O Desaparecido
2 Pode Me Chamar de Steve
Notas iniciais
Pode Me Chamar de Steve...
...Porque eu Steve aqui. Ta, faliu...
Quando você olha para o horizonte e vê um pôr-do-Sol inesquecível, parece que o mundo pára e então você está sozinho, observando a paisagem. Tudo parece estar bem e você não tem preocupação nenhuma. Todo o mau-humor passa e você sente aquele desejo de respirar fundo e continuar andando. Mas infelizmente quando chove o pôr-do-Sol simplesmente some. Não há vestígios dele, é como se quisesse se abrigar da chuva, e assim não vemos mais nada quando a tempestade passa. Essa foi a sensação que senti quando encarei o final do monte que teriam de subir para a floresta. Meus olhos ficaram semi-cerrados quando distingui o primeiro lampião perto da entrada do Acampamento.
Normalmente eu sou um filósofo, mas não posso filosofar com essa coisa na minha frente. De verdade, este lampião sempre me lembrou as velhas ruas da Inglaterra, quando todos não andavam apressados e quando o sorriso era algo natural entre os pedestres. Os automóveis eram raros e os padeiros costumavam oferecer o pão recém-assado na calçada.
Mas estamos no século XXI, onde nem mesmo olhamos para os lados quando andamos. Todos se tornaram duros, os corações esfriaram. É de se esperar isto dos seres humanos. Esquecem facilmente dos bons momentos da História e assim se tornam frios e grossos. Mas nós não. Nós não somos tão primitivos assim. Eu lembro desde quando Eva mordeu a maçã até a primeira batalha entre Atena e Ares. Lembro de tudo! Nem mesmo fui eu quem narrou, mas eu lembro.
Mas esta não é a minha história, esta é a história de como eles fracassaram. Sim, não sou muito bom em manter surpresas. Mas creio que você queira saber o tamanho do fracasso. Pois bem, vamos começar.
Quando encarou o final do monte, ela teve certeza de que morreria antes de chegar até ele. Aquela vida não tinha sido feito pra ela! Era uma filha de Hipnos, não de qualquer outro deus! Hanna não queria subir tudo aquilo, nem mesmo arrastada. A preguiça a dominava por séculos (tudo bem, ela só tem catorze, mas fazer o quê).
Hanna McClair possuía aquele dom de te manter hipnotizado por alguns segundos. Os cabelos em seu tom de loiro queimado caíam sobre os ombros, ondulados, e lhe davam ares de uma garota californiana, a pele bronzeada também ajudava, e os olhos típicos da California, cor-de-mel, só melhorava o cenário. Pelo contrário, Hanna era do Colorado, bem no centro dos Estados Unidos. Mas gostava de vir para o Acampamento sempre que podia. Mesmo com somente catorze anos, sua autora era mediana, e o corpo bem desenvolvido. Suas coxas não eram extravagantes, mas confortáveis. Os seios não eram daqueles que balançam sempre que se anda, mas eram, digamos, fofinhos. E era magra. Poderia ser confundida com uma bela filha de Apolo, porém era conhecida no Acampamento, pois como Conselheira Chefe do Chalé de Hipnos, era sua responsabilidade cuidar do sono de todo.
– Obrigada, senhorita McClair. – Nádia vociferou – Agora temos que destruir um formigueiro...
– Pelo menos poderemos voltar antes do amanhecer. – Hanna deu de ombros.
Era verdade, eles voltariam antes do amanhecer.
Hanna empurrou o capacete um pouco mais para trás. Ele era grande demais para sua cabeça e por isso ficava caindo sobre os olhos, irritando-a. A malha da armadura era um tanto grossa demais, e isso pinicava sua pele por baixo da camiseta do Acampamento. O mais bizarro de tudo era vê-la totalmente equipada com a armadura e possuir somente uma pequena adaga em mãos. Ela não era muito fã de espadas, nem mesmo de lanças. Tinha se dado muito mal na aula de arco e flecha, e naquele momento a única coisa que pôde pensar ao pegar a adaga era “Por favor, pequena, não me decepcione”. Ela conhecia as histórias das grandes guerreiras Amazonas, e até aquelas que tinham lutado apenas com facas e adagas. Sabia que era uma arma, independente do tamanho. Mas sua fé naquela pequena lâmina não era das melhores.
Por outro lado, a espada nas mãos de Nádia brilhava com a luz emanada da Lua. Seu semblante era de quem tinha força de mil homens e coragem de um exército inteiro. A armadura ficava muito bem em seu corpo e o capacete cobria-lhe os cabelos, fazendo-a parecer uma deusa de dezesseis anos. Nádia tinha vindo de Washington, do lugar onde as pessoas são piores que os ingleses. Dá pra ter uma idéia do porquê de sua personalidade afiada.
Os cabelos de Nádia eram escuros, mas não tão escuros como carvão, era mais puxados para o castanho. Os olhos possuíam aquele ar de enevoado, um verde musgo misturado com cinza tempestade. Era enjoativo olhar para eles. A pele pálida parecia com a de um cadáver. Mas o que confirmava que ela estava viva eram suas bochechas naturalmente rosadas e os lábios ressecados. As sobrancelhas se arqueavam por vontade própria sempre que ela falava e digamos que Nádia tinha um sotaque mais sulista do que deveria, pois sua família era da Carolina do Sul.
As duas eram diferentes, mas o sangue que corria por suas veias era de um deus, e isso as ligava. Independente de qual deus, elas eram uma família, e a família nunca se deixa.
Antes mesmo que terminassem a subida pela relva baixa do monte, eles avistaram o formigueiro, já na entrada da floresta.
– Ele está cada vez maior – comentou Hanna.
– Costumava ficar cinco metros mais para dentro – concordou Nádia.
O desejo de correr dali e ir dormir atingiu-lhes. Alguns minutos antes de saírem para a jornada, Elizabeth lhes deu uma dose de algo que parecia suco de laranja. Não era Ambrósia nem Néctar, era algo mais forte.
– Vai mantê-los sãs até o amanhecer. – preveniu.
A chuva envenenada tinha trazido uma coceira por cada extremidade da pele, mas com aquela bebida a coceira passou e eles se sentiram bem. Sabiam que ainda precisavam de cuidados, mas o mais importante, na visão de Elizabeth, era o castigo.
O formigueiro possuía oito metros para cima da terra e mais dezoito metros para baixo, o que tornava aquilo muito mais difícil de destruir. A largura era de aproximadamente trinta e dois metros, e isto sem contar a largura interna. Realmente era impossível matar todas as formigas.
– Seria mais fácil atear fogo nisso ai – sugeriu Nádia.
– Mas e as dríades e ninfas? Com certeza não irão concordar em se mudar de árvore... Temos de arrumar um jeito de destruir somente o formigueiro, sem tocar em nenhuma árvore ao redor dele.
– É impossível, elas estão á menos de dez metros dele. – Nádia cruzou os braços. – E vocês dois, não vão ajudar em nada – Ela estava se referindo á Lucy e o garoto que permanecia em silêncio. Todos sabiam da presença de Cecília, mas ninguém queria mexer com ela. Cecília era uma bomba relógio, qualquer coisa que a estressasse se tornava uma vítima. Uma vez chegou a explodir um ursinho de pelúcia sorridente, só porque estava de mau humor. Cecília, uma digna filha de Hécate.
– Podemos chamar a atenção das formigas para o leste e empurrar o formigueiro para o oeste, quando elas voltarem não terão onde morar e irão embora. – sugeriu Lucy.
– Oh, pequena, você é tão fofa que quase me esqueci de que tudo o que você fala é idiotice... – Nádia passou a mão pelos cabelos louros e finos de Lucy. – Pois bem, a sugestão da Lucy está descartada. Mais alguma?
– Podemos inundar o formigueiro. – o garoto se anunciou, pela primeira vez.
Ninguém o conhecia, mas era raro um campista que conhecesse todos os chalés.
– Inundar... Você é filho de Poseidon? – Hanna parecia esperançosa.
– Não... – ele enfiou as mãos nos bolsos do casaco grosso. – Sou de Zeus.
Nádia e Hanna abafaram as risadas. Realmente os filhos de deuses menores não levam muito á sério os filhos dos deuses olimpianos. Principalmente se ele for filho do Rei do Olimpo. Mas cá entre nós, uma vez tive de narrar uma história sobre Zeus e sua amante (que não revelarei o nome, para não sofrer as conseqüências de Hera) e descobri que Zeus é um cara bem camarada. Tirando a barba grotesca ou o mau senso de moda, ele pode até ser bonito.
– Poderíamos usar a magia de Cecília. – sugeriu Lucy.
Pobre menina, tão inocente... Se Cecília não estivesse em um de seus melhores dias, teria explodido os olhos azuis e brilhantes de Lucy. Mas felizmente ela estava. Era ótimo ficar sabendo de uma boa fofoca sobre os coordenadores do Acampamento, isto poderia render uma bela sessão de beleza no Chalé 10, mas isso é coisa para depois. O agora era mais importante.
– Tudo bem. – Cecília estalou os dedos, se preparando. – Sobre a lua cheia, na noite das assombrações...
– Acho que é Lua Minguante... – Hanna olhou para cima.
– Cale a boca. Mãe, peço-lhe que me dê força! – e a partir dali uma enxurrada de palavras em grego antigo saiu da boca de Cecília. De olhos fechados, ela parecia possuída, o corpo dançando por vontade própria, os cabelos cacheados e negros um pouco mais esvoaçantes e a pele brilhando em uma lua opaca, como a Lua.
A parte mais assustadora, porém, foi quando seus olhos se abriram. Eles não eram mais verdes, mas sim brancos. Sim, exatamente isso, a pupila e tudo mais, branco e brilhante. Como a luz de sua pele. Parecia não haver nada dentro das órbitas, somente uma luz de led. Quando ela disse a última palavra, das pintas de sua pele, um brilho tão ofuscante quanto as estrelas saiu, na realidade eram estrelas. Uma névoa densa os envolvia, mas eles não podiam notar mais nada, pois o tempo tinha parado, e eles também. O único ser ainda “ligado” era Cecília, que voltava ao normal. As estrelas que tinham saído de seu corpo, formavam no céu algo parecido com o grego antigo. Ela direcionou as mãos para o início do formigueiro.
– Morra! – gritou de uma vez, fazendo o tempo voltar ao normal e todos se espantarem com tudo o que tinha ocorrido. Despertar era muito estranho após ficar acordado num tempo congelado.
O formigueiro, por sua vez, não esperou que os campistas tomassem nota do que tinham perdido, pois explodiu pelo céu. Chuva se pedaços de formiga e sangue verde foram distribuídos pelo ar e a primeira reação deles foi se proteger de tudo aquilo, se jogando no chão.
– Conseguimos? – a voz de Hanna era quase de pura alegria, caso não houvesse o ponto de interrogação no final, seria de plena alegria.
Mas a resposta veio alguns segundos depois, quando a primeira formiga gigante saiu do que tinha sobrado do buraco. A explosão tinha acontecido somente na parte externa do formigueiro e uns dois metros para baixo. O resto estava intacto. Ou seja, metade das formigas estavam ilesas.
– Não, não conseguimos – a voz de Lucy era de pânico.
O menino não identificado se levantou sobressaltado e sacou a espada da bainha, já desferindo o primeiro golpe na formiga mais próxima. Elas tinham em média três metros de largura e um metro de altura, porém as presas eram bem ameaçadoras. O menino quase foi mordido, mas a armadura o protegeu na altura do ombro. Ele foi lançado para longe, colina á baixo. A formiga que o tinha jogado avançou sobre Cecília, e mais duas outras formigas andavam suspeitas na direção de Nádia e Hanna.
– Vamos embora antes que morramos! – gritou Cecília exasperada.
– Mas e o formigueiro? – Hanna tremia da cabeça aos pés.
– Elas irão nos esquecer para refazê-lo. – Cecília conseguiu explodir a cabeça da formiga que a atacava. – Aposto que atrasamos suas operações de expansão pelas próximas duas semanas!
– Certo. – Hanna concordou com um meneio e abandonou a floresta correndo para baixo da colina.
Cecília explodiu a pata da outra formiga que avançava sobre Nádia, dando tempo para ela correr.
Enquanto corria para salvar a pele, sentia o vento levando os cabelos para as costas e o frio tomar-lhe de impacto. Quando chegou onde o menino tinha caído, percebeu que estava desacordado e que as presas da formiga tinham vencido a armadura e ele estava ferido no ombro. Pegou-o e o colocou sobre suas costas. Caramba, como era pesado!
Nádia encontrou o vulto de Hanna, correndo em direção a Casa Grande, e resolveu segui-la. Já nos degraus da varanda, ela não agüentava mais o peso do garoto. Quando o jogou no chão da varanda, esticou a coluna, já sentindo o alívio. Então olhou para ele. Era um tanto mais alto que ela e os cabelos louros pareciam ouro. Ele dormia, parecendo um anjo, enquanto um brilho fazia o canto de seu lábio tremer.
– Espere... – ela estreitou os olhos. Argh! Aquilo era baba! A saliva refletia á luz da varanda da Casa Grande. – Merda, ele deve ter babado no meu ombro... – passou a mão para conferir, e felizmente notou que não estava molhado. – Seu nojento. Me ajude aqui, Hanna.
Hanna pegou os braços do garoto e o arrastou porta adentro, levando-o pelo corredor e o colocando dentro do quarto que tinha sido designado para tratamento deles. Elizabeth parecia esperar pela chegada dos garotos. Ela ajudou Hanna a colocar o menino sobre a cama e disse que ele ficaria bem, mas que por hora o mais importante era o estado dos outros. O amanhecer já começava.
Era estranho ter a sensação de que se subiu o monte há cinco minutos e logo depois já está descendo e um novo dia está começando. Mas isto não era de se surpreender, Cecília dominava o vácuo e a explosão que tinha causado naquele formigueiro tinha custado muito de sua energia e muito do tempo da terra. Quando o mundo parou houve um intervalo onde nada existia, e quando voltou ao normal eles tinham pulado cerca de cinco horas.
Nádia entrou no quarto e logo foi colocada em uma das camas de lençol branco de algodão. Hanna estava na cama ao lado, enquanto o menino ficava na última cama, a mais próxima da porta. Lucy tremia nos braços de Hanna. Embora fosse uma semideusa, ainda era apenas uma criança, e aquilo tinha sido muito assustador.
– Onde está Cecília? – pergunta Elizabeth.
– Ela estava com a Nádia – Hanna levanta a cabeça, também interessa em saber o que tinha acontecido com a filha de Hécate.
– Não a vi correr comigo. – Nádia responde – Acho que ficou na floresta, lutando com as formigas para ganhar tempo para nós.
– Mas ela estava sem armadura! – Hanna dá um pulo.
– Não se preocupe, filha de Hipnos, Cecília está no Acampamento desde bebê e sabe muito bem se virar sozinha. – Elizabeth sorri, carinhosamente – Somos amigas de infância, e ela sempre foi muito responsável. É típico dela se doar para que os outros consigam escapar a tempo.
Nádia e Hanna concordaram, embora não quisessem concordar por completo com aquilo. Lucy parou de tremer após beber o primeiro gole de néctar. Tinham de tomar um copo inteiro e depois mais um pouco daquele suco que fazia a coceira passar. Enquanto isso, Elizabeth cuidava do garoto que estava junto delas.
– Ei, você sabe o nome dele? – Por fim Nádia quebrou o silêncio.
– Este é Sebastian Montte’Reagge, filho de Zeus. É outro veterano do Acampamento. Mas não muito conhecido, pois costuma passar mais tempo no chalé. Sebastian tem vergonha das asas que herdou do pai.
– Asas? – perguntou Nádia, intrigada.
– Zeus acasalou com a mãe de Sebastian em forma de águia, e por isso ele tem asas. – Elizabeth estava bem séria. – Você percebeu como ele é corcunda?
– Percebi – concordou a menina.
– Pois é por causa das asas que ele esconde. – Elizabeth lançou um olhar tristonho para Sebastian, adormecido. – Sebastian tem vergonha disso, pois todos acabam olhando feio para ele... Não concordam com suas asas. Uma vez até chamaram ele de monstro.
– Não sabia disso. – Nádia tentou evitar olhar para Sebastian.
– Você ainda é nova no Acampamento, recentemente é que descobrimos quem é sua mãe. Bom, quero sair um pouco deste assunto, é pesado demais...
“Muito pensado”, ironizou Nádia.
– E a construção do meu chalé? – ela perguntou, por fim.
– Ah, sobre isso... – Elizabeth arrumou a postura – Está sendo feito pelos operários esqueleto, ao lado do chalé de Hécate, como você pediu.
Para Nádia era uma tortura ter de ficar no Chalé de Hermes, junto com os filhos de Hermes. Ela parecia uma intrusa naquele ambiente. Sabia que alguns anos atrás o chalé tinha servido como casa para os filhos dos deuses menores, porém agora havia chalés para os outros deuses, somente a deusa Bia que não tinha, e isso a irritava. Entrou com um processo contra o Acampamento e Atena julgou como justo que ela tivesse um chalé, igual os outros. E assim ela teria um dentro de poucas semanas. Era maravilhoso ter privacidade...
Enquanto elas discutiam o tamanho e quantas camas o chalé teria, Hanna já tinha dormido junto com Lucy. Ah, por favor, qualquer um que fique mais de dez minutos abraçado com um filho de Hipnos dorme rapidinho!
Por fim assunto acabou. E Nádia dormiu.
º º º
A próxima atividade no Acampamento, pela manhã do segundo dia de história, era um jogo muito interessante chamado caça ao queijo. Era basicamente uma caça que envolvia olfato e paladar.
Duas equipes, separadas em chalés de deuses femininos e masculinos. Os campistas iam para o lago, onde começava a prova. Pedaços de queijo do tamanho de um dedo eram espalhados pelos galhos das árvores, forçando os campistas á escalar as árvores até seus galhos mais altos. Tinham que coletar a maior quantidade de queijo, e o melhor jeito de achar as árvores com queijo era cheirando. Este é a primeira parte da prova.
A segunda parte é mais divertida: Após meia hora, tocam uma concha e então todos voltam para o lago, com o queixo todo guardado em sacolas que eles leva. Um campista de cada equipe é selecionado e ele tem de começar pelo menos 70% de todo o queijo coletado. Levando em consideração a quantidade de queijo coletada e o queijo comido, o ganhador é decidido. O chalé perdedor tem de ficar responsável pela limpeza dos chalés do time vencedor.
Normalmente o time vitorioso é o feminino, já que Nike, a deusa da vitória, está no meio. Mas algumas vezes os Três Grandes fazem diferença, e assim nunca dá pra saber quem vai ganhar. Neste dia, porém, era evidente que os chalés da equipe Azul (os homens) estavam muito mais preparados do que a equipe Vermelha (as mulheres). A Equipe Azul tinha jejuado o dia anterior para conseguirem comer mais. E como o escolhido para comer era decidido por Senhora M, todos tinham passado fome. Era doentio olhar para eles, todos famintos e magros, sem energia para nada.
O chalé das deusas tinha apostado em outra coisa: campistas bem dispostos e cheios de energia para colher a maior quantidade de queijo possível. Todos armados até os dentes, para disputar as árvores com queijo. Normalmente havia vinte dentre as cem árvores da região, mas às vezes Senhora M pregava pegadinhas.
Entre os campistas da Equipe Vermelha, estava Nádia, que ajeitava mais uma vez o capacete na cabeça. Desta vez o capacete era mais aberto e por isso os cabelos saíam pelas frestas. O nariz estava oculto, porém os olhos enevoados e enjoativos estavam à vista. A malha a fazia suar e o peitoral de ferro era pesado, mas o tempo que tinha ficado no Acampamento a fez se acostumar com isso. As joelheiras eram bem firmes e quase não conseguia dobrar a perna para caminhar. A espada presa na bainha era a sua preferida dentre as inúmeras que tinha comprado ao passar do tempo. Tinha aprendido que Bia era muito amiga de Hefesto e os filhos do deus amavam fazer armas para ela.
O nome desta era Claymore, uma espada de duas mãos (ápice da espada de duas mãos européia), possuía 180 cm, originária da Escócia, mas produzida pelas hábeis mãos dos filhos de Hefesto, um presente por seu reconhecimento como filha de Bia.
Nádia balançou Claymore um pouco, enquanto esperava as ordens para marchar até o lago. Enquanto isto, os campistas conversavam animadamente. A Equipe Azul parecia muito frágil, mas todos sabiam que aquilo era somente truque, que eles iriam dar o dobro de força na hora de colher o queijo, mas que depois devorariam tudo com vontade. Com os olhos, Nádia encontrou Hanna, que aproveitava para tirar um cochilo, e mais ao longe Elizabeth conversando com mais duas filhas de Apolo. Os filhos de Apolo, mesmo fracos de fome, ainda estavam bronzeados e em boa forma, prontos para uma aventura.
Ao seu lado, um garoto se debruçou sobre o ombro de Nádia e com um pedaço de maçã (deveria ter colhido de uma das macieiras perto do chalé de Atena) deu uma mordida e mostrou a mastigação de boca aberta, de propósito, claro.
– O que está fazendo? – Nádia o empurrou com força para o chão e, devido á sua força bruta, ele foi de cara para a relva.
– Estou provocando eles. – o menino se levantou, como se não tivesse acontecido nada. – Veja, eles estão morrendo de fome...
– Você é filho de Atena?
– Não, não – ele sorriu – Deméter. Mas é sempre bom brincar de vez em quando... Bom, eu vou indo, adeus, menina.
Ela nem se deu ao trabalho de dizer-lhe tchau, afinal ele não merecia.
Uma coisa que Nádia odiava era que ficassem se pendurando em seu ombro. Claro que na noite passada tinha sido uma exceção, pois Sebastian estava desacordado, mas agora era irritante demais. Nádia, na verdade, odiava tudo. Era aquele tipo de pessoa mesquinha no estilo Não-Me-Toque. E ao pensar em Sebastian, procurou-o entre os membros da Equipe Azul. E o encontrou.
Estava muito mais disposto do que ontem e com certeza possuía aquele sorriso brilhante típico de qualquer filho de Zeus. Ele era muito risonho, por sinal, pois parecia rir de tudo o que seus irmãos falavam. Por um momento ela não percebeu, mas logo entrou no seu campo de visão aquelas asas duas vezes maior que Sebastian. Elas saíam de suas costas e sua armadura tinha dois buracos para que as asas ficassem de fora. Sebastian deveria estar usando somente a malha e a armadura, sem nenhuma camiseta por baixo, o que enviou á Nádia uma sensação de calor. Não um calor sexual, mas um calor enjoado. Sebastian deveria estar suando muito debaixo daquilo. Ele não usava espada, pelo visto, pois o que tinha em mãos era uma flecha e o arco estava preso nas costas.
Desviou o rosto quando percebeu que o encarava demais.
Nádia ouviu o sinal de que poderiam ir até lago e obedeceu, seguindo em frente e se colocando na posição. As equipes teriam de atravessar o rio e ter uma primeira batalha na água, depois iriam para a floresta num perímetro de vinte metros dos dois lados do rio. Essa era a região onde a prova seria feita. A Equipe Azul já se mantinha em linha de ataque, quando uma das líderes da equipe Vermelha, uma filha de Atena chamada Bruna, colocava em ordem a linha de frente. Outra filha de Atena, aparentemente abençoada por Afrodite, dava as ordens para a fileira de Nádia.
– Eu sou recém-formada no chalé de Atena. – ela lançou um olhar de tensão – E me chamo Ivana. Irei cuidar de vocês durante a missão. Não quero empurrões, chutes, brigas... Agora mesmo se separem em grupos de quatro. Dois irão cuidar da árvore enquanto os outros sobem nela. Um deles tem de colher os queijos, o outro os guarda. Se arrumem, pois não quero brigas. Não importa quem vai ficar onde, o grupo que der trabalho estará suspenso das atividades do acampamento durante um dia e terá de ficar na cozinha, como castigo.
Nádia sentiu alguém puxar-lhe o braço. Era uma filha de Íris, Nádia reconheceu logo que viu o brilho multicolorido em seu olhar. E o outro ao seu lado era muito... Ahn... Reservado, digamos. Mas os dois estavam muito animados.
– Quer formar grupo? – a filha de Íris perguntou.
– Claro. – Nádia colocou a espada na bainha novamente. – Você sobe, eu e ele guardamos a árvore.
– Uma equipe de três é arriscado – o rapaz estava meio de mau humor, pelo visto. – Principalmente se Victória escorregar e cair.
Victória soltou um risinho que, aos ouvidos de Nádia, soou enjoado. Se enroscando no peito do rapaz, Victória o beijou na bochecha.
– O Arthur se preocupa muito comigo, sabe... – disse enquanto desenhava pequenos círculos na armadura dele.
Nádia deu de ombros, pouco lhe importava o que Arthur deixava ou não de fazer. Tinha aprendido a ter nojo de casais apaixonados, e por isso não olhava bonito para os dois, mas por outro lado, sabia que era melhor ter um casal assim na equipe, poderia usar a menina para acarretar a confiança do garoto. Se estivesse em perigo e com Victória ao seu lado, com certeza Arthur não viraria as costas e sairia correndo.
– Com licença – aquela voz era imponente e muito, muito, graciosa. Parece até ser cantada, mas se mantém na mesma nota. – Peço permissão para fazer parte do grupo de vocês.
Nádia logo reconheceu aquela garota. Tinha lutado com ela durante um treino de esgrima. Era habilidosa, mas nem tanto para a média. Com certeza deveria ser perfeita em arco e flecha, já que seu pai era o deus disso. Apolo. Bia Granolla. Uma jovem de pelo menos dezenove anos, de pele bronzeada e cabelos louros até as orelhas. Os olhos eram quase dourados, passando de raspão pelo mel. Ela usava uma armadura bronze e não tinha capacete. Usava arco e flecha, por sinal, pois a aljava pendia na cintura.
– Tudo bem – concordou Victória. – Já temos quatro, agora é só passar pelo lago e seguir para as árvores!
– Campistas! – a voz espetacular de Senhora M inundou a floresta e todos se calaram. – Neste momento quero ouvir o grito de guerra de vocês!
Grito de guerra? Mas ninguém falou em grito de guerra? Todos se perguntavam a mesma coisa, mas para um certo grupo da Equipe Vermelha, o grito já tinha sido combinado. Deveriam ser filhas de Apolo, supôs Nádia.
“É garra, é força, é determinação! A Equipe vermelha vai ser a campeã”.
Brados de Garra, força e determinação inundaram enquanto os filhos de Apolo seguiam o exemplo das primeiras garotas.
– São Letícia, Rubia e Juliana. Minhas irmãs. – comentou Bia, ao ver a cara de surpresa de Nádia.
Mas antes que Nádia ouvisse o som da voz harmoniosa de Bia, um clic deu em sua cabeça e ela percebeu toda a farsa.
– Você é da Equipe Azul! – Nádia a acusou – Filha de um deus do sexo masculino! Vocês se infiltraram!
Mas o som da concha anunciando o começo da prova já tinha acontecido.
– Que bom que você percebeu antes que eu fizesse meu trabalho sem força nenhuma – Bia a atacou com um soco de direita.
Por algum motivo Nádia não desviou, e o soco a atingiu no ouvido, fazendo-a cair dentro do leito do rio e não ouvir mais anda além de ruídos abafados. Assim que conseguiu parar de se afogar e levantar da água, percebeu que Arthur já tinha tomado conta de Bia e ela estava na mesma situação que Nádia alguns minutos atrás.
– Venha! – Victória chamou-os, abrindo caminho para a floresta.
Eles a seguiram, com o corpo cheio de energia e adrenalina. O coração bombeava aceleradamente, como se o objetivo não fosse trabalhar em equipe, e sim fazer um papel individual e ser o melhor. Não havia espírito de união, mas uma pergunta “Nádia ou Arthur?”. Com todas as moléculas de seu corpo gritando Nádia!, ela só pôde retirar a espada da bainha e esperar por um oponente. E este logo surgiu, ávido por conquistar a árvore deles. Victória já estava bem no alto quando Arthur se livrou do primeiro dos meninos.
Nádia logo sentiu sua vez se aproximar e com o punho da espada acertou olho esquerdo de outro, que cambaleou para trás e caiu em seus próprios pés.
– Eu tomo conta dele – anunciou Arthur, indo para cima do caído.
Nádia logo entendeu porque tinha ficado com o último dos garotos. Ele era muitas vezes mais alto que os demais, tanto de altura quanto de largura, e com certeza mais habilidoso.
– Droga, eu sabia que tinha escolher companheiros melhores! – ele parecia bravo, e realmente tinha razão por estar, seus companheiros eram péssimos. – Por Poseidon!
Sua raiva era sentida de longe, e até mesmo a filha da deusa da violência sentiu o braço tremer enquanto ele se aproximava. Mas com uma força que nem mesmo ela conhecia, ergueu a espada se protegendo do primeiro golpe e com a perna direita o acertou na costela. O menino vacilou, mas não desistiu fácil, ele atacou por cima, e ela ergueu sua espada para bloquear o ataque, porém antes que ele chegasse, mudou a direção da arma e a atingiu na coxa que estava vulnerável.
Nádia sentiu a dor inundando a perna e o sangue escorrendo, deixando tudo mais quente.
Tentou se defender, mas ele já tinha o domínio da briga. Teria morrido, caso Arthur não tivesse acertado punho de sua espada na nuca do rapaz. Ele caiu no chão na hora, apagado. Não morto, mas apagado.
– Viu, é fácil quando se trabalha em... Victória! – sua voz era desesperada, pois neste instancia Victória escorregou de seu galho, bem como ele tinha dito antes.
Ela não teve muitos machucados, somente uma perna quebrada, mas Elizabeth garantiu que não seria problema cuidar disso. Por outro lado, Ivana tinha tomado nota da situação e condenado Nádia e Arthur á um dia na cozinha, lavando os pratos com lava quente.
Teriam de usar luvas e tomar muito cuidado com o serviço, o que custou a tarde inteira e uma metade da noite. Só terminaram quando o último carregamento do almoço chegou (e isto porquê ainda tinha o jantar, mas eles foram poupados disso). Mas rendeu-lhes uma ótima conversa.
– Filha de quem?
– Bia, e você?
– Nêmeses.
– Legal.
– Ah, obrigado por lavar os pratos do cordeiro. Eu realmente detesto ter de esfregar a gordura...
Seu coração disparou. Nunca, nunca, se atreva a falar “Obrigado” para Nádia, pois ela pode acabar apaixonada. Por sorte este não foi o caso de Arthur. Nádia sempre foi a casca dura e por isso ninguém ousava lhe referir uma palavra, assim como Cecília. Mas no Acampamento eles pareciam saber cuidar disso. Eles eram gentis, em sua opinião. Ridiculamente gentis. Mas até agora ninguém tinha dito obrigado. E como ela nunca recebe um obrigado... Ah, que ótimo!
Não foi preciso mais de cinco frases para que a amizade nascesse.
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