O Conto Da Lua
2 Sunday tedious Sunday
Notas iniciais
Acordo. Meu pijama está encharcado, o suor escorre pela minha testa e meus cabelos negros estão grudados em meu pescoço e rosto. São 08h30min da manhã. “Droga, atrasada de novo” penso. Ponho um casaco e sigo apressadamente para o refeitório.
É uma típica manhã de domingo no orfanato St. Jude: todos parados, com as mãos unidas, de olhos fechados, rezando o célebre Pai Nosso, “a oração que Jesus Cristo ensinou a todos nós”. Me pergunto se todos ali realmente sabem o que significa cada palavra que proferem, se sentem que aquele momento é sagrado, ou se só falam por falar.
Depois de terminada a oração, todos abrem os olhos e se sentam nas mesas para tomar o café da manhã. Ao me ver de pé ao lado da porta, a Srª Wade, monitora do orfanato, uma velha alta, gorda e enrugada, usando um coque no alto da cabeça para prender os finos e grisalhos cabelos e usando um vestido bege que fazia seus seios caírem mais do que já eram naturalmente, balança a cabeça negativamente.
–Atrasada de novo, Srtª Somers! Essa é a 3ª vez no mês em que você perde a prece! Não tem vergonha de ficar dormindo até tarde? É um mau exemplo para as crianças!
–Acordar tarde? Acordar tarde? Ainda são oito e meia da manhã, Srª Wade. Isso não é nem um pouco tarde, pelo o que eu sei! – respondo atrevida
–Olha como fala comigo, mocinha! – advertiu agressiva — Se não fosse menor de idade, já teria lhe mandado embora daqui! Não ajuda nos afazeres, acorda tarde, não vai nada bem na escola e ainda por cima é mal agradecida! Anda, vai logo tomar seu café. – e sai praguejando
Me sirvo de uma xícara de café e metade de um pão e vou sentar-me em um banco próximo a janela. Fico a observar as folhas nas copas das árvores se agitando com o vento, as nuvens com seus mais curiosos formatos e a leve garoa da manhã se transformando em uma grande tormenta. O orfanato é longe da cidade, por isso tudo é tão tranquilo, sereno, sem nenhum barulho irritante, a não serem os gritos e risadas dos mais novos.
Devido a forte chuva, ninguém pode brincar ao ar livre, então todos se recolhem para seus quartos, sala de estar ou brinquedoteca. Já eu, como sempre, passo a manhã sentada na velha cadeira de balanço no pátio do orfanato, observando curiosamente os cupins que entram e saem das finas e velhas pilastras brancas que seguram o teto acima de mim e calculando qual degrau da pequena escada que leva até o assoalho cederia primeiro com um forte pisão devido à podridão.
Minha cabeça dói e meus olhos ardem. Mas uma noite sem dormir... Esses sonhos estranhos estão me matando aos poucos. Demoro horas para conseguir cair no sono e quando consigo sempre sonho. Hoje dei sorte de acordar de manhã, mas quando acordo de madrugada, adormecer de novo é um desafio. Não é a toa que durmo na sala de aula e não ajudo nos malditos afazeres, estou sempre tão cansada.
(...)
Estou quase cochilando quando o berro ensurdecedor da Srª Wade invade meus ouvidos:
–Charlotte! Onde está essa peste? Charlotte venha me ajudar a pôr a mesa do almoço!
Desanimada, arrastei meu corpo até a sala de jantar.
–Vamos, garota! Rápido! É devagar como uma lesma!
–E você realmente me lembra uma... – penso alto. Tão alto que ela ouve.
–O que você disse? – inqueri com fúria no olhar.
–Onde estão os pratos? – tento fugir do assunto.
–Na pia. Vá lavá-los!
–Mas não era para só pôr a mesa? — protestei
–Cale essa boca e faça o que eu mandei! E rápido, o almoço é em 25 minutos!
–Eu não vou fazer nada! Lave-os a senhora mesma!
–O que você disse, mocinha?
–A senhora está surda ou o quê? Eu disse que NÃO VOU LAVAR OS PRATOS – repeti pausadamente fazendo-a arregalar os olhos de indignação
–Não vai lavar os pratos? Não vai lavar os pratos? – falou erguendo as sobrancelhas e enrugando a testa – Vamos ver quem não vai lavar os pratos! – e agarro-me pela orelha e me puxou até a cozinha me lançando na frente da pia.
“Você tem 5 minutos para lavar todos esses pratos! Do contrário, não comerá durante 3 dias!”, ordenou e saiu.
(...)
Não como praticamente nada no almoço. O feijão está insuportável, como sempre. Toda comida preparada naquele lugar é incrivelmente ruim. Tudo se parece com mingau e eu odeio mingau.
Ninguém nunca senta ao meu lado na hora das refeições. Mas quem gostaria de sentar ao lado da garota que grita e tem convulsões dormindo? Eu não gostaria. A Srª Wade já fez de tudo para descobrir qual o meu problema, até mesmo já trouxe um padre para tentar me exorcizar, mas ele concluiu que a causa disso tudo não é demônios e nada do tipo. Acho que todos têm medo de mim. Eles evitam chegar perto e olham de esguelha. Cochicham. Não há um órfão ou órfã que tenha aceitado dormir no mesmo quarto que eu, e eles estão certos, eu também não gostaria de dormir comigo... Por isso me afastei de tudo e de todos. Ninguém me entende, ninguém sente o que eu sinto. Todos têm pena de mim e isso me irrita. Me pergunto se foi esse o motivo que levou meus pais a me abandonarem nesse lugar abominável. Será que eles tinham medo de mim? Será que mesmo com apenas quatro meses de vida eu já era estranha assim? Essas dúvidas só me deixam ainda mais irritada.
Depois da refeição, decido subir ao meu quarto e tentar novamente dormir. Mesmo sabendo que não conseguiria, pois os malditos pirralhos dos quais eu convivo diariamente não sabem brincar em silêncio. Deito na cama e fecho os olhos. Respiro fundo e tento me concentrar no som do ar entrando e saindo de minhas narinas (esse é o truque que eu costumo usar quando quero dormir o mais rápido possível). Estou quase lá quando alguém esbarra na porta do quarto causando um grande estrondo. Tento de novo, porém as crianças passam correndo e gritando pelo corredor. Desisto.
Abro o criado mudo ao lado da cama e de lá tiro meu exemplar de Harry Potter e as Relíquias da Morte. Abro na página onde havia parado, o epílogo: 19 anos depois. Dezenove anos depois... Onde eu estaria daqui a dezenove anos? Morando em uma quitinete apertada e trabalhando como garçonete em um bar imundo? Provavelmente. Mas quem sabe, como nessa saga, minha vida não é uma completa mentira, somente ocultando minha verdadeira história? Uma história cheia de segredos e magia, onde eu tenho amigos e pessoas que realmente se importam comigo.
Pego no sono imaginando que tudo seria melhor assim.
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