O Décimo andar

23 O Fantasma da Idade


O destino, que parecia ter finalmente encontrado o equilíbrio, estava prestes a sofrer um novo e violento desvio. O que deveria ser a noite mais feliz da vida de Eloah tornou-se o cenário de um pesadelo recorrente.


​Arthur estava no ápice da sua felicidade. No bolso do paletó, uma pequena caixa de veludo guardava um solitário de diamante que simbolizava o futuro. Antes de buscar Eloah, ele passou no escritório para pegar um documento, mas foi interceptado por seu pai, o Dr. Meirelles Sênior, um homem que era a personificação da rigidez e da tradição.

​— Arthur, sente-se. Precisamos falar sobre essa... situação com a filha do Ricardo — disse o velho, com a voz gélida.

​— Pai, não é uma situação. É o meu futuro. Eu vou pedi-la em casamento hoje.

​O pai de Arthur soltou uma risada seca e amarga.

​— Casamento? Você enlouqueceu de vez? Olhe para ela, Arthur! Ela tem vinte e poucos anos. Ela acabou de começar a vida. Você vai ser o homem que vai prender uma águia antes mesmo dela aprender a voar?

​— Nós nos amamos, isso é o que importa — Arthur rebateu, mas sentiu a primeira fisgada de dúvida.

​— Amor? O amor é egoísta, mas o caráter não. Se você a ama, deixe que ela viva! Daqui a dez anos, você será um velho e ela estará no auge da beleza e da carreira. Ela vai olhar para o lado e ver um homem que poderia ser o pai dela, e vai se perguntar o que fez da juventude. Você quer carregar a culpa de ter estragado a vida de uma mulher brilhante apenas para satisfazer seu capricho de meia-idade? Seja homem, Arthur. Deixe-a ser livre antes que ela comece a te odiar por tê-la prendido.

​Aquelas palavras entraram como veneno na mente de Arthur. O medo de ser um fardo, o medo de ser o "vilão" na história de Eloah, começou a paralisá-lo.

​O jantar foi um desastre silencioso. Eloah percebeu o olhar distante de Arthur, a mão dele que não buscava a dela. No caminho de volta, o silêncio no carro era tão pesado que ela mal conseguia respirar. Quando ele parou em frente ao prédio, no nono andar, ele não desligou o motor.

​— Arthur? O que está acontecendo? Você não disse uma palavra a noite toda.

​Arthur encarou o volante, as mãos apertando o couro até os nós dos dedos ficarem brancos.

​— Eu não posso fazer isso, Eloah — ele disse, a voz soando morta.

​— Fazer o quê? O jantar? O processo?

​— Nós — ele finalmente olhou para ela, e os olhos prateados estavam cheios de uma frieza forçada que ela já conhecia. — Eu estava cego, mas meu pai me abriu os olhos. Isso é uma loucura. Olhe para você... você tem o mundo inteiro pela frente. E olhe para mim. Eu sou o seu passado antes mesmo de você ter um presente.

​— Do que você está falando? — Eloah sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. — Nós passamos por tudo! Meus pais aceitaram, o escritório aceitou...

​— Mas eu não aceito mais ser o homem que vai te impedir de viver — Arthur aumentou o tom de voz, tentando convencer a si mesmo. — Você é jovem, Eloah. Você precisa viajar, conhecer outras pessoas, errar, acertar... e não ficar presa a um homem que já viveu tudo o que tinha para viver. Eu não vou estragar a sua vida.

​— Você está estragando a minha vida agora! — ela gritou, soluçando. — Você está decidindo por mim o que eu quero? Eu quero você!

​— Você acha que quer agora. Mas aos trinta, você vai me olhar com ressentimento. E eu não vou esperar por esse dia. Acabou, Eloah. Vá viver. Procure alguém da sua idade, alguém que tenha o mesmo ritmo que você.

​— Arthur, por favor... não faz isso de novo — ela implorou, segurando o braço dele.

​Arthur se soltou bruscamente, a dor em seu rosto mascarada por uma máscara de indiferença cruel.

​— Saia do carro, Dra. Cavalcante. Amanhã, pedirei que transfiram seus casos para outro associado. Não haverá mais contato pessoal entre nós. É melhor assim.

​Eloah saiu do carro tropeçando, o choro rompendo de forma dolorosa. Ela entrou no prédio sem olhar para trás, sentindo que o elevador agora não a levava para casa, mas para o fundo de um abismo que ela achou que tinha superado.

​Arthur ficou no carro, vendo a porta do prédio se fechar. Ele tateou a caixa de veludo no bolso e, com um grito de fúria e dor, a arremessou contra o painel. Ele achava que estava sendo nobre, mas no silêncio da noite de São Paulo, ele era apenas um homem que, por medo do futuro, acabara de assassinar o presente.