O Corvo

11 Capítulo 10 - Passado


Amanda, cansada de andar sem saber para onde ía questionou Corvo, que lhe respondeu:

— Há um lugar que eu quero que você conheça. Estamos quase chegando.

Amanda sorriu simpaticamente, mas em sua mente ela não estava muito interessada em conhecer novos lugares e queria simplesmente descansar. Estavam carregando as bolsas com os alimentos, roupas e o necessário há horas. Suas pernas doíam e seu corpo suava muito pelo calor do sol. Porém, ela não falou nenhuma palavra de reclamação. Confia que Corvo estaria fazendo algo importante.

Andaram mais passos até chegar a um lugar onde a areia transformava-se em asfalto. De longe se podia ver qual era o lugar: uma cidade em ruínas.

— Amanda, pegue uma máscara respiratória na bolsa que está na sua mão – ele ordenou e ela fez.

— Este local concentra uma alta quantidade de gases poluentes tóxicos. Se tirar a máscara, você morre. Entendido?

— Sim – respondeu já com a máscara.

Estranhou sua própria voz, que saía com um som metálico assim como a dele. Era um pouco incômodo o objeto pesado em seu rosto, e ela sentia que iria sufocar-se a qualquer momento. Ela pode ter a visão que ele tinha através do vidro peliculado. A luz do sol parecia menos forte e podia-se enxergar melhor. Mas não havia nada mais, Amanda não se sentia mais forte ou capaz de falar com corvos.

À medida que se aproximavam da cidade, o céu escurecia devido à poluição do ar. Eles entraram por uma estrada que “começava” em pedaços destruídos do asfalto. Conforme andavam, pisavam em uma porção de objetos diferentes: garrafas plásticas em degradação, pneus, peças metálicas, canos PVC, tijolos quebrados, cacos de vidro e muitas outras coisas. Em geral eram partes de moradias e edifícios, e de automóveis – principalmente carros. Havia muita poeira e cinzas no ar. Também edifícios parcialmente destruídos. Ossos humanos escondiam-se embaixo dos escombros. Amanda olhava tudo aquilo e tentava reconstruir o passado dos objetos em sua mente. Ela quase podia ver as pessoas gritando freneticamente, desesperadas por salvar suas vidas enquanto bombas caíam para todos os lados. Aquilo lhe dava uma profunda tristeza.

— Você ainda não viu nada – disse o Corvo indo na frente mostrando o caminho. – Venha.

Eles caminharam mais alguns metros naquele cenário de horror e chegaram a uma região ampla coberta por um líquido negro. Amanda demorou um tempo para perceber que se tratava de um lago feito de petróleo. E o lago estava cheio das coisas que eles viram como cadáveres e objetos destruídos. A situação do local era péssima.

— Como isso é possível? – perguntou-se Amanda atônita. – Como chegamos a esse ponto? Como fomos capazes?

— Amanda quero lhe apresentar à humanidade – disse Corvo ironicamente apontando para o redor. – Veja o que esses seres fizeram. Destruíram e mataram a si próprios lenta e dolorosamente até chegarmos a este estado. Começamos destruindo nosso planeta, e terminamos destruindo uns aos outros. Usávamos a natureza e a vida como mercadorias. Massacramos animais, devastamos florestas, sujamos as águas e com isso, ficamos sem espaço para viver. Logo, disputamos por estes locais assim como fazíamos quando eramos seres primitivos e não sabíamos pensar. Agora, foi só o que restou: ruínas. Eu lhe trouxe aqui para isto. Apenas para você poder ter um contato com o passado da humanidade.

— Obrigada por isso, Corvo – ela agradeceu. – É um espetáculo triste, mas eu queria ver.

— Agora temos que ir, está escurecendo e precisamos de um lugar para passar a noite.

Eles seguiram o caminho por onde vieram. Amanda de repente sentiu sua bota de couro – como a do Corvo – bater em algo. Ela parou para observar o que era e aquilo lhe chamou muita atenção. Era pequeno, do tamanho da palma de sua mão – percebeu quando pegou na sua – tinha um “corpo” fino e comprido e dele saiam cinco coisas finas, largas e compridas com um formato meio oval. Amanda mostrou ao Corvo.

— O que é isso?

Corvo analisou a expressão de Amanda para saber se ela realmente não sabia.

— Você nunca viu antes? – ele perguntou.

— Se sim, não estou lembrada.

— Essa... É a nossa esperança, a nossa vida e o nosso futuro. Todos dependemos disso agora. Precisamos disso. Há tempos atrás, o planeta estava cheio e hoje são muito raras. Cuide como a sua vida. A proposito chama-se “planta”.


Andaram até conseguir se afastar o suficiente da poluição do ar daquela cidade em ruínas. Então Amanda pôde tirar a máscara do seu rosto. Eles decidiram passar a noite ali, no meio do deserto. Estava muito frio e a escuridão seria absoluta se não fosse a lua cheia e as estrelas que ajudavam a iluminar. Deixaram seus pertences nos sacos na areia e Amanda tirou um casaco e até cobertor. Corvo tirou alguns objetos que não seriam muito necessários e que eram inflamáveis e os queimou para fazer uma fogueira e ajudar a aquecê-la, já que ele não estava sentindo nada de frio. Então os dois se deitaram próximos em lençóis que evitava o contato com a areia e observaram o céu estrelado.

— O céu está lindo hoje – falou Amanda.

— Sempre está, nós que nem sempre vemos. O universo é fantástico e misterioso. Olhe para aquelas quatro estrelas mais brilhosas ali – disse ele apontando. – Elas formam uma cruz, é uma constelação chamada Cruzeiro do Sul. Dês dos tempos remotos é usada como forma de orientação, como uma bússola. Amanda, se alguma coisa acontecer e nos perdermos um do outro, siga a estrela que aponta para o sul, vai lhe levar até as montanhas. E lá eu estarei. Entendido?

Amanda concordou com a cabeça.

— Mas nós não nos perderemos facilmente – ela disse sorrindo otimista.

— Seus olhos azuis são bonitos como as estrelas.

— Você está... me fazendo um elogio? – ela sorriu grata com as palavras dele. – Muito obrigada. Passou-se um tempo em silêncio. Até que ele voltou a falar:

— Permita-me – Corvo disse esticando seu braço e colocando sobre o pescoço dela.

— O que está fazendo?

— Sentindo que você está viva. O coração diz isso. E está forte e rápido. Você me lembra de que eu próprio estou vivo. E me ajuda a continuar lutando.

Ele deixou sua mão no pescoço dela por um tempo. Sentindo cada batida, e o sangue fluindo nas veias.

Eles se calaram por um tempo. Amanda já começava a adormecer.

— Jones, eu sei que não devo, mas acho que estou gostando de você. Eu quero que saiba.

Ela sorriu carinhosamente.

— Eu gosto de você há muito tempo. – bocejou. – Tenho sono, boa noite.

— Durma bem – ele falou.

Logo, ela caiu no sono.

Corvo ia ficar vigiando as coisas e Amanda, mesmo que a possibilidade de um homem-da-lei aparecer fosse pouquíssima. O que mais o preocupava no momento eram os traidores-do-povo. Perguntava-se: “como é possível fazer tamanha estupidez? Contrariar a mim, que estou tentando ajudá-los?”. Após um tempo, ele próprio adormeceu.

Sangue havia em toda parte. Em suas mãos, em sua roupa, na areia, nos troncos de árvores... Não se podia mais ver o nome escrito em sua farda “C. James”, pois estava manchado de vermelho. E todo aquele sangue pertencia às pessoas que tentaram tirar a vida dele. Ele teve que se proteger, conseguir alimento e sobreviver. Diversos soldados inimigos tentaram lhe matar, mas ele resistiu lutando por sua vida pensando em apenas uma coisa: a sua família. Ele queria voltar para eles, revê-los. Fazia alguns dias que ele não ouvia bombas estourando ou armas atirando. Estava tudo silencioso. Ele imaginou que a guerra havia acabado naquela região. Saiu então da floresta onde se encontrava. Os cheiros de cadáveres e de árvores queimando ainda estavam no ar. Quando afastou com as mãos uma planta que estava na sua frente ele viu o cenário da guerra ou do que restou do local. Milhares de corpos estavam no solo, todos mortos. Muito sangue. Armas espalhadas por todo canto. Cinzas flutuavam no ar. As árvores haviam sido levadas pelas bombas e fogo. Ele avistou corvos comendo a carne podre dos mortos. Foi quando a ideia surgiu em sua mente. Ele seria aqueles corvos. Ele tiraria a podridão existente no mundo. Vingaria aquelas almas perdidas em uma guerra por motivos absurdos, que de nada tiveram culpa. Os corvos voaram ao redor dele, fazendo uma nuvem negra. Era como se estivessem apoiando-o em seu destino.


Corvo acordou. O pesadelo com o seu passado, o fez lembrar de que aquele era um dia importante.

— Amanda, acorde – falou chamando-a.

Ainda sonolenta, resmungou:

— Para onde vamos?

— Não posso deixar que as pessoas se iludam com as propostas do Gubner. Tenho que dar a minha palavra sobre isso. Vamos para o Vilarejo.

Notas finais
Acho que dessa vez saiu mais rápido o capítulo. Espero que tenham gostado, comentem dizendo o que acharam. E quero saber a sua opinião sobre os temas do capítulo como a guerra, a poluição e o futuro da humanidade. Bem, talvez não seja exatamente o romance que vocês esperavam, mas é o possível. Quero avisar que este é o último momento de tranquilidade na história. Depois é só ação. Abraços!