O Décimo andar

7 O Dono das Regras



​O primeiro dia na faculdade de Direito foi um bombardeio de informações, mas nada preparou Eloah para o anúncio no mural do saguão principal. Entre os convênios de estágio mais disputados do estado, um nome brilhava em letras douradas: Meirelles & Associados.

​Eloah sentiu o estômago dar um solavanco. Arthur não era apenas o vizinho misterioso da cobertura; ele era o tubarão que controlava o futuro profissional de metade daquela sala. O deboche do almoço de domingo subitamente pareceu uma arma de brinquedo contra um tanque de guerra.

​Ela voltou para casa com a cabeça latejando. Tudo o que ela queria era o isolamento do seu quarto no nono andar. Ao entrar no prédio, o elevador social estava aberto, esperando. Ela entrou e apertou o "9" com força, como se o botão pudesse acelerar sua fuga.

​As portas estavam quase se fechando quando uma mão firme impediu o movimento. Arthur entrou. Ele ainda usava o terno escuro, mas a gravata estava solta e o primeiro botão da camisa aberto. O espaço, que já era pequeno, tornou-se minúsculo.

​Assim que as portas se fecharam, Arthur não apertou o botão da cobertura. Em vez disso, ele acionou a chave de emergência e puxou a trava. O elevador deu um solavanco e parou entre os andares.

​— Você ficou louca? — Eloah disparou, as costas coladas no espelho frio. — Destrava isso agora!

​Arthur não se moveu. Ele deu um passo à frente, obrigando-a a encará-lo.

​— Eu vi o seu nome na lista de matriculados hoje, Eloah. E vi você encarando a placa do meu escritório no saguão.

​— Grande coisa. São Paulo é pequena, não é? — ela tentou manter o tom debochado, mas a voz saiu mais aguda do que pretendia. — Mas não se preocupe, eu não vou pedir estágio para você. Prefiro trabalhar de garçonete a ser sua funcionária.

​Arthur deu uma risada curta, sem humor, e se aproximou ainda mais, encurralando-a contra o espelho. Ele apoiou as mãos na parede metálica, cercando-a.

​— Você é muito valente no almoço de domingo, cercada pelos seus pais e pela patética da Beatriz. Mas aqui? — ele baixou a voz, o tom ficando sombrio. — Aqui não tem plateia, Eloah. Não tem deboche que esconda o fato de que você fugiu da minha casa como uma criança assustada depois de me beijar.

​— Eu não fugi! Eu só... percebi que você é um erro. Um erro de quarenta anos.

​Arthur inclinou o rosto, a respiração dele agora misturando-se à dela no ambiente fechado.

​— Um erro que você quer repetir. Eu vi como você me olhou hoje na faculdade. Você percebeu que eu não sou apenas o vizinho que seus pais convidam para jantar. Eu sou o homem que pode decidir se você vai ser uma advogada medíocre ou alguém que realmente entende como o poder funciona.

​— Eu não preciso de você para nada! — ela gritou, tentando empurrá-lo pelo peito, mas ele era como uma rocha.

​Arthur segurou os pulsos dela com uma das mãos, prendendo-os acima da cabeça dela contra o espelho. O contato físico fez a raiva de Eloah se transformar instantaneamente em uma tensão elétrica insuportável.

​— Precisa sim — ele sussurrou contra os lábios dela. — Você precisa que eu te ensine que o mundo não se importa com a sua rebeldia. E você precisa admitir que esse ódio todo é apenas medo de descobrir que você gosta de ser dominada por alguém que não se impressiona com os seus joguinhos.

​— Você é um arrogante... — ela murmurou, mas seus olhos estavam fixos nos dele, a resistência fraquejando.

​— E você é uma mentirosa — ele retrucou. — Agora, me diz: eu destravo esse elevador e a gente finge que nada aconteceu, ou você assume que subiu aquelas escadas com o bolo porque queria terminar o que a gente começou?

​O silêncio no elevador parado era absoluto, quebrado apenas pela respiração pesada dos dois. Eloah estava dividida entre o desejo de esbofeteá-lo e o impulso de puxá-lo para outro beijo. Ela percebeu, naquele momento, que o nono andar era apenas uma parada temporária. Sua verdadeira queda — ou ascensão — estava no décimo.

​Arthur soltou os pulsos dela lentamente, mas não se afastou. Ele esperava uma resposta.

​O que vai ser, EloaA entrega de Eloah foi imediata, como se todo o deboche e a resistência dos últimos dias tivessem sido apenas lenha para aquele incêndio. No cubículo metálico e parado, o beijo de Arthur não era mais um convite, era um domínio. Ele a pressionava contra o espelho, e Eloah sentia que o mundo lá fora — a faculdade, os pais, as regras — tinha deixado de existir.

​As mãos de Arthur, grandes e seguras, desceram pela cintura dela com uma urgência controlada. Quando os dedos dele encontraram a barra da saia preta e começaram a subir pela coxa de Eloah, o choque térmico do toque na pele nua fez a realidade atingi-la como um balde de água gelada.

​— Espera... — ela murmurou entre o beijo, tentando recuperar o fôlego.

​Arthur não parou de imediato; ele trilhou um caminho de beijos quentes pelo pescoço dela, a respiração pesada. Mas quando a mão dele avançou um pouco mais, Eloah usou toda a sua força para empurrar o peito dele.

​— Para! Arthur, para! — a voz dela saiu embargada, entre o pânico e o desejo.

​Ele se afastou o suficiente para olhar nos olhos dela. O rosto dele estava rígido, os olhos prateados escurecidos pela adrenalina.

​— O que foi? — ele perguntou, a voz rouca. — Você quer isso tanto quanto eu.

​— Eu não posso... eu não posso fazer isso aqui. Eu não posso fazer isso agora — ela disse, ajeitando a saia com as mãos trêmulas e desviando o olhar, sentindo o rosto queimar de vergonha. — Eu nunca... Arthur, eu nunca fiz nada disso. Com ninguém.

​O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que o elevador travado. Arthur congelou. Ele a observou por longos segundos, processando a confissão. O "tubarão" do Direito, o homem que acreditava ter o controle de todas as variáveis, foi pego totalmente desprevenido pela pureza daquela confissão.

​Ele soltou um suspiro longo, fechando os olhos por um momento. Sem dizer uma palavra, ele se virou para o painel, desacionou a trava de emergência e apertou o botão do nono andar. O elevador deu um solavanco e voltou a subir suavemente.

​A tensão agora era outra. Não era mais erótica, era um abismo de silêncio e reflexão.

​As portas se abriram no nono andar. Eloah não esperou. Ela saiu quase tropeçando nos próprios pés, sem olhar para trás.

​— Eloah — a voz de Arthur a alcançou antes que ela chegasse à porta do apartamento.

​Ela parou, mas não se virou.

​— Isso muda as coisas — ele disse, num tom que ela não conseguiu decifrar se era de arrependimento ou de um aviso ainda mais sério. — Mas não muda o que eu sinto quando olho para você. Vá descansar.

​As portas do elevador se fecharam, levando Arthur para o décimo andar. Eloah entrou em casa e encostou a porta com cuidado, o coração batendo tão forte que ela achou que Marta ouviria da cozinha. Ela era uma universitária de Direito agora, mas diante de Arthur Meirelles, ela acabara de descobrir que ainda não conhecia nada sobre as leis do próprio coração.h? O ódio ou a entrega?