O Confronto dos Deuses
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Suzane se trocou rapidamente, não deixando se distrair com o canto dos passarinhos do qual gostava de apreciar antes de levantar e deixar com que a rotina tomasse seu lugar em sua vida. Ela viu que Paul olhava para os cantos com certa ansiedade no olhar, e também com um pouco de medo. Desde que tivera aquele capítulo com os Stracci, o livro de sua vida não parava de lhe surpreender.
– Então, vamos? — Suzane foi pegando a chave de seu Audi, quando Paul levantou as chaves de seu carro. Ela deixou a chave onde tinha achado e pegou rapidamente seu celular. — Estamos esperando o que?
Paul de LaVitta concordou com a cabeça e deixou que Suzane o guiasse até o carro. Era uma Range Rover de cor vermelho sangue, a forte cor ofuscou os olhos de Suzane por um minuto, mas depois voltou ao normal. Paul e Suzane entraram juntos no carro, e ela notou que em seu pé havia uma garrafa vazia de vodka, ela bufou e Paul pegou a garrafa e jogou para o banco de trás, ele a olhou, envergonhado.
– Me desculpe por isso, a noite de ontem foi muito boa. Você deveria sair qualquer dia desses. — Ele ligou o carro e pisou no acelerador. — Se quiser, posso te levar para conhecer uma galera gente fina.
– Desculpe, Paul, mas diferente de você, não tenho mais pais para bancarem minhas festinhas pró-adolescentes. Eu trabalho das cinco ás dez, de segunda á sábado, e tem vezes que até mesmo domingo. O peso em meus ombros é pesado. — Suzane parou, recuperando fôlego. Paul não tirava os olhos da estrada, mas ela sabia que ele estava prestando atenção. — O nome disso é responsabilidade. Você deveria experimentar qualquer dia desses, se quiser, posso te levar para conhecer uma galera gente fina. — Ela engrossou a voz para imitá-lo, mas ficou parecendo uma gralha faminta no meio do deserto. Ambos riram.
– Desculpe, senhora responsabilidade. Penso que isso poderá estragar o meu verdadeiro eu.
– O quê? O trabalho? — Ridicularizou Suzane. — Se tem uma coisa que pode te ajudar é o trabalho, suado, com muito esforço e muita dedicação. Nada vem de graça, Paul. Você mais do que ninguém deveria saber disso.
Começou a tocar o refrão de Sorrow, da banda Bad Religion, e as bochechas da doutora ficaram vermelha rapidamente, Paul riu baixinho e se perguntou por quê uma advogada como ela gostaria de clássicos, ele imaginara ela ouvindo Beethoven. Ela olhou para a chamada, era Teresa. Ela tinha de inventar uma desculpa.
– Ahn, oi Teresa! — Disse nervosamente a senhorita Dudek. — Não, hoje não vou trabalhar, cancele tudo, remarque tudo para semana que vem, por favor. Aconteceu algumas coisas um tanto... Inusitadas. Me ligue se precisar de qualquer coisa. — Ela desligou e viu que Paul a encarava com seus olhos grandes e brilhantes. — O que foi?
– Já paramos. Vamos descer. — Os dois saíram juntos, e chegaram a um café bastante conhecido nos arredores de Manhattan. Lá se via empresários, mulheres da vida, adolescentes, idosos, não importava a idade e nem a classe social, os americanos eram ocupados e impacientes demais para fazerem seu próprio café-da-manhã.
Uma moça rechonchuda de aparência simpática veio lhes atender com um sorriso amigável no rosto. Seu uniforme estava sujo com uma pequena mancha de café. Americanos, riu Suzane consigo mesmo.
– Já decidiram o que vão querer? — Ela perguntou com uma caneta e um bloquinho de papel colorido em mãos.
– Eu vou querer um café. — Disse Paul.
– Então são dois. — Suzane devolveu o sorriso para a garçonete. Ela anotava os pedidos lentamente, como se seus dedos estivessem brigados com a caneta. Quando terminou, voltou á encarar os dois com um largo sorriso.
– Certo. Se precisarem de qualquer coisa, meu nome é Vivian. — A pobre garçonete saiu em disparada para atender mais um cliente que acabara de chegar.
– Então, quando foi a última vez que você viu seus pais?
– Vai dar uma de policial agora? — Paul questionou num tom brincalhão.
– Sou melhor que muitos por aí. Agora, me responda. Não tenho tempo pra brincadeiras.
– Antes de irem no seu escritório eles me falaram que era o negócio de suas vidas, e que se eu quisesse, futuramente eu poderia ter a empresa no meu nome. Não que eu não queira, doutora, longe disso, mas eu não quero trabalhar. A vida é curta, e eu estou a aproveitando ao máximo.
– Enquanto você aproveita a vida, eles quase dão o sangue para pagar suas contas com hotéis, bebidas, e a maioria das vezes, com prostitutas. — Suzane chegou mais perto de Paul. — Não consegue ver? Você está acabando co sua vida.
– Você só fala isso por que não tem vida social. — Vivian entregou rapidamente os cafés e saiu correndo. Era um dia agitado, reconhecia. — Doutora, não abrirei mão dessa vida que eu levo.
– Mesmo que isso signifique a morte de seus pais? — Paul estremeceu. — Acredite em mim, eu vi minha mãe morrer. — Ele sussurrou um breve "sinto muito", mas Suzane não tinha tempo para sentimentalismo, ela tinha de mostrar para Paul o quanto a vida pode ser injusta e dolorosa. Mostrar a verdade para o adolescente com seus 28 anos. — O preço que se paga por pequenas bobagens é muito alto. Não vale a pena.
Paul bebeu uma longa dose de café, e ficou quieto por uns segundos, como se estivesse pensando nas palavras de Dudek. O gosto amargo do café fez com que ele ficasse espantado com o que estivera fazendo nos últimos anos, só dava prejuízo e dores de cabeças á Edward e Victoria, e muitas vezes, se gabava por isso. Agora, ele pôde ver o quão tolo ele fora.
Uma adolescente com as pontas do cabelos azuis parou e admirou Paul de LaVitta por uns minutos. Aquilo despertou a curiosidade de Suzane Dudek.
– Está procurando algo? — Suzane perguntou.
– Se eu estiver certa, a mesma coisa que o governo e vocês estão.
– O quê?
– Só me diga se este homem do seu lado é Paul de LaVitta, o futuro multimilionário e dono das empresas de petróleo das Américas.
– Como você sabe disso? — Desta vez, Paul que lançou a pergunta.
– Veja na TV, rádio, internet, por toda a parte. Seus pais foram sequestrados como os outros caras ricos.
– Você não sabe nada disso, garota!
– Aparentemente, sei mais do que você. — A garota deu os ombros e andou em frente. Paul digitou o nome de seus pais e clicou em "pesquisar" em seu celular. As palavras que lia que antes não tinham nenhum significado, agora passaram a ser terrivelmente assustadoras.
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