O Desaparecido

6 Eu Também Recomendo As Tortas Alemãs


Notas iniciais
Escrito por: Mellyne Saboia Participações Especiais: Ball, Bia, Madalena e Lúcia. Obrigada gente! Dedicado á: Nossa fofa Mabel.

Eu Também Recomendo As Tortas Alemãs

Principalmente com recheio de trufa!

O carro partia em direção ao Colorado, enquanto isso o céu se transformava numa bola de cinza, uma tempestade ainda pior que a do Acampamento se formava. Já estavam bem longe de onde tinham partido, o Acampamento Meio-Sangue era somente uma miragem na névoa do portal de Íris que Victoria tinha feito na primeira parada para abastecer. O Texas era um lugar muito calmo nas zonas das estradas.

– Deixe-me falar com Hanna – pediu Nádia, enquanto os outros conversavam com Senhora M pelo portal.

Não houve quem discutisse, pois Nádia era a líder da missão. Ela pegou um dracma de Victoria e o lançou na névoa, fazendo uma breve prece por Hanna. A garota estava lá, com os cabelos caramelo e os olhos cor-de-mel, brilhantes. A pele levemente bronzeada lhe dava um aspecto de maresia. Quando Hanna por fim parou de gritar com quem estivesse na frente dela, e se virou, notou a mensagem de Íris e então sorriu.

– Pensei que tinha se esquecido de mim – comentou, enquanto colocava as mãos na cintura. – Tudo bem ai?

– Por enquanto – Nádia colocou uma mecha para trás da orelha – Preciso de uma informação.

– Certo – Hanna fez um positivo. – O que foi?

– Estamos indo para o Colorado, e desde onde eu sei, é o local que você nasceu.

– Exatamente! – Hanna parecia orgulhosa. – O que vão fazer no Colorado? E como vão chegar lá? É longe demais para com o carro do Argos!

– Nós estamos no Texas, com uma carona. Apolo nos trouxe até aqui em seu carro do Sol.

– Sério? Ai que sorte! – Hanna parecia se segurar para não fazer uma dancinha da alegria.

– Pois bem, quero saber se há alguma linha férrea ou algum aeroporto no Colorado que esteja ligado ao Acampamento e que aceite dracmas. Temos de chegar a Oklahoma.

– Certo – Hanna então saiu do campo de visão do portal de Íris e por alguns segundos Nádia pensou que ela tinha desmaiado, mas Hanna logo se levantou e sorriu. – Meu pai é o deus dos sonos eternos e ele sempre me revela coisas quando durmo – comentou enquanto se recuperava – Ele me disse que há uma estrada que leva para Oklahoma e tem uma mulher dirigindo para lá agora mesmo. Ela vai dar uma carona para vocês.

– Seu pai sabe de tudo isso?

– É meu pai quem pinta os sonhos das Parcas, ele que dá a elas o desejo de matar alguém ou de curar uma doença. Digamos que as Parcas são controladas, de alguma forma, por todos os deuses.

Nádia deu de ombros, não muito interessada naquela conversa.

– Então precisamos seguir em que direção?

– Continuem com o carona de vocês, até chegar numa rodovia onde há uma mercearia chamada O Rei do Mate, lá vocês irão encontrar um ciclope, ele é o dono da mercearia e amigo dos deuses, lhes dará comida em troca de alguns dracmas e passem a noite lá. A mulher está neste exato momento passado pela Carolina do Norte, por isso demorará certa de um dia e meio para chegar até a rodovia. Espero que consigam algo com isso. – Hanna sorriu, ainda orgulhosa de si mesma.

– Obrigada, Hanna, nos serviu de muita coisa. – Nádia passou a mão pela névoa, dissolvendo-a. – Vamos, o carona não deve nos esperar por muito tempo.

Todos recolheram as mochilas e voltaram para o carro. Desta vez, Nádia conseguiu ir no banco da frente, o que a livrou de ter de ir colada atrás. O motorista conversou sobre muitas coisas com eles, e era amigável. Ofereceu-lhes alguns trocados para continuarem a viagem. Nádia contou que deveria deixá-los na mercearia no meio da estrada e que de lá eles iriam para Oklahoma, e, embora o senhor estivesse muito espantado com aquilo, não questionou. O que quatro adolescentes vão fazer numa mercearia no meio da estrada?

Caro leitor, percebo que nossa relação está um tanto quanto estreita. Quero me tornar alguém bem próximo de você, para que sempre que vá ler alguma coisa, me escolha como narrador. Quero ser seu confidente e seu amigo do peito. Mas não dá pra isso acontecer se por primeiro você não for meu confidente. Pois vamos: Essa viagem me dá náuseas, eu sinceramente não gosto de viajar. Perdoe-me, Hermes, mas essa é a verdade. Me enjôo facilmente. Também não gosto de praias, pois costumo me bronzear rápido demais, mas isso é outro assunto. Minha visão sempre fica turva e começo a ter ânsia de vômito. Nunca queira viajar com alguém assim.

Ah, mas que grande grosseria! Estou deixando nossos personagens de lado e virando a atenção toda para mim! Sim, eu sou egoísta e gosto de chamar a atenção, e este é um dos motivos que me fez tomar a decisão de não ser um escravo. Olhe, eu não me considero um escravo, pois tenho livre arbítrio. Sou um funcionário assalariado, meu salário é poder me expressar sem ser demitido. E eu acabo sempre por ser escolhido pelos melhores escritores. Por alguma razão, entretanto, decidi arriscar narrando esta história de quinta categoria. Ah, quinta categoria... Isto me lembra um programa de televisão, mas vamos parar de enrolar com essa baboseira! Em frente, como eu sempre digo!

Cinco horas depois, entretanto, Nádia começou a se sentir sozinha e deslocada. Ouvindo a conversa dos outros no banco de trás, ela teve vontade de estar participando. O motorista só falava sobre a estrada e como era bom pescar na Califórnia. O motorista era argentino, e por algum motivo ainda mais estranho, Nádia não gostava dele. Talvez pelo sotaque, ou então por sua camisa azul e branca, mas ela não gostava. Nádia detestava azul, azul era a cor mais ridícula que tinha inventado. E qualquer país que tivesse azul em sua bandeira, ela odiava. Até mesmo os Estados Unidos.

– O Japão é um lugar muito interessante – ela sempre dizia, se lembrando do circulo vermelho e do fundo branco.

Nunca tinha estado no Japão, mas somente pela bandeira ela já julgava ser interessante.

A tarde a terminar, o Sol a sumir. As últimas horas do dia iam se consumindo enquanto a noite vinha como uma avalanche. O céu tinha se acalmado, e alguns vestígios de nuvens brancas apareciam, mas ainda era ameaçador. Tudo aconteceu em menos de seis horas, e logo depois tinha acabado. A rodovia era ainda mais deserta que as outras ruas do Texas. Ao contrário do que ela imaginava, a relva estava verde e o ar era fresco. Sempre imaginou o Texas como um lugar muito quente e cheio de poeira, como no faroeste. E realmente alguns lugares abandonados pareciam ser o faroeste, mas com certeza esta rodovia não estava abandonada. As ruas não tinham nenhum buraco e a mercaria do Rei do Mate tinha até mesmo ar-condicionado instalado na entrada. Um banco de madeira estava na frente da mercearia, fazendo parte do ambiente. Um pequeno arbusto cortado em forma de xícara dava o ar de arejado e a calçada de cascalho tornava tudo muito arrumadinho. Algumas flores tinham sido colocadas na janela grande vidro da frente da loja, e a pintura era nova pois ainda cheirava a tinta perfumada. Branco, bem branco. E com o pôr-do-sol, o branco refletia intensamente. Lá dentro era possível distinguir máquinas de refrigerante, de salgadinhos e uma tabela com os preços de chás e cafés de vários tipos. No balcão, um funcionário com um avental amarelado e uma mesa de frios ao lado de uma mesa de doces.

Quando entraram, dando o último adeus ao carona, um sino tocou, anunciando a chegada dos clientes. O funcionário sorriu e pediu para que se sentissem em casa. Nádia indicou com a cabeça que eles poderiam passear pela mercearia, enquanto ela ia conversar com o rapaz.

Ele deveria ter um metro e noventa, muito magro e com os dentes tortos. Os olhos eram estranhamente castanhos e o nariz arrebitado. Possuía sardas e os dedos tinham calos visíveis. Ele sorria, ignorando sua feiúra.

– Bem vinda, senhorita. Gostaria de fazer algum pedido?

– Sim. Quero o Senhor Ciclope. – ela retribuiu o sorriso, um tanto sem jeito, pois não sabia sorrir naturalmente. Só sorria quando usava o sarcasmo.

O sorri torto do rapaz desapareceu, dando lugar a raiva.

– O que você quer, semideusa? Timóteo já pagou sua pena para com Poseidon, ele não quer mais brigas! Saia daqui!

Nádia ergueu uma sobrancelha.

– Eu não vim aqui por ordem de Poseidon, eu vim aqui pois estou no meio de uma missão e preciso de abrigo para uma noite e um dia.

O rapaz piscou os longos cílios ruivos e então abriu um sorriso ainda maior que o primeiro.

– Semideusa em missão? Que legal! Quase nenhum semideus em missão vem para cá, sabia? – ele parecia maravilhado – Você deve ser demais! Deve ser a melhor do mundo!

– O-O quê?

– E deve ser a garota mais linda do mundo! Eu adoro seus olhos, sabia?

– Meus olhos? O que têm eles? – ela uniu as sobrancelhas, ainda sem entender muito bem o que estava acontecendo. De repente o ciclope tinha virado seu admirador. E ela não gostava nem um pouco daquilo. – Você vai ou não me mostrar o Ciclope?

– Claro! Vou chamar Timóteo agora mesmo! – o rapaz jogou o avental sobre o balcão e estalou os dedos, no mesmo momento o letreiro na porta mudou. De “Aberto” foi para “Fechado”. Bateu palmas e as máquinas pararam de funcionar, enquanto isso ele já sumia atrás de uma porta de correr.

Nádia voltou para sua gangue, que tentava em vão tirar uma lata de coca-cola da máquina desligada.

– Ele desligou bem quando eu coloquei a moeda! Agora eu quero a minha coca! – exclamou Arthur, chutando a máquina.

– Calminha. – Nádia afastou os outros – Ei, sua imbecil, o que ta pensando? Ta ai rindo do meu amigo, é? Se não der o refrigerante dele, eu prometo e juro pelo Estige afugentar todas as suas pelas, vou tirar o óleo de todas as suas engrenagens e mudarei todos os números do seu painel. Ficará tão ruim que nem mesmo Hefesto conseguirá te concertar.

A máquina gemeu um pouco e então uma lata de Coca-Cola Zero rolou para baixo, no local onde se retirava o refrigerante.

– Você está tentando me enganar? Me dê agora mesmo uma Coca-Cola de verdade! – gritou Nádia, erguendo o punho.

A máquina gemeu ainda mais e rolou mais três latas.

– Ah, valeu. – Nádia sorriu, se agachando e pegando as latas. – Toma, a light fica com a Victoria.

– Obrigada – Victoria sorriu – Como sabia que eu só tomo refrigerante light?

– Arrisquei – Nádia deu de ombros. – Aqui... – entregou o resto do refrigerante para os amigos.

– Como você faz isso? – perguntou Arthur, meio impressionado.

– Faço o quê?

– Isso de conversar com a máquina?

– Consigo conversar qualquer um na base da violência. – Nádia abriu a lata com um simples gesto já automático – É um dom que minha mãe me deu. Posso convencer tanto mortais, como deuses ou máquinas.

– Você fez isso com aquela gorducha no Empire States.

– Sim – ela concordou. – Aprendi a usar isso no jardim de infância. O pessoal me adorava, sabia?

– Imagino – riu Arthur, compartilhando a ironia.

Sebastian, por sua vez, tentava em vão abrir a lata de refrigerante. Nádia e Arthur o encaravam, meio impressionados com as mãos desajeitadas de Sebastian. Era grandes e ao mesmo tempo ásperas e ele quase derrubou a lata umas duas vezes. Victoria estava ocupada demais admirando a sessão de salgados vegetarianos.

– Ah, fala sério – Nádia deu um tapa na mão de Sebastian, tomando o refrigerante dele. – Olha como se faz – mostrou o gesto rápido e quase automático de seu dedo. Nádia era viciada em Coca-Cola, e normalmente tomava litros todos os dias, junto com os filhos de Hermes.

Sim, ela não gostava de morar com eles e estava louca para se mudar logo para o novo Chalé, porém a vida boa lhe chamava a atenção. Os filhos de Hermes tinham tudo o que você pode imaginar, desde refrigerantes, até uma máquina para mantê-los frios. Ar-condicionado para o verão e uma lareira para o inverno. Eles conseguiam pegar quase qualquer coisa da loja de conveniência mais próxima do Acampamento.

Sebastian agradeceu.

– Você nunca tomou refrigerante em lata?

– Não – Sebastian admitiu. – Meus irmãos gostam de comprar garrafas dos filhos de Hermes, eles dizem que dura mais e sai mais barato.

Nádia riu.

– Você precisa sair mais um pouco, está tempo demais dentro do Acampamento. Se divertir às vezes é bom.

– Não tenho para onde ir. – Sebastian sorriu, sem jeito.

O rapaz ruivo e dos dentes tortos reapareceu, junto com um homem ainda maior que ele. O homem era ruivo, também, mas os olhos eram azuis vivos e o nariz era bem pequeno. Os lábios miúdos e as sobrancelhas grossas. Sobrancelhas não, a sobrancelha. Um único olho estava em sua testa, e por pouco Nádia não o diferenciou, pois a névoa era forte naquele ambiente.

– Desligue o sensor de mortais, Tadeu. – pediu o homem. – Olá, meus amigos! Vieram em busca de abrigo?

– Isso – Nádia concordou. – Você deve ser o ciclope de quem Hanna falou.

– Devo ser mesmo – O homem riu. – Me chamo Timóteo, e aquele é meu filho mais velho, Tadeu. Ele gostou muito de você.

– A é? – Nádia se remexeu, desconfortável – Ele é bem simpático.

– Tadeu faz amizade facilmente – Timóteo concordou – Entrem, a loja já fechou. – ele indicou a porta de onde ele e o filho tinham saído.

Nádia chamou os companheiros e eles seguiram Timóteo, porta adentro. O que viram, porém, os surpreendeu. Não era um estoque da loja, mas sim um arsenal de armas. Espadas, arcos, adagas e foices. Tudo o que você possa imaginar. De um canto, haviam armas de humanos, em outra armas brancas. E no centro um martelo gigantesco.

– Esse ai é a jóia rara da minha coleção – Timóteo sorriu – Estou guardando para o próximo Minotauro que aparecer por aqui. Mas, a sessão dos semideuses é por ai – Timóteo indicou com o dedo – Vou chamar minha filha e minha mulher. Já volto.

Eles concordaram com um meneio e colocaram as mochilas num canto na parede. Seguiram para o lugar indicado por Timóteo, e encontraram realmente armas que eles usavam no Acampamento. Espadas de todos os tamanhos, grossuras e poderes. Algumas estavam etiquetadas com “para filhos de Poseidon”, “para filhos de Ares”, e outros somente tinham preços. Tudo em troca de dracmas.

Arthur, um perito em armas, pegou um revólver na mesa ao lado e a testou.

– Ótimo. – comentou. – Vou querer uma. Só por precaução.

– Semideuses usam armas brancas – censurou Sebastian.

Ele pegou uma aljava que estava pendurada em um prego torto na parede de alvenaria. Inspecionou-o e então retirou uma de suas flechas. Elas eram douradas e as penas eram negas. A ponta era feita de bronze celestial, que brilhava.

– Isso aqui mergulhado em veneno de Medusa... Ou então em sangue de centauro... Uma belezinha – comentou Sebastian, movendo a flecha entre os dedos.

– Para isso você não é desajeitado, hein. – riu Nádia, fazendo uma piada.

– Nasci para atirar! – ele exclamou, mas logo sua atenção se direcionou a outra aljava.

Nádia deu de ombros e olhou ao redor. As armas que ela melhor manejava eram espadas, embora ela conseguisse usar qualquer uma. Sua atenção, porém se voltou para uma parede que tinha lanças das mais variadas formas e tamanhos. E então ela encontrou a arma ideal para ela. Uma foice negra. Parecia ser o único objeto daquele tipo, pois não viu nenhuma outra foice.

Timóteo voltou de braços dados com uma mulher e com uma garota de mais ou menos treze anos ao lado. As mulheres disseram “boa tarde” e se apresentaram como sendo Lúcia, a mais velha, e Majória, a menor. Quando ouviu o nome Lúcia, Nádia se lembrou de Lucy, a pequena menina do Acampamento, e pensou se Hanna estaria com ela agora. Com certeza estaria.

A mulher não era uma ciclope, nem a menina.

– E então, já escolheram suas armas? – Timóteo abriu um sorriso gigantesco.

– Eu vou ficar com essa aqui – Victoria balançou a adaga nas mãos.

– Ótima escolha – Timóteo comentou – Se você virar o cabo para cima e pressionar o ferro, ela se torna uma linda pulseira.

– Legal! – Victoria fez o que ele disse e realmente a adaga se transformou em uma pulseira, envolvendo o pulso de Victoria e a fazendo rir consigo mesma.

Arthur saiu do meio das armas e mostrou sua pontaria, atirando contra um dos alvos feitos de espuma.

– Eu quero essa aqui. – ele disse. – É perfeita.

– Realmente. Embora ela não possa ser disfarçada, como as outras. Esta arma não foi feita para semideuses, mas posso te dar ela por um preço bem camarada.

Arthur assentiu, colocando a arma por dentro da calça e testando para ver se seria fácil tirá-la da cinta e prepará-la para atirar.

– Eu quero esse arco – mostrou Sebastian. – E a aljava que vem junto com ele.

– Sim, é um arco bem forte e resistente, pode segurar até mesmo cinco flechas ao mesmo tempo. Mas tem um problema, ele se transforma em uma presilha, pois foi feito pensando em uma arqueira, e não um arqueiro.

Sebastian testou, balançando o arco no ar e vendo-o diminuir até formar uma pequena presilha, com o desenho de uma Lua e um Sol. A aljava também diminuiu e se transformou em uma bolsa a tira colo, feminina.

Sebastian encarou suas armas, decepcionado.

– Tome – entregou a presilha para Nádia – Fique com ela enquanto eu não precisar usá-la. A aljava em formato de bolsa pode ser usava?

– Não – Timóteo respondeu – Se você abrir o zíper, ela volta a ser uma aljava.

Sebastian assentiu, ainda decepcionado. Mas não tinha desistido de sua arma, estava decido a comprá-la.

– Escolham qualquer coisa, eu tenho dracmas de sobra – Victoria comentou mais cedo. – Minha mãe me dá mesada, sabia?

Todos tinham se entusiasmado com isso.

Por fim, chegou a hora de Nádia mostrar a arma escolhida.

– Eu quero essa belezinha aqui – ela tirou a foice do gancho da parede. – É única.

Timóteo tirou o peso de um pé e colocou no outro, se movendo, ligeiramente irritado. Ao contrário dele, os olhos de Majória brilhavam de entusiasmo e admiração. Nádia não entendia o que os filhos de Timóteo tinham com ela.

– Essa foice foi feita por Maj... – Timóteo moveu a mão, em discordância – Não está a venda.

– O quê? – Majória se virou para o pai. – M-Mas o senhor disse que iria colocá-la junto com as outras!

– Eu coloquei – o pai revidou com o mesmo tom adolescente na voz.

– E também disse que iria vendê-la! Pai! O senhor prometeu!

Lúcia colocou a mão sobre o ombro da filha e sobre o braço do marido.

– Teo, por favor, você sabe o quanto Maj se empenhou nesta foice.

Timóteo balançou a cabeça, irritado.

– Mas ela não sabe fazer armas! Foi o primeiro trabalho bem sucedido dela, e se der problema? O meu lema é: Armas boas, você seguro.

– O seu lema é: Armas boas, por um alto preço. – discordou a mulher, rindo de leve. – A foice está a venda. E eu a abençôo.

– Abençoa? Uma foice? – Sebastian pareceu descrente. – Tem como fazer isso?

– Para os deuses, tudo é possível – Lúcia piscou – Sou a deusa da crueldade e do mau-caminho. Irmã mais nova de Bia. – Lúcia piscou para Nádia – Muitos não me conhecem, fui esquecida da história pois apoiei os titãs.

– Apoiou? Mas por quê? – Victoria parecia indignada – Como pôde trair sua raça?

– Motivos pessoais – a deusa deu de ombros – Minha filha, Majória, é uma deusa menor da voracidade. Meu filho é um deus menor do trabalho duro. Meu marido é um ciclope, e bem, minha vida agora é essa loja. – Lúcia deu de ombros – De tempos em tempos recebo um convite do Olimpo para participar do Solstício, mas... Não tenho por que ir... Sempre que caminho pelas ruas, algum desastre acontece.

Nádia sentiu o quanto a deusa estava decepcionada com o seu poder.

Eu não conheço muito bem a deusa Lúcia, só sei que ela é um doce de pessoa, ao contrário de seu poder de destruição. Sendo irmã mais nova de Bia, é da família dos esquecidos. Muitos deuses foram esquecidos, entre eles o deus da vida da arte, que por algum motivo não existe mais. Ele era o deus ao qual eu servia, mas Apolo tomou seu lugar, e realmente eu não gosto nada de Apolo. Adoraria ser um corvo para servir á sua irmã.

– Eu realmente quero essa foice – ela decidiu.

Majória sorriu, tendo a certeza da vitória contra o pai.

Timóteo não ficou satisfeito com isso, mas não interveio. Por algum motivo, Nádia sentiu que aquela foice não era somente uma obra feita pela pequena Majória, mas sim uma arma poderosa. Após ser abençoada por Lúcia, aquilo seria capaz de matar quase tudo que quisesse, caso, é claro, o herói que a usasse fosse competente o bastante para confiar nela.

Timóteo recolheu todas as armas para fazer a conta final de quanto tinham a pagar, enquanto isso, Lúcia e Majória levaram os convidados para dentro de casa, que ficava atrás do arsenal. Era uma casa simples, mas ajeitada. Cheia de flores, vida e muita decoração. Lúcia tinha um belo gosto pelo azul celeste.

– Minha cor preferida – ela comentou.

As persianas eram brancas e casa era pintada de azul claro. Nádia trincou os dentes. Tinha azul demais em tudo aquilo ali. A mobília também era feita de madeira branca, o fogão era de lenha e o poço ficava ao lado da casa. Parecia uma linda e perfeitinha casa de fazenda. Lúcia os acomodou no quarto de hóspedes e lhes deu toalhas para que tomassem banho.

– Volto daqui alguns minutos para servi o lanche da tarde – ela diz, voltando para a cozinha.

Arthur e Victoria se sentaram nas camas, abraçados e cansados. A viagem até ali tinha sido desgastante, embora não tenham feito muita coisa. Viajar com um deus, brigar com Helíades e pegar uma carona. Agora estavam como hóspedes na casa de um Ciclope e de uma deusa esquecida.

– Me contaram que os deuses desaparecem quando são esquecidos – disse Sebastian.

– E por que Lúcia ainda não sumiu?

– Alguém ainda lembra-se dela – Nádia disse o óbvio.

– Quem?

– Como quer que eu saiba? – Nádia fuzilou Sebastian com os olhos – Você que é o filho de Zeus, diz ai.

Sebastian encolheu os ombros, mudando o olhar para outro lado, enquanto tentava desviar daquela conversa. Nádia deitou-se na cama e então se lembrou de algo que tinha colocado dentro da mochila.

– Deixamos nossas mochilas no Arsenal. – ela lembrou – Vou buscá-las.

– Eu vou com você. – Victoria logo se levantou.

º º º

Meu gosto musical é bem variado, sabe. Eu gosto muito do rock clássico, mas o country também é muito divertido. Mas o meu estilo musical preferido é a bossa-nova. Nada supera ela. Não sou muito de rodar pelo mundo, mas curto uma banda brasileira chamada Roupa Nova, eles possuem músicas definitivamente mais cheias, possuem muito mais conteúdo do que as músicas de hoje em dia.

Mas olhe para mim, até pareço um velho falando!

Nádia aceitou ser a terceira a tomar banho. Victoria só conseguia tomar banhos quentes, já Sebastian só tomava banhos frios, por causa de suas asas. Arthur não fazia questão de temperatura, e como Nádia preferia banhos mais mornos, a ordem ficou desse jeito. Em sua hora, a água quente tinha esfriado quase por completo e estava cheirando a sabonete, pois Victoria e Arthur já a tinham usado. Os joelhos ficavam para fora das águas, e os ombros também. Mas o resto de seu corpo cabia na banheira de madeira. Não era nada confortável, porém a água parecia mais limpa que o normal. A banheira era revestida de uma cola especial, retirada das árvores, para que a água não vazasse pelas frestas.

Nádia derramou outra caneta sobre a cabeça, se arrepiando. Lavou os cabelos com o sabonete e o corpo com a esponja. Tomou cuidado com o joelho, que estava machucado. Enquanto arrumava as malas, ela bateu o joelho na beirada da cama, o que doeu muito. Arthur viu e informou que não tinha sido nada grave, mas um pequeno hematoma tinha se formado.

Nádia, por sorte, tinha colocado roupas extras dentro da mochila: uma camiseta vermelha regata, uma bermuda camuflada e uma bandana, caso tivesse de prender os cabelos. Nádia não tinha lá um senso de moda muito apurado, gostava de coisas camufladas e sua cor preferida era o vermelho. As bandanas eram sua paixão.

Talvez, nesse sentido, ela fosse quase parecida com uma filha de Ares.

Logo ela tinha acabado o banho e então se enrolou na toalha. Secou-se e vestiu-se, saiu do banheiro e deu lugar para Sebastian, que por alguns segundos ficou maravilhado com o aroma de sabonete que exalava de seus cabelos.

– Você usou o sabonete? – Victoria ficou descrente. – Mas ele destrói totalmente o cabelo! Eu trouxe xampu, por que não me pediu?

– Eu não ligo pra isso – Nádia deu de ombros.

Arthur soltou uma risada fraca e envolveu sua namorada, com afeto.

– Ainda não entendo porque nos escolheu. – ele comentou.

– Porque eram as pessoas mais próximas que eu tinha.

– Acho que não – Arthur beijou o ombro de Victoria antes de continuar. – Vi como conversou com Hanna, vocês não são apenas conhecidas.

– Qualquer pessoa que olhe para Hanna já é considerada sua amiga. Ela faz amizade fácil demais – Nádia deu de ombros – Mas mesmo assim, eu não a considero uma amiga. Talvez uma conhecida.

– E eu também não sou seu amigo, nem mesmo Victoria. – ele indicou a namorada com seu queixo.

– Mas nós já passamos bastante tempo juntos e... Pensei que seria mais agradável passar o tempo perto de pessoas mais educadas. – deu de ombros – Também fico me perguntando qual foi o motivo.

– Talvez você tenha sentido que devia nos escolher – Victoria, que até agora só tinha olhado para ela em tom de censura, soltou um leve sorriso carinhoso. – Algumas vezes o destino nos manda fazer coisas estranhas, mas que por algum motivo nós obedecemos.

Nádia só pode assentir, enquanto refletia sobre aquilo. Será mesmo?

Até agora não sabia que Victoria pudesse pensar em outra coisa que não fosse moda, seu namorado e coisas coloridas. Mas, por algum outro motivo ainda desconhecido, sentiu que Victoria a tinha como uma amiga, e desejou com tudo o que tinha também considerá-la. Mas era difícil. Nádia tinha quase certeza de que jamais consideraria alguém um amigo.

Por que era tão fácil para os outros? Era só isso, decidir e pronto. Alguma coisa a bloqueava em relação aos sentimentos. Ela não tinha ligação fácil com as emoções, e isso a atormentava. Era como se houvesse uma barreira, impedindo-a de tocar no ouro.

Eu disse para você que sou um bom filósofo.

Sebastian entrou no quarto, trazendo um novo aroma de banho. Ele tinha lavado os cabelos com o sabonete, igual à Nádia, e até mesmo pediu para Arthur cheirar os fios loiros, para ter certeza de que estavam tão cheirosos quando os de Nádia. A menina teve certeza de que Sebastian era um imbecil.

Ele vestia, agora, uma calça preta e uma camiseta também preta. Penteou os cabelos para trás, do mesmo jeito que tinha feito no dia em que passou no chalé de Hermes, para buscar Nádia. Ao se lembrar disso, ela também recordou de sua conversa com Hanna. O que Sebastian tinha dito á Teo? Nádia mordeu os lábios, tentando não falar nada sobre aquilo, porém a curiosidade a corria.

– Que tal uma rodada de verdade ou consequência? – sugeriu Victoria, pegando uma caneta sobre a cômoda de sua cama e a colocando no chão.

– Tudo bem. – concordou Arthur, se sentando ao lado da namorada, de pernas cruzadas.

– Parece divertido – Sebastian sorriu, enquanto imitava a pose de Arthur e se sentada do outro lado de Victoria, deixando somente mais um espaço para Nádia.

Ela se corroeu, mas dessa vez não era curiosidade, era outra coisa.

Uma coisa tão obscura que nem mesmo eu sou capaz de decifrar?

– Eu também? Sério?

– É. – Victoria riu – Pensou o quê? Que íamos jogar sem você?

Nádia corou e, surpreendentemente, deu-lhe um sorriso natural. Se sentou no chão, com as pernas para o lado. Quando Victoria rodou a caneta, suas pontas foram parar para Arthur e Sebastian. Eles piscaram um para o outro, como se já soubessem o que iriam perguntar.

– Arthur, o que mais te irrita na Victoria? – Sebastian perguntou.

– Esse jeito dela de ser tão linda. Chama atenção dos outros caras e eu sou muito ciumento, sabe... – Arthur lançou um olhar longo para Victoria, que apenas sorria corada.

– Certo – Nádia concordou. – Minha vez de rodar.

Ela o fez. As pontas da caneta foram para em Victoria e Arthur.

– Qual é a música que você ouve quando quer pensar em mim? – ele perguntou.

– Eu ouço Adele. – ela sorriu. – Todas as faixas.

Arthur assentiu, como se já soubesse disso.

Sebastian rodou a caneta e ela caiu em Nádia e Victoria. Náida estava ansiosa pois nunca tinha jogado algo assim.

– Eu quero consequência. – Victoria sorriu.

– Consequência? O que eu faço? – ela perguntou.

– Diz alguma prova que a Vic vai ter de cumprir. – Arthur informou.

Nádia pensou bem.

– Tire uma foto com o Arthur e segure uma plaquinha dizendo “Ta perdendo feio, hein, Apolo”.

Victoria abriu um sorriso do tamanho do mundo.

– Eu amei a Nádia – ela falou virando para Arthur – Sorte que eu trouxe uma câmera.

– Por que você trouxe uma câmera? – Arthur quis saber.

– Porque eu quero guardar pra sempre essa missão. Vou enviar para Apolo e depois tirar uma cópia e colocar na parede do meu beliche! – exclamou.

Ela pegou uma folha de papel de sua mochila, escreveu e então tirou a foto com Arthur, mostrando-a para Nádia, antes de voltar para se sentar. Por fim, Arthur pegou a caneta e a rodou. As pontas estavam voltadas para Arthur e Sebastian, novamente. Eles trocaram aquele típico sorriso camarada e então Arthur perguntou:

– Sebastian, qual a coisa que você mais gosta na Nádia?

– Seria mais fácil perguntar o que eu não gosto. – Sebastian fixou os olhos no chão.

Nádia revirou os olhos verde-enjoados e colocou uma mecha de cabelo para trás da orelha. Jogaram mais algumas rodadas, até que Lúcia apareceu na porta do quarto, chamando-os para o jantar. Filé de bode com uma camada de suco de laranja e vinho branco. De acompanhamento, arroz temperado com cenoura e purê de batata.

Estava uma delícia. Infelizmente eu só pude ficar olhando, pois ninguém nunca se lembra de mim. Tudo bem, eu tinha levado uma barra de cereal caso isso acontecesse...

Voltaram para os quartos, prontos para dormir. Logo mais estariam acordados, cinco horas da madrugada, o céu ainda escuro e a família da deusa ainda adormecida. Mas estariam dispostos. Nádia se sentou em sua cama, coçando os olhos e retirando a remela do canto dos olhos. Se espreguiçou e ouviu alguém sorrir. Olhou para cima, era Victoria. Ela já tinha acordado e a observava.

– Bom dia, flor do dia. – Victoria se sentou na cama, imitando Nádia. – Dormiu bem?

– Melhor impossível – Nádia ironizou, lembrando-se da insônia alguns minutos antes de adormecer.

Victoria se levantou e acabou acordando Arthur, que dormia na cama embaixo da sua. Olhe, no quarto de hóspedes tinham duas camas. E como Nádia e Victoria se recusaram a dividir a cama com os meninos, e assim tiveram de improvisar outras duas camas no chão. Arthur e Sebastian cederam as camas para as meninas e dormiram no chão.

Nádia olhou para Sebastian, que ainda dormia como uma pedra.

Victoria tentou acordá-lo, porém Nádia pediu para que não o fizessem. Eles se sentaram todos na cama de Victoria.

– Vocês se conheceram no Acampamento? – ela perguntou, sem muito que dizer.

– Sim – concordou Arthur – Eu estava com dificuldade no meu pégaso, e como uma boa ajudante, Victoria me ajudou.

Victoria sorriu, quase se lembrando do ocorrido. Nádia assentiu.

– Eu nunca gostei de casais, sabia?

– Sim. – Arthur concordou, abraçando a namorada. – Mas por quê?

– São felizes demais. Não gosto de pessoas felizes demais. São enjoativas, chatas e irritantes.

– Algumas pessoas dizem que a alegria de um irrita os outros.

– É. – Nádia fez um gesto com a cabeça, repousando-a na parede. – Tem razão. Vocês me irritam demais.

– Mas você gosta da gente – Victoria riu, levemente.

– Sim. – Nádia sorriu, naturalmente. De repente sorrir tinha virado normal.

– Ele gosta de você. – Arthur indicou o queixo para Sebastian.

– Eu sei. – Nádia riu, olhando o corpo inerte do menino.

– Deveria dar uma chance. Poucos meninos gostam de garotas selvagens – Victoria a cutucou no ombro.

Nádia a encarou. Teve certeza absoluta de que Victoria já a tinha como uma verdadeira irmã.

º º º

– Obrigada! – exclamou Victoria – Irei falar de você no Olimpo, quando voltarmos!

– Não precisa. – Lúcia sorriu, gentilmente. – Prefiro a escuridão.

Eles foram para a beira da estrada pedir carona.

E logo a moça que estava indo para Oklahoma apareceu em sua perua. Era um carro vermelho escarlate, com vidro preto e uma placa com os dizeres “Los Angeles, Baby”. A mulher parou assim que viu os garotos acenarem. Eles explicaram que queriam ir para Oklahoma e a moça concordou em dar uma carona até a fronteira entre Oklahoma e Colorado. A mulher, uma loura de olhos castanhos, sorria sempre que Arthur e Victoria trocavam carícias. Ela conversava sempre que tinha uma brecha e tentava falar o máximo sobre suas coisas preferidas.

– Eu adoro os cassinos! – ela exclamava sempre – E o chocolate da Alemanha é uma delícia! Já comeram a torta de lá?

– Não. – Nádia tentou não olhá-la.

– Pois deveriam. Vocês nunca comerão torta melhor!

Nádia tentou passar cera nos ouvidos, infelizmente não tinha cera.

Quem se sentava no bando da frente era Sebastian, e ela tinha de ficar vendo e ouvindo o casal apaixonado trocar juras de amor.

– Sabiam que eu já tive um namorado? É, ele era tão fofo quanto esse garoto ai – ela disse olhando para o retrovisor, na direção de Arthur – Ele dizia que me amaria pra sempre, mas me trocou pela minha professora de álgebra.

– Quantos anos você tinha?

– Dezenove. – a mulher sorriu. – Um ano atrás.

Nádia revirou os olhos, se escorando na janela. Sua respiração embaçava o vidro e do lado de fora ela conseguia distinguir o céu de verão. Aquilo tudo estava estranho, no dia anterior o céu tinha ficado negro, hoje estava azul e sorridente. O Sol brilhava e não havia nuvem alguma. Muito estranho.

Seis horas de viagem depois, eles estavam parando para comer um McLanche no meio da estrada. Foi estranho o jeito como encontraram a loja. Enquanto olhava para frente, Nádia não viu nada, e assim que virou o rosto, uma loja prontinha. Não entendeu muito bem, mas julgou ser aquilo de “transação”. Era um complô de monstros que tinha uma linha que se espelhava rapidamente.

– Vamos parar para comer um pouco! – exclamou a moça, que alguns minutos antes informou que seu nome era Madalena.

Madalena pagou um lanche para cada um deles, com dinheiro vivo. E o carro também sugeria que ela fosse bem financeiramente. Ah, obrigado, Hipnos, ar-condicionado no carro é uma beleza!

Comeram e logo voltaram para a estrada. Fartos e de barriga cheia (quem não resiste á batata frita de graça?). Nádia adormeceu no bando de trás, junto com Arthur, que aproveitou que Victoria estava no bando do acompanhante. Sebastian, entre os dois adormecidos, ficou em silêncio. Observando a estrada em linha reta. De repente um som de trovão invade o carro.

Não, não era um trovão. Sebastian sabia disso, aquilo não era o som de seu pai. Aquilo era... Olhou para trás. À primeira vista, avistou um bando de cavalos selvagens correndo na direção do carro. Depois, enquanto sua visão se acostumava, a névoa passou e ele viu o corpo dos homens. Eram centauros. Todos com porretes, toras, arcos e laças. Tinham sangue em seus cabelos, raiva em seus olhos. E corriam como o vento. Tinham sede de morte.

– Rápido! – ele gritou para Madalena.

Madalena olhou o retrovisor e viu os cavalos.

– Droga, eu não vi nenhum rancho por aqui!

Madalena pisou fundo no acelerado, enquanto os centauros se aproximavam. Ela ficava o tempo todo reclamando que não gostava de cavalos e que não tinha visto nenhum anuncio na rua falando sobre eles. Sebastian sabia que a névoa a controlava, e assim Madalena só conseguia ver cavalos normais correndo, não os ferozes e vorazes centauros selvagens.

Olhe, querido leitor, existem os centauros bons e os centauros maus. Os centauros bons são legais como a Senhora M (talvez um pouco mais legais) e o nosso sumido Quíron, que saiu de férias alguns meses atrás. Os centauros maus viveram tempo demais escondidos do mundo real, foram aprisionados pelos mortais e contrabandeados. Como se fossem animais de verdade. E isso causou um curto em seu cérebro e agora pensam que realmente são animais selvagens.

Sebastian ficou tentado a acordar os outros, mas eles não mereciam passar por aquele pânico. Então se lembrou de Victoria.

– Victoria! – gritou.

Infelizmente ele acabou acordando Nádia. Com um pulo, percebeu que Victoria estava ligando para alguém. Um celular, ele pensou, com certeza fora aquilo que chamou a atenção dos centauros. Monstros não te atacam assim, do nada. Se você não der sinal de vida, eles te deixam em paz, mas para um semideus ter um celular é a mesma coisa que gritar bem alto no canal da Globo “Venham me comer, carne sem gordura e muito macia!”.

– Que poha ta acontecendo aqui? – Nádia olhou para trás. – Merda, merda, merda...

– Desliga essa coisa, Victória! – Sebastian pediu.

Victoria deu um tchau rápido no celular e então o enfiou debaixo do jeans.

– Me dê isso. – Sebastian, muito paciente.

Ela entregou o telefone na mão dele, que o atirou para fora da janela.

– O que você fez? – Victoria se virou para trás, tentando agarrar os cabelos louros de Sebastian.- Eu vou te matar!

Nádia puxou Sebastian para trás, obrigando Victoria a se esticar mais. Neste meio-tempo, Arthur já tinha acordado e estava atônito diante daquilo.

– Crianças, tenham cuidado! – Madalena pediu. – Desse jeito eu posso perder a direção do volante!

Um plim fez a cabeça de Nádia começar a funcionar.

– Não, volte pro seu lugar, agora Victoria!

– Não me dê ordens! – Victoria gritou – Ele jogou meu celular fora!

– Não se lembra que foi exatamente isso que aconteceu no carro de Apolo?

Victoria piscou algumas vezes, antes de entender onde Nádia queria chegar. Tarde demais, o carro deu uma virada violenta e o corpo de Victoria caiu sobre os braços de Madalena, fazendo a motorista rodar ainda mais o volante. Sebastian esmagou Nádia contra o vidro e o carro parou violentamente após o primeiro impacto. Não tinha capotado, apenas feito uma virada violenta.

º º º

Quando abriu os olhos, percebeu que o sangue a consumia. Victoria deu um salto do colo de Madalena, que tinha os cabelos louros completamente encharcados de sangue e o nariz quebrado. O vidro do lado de sua cabeça tinha arrebentado e entrado por seu ouvido. Morta. Victoria começou a tremer.

– Arthur! – gritou – Arthur!

Arthur se moveu, ligeiramente preso entre o corpo de Sebatian e de Nádia. Sebastian tinha desmaiado com o impacto, Nádia estava consciente e já se levantava. Todos ficaram em silêncio quando ouviram o som dos cascos pararem. E então o carro se encheu do cheiro de estrume.

– Os centauros... – sussurrou Victoria.

– Shiiu – pediu Nádia.

Em silêncio, ouviram o som dos cascos se aproximando. O primeiro centauro apareceu, e logo o segundo. Eles olharam dentro do carro e então se entreolharam. Farejaram o ar e, após sentirem o cheiro do sangue de Madalena, partiram pela estrada.

– Acharam que estávamos mortos?

– Eles pensam que são animais. – Sebastian respirou fundo – Devem ter se guiado pelo cheiro. O sangue é mais fedido que a vida.

– Sorte nossa. – Arthur tentou se livra de Sebastian, que estava sobre sua perna esquerda. – Mas agora estamos sem motorista.

– E eu estou cheia de sangue. – reclamou Victoria.

– Eu sei dirigir. – Sebastian comentou.

– Sério? – Nádia riu.

– Sim. – ele se levantou e abriu a porta, pulando o corpo de Nádia e se esticando do lado de fora – Vou retirar o corpo da mortal. Ajude-me. – pediu para Nádia.

Ela concordou com um meneio e foi até onde ele estava, abriram a porta do motorista e retiraram o corpo de Madalena. O colocaram do lado da estrada. Sebastian fez uma pequena prece em nome de Madalena para que ela descansasse em paz. Eles limparam o que conseguiram do sangue e o retiraram o resto do vidro do carro. Ele ainda estava funcionando, por sorte.

Tinha batido no parapeito da estrada. Uma placa alguns quilômetros dali indicava que estavam a 13 quilômetros de Oklahoma.

Victoria foi para o banco de trás cuidar de Arthur, que tinha fraturado o joelho da perna esquerda. Sebastian deu a partida e Nádia se sentou no banco do passageiro. Acelerando um pouco demais, o filho de Zeus saiu em disparada.

º º º

– Aquilo ali é uma blitz? – Nádia perguntou.

– Acho que sim. – Sebastian estacionou. – Pois não, seu guarda?

Nádia revirou os olhos, virando o rosto para o outro lado.

– Carteira de habilitação. – o policial pediu.

– O que é isso? – Sebastian sorriu.

– O cartão que você usa para comprovar que é habilitado.

– Eu tenho que ter isso?

– Normalmente – o policial tirou o peso de um pé e colocou no outro.

– E se eu não tiver?

Nádia nunca fora presa em toda sua vida, e sua primeira experiência não foi lá como esperava. Sendo a filha da deusa da violência, todos pensavam que ela era uma menor com inúmeras ocorrências, mas não. Sua ficha era limpa e o máximo que ela já fez foi ameaçar o guardinha de sua rua que a proibiu de sair de bicicleta depois das nove da noite.

A cadeia era um lugar muito confortável, na verdade. Alguns presos tinham até televisão em suas celas! Embora ainda não tivesse entrado na sela que seria designada para eles, sentiu-se em casa. Sebastian, por outro lado, estava muito desconfortável. Assim como Victoria e Arthur.

– Nádia, faz alguma coisa – Victoria pediu.

– Tipo o quê?

– Sei lá, ameaça eles. – ela sugeriu.

Era uma boa idéia.

Nádia limpou a garganta e bateu a mão algemada na mesa de um dos policiais, chamando a atenção de todos que estavam na sala.

– Escutem aqui, seus filhos de Medusa, ou vocês me soltam ou eu meto a mão na cara de vocês! To falando sério, seus montes de merda. Eu arranco suas orelhas e dou para Papai Noel pendurar em sua árvore de Natal!

Um dos policiais soltou uma risada frenética, porém outro pegou uma pequena chave e abriu as algemas de Nádia, quase se borrando nas calças. Fez isso com os outros e saiu correndo para debaixo de sua mesa. O policial que riu, entretanto, tirou da cintura sua arma e a apontou para Nádia.

– Você pode enganar esses mortais, mas a mim você não engana, criança.

– Quem é você? – Nádia sorriu, com as mãos na cintura.

– Sou Pitelomeu, filho de Hermes.

– Um filho de Hermes na polícia?

– Os policiais não entregam uns aos outros, e além disso quem vai suspeitar de um fardado? – Pitelomeu sorriu, mas ainda mantinha a arma apontada para eles. – Quem são vocês? Monstros disfarçados?

– Somos semideuses do Acampamento Meio-Sangue. – Sebastian deu um passo a frente.

– Do Acampamento? – Pitelomeu abaixou a arma – Ele ainda existe?

– É claro – Arthur concordou.

– Você é aquele filho de Hermes que ajudou a roubar a foice de Cronos? – perguntou Sebastian, maravilhado.

– Sou eu sim. – Pitelomeu pareceu orgulhoso – Vejo que sou reconhecido por meu trabalho... E é bom ver que o Acampamento ainda está de pé, e com missões para os jovens. Pois bem, preciso voltar ao meu trabalho. Falando nisso, tenho que ir para a fronteira do Colorado, vocês não estavam indo para lá?

– Isso. – concordou Nádia.

– Querem uma carona, meus amigos?

– Por que não? – Sebastian uniu as mãos, muito animado.

º º º

A viagem para cruzar Oklahoma não era fácil. Demorariam pelo menos mais seis horas de viagem, ou seja, teriam de virar a noite no carro. Mas Pitelomeu sabia muito bem como viajar. Ele conhecia atalhos e parecia que o carro simplesmente obedecia qualquer de seus comandos. Sempre que falava “vamos correr mais”, o carro acelerava, e o volante de movia sozinho. Quando Pitelomeu, por fim, resolveu tirar um cochilo e Sebastian se ofereceu para tomar conta do volante, o filho de Hermes apenas sorriu e disse:

– Não se preocupe, ele sabe como seguir sozinho.

Dormiu como uma pedra.

– Já é nosso segundo dia de missão. O Solstício é daqui sete dias. – lembrou-se Nádia. “Ainda não sei que alma eu poderia usar”. – Acho que devo contar uma coisa para vocês...

– Sim – Arthur se ajeitou, com Victoria bocejando em seu peito. – Pode falar, Nádia.

Sebastian virou a cabeça para trás, já que estava no banco do passageiro.

– Eu acho que vou morrer.

– O quê? – Arthur perguntou, tão calmamente que a enjoou.

– Apolo me disse que eu tinha somente mais alguns dias de vida. Até o Solstício de Verão eu posso mudar isso, mas somente se conseguir uma alma que Hades queira. Eu não sei quem ele poderia querer...

– Já ouvi uma história parecida – comentou Sebastian, incrivelmente calmo. – Uma alma por uma alma, não? Dizem que Dédalo seria trocado por uma alma que já tinha morrido.

– Dédalo? – Victoria perguntou – Mas ele deve ter uns três mil anos.

– Tinha. Até uns vinte anos atrás. Agora não é mais nada. – Sebastia contou – Meus irmãos vivem contando essas histórias. O Acampamento já viveu seus anos de ouro... Mas agora, que os heróis verdadeiros se formaram e foram cuidar de suas vidas, tudo se tornou pacato.

– Até mesmo Dionísio resolveu fugir para se divertir – sorriu Arthur, brincando.

– E eles conseguiram? – Nádia perguntou, com a voz baixa.

– Conseguiram o quê? – Sebastian devolveu a pergunta.

– A alma, trocar a alma.

– Não sei. Mas acho que acabaram desistindo e Dédalo morreu por conta própria. Não conheço nenhuma outra história sobre uma alma por uma alma. Desculpa.

Nádia abraçou os joelhos, encarando o vidro e novamente vendo sua respiração embaçá-lo.

O que é que Sebastian disse para Teo? Esse pensamento lhe inundava a cabeça. Iria morrer sem saber? Ela não queria morrer. De jeito nenhum. Tentou, por fim, fazer algo que nunca tinha feito. Bia, por favor... Me ajude...

Não houve resposta.

Notas finais
:) E pros recalcados: Xiu, que por mim eu trocava sua alma pela do Hitler.