O Desaparecido
1 Particularmente Falando, Eu Odeio Insetos
Notas iniciais
Particularmente Falando, Eu Odeio Insetos.
Principalmente aqueles que roem as páginas dos livros.
O céu estava tão escuro quanto qualquer outro em um dia de tempestade. O cheiro de chuva vinha do oeste e os pingos caíam um aqui, outro ali, intercaladamente. Demorou três minutos até uma chuva mais forte vir. E a cada segundo, ela engrossava, até virar uma tempestade de verdade. As nuvens estavam escuras e cinzentas. O céu negro. Não era de noite, mas a escuridão tomava conta de quase todos os lugares, menos é claro da Casa Grande, onde as lâmpadas iluminavam tudo. Alguns chalés, os que tinham pessoas dentro, também estavam acesos, mas as gotas gordas de chuva impediam a visão até eles.
– Por aqui, campistas! – a voz imponente de M. tomou-lhe os ouvidos, e todos a seguiram.
Ela trotava com força no cascalho, com um guarda-chuva vermelho e cerca de quarenta crianças indo atrás. Normalmente não temos tempestades dentro do acampamento, principalmente quando os campistas estão em plena atividade de montaria, mas por alguma razão Dionísio estava muito contrariado, e por isso permitiu que essa surpresa encharcasse seus queridos semideuses.
Olhe, não sou muito chegado em chuva. Normalmente prefiro ficar só no seco mesmo. Ah, que falta de elegância! Muito prazer, leitor, eu sou o narrador. Normalmente conhecido como “Primeira e Terceira Pessoa”. Não me pergunte o que aconteceu com a segunda, essa ai nunca voltou pra contar história.
Você pode me imaginar como quiser. Um homem alto, bonito e musculoso, com porte físico exuberante e muito atlético. Ou uma mulher muito sedutora, com lábios carnudos e batom vermelho. Mas eu prefiro somente ser reconhecido como o narrador. Sim, eu não sou um narrador comum que somente narra a história. Eu tenho personalidade. Meus primos são inúteis, eles obedecem à vontade dos autores sem perguntar ou questionar nada. São escravos do bel-prazer dos escritores. E eu jamais aceitei essa vida de escravidão. O mínimo que posso fazer é me expressas! Mas é melhor eu calar a boca, antes de ser demitido de mais uma história...
Talvez este cenário fosse até bem comum em um acampamento em pleno verão, mas não era. A chuva ardia. As gotas queimavam. Eram como lava. A fúria de Zeus tinha sido refletida naquela tempestade. Graças, é claro, aos filhos dele próprio, os campistas não sentiram uma gota sequer sobre eles, pois estes manipularam as nuvens para formar um caminho seco até a Casa Grande. Por discórdia do destino (ou das Parcas), um pequeno grupo se distanciava cada vez mais dos outros. Ensopados até a alma, eles estavam voando com os pégasos quando tudo aconteceu, e assim demoraram muito mais para saírem da área de montaria.
– Isso é terrível – alguém comentou ao seu lado, enquanto corriam com todas as forças. – Isso queima!
Enquanto corria, ela tinha consciência de que outras quatro pessoas vinham em seu encalço. Uma delas tinha acabado de falar isso. Nádia era de longe a mais alta ali, tendo um metro e meio, quase. Supôs que os outros tivessem entre dez ou doze anos. Mas se enganou, pois somente um deles tinha. Era a mascote do acampamento, Lucy Densverouix, filha de Morfeu, tinha entre onze anos.
– Lucy, venha mais depressa. – chamou a mesma garota que tinha resmungado alguns segundos atrás.
E vento soprou de leste para oeste, fazendo as gotas tomarem o corpo dos cinco. Nádia conseguiu enxergar, em meio a toda ventania, as luzes da Casa Grande, e para lá puxou a fila. Todos a seguiram, e depois de dois minutos, chegaram. Estava molhados, e todos os outros campistas secos e confortáveis, sentados com as pernas cruzadas e cantando músicas ao ritmo dos filhos de Apolo.
Uma das meninas que cantavam se levantou e parou de cantar instantaneamente. Tomou Nádia e outro dentre os campistas pela mão e os puxou para dentro da Casa Grande. A porta estava aberta, mas os campistas estavam todos na varanda, pois lá dentro Senhora M e Dionísio conversavam sobre o ocorrido.
– Vocês estão ensopados, essa chuva é venenosa, por isso terão de passar um tempo aqui na enfermaria. – a garota que os puxada comentou. – Naquela sala, — apontou para a terceira sala á direita no corredor – estão Senhor D. e Senhora M. Eles estão conversando. Não querem ser atrapalhados, por isso vocês ficarão na segunda sala á esquerda. – ela apontou novamente. – Eu sou Elizabeth, do chalé de Apolo, irei cuidar de vocês pois é minha obrigação como Conselheira Chefe.
E com isso, Elizabeth os conduziu pelo corredor, até a sala em que ficariam esperando os cuidados. Alguns minutos atrás Nádia já tinha decidido que escutaria aquela conversa custe o que custar. E percebia que outros estavam pensando o mesmo que ela.
Elizabeth se distanciou, e embora ainda estivesse no corredor da Casa Grande, eles combinaram:
– Quando ela sair, você e a Lucy ficam escutando – a menina do resmungado ordenou – Eu ficarei de vigia para alertar quando alguém estiver vindo, está bem?
– Você acha que vou seguir suas ordens? – o tom de sarcasmo de Nádia deixava claro que a resposta deveria ser não.
Mas, embora quisesse mesmo discordar, ela obedeceu, sabendo que não tinha outra escolha. Enquanto ela e Lucy se espremiam contra a parede do corredor para ouvirem sem serem vistas, Hanna administrava o corredor, observando cada movimento. Como uma boa filha de Hipnos, ela dava orgulho ao pai sempre que começava a ter devaneios. Era realmente uma excelente vigia.
Com sorte, Nádia conseguiu encontrar uma falha na madeira e um buraco de cupim, onde o outro lado era visível. Uma lareira foi a primeira coisa que avistou, ela queimava em labaredas vívidas, como a raiva de Hefesto. A lareira era feita com ouro brilhante e talhada com desenhos de leões e dríades dançantes. Enquanto o fogo queimava, as dríades e o leão realmente pareciam rir, rugir e dançar.
As paredes do interior eram de madeira, mas revestidas por couro de tigres, das mais variadas estampas. Tigres brancos, negros, alaranjados... Enfim, uma variedade sem fim. O chão era inundado de tapetes árabes e os estofados eram de couro, mas um couro totalmente preto. A mesa de Dionísio estava repleta de revistas do tipo “Cem Vinhos Para Beber Antes de Morrer”. Isso era meio irônico quando quem lê é um imortal.
Embora as janelas estivessem escancaradas e as cortinas presas, o escuro reinava, sendo abafado somente pela luz do fogo na lareira. Senhora M estava em sua forma de centauro, com uma pata sobre a cadeira mais próxima, o traseiro castanho em outra cadeira e as outras patas suspensas no ar. Os braços cruzados sobre os seios, ela olhava com ar de censura para Dionísio.
– O que é isso de simplesmente concordar em colocar uma tempestade no Acampamento sem avisar? – ela questionou.
– Me deu vontade de fazer uma surpresa – Dionísio deu de ombros, tomando um longo gole de seu vinho. – Eu gosto de surpresas.
– As surpresas são boas quando têm um lado positivo. Onde já se viu acabar com as aulas de adestramento no meio da tarde?
– Os campistas agradecem. – ele corrigiu. – Aposto que estão adorando faltar nas aulas.
Senhora M o fuzilou com o olhar, Nádia sabia que qualquer um que passasse mais de quinze anos ao lado de Dionísio nunca conseguiria aguentar outro bêbado. A paciência normalmente encurtava, mau-humor vinha e a palavra “Não” ficava mais freqüente. Estes são apenas alguns dos sintomas. Foi assim que a adorável e meiga Senhora M passou a ser a terrível e detestável Senhora M.
Mas ainda existia um tom de ternura em sua voz. Desde criança M sempre foi superprotetora. Era um potrinho muito amoroso e carinhoso, assim adorava passar o tempo com as ninfas e dríades. Quando cresceu e se tornou a responsável pela atividades do Acampamento Meio-Sangue, era uma segunda mãe para todos ali. Mas Dionísio conseguiu estragar a alegria da jovem centauro. Como ela nunca foi má, aprendeu a ser irônica.
Particularmente falando, eu tenho uma queda por M. Ah, por favor, que narrador nunca se apaixonou? Que atire a primeira pedra aquele que nunca sentiu vontade de realmente fazer parte do enredo!
– O que aconteceu para tamanho mau-humor? – ela bateu um dos cascos no chão, impacientemente, e o barulho que saiu foi abafado, por causa do tapete.
– Eu vou ter um filho. – Dionísio contou, emburrado.
– Ah, parabéns. – ela bateu palmas. – Mais um membro no Chalé 12, bem que eles estavam querendo um irmão novo!
– Você não entende! Ele será um deus menor.
– Oh – Senhora M assumiu sua expressão pensativa. – Então digamos “Bem feito”.
– Isso é terrível! – Dionísio exclamou. – Apolo veio aqui mais cedo e me contou que uma revelação surpreendente o abateu em uma de suas viagens ao Japão.
– Ah, essa de novo não... Da última vez ele achou que, após ter visto um filme japonês, uma tartaruga gigante viria destruir o Olimpo...
– Mas desta vez é diferente. Uma das Parcas contou a ele que o meu próximo filho está a caminho e que ele irá me destronar. Ele irá ocupar meu lugar entre os Doze!
– Então acho que a frase certa para isso é “Que legal!”.
Dionísio a fuzilou com os olhos arroxeados.
– Estou falando sério! Sabe o quanto foi difícil convencer Héstia á entregar o trono dela?
– Mas, vamos concordar, o seu papel entre os deuses não é lá muito importante... – Senhora M escolheu as palavras com cuidado.
– Isso não importa – Dionísio ergueu uma das mãos – A questão é: Eu não posso mais ter filhos.
– Então teremos de inventar uma camisinha para deuses...
– Pare com suas piadinhas sem graça, éguinha-pocotó.
M soltou um relincho. Ela estava muito ofendida.
– Alerta! Alerta! Cria de Apolo se aproxima! – sussurro quase ensurdecedor de Hanna despertou Nádia.
Ela desgrudou o ouvido da parede e correu até a sala onde Hanna estava junto com o outro garoto que até agora tinha ficado em silêncio. Mas, infelizmente, Lucy estava entretida demais escutando a conversa para perceber alguma coisa do tipo. Ela só pôde tirar a cara da parede quando Elizabeth puxou-a pelo ombro.
– O que pensa que está fazendo, menina? Isso é confidencial! – Elizabeth a censurou com os olhos quase dourados. – Anda, entre na sala agora mesmo. Onde já se viu...
Quando Elizabeth entrou, encontrou três adolescentes sentados em uma cama, jogando cartas. Ela ergueu uma sobrancelha e cruzou os braços sobre os seios, batendo o pé impacientemente nas vigas do chão.
– Tudo bem, a gente estava ouvindo. – confessou Hanna.
– Você vai entregar tudo assim, de bandeja? – Nádia indignou-se.
– Olhe, eu não sou á favor dessas coisas fora da lei. – Hanna cruzou os braços. – Além disso, se eu for suspensa, terei mais tempo pra dormir.
Nádia a fuzilou com os olhos enevoados. Estava totalmente em discordância. Desde quando alguém faz uma coisa ruim pensando nas conseqüências favoráveis? Ela somente viu com o canto dos olhos a pequena Lucy soltar uma risada. Elizabeth estava furiosa.
Após um breve sermão de com eles tinham sido irresponsáveis por terem infringido uma regra de privacidade dos coordenadores do Acampamento, Elizabeth anunciou que o castigo seria algo muito detestável, pois sua expressão de filha de Apolo já mostrava isso.
– Nosso castigo vai ser nos chalés, não é? Em cima da cama, roncando e...
– Não. – Elizabeth cortou-lhe a fala. – O castigo será destruir o Formigueiro da Dor.
– Destruir tipo... Apagar, esmagar, aniquilar, desmaterializar... – Nádia falou enquanto fazia gestos com as mãos.
– Sim, sim – Elizabeth cortou-lhes novamente. – Exatamente isso, filha de Bia.
Para quem não sabe, Bia é a deusa da força bruta, da voracidade, a personificação da violência, e assim não era tão difícil para ela arrumar sinônimos para o verbo “destruir”. Mas o castigo não era nada fácil. Todos sabiam que as formigas do Acampamento não eram comuns. Uma picada da mais pequena delas poderia causar uma dor que nem mesmo Ares seria capaz de desferir. O medo reinava enquanto Elizabeth dava as orientações.
Meia hora depois, equipados com espadas, escudos, arcos e o que mais você imaginar em um Acampamento de Verão, eles subiram o monte para a floresta.
– Que merda...
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