O Começo de um Final Feliz
2 Burn, Baby, Burn
O movimento na biblioteca estava frenético. Aparentemente, a notícia de que Belle expulsara o próprio marido da cidade se espalhara mais rápido que fumaça de maldição, então todos queriam dar uma olhada na bibliotecária da cidade, saber se estava viva, bem, sã, possuída, dopada... Próximo ao fim do expediente, Belle sentia sua paciência a um fio de se esvair por completo e a visão de Regina entrando pela porta não ajudou em nada.
– Boa noite, Belle.
– Boa noite. Em que posso ajudá-la?
– Na verdade, não vim por nenhum livro.
– Tá, me conte uma novidade – grunhiu para si mesma.
– Perdão?
– Nada. O que você quer, Regina? – perguntou curta e grossa.
– Agora que sou uma boa pessoa, ou pelo menos tento ser, estou tentando consertar o máximo possível dos meus erros...
– Se é por me manter prisioneira por quase trinta anos, ou por me fazer correr o risco de contrair uma doença venérea ao me transformar numa periguete de bar, relaxa, eu já te perdoei.
Regina piscou desorientada por alguns segundos. Belle era um poço de doçura na maior parte do tempo, mas quando lhe cutucavam a ferida...
– Tem uma coisa que você não sabe.
Puta merda, pensou Belle. Já comera o pão que o diabo amassou, assou, temperou e cuspiu por causa de Regina e ainda tinha mais coisa? Respirou fundo e segurou-se no balcão, para o caso de a novidade deixá-la com vontade de desmaiar.
– O Gancho não a abandonou na floresta.
– O quê?
– Eu o levei para o Jolly Roger enquanto vocês ainda dormiam e, para garantir que um odiaria o outro, disse a ele que o Rumple tinha aparecido no meio da noite e que você tinha voltado para ele feito Madalena Arrependida.
Belle agarrou-se com ainda mais firmeza ao balcão e murmurou alguns palavrões inaudíveis antes de se voltar à Regina.
– E você me conta isso agora que eu estou saindo de um casamento fracassado e o Gancho está às mil maravilhas com a Emma? Essa é sua ideia de generosidade? Sério isso?
– Bem, ainda não sou muito boa nisso, mas...
Belle respirou fundo, tentando contar mentalmente até dez enquanto todas as cores do mundo passavam por seu rosto, e disse ofegante, enquanto abria e cerrava os punhos:
– Regina, não querendo ser rude, mas, se você não sumir da minha frente em dez segundos, eu vou tentar matá-la e nós duas sabemos que isso não vai acabar bem para mim.
– Tudo bem, te entendo. Eu sinto mui...
– Dez... Nove...
– Ok, boa noite! – disse e saiu a passos apressados.
Belle voltou-se para o balcão, em busca de algo que pudesse atirar na parede. Seus olhos encontraram o enorme e arcaico telefone sem fio, mas, antes que pudesse pegá-lo, alguém cutucou delicadamente suas costas, fazendo-a se virar com uma expressão assassina que logo se abrandou quando ela viu que era Jefferson.
– Perdeu o amor à vida, foi?
– E você ia me matar com o quê? Esse “Olhar 43”?
– Besta! – riu-se e agradeceu aos céus por ainda haver no mundo alguém que conseguisse fazê-la rir.
– A Grac... Paige foi dormir na casa de uma amiguinha, então pensei em te levar ao Granny´s.
– Para tomar um porre, só se for.
– Nada disso! Não vou deixar a senhora encher a cara de estômago vazio.
– Hm, danadinho, quer que meu vômito tenha mais sustância!
– Exato. Prometo que depois de um jantar bem nutritivo, deixo você virar quantos shots de tequila quiser.
– Sabe... – começou num tom pensativo – Acho que te amo, Jeff.
– Nunca duvidei disso.
Rindo, deixaram a biblioteca abraçados.
~*~*~
– Oi? Tem alguém aí? – chamou Emma, estalando os dedos perto do rosto de um distraído Killian.
– Ahn? Quê? – perguntou sobressaltado. Só então reparou que estavam no Granny’s e perguntou-se há quanto tempo estavam ali.
– Você esteve estranho o dia todo. Mudo, distante... Não me deu nenhum beijo hoje!
– E é nesse momento que você percebe que se não sou eu tomando a iniciativa, não chegamos a lugar algum.
– Ouch!
Naquele momento, Belle e Jefferson adentraram o restaurante rindo. E estavam abraçados. Curiosa para saber onde o olhar do namorado – ou o que quer que ele fosse — se fixara, Emma olhou para a porta e viu os dois.
– Hey, vocês! – cumprimentou.
– Oi – responderam em uníssono.
O maxilar de Killian trancou e ele permaneceu mudo tentando – e fracassando miseravelmente na tentativa – disfarçar a carranca de desaprovação. Quando seu olhar encontrou o de Belle, várias emoções passaram rápida e sutilmente pelo rosto da morena, mas ele estava irritado demais para tentar decifrá-las.
Agradeceu aos céus por Henry e David – ou, em outras terras, Príncipe Encantado – terem aparecido, pois assim entreteriam Emma, deixando-o livre para prestar atenção no que se sucedia na mesa à sua frente. Belle infelizmente sentara-se de costas para ele. Os dois passaram um bom tempo conversando aos sussurros e Killian podia jurar que viu o olhar de Jefferson fixar-se nele e Belle beliscá-lo no braço logo em seguida. Para que tantos toques?, pensou rabugento quando eles se deram as mãos pelo que lhe pareceu ser a trigésima vez.
Dividiram um imenso filé de frango à parmeggiana com arroz, salada e fritas e tomaram sucos de limão. Quando terminaram a refeição, desataram a entornar shots de tequila como se não houvesse amanhã. Um tempo depois, levantaram-se trôpegos e Jefferson agarrou a cintura de Belle de um jeito que deveria ser considerado ilegal, o que fez com que Killian olhasse de Emma para David, abismado por nenhum dos xerifes tomar uma atitude sobre aquilo.
– Boa noite – disse Jefferson com a voz arrastada. Belle tentou imitá-lo, mas o único som que conseguiu reproduzir foi um soluço agudo que fez os dos gargalharem enquanto deixavam o recinto.
– Pensar que ontem ela estava animada porque ia viajar com meu avô – comentou Henry.
– Henry – repreendeu Emma – Você sabe muito bem que o Gold não é flor que se cheire. O jeito que ele a enganou... Isso não se faz! Ela provavelmente está arrasada e o Jefferson é só um amigo querendo confortá-la.
– E parece que conforta até demais – grunhiu Killian.
– O quê? – perguntaram os outros três?
– É que... Ele que abriu a biblioteca hoje e ele e a Belle pareciam bem íntimos.
– E que diabos você foi fazer na biblioteca de manhã? – indagou Emma.
– Vem, Henry, vamos escolher um doce para sua avó – disse David, já puxando o garoto para longe da mesa.
Killian respirou fundo e fixou os olhos no porta-guardanapos. Tudo que queria era sair dali e ir para seu navio tentar dormir.
– Qual é? Eu salvo sua vida e é assim que sou tratada? – insistiu Emma.
– Na verdade, você só colocou meu coração no lugar, quem impediu o Crocodilo de esmagá-lo foi a Belle, logo, ela me salvou – o queixo de Emma só faltou bater na mesa, o que rapidamente o fez emendar, na tentativa de remediar a situação – E justamente por isso eu fui à biblioteca de manhã: para agradecê-la.
– E custava esperar até esbarrar com ela na lanchonete? Sempre acontece.
– É...
– Que fixação é essa pela Belle? Olha, se eu descobrir que você está tentando machucá-la...
Aquilo foi mais que suficiente para tirar o pirata dos eixos. Killian se levantou bruscamente, mas antes de sair, inclinou-se na direção de Emma, tentando não gritar:
– O que você acha que eu sou? A mulher salvou minha vida mesmo eu tendo tentado tirar a dela no passado e você ainda pensa que eu seria capaz de machucá-la? Se para você eu não passo de um monstro impiedoso que só se importa consigo mesmo, e talvez com você... bem, surpresa, Swan! Há outras pessoas no mundo com quem eu me importo.
E a Belle encabeça a lista, pensou enquanto batia a porta ao sair.
~*~*~
– Daqui para frente eu me viro – disse Belle, soltando-se de Jefferson à porta da biblioteca. Sentiu o rosto quente arder em contraste com o vento frio da noite.
– Certeza que não vai cair por cima dos livros?
– Absoluta.
Os dois se olharam e uma tensão sexual tão intensa surgiu entre eles que o ar ao seu redor poderia ser cortado com uma tesoura. Porém, eram amigos demais e estavam demasiadamente bêbados para aquilo. Antes que pudessem fazer qualquer besteira, Belle beijou o rosto de Jefferson, desejou-lhe boa noite e adentrou a biblioteca.
Foi se segurando trôpega nas prateleiras até alcançar a porta que dava acesso a seu apartamento. Chegando lá, uma ideia completamente louca e imprudente se apoderou de sua mente. Precisava aproveitar a coragem que o álcool lhe dava. Voltou para a biblioteca e logo saiu, certificando-se de que a rua estava deserta.
Chegou à porta da delegacia, que comportava basicamente todos os documentos de Storybrooke, já que a cidade era um ovo e não havia muito que armazenar, agachou-se perto da maçaneta e sacou um grampo de cabelo do bolso.
– Inferno! Vendo os outros fazerem parece tão fácil! – praguejou num sussurro após cinco minutos tentando sem sucesso arrombar a fechadura.
– Importa-se?
Will Scarlet, Valete de Copas no País das Maravilhas, estava parado a seu lado, aparentemente tão bêbado quanto ela. Lembrando-se de que ele já invadira a biblioteca, passou-lhe o grampo sem apresentar resistência alguma.
– Sei que não é da minha conta, mas o que a bibliotecária santinha da cidade tem para fazer na delegacia? A essa hora da noite? E sem a presença de nenhum xerife?
– Ssshh, cala a boca e trabalha!
– Sim, senhora.
Pouco depois, ouviram um clique, Belle abriu a porta e lançou-se para dentro da delegacia. Começou a vasculhar vigorosamente os arquivos e demorou mais de três minutos para perceber que Will também estava ali.
– O que você quer? – perguntou franzindo o cenho.
– Te ajudar.
– Por quê?
– Porque adoro uma encrenca.
– Ótimo, então se faça útil: procure certidões de casamento.
Os dois fizeram o inferno na, até então organizada, delegacia. Reviraram papéis, arrancaram gavetas de arquivos, tiraram documentos da ordem alfabética na qual estavam arrumados... Cinco minutos de bagunça depois, Will gritou:
– Achei!
Belle jogou no chão a pasta que estava segurando e correu até ele. Não havia muitas certidões de casamento na gaveta, então ela logo achou a sua.
– Por favor, me diz que tem um isqueiro – suplicou ao se dar conta de que se esquecera do principal.
Por sorte, Will tinha um isqueiro no bolso. Não tardou a passá-lo para Belle, que logo ateou fogo ao papel e ficou observando enquanto sua certidão de casamento deixava de existir. Porém, seu sorriso de júbilo se apagou quando a porta da delegacia se abriu e David adentrou o local.
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