"Irukandji não gosta de forasteiros!" — Disse-me o velho, enquanto tentava nos enxotar da praia. Era o quinto dia de férias, e resolvemos ir conhecer uma praia isolada, lá pela costa da Austrália. A areia fina cedia fácil, não perdoava nem as jeitosas e suaves pegadas de Amélia, minha namorada.

O homem era um nativo, magro, raquítico, na verdade. Carregava consigo algumas velhas cabaças, apoiadas numa vara de pau que usava de bengala. Seu corpo, quase inteiro nú, tinha as vergonhas tapadas por um pedaço de pano amarrado, e as marcas em seu rosto denunciavam uma vida costeira, provavelmente de uma tribo de pescadores local. Ele chacoalhava as cabaças, como que tentando chamar ainda mais nossa atenção, enquanto eu e Amélia ignorávamos o velho.

"Irukandji é mais antiga que a própria vida, as ondas do mar o levarão com ódio! Vá enquanto ainda vive, forasteiro!" — gritava o velho, enquanto entrávamos no mar. O corpo de Amélia harmonizava com as cores de seu biquíni, e eu há muito já ignorava o terceiro integrante de nosso passeio, e me perdia nas curvas e sorrisos, nas carícias e brincadeiras de dois jovens apaixonados. Seus olhos azuis ecoavam as ondas do mar, como se de lá tivessem tirado sua alma, e jogado em uma irlandesa naturalizada em Nova Iorque.

Envolta em meus braços, Amélia perguntava-me:

"Frank, você também deseja que isso nunca acabe?"

Respondi afirmativo, com um beijo. As águas do sul da Austrália eram calmas, e o mar repleto de pequenos peixes. O vento soprou, um pouco mais forte, jogando os cabelos de minha Amélia contra o meu rosto. Sorri.

"Irukandji não gosta de forasteiros." — Disse Amélia, enquanto eu tirava seus cabelos de minha cara. Seus olhos, outrora brilhantes e alegres, estavam possuídos pelo ódio. Seu sorriso desfez-se enquanto eu dava um passo para trás.

"Irukandji não lhe convidou aqui." — Ouvi, de uma voz distante, como se ouvisse a própria voz do mar. O frio subia minha espinha, enquanto as águas perdiam seu frescor do verão, tornando-se geladas como a própria morte. A areia sob meus pés cedia, deixando apenas minha cabeça para fora d'água, enquanto me debatia e tentava prender minha respiração para não engolir água.

"Irukandji não quer que você vá embora." — Enquanto as ondas me empurravam, cada vez mais para longe, aquela voz, distante, gritava meu nome, cada vez mais alto, cada vez mais agudo, como uma sirene, que penetrava minha cabeça enquanto meus braços se mexiam cada vez menos. A água entrava pelas minhas orelhas, minha boca, meus pulmões se enchiam, e meus olhos se desfaziam em lágrimas, salgadas como o mar que me engolia. O som se tornou um só com a escuridão que tomou minh'alma.

Silêncio. Frio. Meu corpo pairava em um abismo. Em meus pensamentos, vagos, me lembrava do que um dia fui, me lembrava do que poderia ser, me lembrava de tudo que não fui.

"Irukandji" — sua voz ecoava no meu abismo, eterno. Ainda ecoa, toda madrugada em que acordo, me culpando por não ter sido eu, naquele dia, quem se afogou no mar de Irukandji, e sim minha Amélia...