corte na coxa pode matar. A faca vai cair em sua coxa, abrindo um talho profundo em sua pele.
David aguarda como eu o curso da faca se concluir, embora apenas ele grite no final. Suas mãos tremem no cabo do objeto cortante e o paro.
— Deixe que eu tire para você — Pego a faca e de vez tirá-la pelo cabo, forço-a para baixo, afundando-a mais e mais em sua coxa, sentindo sua ponta chegar na outra extremidade, empurrando para que ela saia do jeito mais difícil e doloroso. As mãos de David me batem e me arranham, mas não me importo. Não me importo com nada mais.
Isso é pelo meu filho. Uma troca de vidas. David levou a dele, a de seu neto, e agora meu sogro deve pagar.
Termino o processo empurrando o que restara da faca com as pontas dos dedos. Puxo-a pela lâmina agora, para baixo, a faca atravessando completamente a perna dele.
— Aqui — digo quando retiro completamente a faca —, de nada, à propósito.
Seus olhos estão firmemente fechados, como se estivesse enjoado de olhar para mim. Bem, ele não precisa olhar.
Aponto a faca para a sua bochecha. Risco-a levemente, sem sangrá-la.
— Mara — ouço uma voz atrás de mim dizer.
Jamie.
— Mara, ele está sofrendo. Você já lhe mostrou seu ponto. Agora mate-o.
Ele quer me trazer de volta à razão.
Ele tenta me trazer de volta à razão.
Mas não consegue.
— Mara — ele não apenas diz. Ele usa seu dom —, volte.
Volte.
Volte.
Vejo minhas mãos e braços cheios de sangue, mais de David do que meu. Observo o tamanho estrago que fiz com seu rosto, seus braços e mãos e meu Deus, suas pernas.
Ele está fraco.
Mostrei a ele que há piores coisas do que morrer.
Mostrei a ele o verdadeiro monstro. O que eu não sabia era que, ao mostrá-lo, eu adotaria as características desumanas dele.
Minhas mãos tremem e respiro fundo, o choque de tudo o que fiz caindo como uma martelada em minha cabeça.
Pego minha arma e recarrego-a.
Firmo-a com as duas mãos.
David não volta a olhar para mim.
David não abre os olhos novamente.
E com a bala que enfiei em sua cabeça, finalizo sua vida, finalizo a chance de abrir seus olhos novamente.
E agora sou eu quem não quer abrir os olhos, embora seja incapaz de fechá-los, visualizando tudo o que eu fizera a este homem— tudo o que eu fizera ao pai de Noah.
Meu Deus.
O que Noah pensará?
Levo as mãos revestidas em vermelho até a cabeça, sem saber o que fazer, sem saber o que pensar.
O que diabos eu fiz?
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