O Corpo De Samantha
10 Capítulo 10
Freddie admirava-se por ainda não ter sido chamado na reitoria pelo numero de faltas que havia acumulado todos esses dias. Sim, outro dia perdido em seu quarto, queimando aulas, enchendo a cara e estudando livros de ocultismo. Em que o garoto nerd, preocupado e saudável havia se tornado. Pelo visto, Sam não foi à única que sofreu uma mutação assombrosa e bizarra. Seu novo ser transformou o garoto em algo tão decadente quanto o que habitava dentro dela, fosse sabe-se o que. Coçou os olhos vermelhos e cansados, o dia havia raiado e o sono lhe era distante. Tudo o que pensava sobre era como Samantha lidaria com seus amigos, e como Spencer reagiria àquela loucura toda. Não tinha como prever o que aconteceria a noite? Afinal, se ele está lidando com o sobrenatural, que custa manejar adivinhações também?
O punhal que rodava em sua mão ria da cara do garoto, alto e claro. Ou seria apenas a bebida. Ou ele estaria esquizofrênico. Seu dedo deslizou pela ponta do objeto apenas de leve, porém aquilo já foi o suficiente para cortar seu indicador. Tamanha era à força daquela navalha. Tamanha foi à dor que Samantha deve ter sentido quando aquilo lhe perfurou o corpo diversas vezes... Oh, aquilo lhe fazia querer se arranhar por dentro. Ele deveria acabar com esse sofrimento idiota, e trazer de uma vez sua garota de volta. Só se perguntava se teria forças para pressionar uma estaca tão violenta contra seu corpo esplendoroso. E se ele amarelasse? Sam, ou o que quer que fosse ela, sugaria sua alma ou torceria seu pescoço em uma vingança demoníaca? Novamente não poderia prever. Apenas decidir-se. E aquilo já era algo bem convicto em sua mente.
Jogou a estaca ao seu lado e caminhou até seu guarda- roupas, agradecendo mentalmente por duas coisas: Uma, ele havia encomendado o maldito terno e por sorte ele ainda estava lá. Dois, ele havia sido covarde demais para chamar Sam como sua companhia para o baile, e agora isso era uma coisa boa. Se matar a garota pela qual se é apaixonado é um absurdo, matar sua acompanhante numa noite tão especial deve ser ainda pior. Além do mais, seria mais difícil bolar algum jeito de atraí-la para sua segunda morte se tivessem que ficar juntos e agir com formandos normais a noite toda. Seus pedidos de que Spencer e os outros não comparecem eram ignorados, tanto por gravações de voz quanto por mensagens, e ele não atendia o seu telefone sob nenhuma hipótese. Provavelmente, imaginava o que Freddie queria e provavelmente havia sim ouvido as gravações e lido as mensagens. Mas a idéia de aparecer era fixa na cabeça do homem. Platéia para o grande desastre.
E então, lembrou-se do dia em que Sam lhe arrastou para comprar seu vestido. Era preto e tinha brilhos uniformes como pequenas estrelas, com formato de coração em decote onde os seios ficavam, um corte longo mostrava de sua coxa até em baixo e ele lhe armava um pouco, dando ainda mais volume ao seu corpo definido. Ela puxou a cortina e sorriu, os cabelos loiros caindo de um lado só de seu ombro, um batom vermelho definia seus lábios volumosos e ela lhe sorriu de baixo pra cima, apoiando as mãos na cintura e deixando o azul de seus olhos fazerem o trabalho final.
“Então... Vai falar algo ou vai ficar aí, com essa cara de idiota?” Ela o ofendeu, mas aquilo soou como musica aos ouvidos do garoto. Falar algo? Freddie poderia possuí-la ali mesmo naquele provador, se não conseguisse conter a ereção em seu jeans. Nunca viu algo tão belo em sua vida, tão angelical e ao mesmo tempo tão perigosamente tentador.
“E-e-e-eu, e-eu acho que você... Ahn...” E esse foi seu comentário sobre tudo antes que Sam gargalhasse e fechasse a cortina para tirá-lo. Sorte a dele que aquilo não a fez pensar que ela estava feia. Ela o comprou, por fim. E deixou Freddieward pensando sobre aquilo durante muitas noites.
Aquela combinação de lembranças tornava que seu auto-encorajamento para usar o objeto jogado em sua cama ainda mais complicada. Jogou o terno ao lado de seu punhal e checou seu relógio de cabeceira. Hora de tomar um banho, arrumar perfeitamente seu topete e livrar-se de sua barba que estava por fazer. Hora de por um sorriso falso no rosto e livrar-se também do cheiro de bebida, assim como do efeito dela. Hora de vestir-se para as fotos e danças, como se fosse aquele o foco de sua vida e como se fosse importante. Hora de guardar sua surpresa dentro de seu paletó. Hora do show.
A noite caiu tão rápido quanto os restos dos dias que haviam se passado, e às dez horas da noite o auditório do campus estava um formigueiro humano. Garotas bonitas e outras nem tanto, exibindo seus vestidos maravilhosos e seus namorados que pareciam ter saído de capas de revistas femininas. Alguns caras bebiam e fumavam perto do bosque ao lado de fora, atentos aos olhares dos professores. Outros alunos corriam até suas famílias ou amigos que não viam há tempos, e estavam de visita para fotografar e documentar a grande noite de seus filhos. Era apenas a conclusão de um período... Freddie não via porque tanto “auê”. Ou talvez, era apenas seu ponto de vista amargurado. Havia visto de tudo e todos, mas seus olhos não bateram em quem ele queria encontrar. Cavavam o salão em agonia, e enquanto ele tentava passar pela gritaria das pessoas e pelo som da musica eletrônica ensurdecedora que era mixada aos berros pelo DJ parecia mais difícil tentar achar quem ele desejava. Havia tocado o ombro de varias garotas loiras de vestidos pretos e se desculpado por isso depois. Nenhuma delas era Sam. Até que o barulho de seu scarpin vermelho pareceu silenciar toda a agitação, e chamar apenas a atenção do garoto em meio a todo o resto.
Ao virar-se, a viu. Caminhando sensualmente com o mesmo vestido que havia provado quando ainda era Samantha. Seu charme provocava inveja nas outras garotas, pois nenhuma tinha o que ela parecia ter. Os cabelos divinamente cacheados e fixados de um lado só, enquanto mechas desfiadas e poucas caiam do outro. Brincos longos e prateados balançavam-lhe perto ao pescoço, um batom que beirava o sangue de tão vermelho desenhava seus lábios tão beijáveis, um bracelete prateado e rodeado de pedras fixado em seu pulso e um anel pesado e vermelho destaca-se em seu vestido. A proximidade a qual Sam estava agora fez com que o garoto quase perdesse a força nas pernas. Por achar que ela não poderia superar o que ele havia visto na loja, e ela havia sim superado. E por agora, ele saber o que aquilo era.
- Bensonrine... Achava que não ia aparecer.
- Porque achou isso? Disse, controlando-se para não correr dali, ou correr para cima dela. Ou simplesmente, aparentar mais imbecil do que já devia estar aparentando.
- Bom... Você simplesmente sumiu. O que andou fazendo, estudando? A ironia transbordava de seus lábios pintados, e aquilo aterrorizava o moreno. Estaria ela sabendo de seus planos?
- Só queria ficar sozinho...
- Você não... Está impressionado com o que te contei , não é? Ou com medo... Ou com raiva de mim.
- Não, não e não, Sam. Eu nunca teria raiva de você.
Sorriu satisfeita e deu um passo a frente, subindo as mãos pelo peitoral do rapaz numa caricia perigosa, pois tateou o lugar exato onde a estaca estava. E depois arrumou a sua gravata, delicadamente.
- Você é lindo, Freddie.
Ele corou. Sentia tanta vontade de segura-la nos braços e beijá-la! Deus, ele queria apenas uma noite mágica com ela! Queria apenas uma dança, umas risadas, queria beijos na escada. Queria ama — lá! Respirou fundo e franziu o cenho, apertando os punhos de nervosismo.
- O que eu posso dizer de você? Você... É a garota mais linda deste baile e desse campus.
- Que bom que percebeu. Mesmo não me convidando para o baile.
- Desculpe por isso... Eu sou um idiota.
- Esqueça. Quer dançar?
- Sam... Disse de forma afobada, encarando seus olhos fixamente. – Sabe que a Carls, o Gibby e o Spencer estão vindo hoje, não é?
- Acha mesmo que eu vou esquecer isso?
- E como você... Vai se comportar?
Ela gargalhou e pegou a mão do garoto, arrastando-o consigo e cruzando seu braço ao dele.
- Freddie... Eu não machuco amigos.
- Mesmo?
- Você está duvidando de mim?
Ele engoliu seco, controlando sua respiração extremamente alta e ofegante. Sam passou os braços pelo pescoço dele, forçando-a a entrar no ritmo daquela musica agitada e segurar sua cintura. A cabeça do garoto girava como um redemoinho. O perfume dela, suas unhas em seu pescoço. Sam roçava seu corpo no dele com uma provocação exagerada e excitante. Volta e meia e ele já tinha caído novamente naquele jogo suicida. Os olhos dela brilharam, escuros, fazendo os dele se arregalarem quando a boca dela tomou a dele num beijo indecente, sujando-o de batom vermelho e mordendo o lábio inferior dele deliciosamente.
Ora... Mas que merda? Aquilo não era Samantha. E ele tinha que por isso em mente, por mais inacreditável que fosse. Suas mãos a separaram dele, empurrando-a para longe. Ela o olhava frustrada, os ombros altos de raiva.
- O que você está fazendo, Freddieward?!
Ele congelou. Deu alguns suspiros pesados e tocou os próprios lábios, correndo para o lado de fora e escutando os passos nervosos dela atrás de si. Vez ou outra olhava para trás, checando a que distancia ela estava dele. Até que seu rosto avermelhado e suado bateu forte contra algo que lhe segurou pelos ombros.
- Freddie!!!
- Spencer?! Vo-v-vo-você...
- Que beca, cara! Senti sua falta! O homem lhe levantou rapidamente, e logo Carly e Gibby se aproximaram, sufocando-o com abraços que ele não conseguia retribuir.
- Freddie!!! A morena o esmagava, beijando seu rosto com doçura. – Deixa eu te arrumar. Ela cochichou, limpando a boca suja dele e lhe dando uma piscadela. – Onde está Sam? E que cara é essa? Parece que viu um fantasma!
- Vocês tem que me desculpar, m-ma-mas eu...
- Mal chegamos e você já vai farrear e nos deixar aqui? Não sentiu minha falta? Gibby lhe perguntou, abrindo os braços de forma divertida e dando tapinhas nas costas do garoto. – Que cara é essa, mano? Sussurrou em seu ouvido e voltou para encará-lo, agora um pouco mais sério. – Está mesmo se sentindo bem? Não parece que está aqui.
- Freddie... Onde está a Sam? Spencer perguntou de forma ameaçadora, fazendo uma força extrema ao colocar a mão em um de seus ombros, machucando-o. – Está tudo bem, não está?
- S-s-sim... E-eu... Vou procurar a Sam e trago ela aqui. Só... Fiquem aqui.
E correu floresta adentro, deixando Gibby e Carly encararem Spencer com desconfiança.
- Está sabendo de algo que nós não sabemos, Spencie?
- Não, Carls... Claro que não! Só fique aqui com o Gibby, certo? Eu já volto. Querem beber algo?
- Ah, eu quero um...
- Claro, vou trazer! E saiu apressado, fazendo sua irmã bufar de indignação. Gibby tentou apazigua — lá, arrastando-a para a pista de dança enquanto Spencer seguia o caminho que havia visto Freddie percorrer. Bebida uma ova.
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