O Coveiro de Santa Edwirges e outros contos.
2 Salmo 36
Posso sentir, na menor nuance entre as sombras de meu quarto, sua presença. As ruas de Londres estão empesteadas do odor pútrido, de teu hálito de morte, e as casas, tomadas de mofo, possuídas pela sua impureza, inteiramente perdidas em loucura e sangue.
Putas, jogadas à luxúria de seus clientes, tuas gargantas cortadas em sacrifício aos prazeres mundanos, a cada charrete, a cada sombra de poste, ouço teus sussurros, ó escuridão. Pois teu nome é perdição, e tua coroa é insanidade, a perversidade dos justos é a putrefação dos ímpios. A verdade do mentiroso é a perdição do puro. Em sussurro me gritas, ó horror, em escárnio e escândalo me diz, ó beleza banhada no sangue, me desmembra e toma meu suor, espalhado no chão, potente de prazer e adrenalina, enquanto penetras o mundo e me impregna com tua semente.
Liberto-me das amarras a partir de hoje, pois homem já não sou. Seus olhos me observam de longe, ó lobo que profana a noite. Teus olhos vermelhos do sangue de Deus, defunto, morto e violado por teu poder! Minhas correntes não o prenderão, mas minhas palavras anunciarão ao mundo tua terrível presença.
Todo aquele são, se curve e arranque a própria cabeça, como o faço hoje. Todo aquele cujos olhos vislumbraram o vazio, e do vazio se preencheram, adorem-no! Sejam devorados como carne, violem-se como putas e sangrem como porcos ao abate! Matem-nos uns aos outros e vilipendiem os cadáveres de vossos ancestrais! Pois não há nem houve, nem nunca haverá. A única existência é o vazio, e o vazio não há.
MORRAM
==O texto foi achado junto ao corpo degolado do arqueólogo John V. Munster, o último sobrevivente do acidente na pirâmide de Gizé.==
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