O Décimo andar
8 Entre Confidências e Flagrantes
A faculdade de Direito não era feita apenas de códigos pesados; era também o lugar onde as fofocas ecoavam pelos corredores de mármore. Eloah havia feito sua primeira amiga, Sophia, uma garota de espírito livre e língua afiada que parecia saber a biografia de todos os grandes advogados da cidade.
Elas estavam na cantina, dividindo uma coxinha e um café, quando o ar pareceu mudar de densidade. Arthur Meirelles atravessava o pátio em direção à reitoria, conversando com o diretor da faculdade. Ele estava impecável, como sempre, atraindo olhares por onde passava.
— Meu Deus, Eloah... olha aquilo — Sophia sussurrou, quase deixando o garfo cair. — Aquele é o Arthur Meirelles. Se ele me desse um processo para ler, eu leria até de ponta-cabeça.
Eloah sentiu o rosto esquentar, a imagem do elevador travado voltando com força total.
— Ele é só um advogado, Sophia. E vizinho dos meus pais — tentou minimizar, focando no seu café.
— "Só um advogado"? Amiga, aquele homem é o pecado em forma de terno — Sophia continuou, sem notar o desconforto de Eloah. — Eu faria coisas com ele que nem estão previstas no Código Penal. Eu aceitaria até uma prisão perpétua se a cela fosse a cobertura dele. Imagina aquele maxilar... a voz dele... eu não sei se eu estudaria ou se eu desmaiaria.
Eloah ficou encabulada, sentindo uma mistura estranha de posse e timidez. Ela queria dizer que já conhecia o sabor daquele beijo, mas o segredo pesava em sua língua. Ela apenas observou Arthur desaparecer por uma porta, sentindo que o mundo de Sophia era muito mais simples que o dela.
À noite, o clima no apartamento 901 estava calmo.
— Eloah, leve esse lixo reciclável lá fora, por favor — pediu Marta, entregando-lhe as sacolas.
Eloah foi até a área de serviço e abriu a porta que dava para o corredor das lixeiras, perto do hall dos elevadores. O silêncio do prédio era quebrado apenas pelo som metálico do elevador subindo. Quando a porta se abriu, Arthur saiu. Ele parecia exausto, com o paletó pendurado no braço e a camisa aberta no colarinho.
Ao vê-la ali, parada com as sacolas na mão, ele parou. O cansaço em seus olhos deu lugar àquela chama que só aparecia quando ele a olhava.
— Trabalhando até tarde, Dra. Cavalcante? — ele perguntou, a voz baixa ecoando no hall vazio.
— Minha mãe me mandou ser útil — ela respondeu, tentando manter a distância. — Soube que você esteve na faculdade hoje. Minha amiga quase teve um colapso nervoso só de te ver passar.
Arthur deu um passo à frente, ignorando o lixo nas mãos dela.
— Eu não fui lá para ver sua amiga.
Antes que Eloah pudesse responder, ele a puxou para o nicho escuro ao lado do duto de lixo. Foi um movimento rápido e possessivo. O beijo aconteceu ali mesmo, entre o cheiro de lavanda do corredor e a adrenalina do proibido. Foi um beijo urgente, com Arthur pressionando-a contra a parede fria, como se estivesse recuperando o tempo perdido desde o incidente no elevador.
Eloah se entregou, as sacolas de lixo caindo no chão com um ruído seco. Mas o som de uma porta se abrindo no corredor os gelou.
— Eloah? Filha, você esqueceu a chave? — a voz de Ricardo ecoou, vinda da porta do 901.
O pânico foi instantâneo. Eloah empurrou Arthur, que recuou para a sombra mais profunda do hall, quase se fundindo à parede. Ela se abaixou rapidamente, fingindo que estava recolhendo as sacolas que haviam "caído".
Ricardo apareceu no corredor, olhando em volta.
— Oi, pai! — Eloah disse, a voz trêmula e o coração saindo pela boca. — As sacolas rasgaram, que bagunça... já estou indo!
— Achei ter ouvido vozes — Ricardo disse, aproximando-se, os olhos estreitados.
Eloah se colocou na frente do pai, bloqueando a visão da sombra onde Arthur estava escondido. Ela sentia o suor frio escorrer pelas costas.
— Deve ter sido o pessoal do 10º andar ou o elevador — ela mentiu, começando a caminhar em direção ao duto de lixo. — Vai entrando, pai. Já vou.
Ricardo hesitou, olhou mais uma vez para o corredor vazio e deu de ombros.
— Não demora. Sua mãe fez chá.
Assim que a porta do apartamento se fechou, Eloah soltou o ar que nem sabia que estava segurando. Ela olhou para a sombra. Arthur saiu lentamente, ajeitando a camisa com uma calma que a irritava e a fascinava ao mesmo tempo.
Ele não disse nada. Apenas levou dois dedos aos lábios, enviando um beijo silencioso no ar antes de entrar no elevador em direção à cobertura. Eloah ficou ali, sozinha no corredor, percebendo que cada andar daquele prédio agora era uma zona de guerra entre o que era certo e o que era irresistível.
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