O Décimo andar
24 Indo embora.
O dia amanheceu cinzento em São Paulo, combinando com o vazio que se instalou no peito de Eloah. Ela não chorou ao acordar; a dor havia se transformado em uma determinação gélida. Ela se vestiu com o seu melhor terno, mas não para impressionar Arthur, e sim para enterrar de vez a menina que ele insistia em dizer que ela era.
Ao chegar no escritório, o silêncio na recepção parecia o de um velório. Ela caminhou direto para a sua sala e começou a esvaziar as gavetas. Gustavo, o colega, apareceu na porta com um olhar penalizado.
— Eloah... o Dr. Meirelles pediu para te avisar que já está organizando sua transferência para o escritório do Dr. Albuquerque. É um ótimo lugar e...
— Diga ao Dr. Meirelles que ele não tem mais autoridade sobre a minha carreira — ela o interrompeu, a voz firme como aço, enquanto fechava sua caixa de pertences. — Eu não quero ser transferida. Eu me demito.
Ela caminhou até a sala da cobertura. Não bateu. Apenas entrou. Arthur estava de pé junto à janela, de costas. Ele tencionou os ombros ao ouvir os passos dela, mas não se virou.
— Vim buscar minhas coisas — ela disse para as costas dele. — E vim avisar que não aceito sua "ajuda" para me realocar. Você disse que eu devia voar, não disse? Pois bem. Eu vou. Mas não para onde você quer me empurrar.
Arthur finalmente se virou. Ele parecia ter envelhecido dez anos em uma noite. As olheiras eram profundas e a mão que segurava o copo de café tremia levemente.
— Eloah, seja racional. O Albuquerque é o melhor para o seu currículo agora...
— Adeus, Arthur — ela cortou, saindo da sala sem dar a ele o gosto de ver uma única lágrima.
Naquela noite, o jantar no nono andar foi o mais difícil de todos. Ricardo e Marta olhavam para a filha, que mal tocava na comida.
— Eu vou voltar para o Rio — ela anunciou, quebrando o silêncio.
Marta soltou o talher, chocada. Ricardo franziu o cenho.
— Mas, filha, sua carreira aqui está decolando. O que aconteceu? O Arthur...
— O Arthur decidiu que sabe o que é melhor para mim mais do que eu mesma — Eloah disse, olhando fixamente para o pai. — Ele acha que eu sou nova demais, que ele vai estragar minha vida. Pois eu vou provar que ele está errado. Vou voltar para a nossa casa no Rio e vou abrir meu próprio escritório. Não quero o sobrenome Meirelles no meu currículo, nem a sombra dele nas minhas decisões.
— Eloah, abrir um escritório sozinha é um desafio enorme — Ricardo ponderou, preocupado.
— Eu passei na OAB de primeira e venci um caso de 20 anos de reclusão contra um dos maiores advogados de São Paulo, pai — ela rebateu, com um brilho de fogo nos olhos. — Eu não sou mais aquela menina que chegou aqui assustada. São Paulo me deu a armadura, mas o Rio vai me dar a minha liberdade.
Marta segurou a mão da filha, sentindo a firmeza nela.
— Se é isso que você quer, nós te apoiamos. Quando você vai?
— Amanhã cedo. Já comecei a encaixotar as coisas.
Do andar de cima, Arthur ouvia o som abafado de caixas sendo arrastadas e portas se fechando. Ele estava sentado no escuro de sua sala, olhando para o teto, sentindo o silêncio do nono andar se tornar eterno. Ele havia conseguido o que o pai queria: ela estava livre. Mas, ao vê-la partir para outro estado, ele percebeu que a liberdade dela era a sua própria prisão.
Eloah estava indo embora, e desta vez, não haveria elevador que pudesse trazê-la de volta.
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